Little Flower
4 ✿ Capítulo 3 - Íris
Notas iniciais
Existiam espaços vazios no início do mês de Maio, cada data sendo seguida com uma rotina de “Estudar – trabalhar — estudar”, não ganhando nenhuma tentativa feita por Allycia de desenhar, contudo o dia quatorze garantiu cores e rabiscos à página enfeitada por um café em aquarela através da Íris, pois, ali, começara uma amizade.
O sábado amanheceu com o típico clima preguiçoso de Oxford, temperatura amena e o Sol que dava a impressão de estar desanimado o suficiente para apenas iluminar parcamente o céu, deixando nuvens cobri-lo. Com isso, a garota preferiu enrolar-se no edredom, passar pelo quarto de Jay, a qual se recuperou da úlcera, beijou-a delicadamente na bochecha esquerda por razão de ser esta a estar exposta, enquanto a direita era escondida no travesseiro, descer a escada vaga e meio desnorteadamente ainda e jogou-se no sofá preto da sala.
A inércia a cobria, fazendo-a colocar culpa na combinação de sono, tempo nublado e frio. Justamente uma causa perfeita para ficar jogada num canto a dormir, mas, infelizmente, algo dentro de si não a permitia cair no mundo dos sonhos, talvez fosse o relógio em seu interior criado pela rotina, contudo mexer-se parecia algo muito distante. Suspirando, tirou um braço do abrigo quente e começou a se contorcer até conseguir pegar o celular na mesa de centro.
Mensagens dos pais e alguns poucos amigos apareciam na tela, notificações sobre uma rede social, Twitter, também. Nada disso teria respostas vindas dela. A hora era o que lhe importava ali. Oito e trinta da manhã. Como Ally queria conseguir apagar novamente.
Tentou, fechou os olhos, contou carneirinhos conforme a mãe Penny ensinara, porém o sono não a levou. Desistiu após ficar frustrada o suficiente, acabando a dar atenção ao seu estômago que, por meio do vazio sentido, percebeu clamar comida. Com a contagem até dez feita, a menina levantou-se e voltou até seu quarto, sabendo sobre a falta de alimento, o qual deveria ir comprar mais tarde na companhia da tia, e tendo noção de que irá ter de sair.
Tomou um banho rápido, afinal, sentia-se congelar dos fios morenos até as unhas do pé pintadas de branco. Escovou os dentes, organizou o cabelo espalhafatoso. Colocou camadas de roupas a fim de esquentar-se, uma bota cobria os pés, cachecol o pescoço. Dinheiro no bolso da calça. Celular em mão e a busca pelo seu inseparável fone de ouvido. Na procura chegou a até mesmo derrubar o porta-retrato onde o diploma de conclusão do colegial mostrava o nome completo em letras garrafais “Allycia Marie Dawson”. Achou-o no chão, embaixo da cama de solteiro.
Antes de ir para o restaurante que tinha em mente, deixou um bilhete destinado a Jay avisando sobre a ocasião caso ela acordasse. Já no percurso, tentava ignorar as rajadas frias batendo na face, preferindo prestar atenção na playlist do Coldplay soando no ouvido e em como certa criança corajosa saiu da residência, atravessou a rua correndo, parando em frente a um pequeno prédio, apertando a campainha de algum apartamento. Allycia gostou da ideia de ser um amigo. Nunca tivera uma amizade com vizinho.
Chegou ao seu destino, observando a construção azul com algumas colunas na fachada juntamente ao nome “The Grand Café”. Quando entrou, sentiu um ar quente lhe atingir, alegrando-a. Adentrou mais o estabelecimento, sorrindo abertamente ao ver margaridas em vasos espalhados pelo balcão lateral. Esse mero enfeite lhe deixava mais plena num lugar.
Sentou-se perto das flores, exatamente no banco colado ao móvel de granito marrom, cor predominante no restaurante, logo sendo atendida por um homem. Enquanto seu pedido não chegava, permaneceu observando as pétalas e, certas vezes, passando a mão por elas sorrateiramente. Sua distração era tamanha que não percebeu quando uma pessoa acomodou-se próxima a si.
“Um café gelado” As simples três palavras, contudo, chamaram-lhe a atenção. Conhecia aquela voz.
Virou o pescoço, dando de cara com o garoto alto e parcialmente loiro da floricultura, vestindo o clássico negro com adicional da jaqueta jeans desgastada. A garota tentou recordar como ele chamava, apertando seus olhos com força, até um nome surgir. Austin.
“O quê?” O rapaz virou para sua direção, então ela percebeu que deve ter o chamado inconscientemente “É você, Little Flower.”
“Oi” Sussurrou, desejando bater-se por ter dito em voz alta. Conseguia se colocar em situações constrangedoras sozinha.
“Terceira vez que a gente se vê em menos de um mês e eu ainda não sei seu nome. Poderia resolver isso pra mim?”
“Allycia ou Ally, como proferir” Desviou do contato visual, passando a encarar seus dedos entrelaçados sobre o balcão, e deu de ombros.
