Literária mente
1 Onde vive o extraordinário
Notas iniciais
Observando o reflexo no espelho do elevador, Amora arrumou a maria-chiquinha cacheada e deu um sorriso genuíno que, combinados com sua pele marrom macia e linda, tornavam-na possivelmente um dos seres mais adoráveis do mundo junto aos esquilos, pandas e filhotinhos de cachorros, gatos e… Bom, todo filhote fofo. No seu caso, atributos bem polidos e cultivados ao longo de seus onze anos.
Ao seu lado, estava Noturno, um gatinho preto pestinha, e Nilo, seu melhor amigo que conheceu justamente quando embarcou numa aventura à procura do felino. Sua pele pálida e cabelos cacheados bastante loiros vinham de seu albinismo e contrastavam com os de Amora, mas de uma forma única que amavam.
Contudo, naquele instante, os dedos de Nilo pareciam travar uma batalha de polegares e denunciavam sua ansiedade.
— Fique calmo! Vai dar tudo certo. — tentou tranquilizá—lo.
— Para onde estamos indo? — ele perguntou. — Será que fizemos alguma coisa errada?
Amora segurou sua mão e deu um sorriso, tentando passar confiança. Mesmo que não admitisse, sentia um frio na barriga. Não sabia o motivo pelo qual os três precisaram deixar seu apartamento, passar por um portal mágico suspeito e ir até aquele lugar tão diferente, muito menos porque sua mãe não pôde acompanhá-los.
No entanto, ainda que sua mente estivesse dominada por dúvidas, Amora precisava se manter firme pelos dois. Afinal, ela era a mais velha. Nilo tinha apenas nove anos.
— Não fizemos nada errado. — garantiu. — Talvez seja só uma prova surpresa da Academia ou algo assim.
Desde que seus poderes de bruxa se manifestaram, Amora passou a ter uma jornada diferente de estudo, equilibrando a escola humana e os estudos mágicos ministrados pela mãe. Flora era uma mulher muito sábia, porém ter ciência sobre existir a Academia Eclipse Solar mudou as perspectivas da garota. Mesmo a mãe dizendo que ainda precisava ter maior controle sobre os poderes antes de entrar, ela arriscou e se inscreveu escondida. Se essa fosse uma prova de admissão, precisava dar o seu melhor.
— Se for, o que a gente vai fazer? — Nilo a encarou, preocupado.
Aquele sonho não solo, mas sim compartilhado. Os dois estavam juntos nessa jornada, graças ao chidori que os uniria “ao infinito e além”.
Noturno miou como um aviso.
As portas do elevador abriram e revelaram um cenário que sequer imaginariam.
Estavam diante de uma enorme campina repleta de flores coloridas que se estendiam até onde a visão alcançava. O céu estava claro, ainda que não pudesse ver o sol. Uma brisa os envolveu como se estivessem no paraíso.
— Estamos no lugar certo? — Nilo perguntou, sendo o primeiro a colocar o pé para fora do elevador.
Tão logo saíram, a caixa metálica que os levou ali simplesmente desapareceu.
— Como se fosse mágica. — Amora sorriu.
Pouco mais à frente, do outro lado de um pequeno riacho, uma nova porta surgiu.
Apesar de quererem brincar na água, com terra, correr e explorar todas as diferentes flores que existiam ali, seguiram até o que parecia ser seu destino.
Antes que batessem na porta, alguém a abriu.
— Finalmente chegaram. — disse uma voz feminina. — Sejam bem-vindos!
Deu espaço para que o trio adentrasse o local.
A mudança brusca de ambiente lhe rendeu alguns segundos para que a visão se acostumasse, porém não foi menos impressionante que a anterior. Nem mais. Arriscaria dizer que igualmente surpreendente.
Estavam num grande salão que parecia fazer parte de um castelo. Paredes bege altas e cheias de arabescos dourados que se estendiam até um teto com lustres grandes. Nos mezaninos que corriam pelas duas laterais, havia inúmeros jarros de plantas que compunham um jardim suspenso que trazia vitalidade com a mistura do verde e tons e aromas florais.
— Uau! — Nilo exclamou, surpreso.
— Incrível, não é?! — uma moça se materializou diante deles.
Ela era alta e jovem. Apresentava olhos castanho-escuros brilhantes, cabelos cacheados volumosos da mesma cor e uma pele marrom como a de Amora, que não deixou de pensar que talvez fosse uma das moças mais bonitas que viu na vida, junto a sua mãe, claro. Trajava um vestido que combinava muito bem consigo, com decote comportado, que se estendia até pouco abaixo do joelho, em cor amarela, a não ser pela fita de cetim azul que contornava sua cintura. Parecia ter saído de um clássico dos anos de 1960, ainda que o modelo fosse mais sóbrio.
— Eu sempre me impressiono com esse lugar. — ela falou. — Às vezes acontecem algumas “reformas” por aqui e sempre consigo me surpreender.
— Deve ser mesmo incrível, ainda mais com um jardim lindo como aquele bem atrás da porta. — Amora disse. — Onde estamos?
Isso pareceu lembrar a moça sobre seu propósito ali. Como um tilt, ela desapareceu do seu lado e surgiu há dois passos mais à frente.
— Sejam muito bem-vindos! Sou Faísca e os guiarei nesse tour de aprendizado por esse lugar incrível.
— Faísca? — as crianças se encararam com um sorriso cúmplice.
— Eu sei bem o que estão pensando. — a moça apareceu atrás deles no segundo seguinte, assustando-os. — Na verdade, sei de tudo que aconteceu com vocês. Por isso estão aqui.
— Essa é a Academia Eclipse Solar? — Amora se empolgou.
— Eu diria que é muito mais impressionante.
A moça fez uma breve pausa. Um sinal para a chuva de confetes que estourou acima deles e o som de flauta dominou todo ambiente ao tocar uma canção tão familiar e reconfortante, perfeita para a ocasião.
— Amora e Nilo — um miado de protesto a fez rir. — E Noturno. Sejam bem-vindos à Ilha da Criatividade.
Assobios e palmas ecoaram. Só então puderam se dar conta da quantidade de pessoas que estavam ali, como se todos tivessem preparado uma grande festa surpresa para eles.
— Nossa! — Nilo sorriu, animado. Toda ansiedade de outrora tinha desaparecido.
— Essa é a primeira visita de vocês à ilha e estamos mesmo muito honrados de conhecê-los pessoalmente. — Faísca continuou.
— O que é Ilha da Criatividade? Por que nos trouxeram aqui? — Amora questionou.
Novamente, como um tilt, Faísca apareceu atrás deles, colocando as mãos em seus ombros e dando um toque para que a acompanhassem no tour.
— Pelo que sei, Amora, você é uma garota muito estudiosa, não é? Então sabe que o cérebro humano é dominado por milhões de neurônios que se comunicam pelas sinapses nervosas, certo?!
A menina assentiu.
— No entanto, há muito mais que aquilo que a ciência conhece ou pode provar. A mente humana é uma verdadeira caixinha de surpresas. Há um espaço lúdico onde as coisas se desenvolvem de maneira um pouquinho diferente e muito mais divertida. — Faísca sorriu.
Conforme o tour se iniciou, os demais presentes retornaram para seus afazeres. Ainda era possível ver alguns andando aqui e ali, todavia o ambiente ficou relativamente mais calmo. No entanto, sempre que os olhares deles se cruzavam com os de Nilo e Amora, acenavam com um grande sorriso.
