Little Flower
2 ✿ Capítulo 1 - Tuberosa
Notas iniciais
O dia vinte e sete de Abril teve em seu pequeno espaço do calendário de Allycia Dawson uma tentativa de fazer a flor Tuberosa, afinal, a dona do objeto poderia não ser uma boa desenhista, mas que sentia a necessidade de desenhar aquilo a fim de sempre recordar-se do prazer mais perigoso já encontrado em sua calma vida, isso é inegável.
Lembranças continuam frescas na memória da jovem, fazendo-a jamais esquecer que tudo começou como um dia qualquer. Acordou cedo, arrumou-se demoradamente por motivo do sono a deixar um pouco devagar, durante o processo ficou interessada em saber se ficaria atrasada para visitar sua tia hospitalizada caso ensaiasse aquela música composta na noite anterior, no entanto, logo esquecendo a ideia e partindo, com agasalhos sobre agasalhos para aquecer-se do frio de Oxford, até o hospital.
Com a visita já feita, a garota pôs-se a enfrentar novamente a brisa fria, tentando chegar à sua faculdade de música, também aproveitando o percurso como meio de poder divagar sobre como se sentia mais aliviada sabendo que a saúde de Jay, a qual sofreu impacto por uma úlcera péptica mal cuidada, melhorava gradativamente.
Um fato da rotina dela é que agradecerá, não importa quando ou quantas vezes, perante a construção de ter o privilégio de ser uma das pessoas que podem pisar no solo da Faculdade de Oxford e dizer estudar ali. Porém, não deixa de lado o passado ao fazer o agradecimento, incluindo nele um pedido cujo ressaltava a saudade e benção das pessoas deixadas para trás, em Miami, há dois anos, com seus meros dezenove anos.
Os segundos no lugar passavam rápido, pois, pela concepção da garota, é porque está estudando a primeira de suas paixões, ganhando das flores, tomando a segunda posição no pódio, coisa difícil de acontecer. Dessa forma, a única hora que ligou para o tempo, quando percebeu a existência de mais pessoas por todos os lados, foi na sua roda de conversa, com temas leves e, certas vezes, um nome saindo repetidamente pelas bocas ali presentes, talvez fosse Austin, contudo Ally não podia afirmar por permanecer extremamente concentrada em tentar deixar viva a imagem da planta que nascia no gramado, ao seu lado mesmo, sabendo que logo a podariam.
Após alguns momentos, o horário escolar acabou, sendo assim chegou o ponto de ir até o trabalho mais incrível do mundo, palavras da própria moça, ou seja, o turno na floricultura Fox’s.
A loja fica a um bom número quarteirões do prédio, tendo desse jeito mais uma boa caminhada a ser somada no cotidiano da menina dona de fios morenos e ondulados, justo quem anda uma quantidade duplicada do que ingere alimento, razão de ser tão magra, mas é uma característica proporcional ao corpo pequeno.
Óculos escuro redondo tampava sua visão dos mínimos raios solares enquanto o percurso era realizado lotado de observações sobre flores avistadas, suposições da vida dos indivíduos que cruzavam consigo e canções indie soando dos fones de ouvido. Ocasionalmente, Ally chegou ao local, inalando o cheiro doce tão adorado por si, deixando um sorriso satisfeito adornar a face. Foi até o fundo do estabelecimento, estudando a quietude do horário e o funcionário da manhã, o qual nunca conversava com ela, somente acenava logo indo embora.
Aproveitou os minutos que ainda tinha antes de iniciar o serviço pegando um sanduíche natural do frigobar da saleta dos empregados, lanchando num silêncio, nunca incomodada por ele existir, afinal, encontrava-se acostumada a viver quieta e na timidez.
Só deu por si quando o alarme do celular soou, tirando-a do universo imaginário, em seguida, indo vestir o avental rosa bebê com o escrito “I’m a Little Flower, can i help?”¹, não podendo evitar um risinho escapar dos lábios carnudos ao pensar o quão aquilo deixava-a mais delicada que o normal. Quando pousou os pés no piso feito de madeira, notou a presença de um já cliente e correu até o balcão, dando uma pausa apenas a fim de colocar a coroa de flores, feita de gerânios vermelhos no dia, sorrindo abertamente na direção do provável empresário a sua frente, pronta para mostrar um pouco da beleza das pétalas, juntamente a variedade.
Céu nublado ganhou tom mais escuro, e enquanto declarava o início da noite periodicamente, proclamava o fim do turno de Ally, que, mesmo amando cada partícula de sua vida, encontrava-se cansada de fazer tantos trabalhos passados por professores mais cedo na universidade nas brechas de solidão na floricultura, ter de adubar, borrifar água nas plantas, atender a clientela etc.