“Agora eu sei como chama, mas, olha, não prometo nada parar com Little Flower. Seu avental implora pra te chamar assim!” Apontou acusadoramente, como se a culpa do apelido não ser nem um por cento sua.
“Não sei, nunca tinha parado para pensar...” Voltou a encarar os orbes amendoados, logo sentindo a força de trocar olhares atingir sua timidez e voltando-o para baixo “Assim.”
“Então tá’” Passou o dedo na linha abaixo dos olhos, sentindo o incômodo de algum cisco, porém logo se arrependeu quando viu manchas pretas no dígito em seguida “Little Flower, tá’ muito preto aqui embaixo?”
Allycia respirou fundo, internamente apenas almejando voltar a admirar as margaridas, mesmo que aquele garoto lhe fosse uma incógnita e atiçasse sua curiosidade. Não era fácil manter uma conversa sem corar ou sentir uma vontade absurda de correr.
“Onde?” Questionou, somente após virando de novo e vendo pequenas manchas pretas abaixo dos olhos de Austin “Tem algumas sombras pequenas. O que são?”
“Aquele lápis ruim do Dez que borra só por passar o dedo. Falar pra’ ele jogar a coisa fora depois. Não vai durar nem pra’ ir à festa perto daqui” Resmungou, esfregando próximo ao globo ocular.
A garota não conseguiu evitar uma risadinha, pois não esperara por uma cena dessas. O menino incógnito irritado por uma maquiagem que borrou. Apesar de ter parado de rir, um sorriso leve pairava nos lábios.
“Rindo do quê?” Interrogou, irritado por ela estar rindo da situação.
“Nada, me desculpe” Pediu, com as bochechas rubras, talvez por causa do riso ou por ter sido repreendida, logo percebendo um prato sendo posto em sua frente.
Seu pedido fora um mingau com morangos e mel. A refeição esteve presente em boa parte dos anos desde que se mudou para Oxford, pelo menos, a partir do momento que conheceu o restaurante. Também lhe trazia lembranças de sua casa em Miami, afinal, a única coisa que o pai Lester fazia bem era essa comida.
Com o sorriso permanente no rosto, pegou a colher e levou até a boca. O estômago continuara a sentir-se vazio assim que o percebera, mas agora dentro de si não existia mais tanta fome.
“Sério que você come isso?” Perguntou o loiro, encarando indignado o conteúdo do recipiente “Parece vômito.”
“É gostoso, Austin” Rebateu não se sentindo ofendida com o comentário. A aparência realmente não podia ser julgada como linda “Também, talvez seja porque estou acostumada. Dois anos comendo quase todo dia antes da faculdade dá nisso.”
“Faculdade? Jurava que você era uma colegial!” Exclamou totalmente surpreso. Allycia olhou-o tentando entender a razão de tal ideia “Você é pequena, sabe?”
“Oh, certo” Murmurou, voltando a comer a fim de esconder o rosto e a vermelhidão que o atingiu. Conversar sobre sua altura não era algo prazeroso para ela. Sabia da estatura baixa, não precisava comentar.
“Mas, enfim, cursa o quê?” Trocou de assuntou e deu um aceno ao atendente que lhe entregou o café.
“Música em Oxford” Contou com orgulho do lugar e de si “Você? Estuda alguma coisa?”
“Também em Oxford, só que História” Ally rapidamente fitou-o, surpresa pela revelação. O rapaz tomou um gole da bebida, sorrindo satisfeito com a reação “Eu sei. Não aparento nem fazer o curso, muito menos estudar nessa faculdade.”
“Não é bem assim” A morena transparecia vergonha. Havia superestimado Austin, julgando-o apenas pela aparência desleixada e mais pesada.
“Tá tudo bem. Todo mundo fica assim” Desdenhou, pouco se importando com o que achavam ou não “Esquece isso. Me conta mais de você.”
“Não sei bem o que dizer. Outra, não se tem muito do que falar.”
“Qualquer coisa serve” Tomou grandes goles do líquido gelado, sempre voltado para Ally, fitando-a “É daqui mesmo?”
“Não, Miami.” Informou, mexendo com a colher o alimento “Você é daqui?”
“Não, sou de – Que merda!” Grunhiu, levantando do banco e vendo uma mancha de café na calça preta colada advinda da bebida que caiu “Vou ter de ir ao banheiro limpar isso e ir logo pra’ aquela porcaria de festa, se não, nem inteiro chego lá.”
“Ok. Pode ir, se for melhor.”
“Vou ter de ir mesmo. Quem sabe, algum dia desses não passe na floricultura e a gente converse mais?” Comentou enquanto pegava dinheiro a fim de pagar o pedido, colocando-o no balcão.
“Yeah, quem sabe” Sorriu e acenou uma despedida, vendo o garoto loiro sair correndo até o banheiro.
Allycia voltou atenção a sua refeição e voltou a comê-la. Fez uma careta ao perceber que esfriara.
Agora, ela tinha um mingau gelado, porém um possível novo amigo.
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