— A Ilha da Criatividade é um desses espaços lúdicos. Aqui todos somos, de alguma forma, criação de algo maior.
— Filhos de Deus? — Nilo perguntou. — Mamãe sempre dizia isso.
Faísca sorriu, afagando seus cachinhos loiros.
— Você está certo, mas, nesse caso, estamos mais para netos. — deu uma piscadinha.
Atravessaram uma porta e sentiram afundar.
Diante deles, os cachos de Faísca voavam conforme pulava e aparecia e desaparecia em vários cantos da ala.
— O chão é de pula pula. — Nilo riu e começou a brincar sem cerimônias.
Ainda que tivesse inúmeras perguntas, Amora guardou-as no bolso. Tinha que admitir, aquele era basicamente o sonho de qualquer criança.
— Aqui podemos fazer praticamente qualquer coisa, ir até onde a mente é capaz de conceber.
— Estamos numa espécie de mundo paralelo? — Amora perguntou em meio a risos.
— Sim e não.
Num estalar de dedos, estavam de volta no corredor. O contato de novo com o chão firme fez as crianças soltarem um suspiro desapontado.
— Voltaremos mais tarde para continuar brincando, ok?!
Faísca estalou novamente os dedos. Dessa vez, um rapaz bem parecido com ela, cabelos cacheados, porém pele um pouco mais clara e altura um tanto menor, surgiu com dois sorvetes de casquinha.
— Sorvete de napolitano. — ele sorriu, entregando-lhes. — Não dá para errar.
— Obrigado! — as crianças responderam.
— Mandou bem na escolha, Lampejo. — Faísca fez um sinal de positivo com o polegar antes que o rapaz desse um tilt e desaparecesse.
Antes que a moça retomasse a palavra, as crianças correram em disparada ao grupo que acabara de entrar no corredor. Amora olhava admirada e abraçava forte a donzela de longo vestido azul, enquanto Nilo brincava e dançava junto a um boneco de neve falante. Um príncipe e um jacaré começaram a tocar jazz.
— É a Tiana! — Amora gritou, exaltada. — E o príncipe Naveen. Louis, Olaf, Anna, Kristoff, Flynn e.. — correu em direção à loira de cabelos longos. — Rapunzel.
Faísca se aproximou da festa.
— Vejo que conhece todos muito bem. Isso é ótimo. Parabéns!
— Como que a gente não ia conhecer? — Nilo perguntou, de mãos dadas com Olaf. — Eles são muito legais.
— Como é possível? — a garota questionou. — Eles são reais?
— Claro que são. — Faísca falou. — Bom, aqui todos nós somos reais.
— Mas eu achei que fosse só desenho. — a menina falou. — Eu vi vocês várias vezes na televisão.
Aquele foi o sinal para que o grupo se despedisse. Faísca ainda tinha bastante coisa para contar a eles.
— Todos esses personagens são frutos da criação de alguém, assim como todos aqui. Algumas pessoas conseguem captar a essência deles e criar histórias, expandir o universo original ou até migrar para outros.
— Como nas fanfics. — Amora falou.
— Isso mesmo. — Faísca continuou. — A Ilha da Criatividade é um cantinho particular na mente de uma garota muito especial e cheia de ideias. Todos aqui foram criados ou adaptados de alguma forma por sua cabecinha, seja intencionalmente ou não.
Noturno miou, pulando no colo de Nilo, que o acariciou.
Demorou alguns segundos para que as peças começassem a se encaixar na mente de Amora.
— Então nós também somos personagens de desenho?
— Que nem o Homem de Ferro? — o garoto completou.
— Não exatamente. — Faísca explicou. — Vocês são sim personagens, mas não quaisquer. Nilo, Amora e Noturno. A aventura que viveram não aconteceu por acaso. Foi tudo pensado, sentido e escrito pela dona dessa mente. Posso dizer, foi muito emocionante acompanhar todo o processo. Eu estava na primeira fila e vi tudo acontecer. Foi mesmo incrível. Os nossos recém-chegados, os primeiros personagens originais que a Duda criou depois de muito tempo.
Faísca andou mais alguns passos antes de abrir uma porta. A sala estava escura e havia algumas cadeiras enfileiradas. Mais à frente, uma tela grande que reproduzia uma história que Amora e Nilo sabiam muito bem, afinal eles eram os protagonistas.
— Sua criação foi anunciada aos quatro ventos e todos ansiavam por sua chegada.
— Mas como…? — Amora balbuciou, incrédula.
A moça fez um sinal e fechou a porta novamente.
— Não queremos atrapalhar a sessão dos amiguinhos, não é?! — deu uma piscadela para Nilo, que sorriu.
Estava visivelmente fascinado com as descobertas.
— Se fomos criados por ela, como não sabíamos disso? — Amora indagou.
— Vocês são criações recentes. Sua história teve um início e final redondinho. Não tinha necessidade de apresentar tudo isso, então apenas mantivemos vocês em sua narrativa. Entretanto, hoje é um dia especial e achei que seria legal te apresentar esse novo mundinho.
— Então vamos conhecer o Dudaverso? — Nilo perguntou.
Seus olhos brilhavam, ansioso. Parecia estar disposto a ouvir e ver tudo que o tour prometia, deixando de lado qualquer questionamento. Aquilo era 100% ele. Deixar-se levar pela euforia e viver uma nova aventura.
— Com certeza. — Faísca sorriu, estendendo as mãos para ambos. — Claro, se vocês quiserem.
Nilo segurou a mão de Amora e a encarou. Deixava bem claro a sua vontade de continuar o passeio, contudo também deixava explícito que não o faria se não fossem juntos.
— Tá bom. — a menina deu-se por vencida.
Amora pegou a mão de Faísca e Nilo fez o mesmo. Ela retrucou com um sorriso e seguiram em direção a um grande espelho que estava no fim no corredor, ultrapassando-o.
O cenário novamente se transformou, dessa vez para uma mistura do conhecido com o novo. Encontravam-se num salão amplo, que lembrava bastante àquele de quando chegaram ali, todavia muito mais moderno. As paredes eram brancas. Os lustres eram mais simples e serviam mais como adorno. Havia luzes LED espalhadas para uma iluminação muito mais efetiva.
Os mezaninos ainda contavam com sua cota verde, trepadeiras muito bem desenhadas e floridas que se enrolavam pelas grades. Mais à frente, era possível visualizar duas grandes colunas envolvidas por ramos de flores rosadas que se entrelaçavam até o teto. Uma dose de natureza num ambiente com ar tão tecnológico.
— Ainda estamos no mesmo lugar? — Nilo perguntou.
Faísca assentiu, soltando as mãos das crianças para que pudessem explorar o local com os olhos e satisfazer um pouco da curiosidade.
— O salão principal por onde entraram é o castelo secular. Onde tudo começou. Uma verdadeira obra de arte, clássico sonho de menina. No entanto, conforme nossa autora crescia, foram criados novos departamentos para conseguirmos manter a ordem e, por isso, criou-se essa parte nova.
— Isso explica porque as princesas estavam lá. — Amora constatou, sentindo Faísca afagar seus cabelos, orgulhosa.
Nas laterais, onde no salão anterior se encontravam janelas enormes que davam vista para o lindíssimo jardim, agora haviam mais portas, o que parecia tornar o salão um corredor pouco mais estreito.