Estava para retirar o uniforme quando não deu nem tempo para o sino do lugar soar direito e um som forte da porta batendo tomar conta do silêncio do espaço. Curvou os lábios, não conseguindo abri-los amplamente num sorriso, respirou fundo, ajeitou o adorno na cabeça, virou-se e, simplesmente, inexplicavelmente, perdeu todo o fôlego, igualmente forças.
Tal causador da façanha era certo garoto um tanto quanto diferente. Em primeira chance, ela notou os coturnos pretos, seguindo até a calça preta colada e rasgada por todo o tecido, torso coberto por uma blusa branca estampada com riscos, círculos, que juntos não faziam sentido para a morena, sobre o pano havia uma jaqueta jeans desgastada, arregaçada até os cotovelos, dando oportunidade aos olhos de capturar diversas tatuagens espalhadas pela pele, enfim parando no rosto onde tinha lápis preto abaixo dos olhos castanhos, piercing no lábio inferior, como também na sobrancelha direita, local em que chamou atenção para os fios loiros, mechas roxas misturadas, bagunçados.
Allycia não aguentou, abaixando o olhar até si mesma, fitando a mistura hippie do seu estilo. No instante, as vestimentas tomaram caminhos confusos na mente da garota. Eles eram, de forma estranha, diferentes, mas tão iguais. Talvez fosse pelo motivo dos dois saírem dos padrões humanos.
Com toda a determinação que poderia juntar, caminhou até ele, o qual já perambulava sem hesitar por entre as prateleiras, passando a mão direita por cima dos produtos, apertando algumas vezes as pétalas entre os dedos, ato que fez a moça quase chorar de pena das pobres flores por sofrerem uma violência dessas.
“Olá, posso ajudar?” Instigou, timidamente, permitindo uma voz mediana sair de sua boca, não tão costumeira.
“O quê?!” Exclamou, virando-se rapidamente para a figura pequena atrás de si, soltando um suspiro por ser somente aquilo e não o esperado “Não, não, só estou vendo.”
Ambos permaneceram quietos, possuindo, entretanto, a diferença de um estar estudando o outro atentamente, perguntando-se qual flor poderia ser comparado ou o mero nome, já o mais alto da dupla olhava, dando ressalte aos olhos semicerrados, para fora do cômodo, buscando o motivo de ter entrado ali.
“Algo lhe preocupa?” Ally perguntou ao notar o incômodo alheio, rapidamente percebendo o quão intrometida foi “Oh, me desculpe a intromissão, de verdade, senhor...”
“Você não me conhece?” Dessa vez, após perceber que ela não continuaria a fala, o loiro sentiu-se verdadeiramente intrigado, afinal, quase todos de sua idade, ele chegou à conclusão de terem números parecidos, nem se preocupavam em saber como chamava, já o conhecendo.
“Não, não conheço” Murmurou, virando a cabeça a fim de conseguir uma melhor imagem e ligar a alguém, porém falhando “Sinto muito, mas eu deveria? Oh, meu Deus, sinto muito! Diga seu nome, aí eu te conhe...”
“Tá’ tudo bem, Little Flower” Sorriu atrevido ao pronunciar o nome, ligando-o ao avental diferente e estranho, a seu ver.
A garota instantaneamente sentiu o arder das bochechas seguir até o pescoço, mesclando-se ao vermelho de sua coroa de flores, sentindo-se um verdadeiro gerânio. Talvez o apelido até fizesse alguma coerência diante de seu estado, onde abraçava seu minúsculo corpo e rubra.
“Oh, ele vai passar aqui!” De repente, o rapaz gritou, assustando a outra “O canalha ainda fica aí usando minhas roupas.”
Praticamente se teletransportou até o outro lado da loja, próximo a porta, quase derrubando um vaso de tulipas no percurso, o que fez Allycia colocar a mão na boca e olhar aterrorizada a cena, com o coração batendo rapidamente por preocupação pela planta. Aquela pessoa estava lhe empurrando a sentir tantas emoções num período de tempo muito curto.
“Preciso ir, Little Flower. Até mais!” Avisou o loiro, colocando a mão na maçaneta, olhando fixamente para um indivíduo de cabelos ruivos, através da vitrine de vidro, passando em frente à cafeteria do outro lado e sorrindo torto “Ah, por acaso, meu nome é Austin Moon.”
Mal se apresentou já saiu, correndo apressado até a rua oposta, sem tomar cuidado ao atravessar, só seguindo. Sem medo, hesitações. De modo perigoso, todavia, aparentemente, prazeroso. Também deixou para trás um ser humano surpreso, rodeando o peito, mesmo que sem perceber, agarrando forte no escrito azul “Little Flower”.
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