— O corredor pelo qual passamos é de transição, uma conexão de formação. Nada se perde, apenas se transforma e cresce. Gostamos muito e tentamos ao máximo manter a essência da nossa autora. Conforme crescem e adquirem novas responsabilidades, as pessoas tendem a esquecer certas coisas, abrir mão de certos gostos. Alguns são fundamentais para sua existência, é esses que priorizamos e protegemos. — Faísca começou a andar e fez sinal para que a acompanhassem. — Aqui é onde os trabalhos acontecem de fato.
Havia bem mais transeuntes no castelo novo, mas não ao ponto de se tornar caótico. Parecia mais um grande escritório. Alguns usavam crachás e levavam pastas ou papeis, sozinhos ou acompanhados. Vestiam roupas semelhantes à de Lampejo, o rapaz do sorvete, e da própria Faísca, peças que combinavam as cores azul e amarelo.
— O processo de criação de histórias começaram nas brincadeiras de infância, bem pequena e quase todas envolviam a participação da irmã mais nova da autora. A maioria das vezes, elas assumiam os papeis de personagens, junto a suas bonecas. — Faísca apontou para a primeira porta a esquerda. — O registro das brincadeiras mais importantes se encontram nos nossos Arquivos Afetivos.
— Então quer dizer que quando a gente brinca viramos contadores de histórias também? — Nilo perguntou.
— Com certeza. São os primeiros sinais de criatividade e a mente infantil costuma ser rica disso. Qualquer coisa pode virar brinquedo, qualquer canto vira cenário. Bastam alguns minutos para que um enredo ganhe forma. São os reis e rainhas do improviso.
— Lembra quando a gente brincou de pirata? — o garoto sorriu para Amora, animado.
— Que você roubou minha coroa e batalhamos na prancha sobre vários tubarões famintos?! — ela fingiu sacar a espada, enquanto seu rival assumia a posição de defesa.
— Saudades dessa época. Melhor fase, com certeza.
Os dois continuaram brincando, quando um miado de Noturno os lembrou que o tour seguia e correram para alcançar sua guia.
— Conhecendo vocês, acho que vão amar a próxima sala. — Faísca fez um breve suspense. — A Sala da Fanfics.
A porta foi aberta.
Como era de se esperar, não se tratava de uma sala normal. Nada disso. O castelo novo também contava com suas surpresas.
Era como se houvesse uma clareira, com cabanas formando uma espécie de círculo. O céu trazia cores em degradê, anunciando que o sol estava se pondo, enquanto estrelas começavam a ganhar espaço.
Um grupo de terno e gravata passou. Dois homens e uma mulher discutindo entre si enquanto seguiam um homem mais velho com cara de chefe.
— Equipe do NCIS. Foi a inspiração para a primeira fanfic que a autora postou no Nyah! — Faísca explicou, entrando com eles nesse novo ambiente. — A ideia era legal, mas criar casos pode ser complicado. Foram três ou quatro antes de ser deletada. Ela quis se testar por outras obras.
Mais para o meio da clareira, havia cadeiras posicionadas de forma semicircular em torno de pedaços de madeira sendo empilhados para uma fogueira. Alguém tocava violão, enquanto vozes familiares ecoavam a melodia e tornavam aquela experiência ainda mais memorável.
Amora reconheceu imediatamente as sete silhuetas, mas foi Nilo quem se manifestou primeiro:
— É o BTS! — o garoto pulou nas costas de um dos rapazes.
— Fala, garotinho. — Suga deixou o violão de lado, bagunçando os cachinhos platinados.
— Você é muito legal. Eu gosto muito de quando você faz rap assim. — Nilo tenta cantar, o que arranca uma risada do rapaz.
Taehyung e Jimin acenam para Amora, que se aproxima, mas demora a dizer algo. Seus olhos praticamente brilham enquanto olha de um para o outro.
— Vmin. — ela correu, abraçando os dois da melhor forma que seus bracinhos permitiram. — Parece que estou sonhando.
— Pelo visto, temos mais armys (fãs do BTS) aqui. — Hoseok acenou, abraçando as duas crianças assim que foram até ele.
— Você tem o sorriso mais lindo. — Amora suspirou, encantada.
— Oi, Faísca! — Jungkook e Namjoon falam em coro, seguidos dos demais membros.
— Esses são os recém-chegados?! — Jin perguntou. — Querem um sanduíche? Acabei de fazer.
O rapaz entregou aos dois.
Faísca esperou até que finalizassem Life goes on para que continuassem o caminho.
— Nem acredito que a gente conheceu o BTS. — Nilo falou de boca cheia, recebendo um breve olhar de repreensão de Amora pela falta de modos.
— Eles falaram e até abraçaram a gente. Foi mágico. — ela suspirou, feliz. — Mas como conseguimos entender? É que eles são coreanos né?
— Amora, aqui é tipo faz de conta. A gente passou por um espelho. Lembra? Precisa acreditar mais em magia.
A garota revirou os olhos. Tinha ouvido ele falar aquilo mais vezes que gostaria. Ela era uma bruxa. Sabia muito bem que magia existia e acreditava nisso. Só que aquilo tudo era muito diferente dos feitiços que costumam estudar. Para Nilo, parecia muito simples aceitar a existência daquilo tudo sem questionar. Amora, por outro lado, era cheia de perguntas e ansiava por respostas.
— Isso quer dizer que a autora chegou a fazer histórias deles também? — a menina indagou. — Sobre o que falava? Era de shipp? Não me fala que ela é fã de JiKook?!
Faísca riu.
— Sim, ela chegou a fazer alguns rascunhos e até começou a escrever uma história do BTS, mas não publicou. Ficou sem tempo e acabaram na gaveta. — viu Amora murchar com a resposta. — Fique calma. Acho bem possível que ela retome o projeto mais à frente. Particularmente, achei um enredo bastante promissor.
Uma flecha cortou o ar há alguns centímetros apenas de distância de Faísca. Como se incorporasse a referência do próprio nome, os cabelos cacheados assumiram um tom avermelhado e se ergueram como labaredas, enquanto deslizou o olhar até encontrar uma jovem com arco.
— Já falei para tomar cuidado com isso. — Faísca gritou, fazendo a outra revirar os olhos.
— Não exagere. Não é como se fôssemos morrer de verdade.
A jovem passou direto por ela, seguindo em direção ao alvo que estava há alguns metros de distância. Um rapaz loiro a seguia e pediu desculpas quando passou por eles.
Faísca respirou fundo antes de retornar a imagem normal, dando de cara com os olhos arregalados de Amora e Nilo. Até mesmo os pelos negros de Noturno estavam arrepiados depois do que tinha acabado de presenciar.
— Katniss e Peeta. — bufou, balançando a cabeça. — Apareceram esse ano aqui na ilha, quando a autora assistiu de novo aos filmes da série e ficou com vontade de escrever uma fanfic no estilo dos Jogos Vorazes. Interativa ainda por cima.
— Mas esse filme não é de terror? — Nilo perguntou.
— A mamãe nunca deixou a gente assistir. — Amora esclareceu. — Disse que ainda não temos idade.
— E ela está certa. — Faísca concordou. — É um filme violento e cheio de críticas. Não acho que entenderiam a mensagem da história ainda e… Katniss tem uma personalidade bem difícil.
Mais ao longe, um grupo de pessoas vestidas de preto escalavam árvores.
— Eles estão treinando para serem ninjas? — Nilo indagou.
A leveza em sua voz pareceu trazer ânimo de novo a Faísca.
— É o pessoal de Divergente. Os originais da obra são contados nos dedos. A maioria ali são personagens criados por leitores já que a história era interativa. Fazem parte da maior fanfic da autora no Nyah. Mais de cinquenta capítulos e teve até segunda temporada, com pouco mais de dez.
— Se ela ia fazer só isso, por que não deixou tudo junto? — Amora se pronunciou.
— Era para ter mais capítulos, mas a história acabou entrando em hiatus quando a autora ficou sem computador. Para completar, ainda tinha os estudos. — Faísca suspirou. — Acabou ficando para depois… E depois… Enfim né.
— Acha que ela vai voltar a escrever um dia? — Nilo perguntou. — Porque eles parecem o Homem-Aranha e isso é muito legal.
Dois integrantes pareciam ter deixado o grupo, visivelmente suados e cansados, indo em direção à fogueira, que já tinha sido acesa àquela altura. As mãos dadas e a troca de olhares bobos e risinhos denunciavam o nível de intimidade.
— Oi, Faísca! — a garota de cabelo azul acenou e o rapaz loiro que estava com ela fez o mesmo.
— São os recém-chegados? — ele sorriu. — Eu sou o Luke e essa é a Mia. É muito bom ver gente nova por aqui.
— Essas são as criancinhas que vão dominar o mundo? — a jovem sorriu, apertando docemente as chiquinhas de Amora, depois acariciando de leve a bochecha de Nilo. — Vocês são umas gracinhas.
O ato foi o suficiente para que o rosto do garoto ruborizasse.
Um chamado de Jungkook foi a deixa para que o casal se despedisse.
— Eles são amigos do BTS? — Amora perguntou. — Isso é tão…
— Legal, né?! — Faísca completou. — Eles estão aqui há bastante tempo. É bem normal que interajam entre si, ainda que tudo isso seja apenas fruto da imaginação da autora.
— Ela parece ser mesmo uma pessoa cheia de ideias. — Nilo comentou, ainda observando a moça de cabelo azul de longe.
— Você conhece todos os personagens? — Amora inquiriu. — Tipo, todos mesmo?!
— É o meu trabalho. — Faísca inflou, orgulhosa. — E faço muito bem, por sinal. Sem contar que alguns são mesmo memoráveis, como esses dois. Mia e Luke foi um casal que conquistou bastante os leitores. Outro que gosto muito é Lucy e Gabriel. Sou encantada num friends to love, devo admitir. Olha eles ali!
Faísca apontou e puderam ver outro casal se unindo à fogueira. Enquanto Mia e Luke pareciam bem à vontade, como num relacionamento longo, Lucy e Gabriel ainda davam sinais de que os sentimentos não tinham sido completamente expostos, mas sem dúvidas gostavam um do outro.
— Torço para que a autora algum dia retorne nem que para uma oneshot deles. Lucy e Gabriel estavam em pleno desenvolvimento. Prometiam muito e acabaram nesse “quase”. — Faísca suspirou. — Querem saber uma curiosidade?
Nilo e Amora assentiram imediatamente.
— A autora ainda mantém contato com os leitores que criaram Lucy e Luke. A criadora da Lucy é uma amiga de anos. Conversam sobre tudo, se apoiam, muito próximas mesmo sem terem tido ainda a oportunidade de se conhecerem pessoalmente. Quanto ao criador de Luke, ficaram anos sem se falar, até que a autora recebeu um e-mail do site falando que ele postou uma história nova e retomaram contato. Aliás, ele também participou com um conto na antologia em que o de vocês foi publicado, sabiam?!
Aquelas informações eram realmente novas. Na verdade, tudo aquilo era inesperado, cheio de surpresas.
— O Dudaverso é mesmo muito grande. — Nilo afirmou, fascinado.
— É sim. E cresce cada vez mais. — Faísca prosseguiu. — O legal de tudo é que, mesmo com seus compromissos diários e a vida fora do site, eles ainda mantém contato. Isso contribui para o crescimento do Dudaverso.
Como o espaço era grande e havia diversos personagens por todos os lados, além de terem ainda muito para mostrar a eles, Faísca optou por darem a meia volta.
Estavam quase próximos à porta quando três shurikens cravaram na madeira.
— Opa! Parece que teremos mais um espetáculo. — Faísca puxou Nilo e Amora mais para perto a fim de protegê-los. Noturno pulou no colo da garota também, por precaução.
Um jato de fogo foi disparado a alguns metros à frente.
Clones surgiram dentre as chamas, tentando atingir o adversário diretamente.
— Naruto! Sasuke! — os dois falaram em coro.
Faísca segurou-os pelas golas de suas camisas para evitar que entrassem em meio ao fogo cruzado.
— Queridinhos, sei que gostam muito do anime, mas cuidado. Mesmo isso sendo parte da imaginação, podem acabar se machucando e vai doer bastante.
— Qualquer coisa, a Sakura cura a gente. — Nilo falou, saltitando, doido para ir até seus ídolos.
Foi o sinal para que Faísca os retirasse da sala, ainda que a contragosto.
— Poxa! — o garoto resmungou. — Estava tão legal.
— Eu sei, mas temos compromissos e não quero ninguém ferido no evento de hoje.
— Mas a Sakura estava lá também, não é?! — Amora protestou. — Se isso aqui é a imaginação, ela poderia nos curar.
— Ou a Tsunade-sama. — Nilo falou, claramente envolvido com a situação.
— Sei que a adrenalina está alta, mas até mesmo na imaginação há alguns perigos. Demoraria para vocês ficarem 100%, sem contar que ferimentos acabam causando muitas papeladas. Pode render até ideias ruins para a autora. Querem uma continuação da sua história virando churrasquinho, hein?!
Nilo baixou a cabeça, negando.
Amora, por outro lado, persistiu:
— Eu sou uma bruxa em treinamento. — a garota inflou sobre suas qualidades. — Minha mãe está me ensinando justamente sobre isso. Aprendi um feitiço ótimo de regeneração. Sem contar que não é como se pudéssemos morrer, não é?!
— Na verdade, podem morrer sim. — Faísca retrucou. — Temos até um cemitério aqui.
— Como assim? — os olhos das duas crianças se arregalaram com a revelação.
Faísca aproveitou o susto e avançou pelo corredor, levando-os até uma porta mais escondida que possuía, inclusive, uma caveirinha pendurada como decoração.
— A autora parecia tão legal. — Nilo falou, cabisbaixo.
— E ela é. — a moça disse, afagando seu cabelo. — É só que… Às vezes, essas coisas acontecem.
— Mas, se ela é autora, pode evitar isso. — Amora replicou, irritada.
Como assim personagens morriam? Nos livros e filmes até podia acontecer, mas ali? Isso significava que ela, Nilo e Noturno também corriam risco? Estavam sujeitos aos caprichos de uma autora sem rosto?
— Nem sempre. Sabe, algumas vezes, a morte é necessária para o andamento da história. — Faísca explicou. — Hoje em dia, mais crescida, a autora está bem mais consciente quanto a isso. Tinha que ver antigamente.
Ela riu.
— As primeiras fics que o digam. Sabe aquele pessoal que vimos da história de Divergente? São os que restaram e possivelmente teríamos mais baixas se ela continuasse a escrever. O ceifador vivia passando a foice por lá.
— Isso é bem malvado. — Amora protestou.
— Por isso temos o Cemitério. Da mesma forma que personagens morrem, eles podem voltar. Sabe como é, liberdade artística. — a guia explicou, dando de ombros. — Pensa bem: sempre que alguém começar a ler a história, o personagem viverá novamente. Não é uma morte definitiva, apenas relativa.
Ok! Tinha certo sentido aquilo, porém ainda não aliviava a mente de Amora. Como poderia confiar numa autora que podia matar seus personagens?
— Isso quer dizer que até os personagens que morreram em Naruto a autora pode trazer de volta? — foi a vez de Nilo se manifestar, trazendo uma perspectiva diferente.
Faísca assentiu.
— Que legal! Então quer dizer que o Itachi está vivo? Ele e o Sasuke podem voltar a ser uma família, então? Achei muito triste como as coisas terminaram no anime.
— Essa é a magia das fanfics, meu anjo. — a moça deu-lhe um beijo na testa alva. — Sabia que Naruto foi muito importante para a escrita da autora?
Aquela fala recuperou a atenção de Amora.
— Por causa dos estudos, falta de tempo e de instrumento, a autora acabou se afastando do Nyah e eventualmente parou de escrever. Quando teve uma pandemia longa e difícil, tudo no mundo real mudou. Tiveram que ficar em isolamento.
O que Faísca dizia fugia do que eles sabiam. Nenhum deles fazia ideia do que acontecia no mundo real. Até pouco tempo, seu apartamento e bairro eram o que tinham conhecimento de realidade. No entanto, havia algo de intrigante em escutar sobre esse mundo, especialmente porque envolvia Naruto, algo que os dois gostavam muito.
— Como falei, a autora tem uma irmã e um irmão mais novo. Durante essa pandemia, ficaram muito tempo em casa. Foi quando começaram a assistir Naruto desde o começo. A autora até tinha visto parte do desenho quando passava na TV, ainda pequena, porém só nesse período que conseguiu ver tudo em ordem e entender de verdade a história. Foi questão de tempo para retornar às fanfics, procurando histórias sobre eles, e mais um pouco para que começasse a escrever de novo.
— Então Naruto também ajudou ela? — Nilo indagou.
— Sim. Foi graças às ideias que começaram a brotar que todo castelo novo voltou a funcionar mais ativamente e nós voltamos a trabalhar de verdade. Contribuiu inclusive para a criação de vocês pouco depois.
Faísca se agachou, puxando-os para um abraço apertado. Aquilo surpreendeu Amora, mas não demorou para que retribuísse o gesto tal como Nilo. Talvez devesse fazer mais como o amigo. Acreditar mais na magia da Ilha da Criatividade e diminuir nos questionamentos.
Aquele foi o convite para que retornassem ao tour. Haveria um evento mais tarde, sobre o qual Amora estava bastante curiosa, mas preferiu segurar a curiosidade por um momento.
As salas seguintes revelaram um nível de organização que nenhum dos dois jamais imaginaria. Conhecer e andar pela Ilha da Criatividade estava completamente fora de qualquer aventura que poderiam imaginar, até mesmo na Academia Eclipse Solar.
Passaram pela Sala de Espera, na qual, de acordo com Faísca, faziam reuniões e agendamentos para a escrita de histórias em andamento. Foi a ocasião perfeita, pois teve a chance de conhecer pessoalmente o Time 8 de Naruto, dessa vez sem restrições, podendo até mesmo fazer carinho no Akamaru.
Seguiram para a sala dos Surtos Criativos.
— Aqui é a área responsável por lidar com as ideias que surgem do nada. Quando isso acontece, as coisas se agitam e o pessoal tenta registrar tudo antes que a euforia se dissipe. O objetivo do setor é conseguir capturar a essência dos possíveis enredos ou cenas e evitar que acabem sendo esquecidos na primeira distração. Sabe quando temos um sonho incrível e acordamos inspirados, porém parece que tudo desaparece em questão de segundos? Pois é! Aqui é onde tentavam evitar justamente isso.
— Deve ser mesmo um trabalho bem complicado. — Amora falou.
— Eu sempre lembro de tudo que eu sonhei. — Nilo disse, orgulhoso. — Sabia que eu sou um Homem-Aranha também?
Fez o movimento de lançar teias, sendo surpreendido com palmas.
Ao olhar para a fonte dos aplausos, o garoto ficou boquiaberto.
— Miguel O’Hara. — Nilo disparou, pulando sobre o homem.
Cara a cara, ele era enorme. A própria Faísca parecia diminuta perto dele.
Amora observou a mulher que engatinhou praticamente ao seu lado. A presença felina fez o aranha revirar os olhos, colocando Nilo cuidadosamente no chão.
— Miau! Olha só o que temos aqui. — a Gata Negra piscou para as crianças.
— Não mexa com eles. — Miguel a encarou.
A tensão que rolava entre eles era perceptível e tudo que Nilo mais desejou naquele momento era poder ver uma batalha deles, ao vivo e a cores. Amora, por outro lado, estava admirada com a postura femme fatale da mulher. Lembrava de Felícia Hardy nos desenhos e que era uma vilã. Será que gostar de vilões poderia torná-la uma também?
Faísca aproveitou as alfinetadas dos dois e a distração das crianças para levá-las consigo para longe. Tinha plena consciência de que não teriam uma disputa física ali. Aquela tensão vinha da atração, gerada após assistir ao filme do Homem-Aranha: Através do Aranhaverso, e graças aos incentivos de uma das recentes amizades que fez no Nyah, uma garota que alimentava cada vez mais o encantamento da autora por esse ship.
Ainda que a ideia de herói x vilã se envolvendo tivesse seu charme, seria complexo demais explicar aquilo para duas crianças. Seria quase como tentar explicar como a autora conseguia criar casais tão diferentes e não canônicos com os personagens de Naruto. Quando Shino e Kiba começaram a se gostar se eram apenas colegas de time? Ou Naruto e Sasuke? Ok que o anime deixava certas cenas tendenciosas, porém aquilo jamais tinha passado pela cabecinha deles.
Não, melhor esperar para quando uma história viesse a mente dela para os dois e fosse desenvolvida. Aí sim Faísca acompanharia tudo de camarote. No momento, contudo, precisaria controlar o seu lado fangirl.
Faísca deu uma olhada no relógio biológico. Estava quase na hora do evento. Precisava agilizar o tour se quisesse que tudo saísse conforme o planejado.
Seguiram para a tríade da redação.
— Esse é o Setor Audiovisual. Aqui trabalhamos com os materiais de inspiração, captação de marketing e ideias de inserção e desenvolvimento. É a área responsável por se perder por muitas horas no Pinterest, salvando inúmeras fotos, além de coletar referências a filmes, séries e doramas.
Uma breve espiada pela porta e viram todos os funcionários trabalhando. Nenhum sequer pareceu notar a presença deles ali.
— Ao lado, temos o Laboratório. — Faísca continuou. — Costumam ter como base também o material consumido pelo Setor Audiovisual. É voltado para o estudo de novas vertentes de histórias, onde realizam pesquisas para melhor entendimento e análise de tendências. Por exemplo, recentemente o pessoal tem se aventurado bastante por BL (Boys Love/ Yaoi) e descobriram até o universo ABO nas fanfics. Foram também os responsáveis por convidar o pessoal de Given e Buddy Daddies para a Ilha. A irmã da autora tem dedo nisso também, afinal foi ela quem começou a ler essas histórias antes.
A última parte foi mais como um desabafo, sobre o qual Faísca se deu conta de que nenhum dos dois tinha entendido. Optou por ir para a terceira sala.
— E aqui temos o setor de maior responsabilidade sobre as histórias criadas: a Sala de Roteiros. — a moça quase brilhou ao apontar para a porta, que tinha uma coroa como enfeite. — Foi criada para analisar, avaliar, organizar e desenvolver os enredos. É anexa ao Arquivo, então nós também temos acesso a todos os registros de ideias que a autora já teve. Também tentamos colocar ordem no processo de escrita. É de onde vem o aval final para que uma história comece a ser oficialmente escrita.
— É onde você trabalha?
Amora perguntou, ainda que não fosse necessário. Só a animação de Faísca deixava isso bem claro. Ainda assim, ela assentiu veemente.
— O melhor lugar para se trabalhar na Ilha da Criatividade, modéstia a parte. Nós ficamos sabendo de tudo e foi assim que acompanhei o processo de criação de “Ditos pelos de Noturno”, a história de vocês. — Faísca afagou seus cabelos. — Não é um trabalho fácil, tenho que admitir. Vez ou outra o setor de Surtos Criativos nos passa uma obra que fura a fila e precisamos nos virar nos 30, como o desafio drabble que trouxe as princesas que conheceram mais cedo a fazerem parte do nosso catálogo de personagens.
Quem diria que um elevador os levaria para uma mente tão rica, um universo tão grande e surpreendente? Quanto mais Amora e Nilo descobriam, mais queriam saber e se aventurar. Os pensamentos conflitantes de ser uma personagem de uma autora que podia matá-los ainda a deixavam inquieta, contudo cada vez mais encontrava motivos pelos quais devesse dar um voto de confiança para essa autora.
— É mesmo uma loucura, mas eu amo. — Faísca completou, seguindo com o tour.
— O que tem atrás das portas marcadas de vermelho? — foi a vez de Nilo deixar a curiosidade falar mais alto.
As portas em questão estavam posicionadas afastadas uma da outra. Mais à frente, uma com placa vermelha dizendo “Acesso restrito”.
— Aquela ali é a Seção Leitora. É um anexo da Ilha da Criatividade, que trabalha mais frequentemente com o Setor Audiovisual. Ali tem estantes enormes de livros físicos e um abismo de ebooks. Digamos que a autora tem um ar de compradora compulsiva de livros digitais quando gratuitos na Amazon.
— Se é grátis, como ela compra? — Amora indagou.
— Sei lá. É o que aparece no site. Ela só pega e pronto. — Faísca deu de ombros, indicando a outra sala.
Do lado oposto e mais isolada propositalmente, aquela porta trazia um grande X vermelho.
— Nunca cheguem perto daquela sala. Não abram, não batam na porta nem ofereçam café. Muito menos entrem se forem convidados. Ali fica a dupla Bloqueio Criativo e Preguiça Literária. — Faísca alertou. — Eles são especialistas em dar dores de cabeça. Ficam lá, trancados, fazendo sei lá o quê, e, quando saem, bagunçam todo nosso planejamento e dificultam o trabalho dos outros setores. Isso tende a deixar a autora muito frustrada e inquieta. É um setor que, sinceramente, poderia ter continuado desativado.
Passaram pela sala de Escrita Teste, que possuía um asterisco preto na porta. Faísca ressaltou que era uma espécie de anexo do Laboratório, uma equipe auxiliar responsável por desenvolver protótipos que são apresentados a Sala de Roteiros. Tentam criar esboços de cenas ou enredos nos quais a autora ainda não se aventurou, como atualmente cogitam elaborar histórias um pouco mais adultas.
Faísca quase pôde se sentir leve ao ver que o tour estava chegando ao fim, até que outra figura marcante resolveu dar as caras e pôr seu cronograma e sua paciência em xeque.
Ninguém mais ninguém menos que Rowena.
— Ei, você! Faísca, não é?! Quero saber quando terei minha história contada. É inadmissível que uma bruxa da minha classe seja deixada de lado assim.
— Eu já disse, Rowena. Não depende mim. — a guia retrucou.
— Você é uma bruxa?
Os olhos de Amora brilharam. Aquela mulher diante de si exalava elegância e, mesmo ainda estando em fase de aprendizado, a garota podia sentir uma aura mágica intensa vinda dela.
A recíproca foi verdadeira, pois Rowena sorriu ao ver a pequena.
— Ora… Se não é um novo talento que vejo. Você possui uma aura impressionante. — ela deslizou o olhar para Nilo. — Os dois. Gostariam de ser meus aprendizes?
— Eles são originais, Rowena.
— Por isso mesmo. — a bruxa procedeu com seu plano afiado de persuasão. — Nada melhor que aprender com quem possui séculos de experiência.
— Sem chance. — Faísca interveio. — Vocês estão em níveis bem diferentes. Vamos deixar as coisas como estão, ok?!
— Mas ela é uma bruxa superpoderosa! — Amora protestou enquanto Faísca arrastava ela e Nilo para longe de Rowena.
— E perigosa. — a guia alertou. — Ela era uma das vilãs de Supernatural, uma série que a autora gosta muito. Pode ser bonita e muito elegante, de fala mansa, mas você não tem ideia das coisas que ela já fez.
Levou algum tempo para que Amora processasse o que escutou.
— Até vilões ganham histórias aqui? — a menina indagou. — Por quê?
— Algumas histórias merecem ser contadas e… Alguns vilões são mesmo muito cativantes. — Faísca admitiu. — Ela é uma das minhas favoritas, confesso, mas prefiro nas telas e longe de mim quando inconformada com algo.
— Você é uma das responsáveis sobre quando a história dela será escrita, não é? Se gosta dela, por que não faz logo? Assim a bruxa para de te perturbar e vocês ainda podem se divertir com a fanfic.
Faísca ouviu atentamente a sugestão e segurou um suspiro para evitar soar desrespeitosa, ainda que repetisse mais uma vez um discurso que tinha apresentado a tantos outros personagens antes.
— Entendam, crianças. Tudo é um processo. A autora voltou a escrever. O que importa é o exercício. Devagar que ela chega lá. — fez uma breve pausa. — A equipe da Sala de Roteiros está se esforçando nesse controle criativo. A gente tenta dosar tempo com ideias e ânimo. Não é sempre que conseguimos, mas voltamos a trabalhar duro depois de bastante tempo. A galera do Enem agora tirou férias, mas deixaram a mente dela meio bagunçada.
— Mas todos merecem ter suas histórias contadas. — Nilo se pronunciou e um miado de Noturno serviu como atestado de concordância, assim como o assentir de Amora.
— Eu sei, meus amores. É o que todos queremos. São muitos personagens que desejam ter suas histórias contadas para ontem, entretanto não tem como fazer isso tudo de uma vez. Vocês foram os primeiros originais que chegaram depois de muito tempo e por isso são muito bem-vindos. Imagina se eu tivesse escutado a bruxa velha? Talvez até hoje vocês não passassem de um projeto na gaveta.
Nilo encostou a cabeça no ombro de Amora e foi como se compartilhassem o mesmo pensamento. Era o que acontecia com eles. Estavam em sintonia graças ao seu chidori. Entendiam o que Faísca dizia. Se não fosse por todo essa trabalho de tentar colocar alguma ordem numa mente tão ativa quanto a da autora, talvez nunca tivessem sido desenvolvidos, sequer existiriam.
— Não precisam ficar cabisbaixos, ok? Isso aqui não é um jogo feroz de sobrevivência. Cada um terá o seu momento. A autora ainda é muito jovem e trabalharemos bastante para que todas histórias tenham a chance de ser escritas.
Faísca segurou as mãos dos dois e assobiou como um convite para que Noturno se refugiasse em seus ombros para seguirem com o tour.
— Claro que temos ciência de que nem todo mundo ficaria contente com a espera, por isso apresento o último setor da Ilha da Criatividade: os Recursos das Histórias, também conhecido como RH.
Parecia uma recepção. Cadeiras para os personagens esperarem, enquanto alguns funcionários anotavam tudo e prosseguiam com o atendimento, ouvindo e registrando as queixas e negociando alguma maneira de resolvê-las.
Ao percorrer os olhos pela sala, Amora conseguiu detectar outra semelhante.
— Quem é aquela moça ali? — indicou.
— Uma original reconhece a outra, não é mesmo? — Faísca deu uma piscadela. — Aquela é Safira, a heroína de uma fantasia de bruxas e aventura numa busca contra o relógio. Seu enredo foi rememorado pela autora há alguns meses e os personagens planejavam um requerimento de segunda chance desde então. Uma história despretensiosa, mas com potencial.
— Aqui é tipo um centro de reclamações? — Nilo indagou. — É que nem a secretaria da minha escola.
O trio riu do comentário.
— Bom, o RH visa otimizar o processo de histórias engavetadas ou em hiatus, mas também serve como ouvidoria para os personagens insatisfeitos. Até queixa de plot já foram feitas aqui e isso chegou lá na Sala de Roteiros. De toda forma, isso exige tempo, inspiração e vontade. Nossa autora passou por muita coisa, cresceu e assumiu novas responsabilidades. Precisa lidar com as obrigações do mundo real. Não dá para se ater a todas nossas vontades sempre que quisermos.
— Por isso eu quero ser criança para sempre. — Amora diz.
— E como vai se tornar uma grande bruxa assim? — Nilo fala. — Você mesma sempre diz que quer ser grande e forte como a tia Flora.
Sempre com bons argumentos. Ele era como seu grilo falante e às vezes Amora só queria que desse menos lições de moral. Como era possível esse atrevimento tranquilo e natural sendo mais novo que ela? Nilo sequer parecia se dar conta das alfinetadas que dava. Tinha um jeito único de tocar na ferida e depois dar beijinho para sarar, mesmo que nem sempre intencionalmente.
— Amadurecer faz parte. — Faísca retomou a palavra. — As histórias mudam, os personagens também evoluem junto com a sua mentalidade e escrita, afinal são feitos disso. Vocês são um grande exemplo. Acabam de inaugurar a ala dos contos publicados.
Nilo segurou na mão de Amora e na de Faísca. Era a ponte que tentava aquietar os ânimos da amiga e torcia para que a guia continuasse tendo paciência com eles.
Aproveitando o elo, Faísca seguiu para a última sala, abrindo a porta para um ambiente sem móveis, mas com paredes recheadas de adornos.
— Uau! — o menino soltou, olhando ao redor. — Parece até que estamos num museu.
— O que são esses quadros nas paredes? — Amora indagou.
— Sempre que uma nova história é escrita, seu quadro surge na parede. Não somos nós que o colocamos lá. É a própria autora. Uma manifestação visível de seu subconsciente, valorizando suas obras e personagens, um agradecimento por participarem dessa jornada com ela.
Noturno disparou pela sala, sendo seguido pelas duas crianças, parando em frente a um quadro de imagem preta, com outro gato desenhado, cheio de símbolos.
— Estão vendo? Essa é a capa da Antologia Breu, na qual a sua história faz parte. Mais que isso. Sua chegada reativou a ala de criações próprias da autora e ganharam espaço especial no Hall dos Originais. — apontou para a parede dourada ao fundo, que contrastava com as demais brancas. — Sabia que ela já até cogitou novas possíveis aventuras para vocês? Não faço ideia de quando ou se acontecerão, mas torço muito para que sim. Vejo em vocês poder e força de vontade para realizarem feitos extraordinários. Para isso…
— Precisamos respeitar o processo. — ambos completaram a frase, soltando uma risada com a sintonia.
— Quando ela estiver pronta para escrever, sairá a melhor versão dessa história.
Faísca se agachou e abriu os braços. Não demoraram a se render ao aconchego daquele abraço triplo. Nem mesmo Noturno, que se esgueirou entre as pernas deles, roçando seu pelo negro em sinal de que também queria fazer parte daquele momento.
Uma melodia de sinos ecoou pelo ambiente, envolvendo-os tal como uma brisa que pareceu surgir por mágica e rodeá-los.
As crianças sorriram ao ver seus cabelos voando, indomáveis, tal como os cachos de Faísca, que devolveu o sorriso e deu uma piscadela, dando dois tilts seguidos.
Ela pôs-se de pé e segurou na mão de cada um. Sequer precisou dizer algo. Logo as crianças fechavam o círculo, enquanto Noturno, deu um salto, acomodando-se ao redor do pescoço de Nilo.
— Um… Dois.. Três…
Tilt.
De repente, tudo desapareceu.
Com a mesma rapidez, estavam num novo lugar.
Era diferente de atravessar um portal mágico. Um tilt possibilitava sentir como se todo seu corpo se desintegrasse e fundisse novamente numa fração de segundo.
— Como isso é possível? — Amora sussurrou.
— Lembrem-se: somos feitos de ideias. — Faísca piscou, indicando as duas poltronas atrás deles para que se sentassem.
Eram grandes e confortáveis. O estofado vermelho de veludo e os detalhes em dourado davam um ar de realeza, como se estivessem num trono real.
— Eu não ligaria de ser príncipe na próxima história. — Nilo falou com graça, acenando como via fazerem nos filmes.
Ao redor, havia muitas poltronas como aquelas, quase todas ocupadas por personagens ou funcionários da Ilha da Criatividade. Todas voltadas para um grande palco, com enormes cortinas vermelhas. No teto, lustres enormes, dourados e brilhantes completavam o cenário de um grandioso teatro.
Um miado assustado de Noturno chamou suas atenções.
— Sinto muito. Não tinha visto que o senhor estava sentado aí. — uma garota negra de longo cabelo roxo desculpou-se com o felino, que logo se deitou confortavelmente no colo da bruxinha.
— Tudo bem. Ele sabe que foi um acidente. — Amora falou. — Oi, eu sou…
— Já sabemos. — outra menina surgiu atrás dela cujo rosto entregava suas origens asiáticas. — Aliás, sou Krystal. É uma honra conhecê-la.
— E eu sou Kira. — apresentou-se a que quase sentou em Noturno.
— Tem lugar vago aí? — uma voz masculina ganhou forma quando um rapaz alto, forte e de olhos e pele clara se aproximou. — Vocês são os novos originais, não é?! São tão fofos!
— Não lembro da autora ter criado personagens crianças antes, pelo menos não como protagonistas. — Krystal comentou. — Isso é muito bom.
— Variedade e representatividade. — Kira piscou.
— Vocês também são originais? — Amora perguntou.
— Sim e não. — foi Krystal que respondeu. — Somos personagens criados pela autora, mas ela não escreveu uma história para nós.
— Fomos desenvolvidos para fics interativas. — o rapaz completou. — Aliás, me chamo Anthony. Fui campeão do Acampamento Extremo.
— Que legal! — Nilo sorriu, animando-se fácil. — É tipo aqueles programas da TV, cheios de provas difíceis e perigosas?
— Está mais para Drama Total. — Kira explicou.
— E você? É bruxa também? — Amora questionou-a.
— Não exatamente. Estudo na Academia Ilha do Amanhã, uma escola super legal, com várias pessoas especiais. Um dos meus amigos é vampiro e nosso professor é um lobisomem de verdade.
— Uau! — as crianças se admiraram.
— E você? — Nilo olhou para Krystal.
— Então… A autora criou diversas versões para mim em interativas. Numa história, eu era uma jornalista que investigava os mistérios de uma cidade dominada pelos seres sobrenaturais. Em outra, uma militante que apoiava a resistência num país devastado e cheio de conflitos. Uma disputa que durou muito tempo, mas conseguimos recuperar o governo.
— Isso é muito incrível! — Amora exclamou. — Seria tão legal se um dia a autora criasse uma história para vocês. Talvez até juntos.
— Eu ia querer participar também. — Nilo ergueu o braço e Noturno miou, como se também compactuasse com a ideia.
Os sinos voltaram a tocar como anúncio para que todos se sentassem em suas respectivas poltronas.
As luzes diminuíram e na plateia, enquanto um holofote foi direcionado para o palco. Logo, as cortinas se abriram, revelando Faísca.
— Olá, queridos personagens! Mocinhos, vilões, originais ou de fanfics. Sejam todos muito bem-vindos a essa ocasião tão especial. Como todos sabem, sou o Subconsciente Recreativo, mas todos me chamam de Faísca. Estamos aqui para celebrar um marco importante. Uma festa de uma pessoa só, a nossa pessoa, nossa autora, que comemora 10 anos que criou sua conta no Nyah! Fanfiction.
Aplausos dominaram o teatro.
— Sei que há quem diga que “tudo não passa de coisa da cabeça dela”, mas a verdade é que sim, somos, porém não “coisas”. Somos ideias, conceitos que ganharam forma, histórias, fazendo parte de um universo intangível que só quem tem criatividade pode alcançar. — Faísca sorriu, visivelmente emocionada. — Sou a mais velha de todos aqui. Estava presente desde os enredos de brincadeiras quando criança. Basicamente vi todos ganharem vida e foi muito lindo.
Seu olhar deslizou por todos inúmeros personagens que preenchiam aquele teatro.
— Sendo uma data muito especial, teremos também um evento muito especial. Ao atingir o estado onírico, encontramos ninguém menos que ela, nossa autora, Duda.
Os sinos ecoaram pela terceira vez.
Como nos clássicos no qual a terceira badalada anunciava um acontecimento mágico, uma jovem se materializou no centro do palco. Assim como Faísca, possuía pele negra e cabelos cacheados. Vestia um pijama, todavia seu ar era de realeza.
Então era isso. O encontro da realidade com as ideias acontecia em sonhos. Uma viagem metafísica tão extraordinária que ninguém jamais teria conhecimento, talvez até a própria autora esquecesse desse crossover inusitado que sua mente concebeu.
— Olá! — Duda se pronunciou. — Acredito que agora seja o momento de um discurso. Se não, vai acontecer de qualquer maneira. Costumo dizer que sou uma pessoa de muitas palavras, porque me empolgo quando falo sobre algo que gosto. Esse nosso encontro é uma prova disso. Quando vi que estava prestes a completar 10 anos que criei minha conta no Nyah!, senti que precisava fazer algo especial. Não porque queria postar e que os outros gostassem, mas porque esse é um momento importante para mim. É uma loucura como o tempo passa rápido e de repente faz uma década que encontrei um cantinho onde me senti confortável para compartilhar minhas histórias. Nenhum outro site jamais me trouxe tanto aconchego. Por isso escrevo essa história. É sobre mim, por mim e para mim. E tem sido sensacional adicionar cada palavra. Como sempre, começou com uma ideia pequena, uma faísca, que pensei que sequer passaria de duas mil palavras e olhem só onde chegamos?!
Duda faz uma breve pausa. Seu olhar desliza pelo ambiente em que se encontra, depois por todos personagens tão familiares ali presentes, reconhecendo cada rosto.
— Comecei a escrever porque tinha muitas ideias e, um dia, minha mãe simplesmente me olhou e disse: “escreva”. Acho que nem mesmo ela sabia o quanto aquilo seria importante para mim, muito menos o significado do caderno que ela comprou e me deu para escrever quando meu notebook deu problema e fiquei chateada. Acredito que estava muito presa ao instrumento e por isso acabei me desmotivando, mas, com aquele caderno, ela me lembrou que não precisou de tecnologia. O que eu tenho que fazer é apenas escrever. Lápis, borracha, caneta, papel e… Minha mente.
A autora sorri ao pensar nessa trajetória de dez anos que, mesmo não sendo a data inicial de quando começou a escrever, tem grande significado por ter sido o momento que ela tomou coragem para compartilhar o que escrevia, despretensiosamente, sem sequer imaginar o quanto a faria bem.
— Fiquei anos afastada. A vida aconteceu. Simples assim. Ainda rascunhava em meu caderno (e outros que vieram depois) ideias, algumas que chegaram a ser desenvolvidas, outras não. Entretanto, guardei-as para mim. Até que um e-mail de notificação do Nyah! me lembrou desse cantinho e resolvi rememorar. Comecei a navegar pelas histórias, ler, agora me aventurando por novos estilos de obras. Então me dei conta: por que não participo disso também? Estava parada e meio enferrujada, mas o ânimo e a inspiração retornaram. A vontade de escrever, a coragem de postar, a ansiedade de saber se alguém leria e gostaria. Senti tudo como se fosse a primeira vez. E era, de certa forma. E foi ótimo também. Não preciso de muitos leitores. Escrevo por mim. Minha irmã agora me ajuda como leitora número 1, dando aquelas dicas de como melhorar, acompanhando o processo de escrita e me motivando, ri e surta comigo, às vezes parece querer me bater também quando faço algum personagem passar por maus bocados. Ela entende os motivos, mas torce sempre pelo final feliz, né?! Daqueles que merecem, pelo menos. Enfim, voltar a escrever foi maravilhoso. Justo no ano em que completaria 10 anos nessa casa.
Duda suspira enquanto organiza melhor as palavras que possam traduzir o que sente no momento.
— Crescer é inevitável. Às vezes a realidade pode ser assustadora, no entanto se nos dispusermos a ver o copo meio cheio em vez de meio vazio, conseguiremos enxergar coisas boas também. Crescer faz a gente abrir horizontes. Faz entender muita coisa. Uma delas é que escrever vai além de gostar e achar legal. É um desafio. Uns mais fáceis, outros mais difíceis. É um exercício, é sobre fazer, ler e refazer. Estar disposto a aprender cada dia mais com o que seus personagens podem te ensinar e, acredite, eles têm muito a dizer. São conceitos interdependentes, amizades perfeitamente imperfeitas de uma criação que nem mesmo você possui controle. Eles te fazem rir e se sentir leve na mesma capacidade de trazer lágrimas e sofrimento.
Apesar de ser de muitas palavras, toda história precisa chegar ao fim, então Duda prossegue:
— Na vida, precisamos nos reinventar sempre, de diversas formas. Não seremos bons em tudo, mas sempre podemos melhorar. Até o amor-próprio é um exercício diário. Escrever é um ato de amor comigo mesma. Quero continuar a fazê-lo, sempre buscando e priorizando que seja gostoso colocar minhas ideias no papel, ainda que precise tirar folga da escrita vez ou outra para recuperar esse ânimo e me reconectar com meu cerne. Afinal, o descanso também faz parte do treino.
Duda respira fundo e sorri.
— Obrigada! A mim e a todos que fizeram parte, de alguma forma, dessa trajetória, mesmo que sem saber, muito obrigada.
“Para adiar o fim do mundo é preciso continuar contando histórias.”
— Ailton Krenak
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