Lion - A criança, A marionete e A família
1 Capítulo único - OneShot
Notas iniciais
Respirava com um pouco de dificuldade. Qual era o problema daquela terrível estação. Sim, estou falando do inverno. A neve, irritantemente seca, juntamente ao vento gélido e sem vida impede que meus capilares sejam capazes de aquecer minhas extremidades, deixando meu nariz e todo o resto do meu corpo gelado. A única coisa que queria era chegar logo.
Esperava o sinal de pedestre abrir, a minha frente, um pequeno lote, com um escritório, o meu escritório. As persianas já levantadas, e meu sócio, juntamente de minha assistente, atendendo telefonemas e ajudando passantes que adentravam o local para pedir informação.
O lume frouxo que o ressinto traspassava para a rua era aconchegante. Fora agradável, ao menos para meus dedos, adentrar àquele local.
─ Boa tarde. ─ Assenti com a cabeça para os dois que já estavam lá dentro.
─ Boa tarde detetive, suas cartas estão na sua mesa.
Agradeci com uma leve reverência de cabeça. Adentrei meu escritório, estava gelado. Aquela situação só fazia a vontade de ir trabalhar se esvair mais e mais, eu me encontrava agora na cadeira, por detrás da mesa, esperando ter um dia calmo. Como me iludir era tolo. A pasta vermelha da qual Tirrany, minha assistente, havia me alertado se estendia na minha escrivaninha clamando para que eu a lesse.
— Três dias... — Suspirei lendo as mínimas informações que a carta, escrita com caligrafia arcaica e vocábulos formais, trazia. A mesma clamava que eu visitasse uma pequena cidade na França.
─ Estou de saída. ─ Franzi o cenho saindo de meu escritório e indo até a porta, aonde novamente o frio assolava do lado de fora.
─ Já? ─ Tirrany surpreendeu-se.
─ Sim, é um caso em Lion...
Ela consentiu com a cabeça entendendo, ou ao menos, aceitando o que eu tinha que fazer.
Peguei o sobretudo bege, que ainda encontrava-se esbranquiçado pela neve, o cachecol, e caminhei para fora. Fiquei ao lado do lampião, ao qual as labaredas fraquejavam a cada rajada de vento.
Por vinte minutos esperei de pé, mordendo o lábio para evitar pegar o cachimbo, havia prometido a mim mesmo parar de fumar. Mas estava difícil, além da inquietude de minha mente ao relembrar o que a carta dizia, estava muito... mas muito frio.
Uma carruagem finalmente parou, e o senhor coberto até os cabelos perguntou em voz rouca:
─ Para onde?
─ Para França.
Ele consentiu com a cabeça. ─ Não vai um pouco longe, Detetive?
─ Ao menos é mais perto que a Inglaterra.
O senhor riu de minha comparação e indicou com a cabeça para que eu entrasse no transporte, ir da Suíça para a França realmente era mais fácil do que ir à Inglaterra, o que, infelizmente, não queria dizer que a viagem seria curta.
Sentei-me no banco negro da carruagem, e vi passar as horas, olhando pela janela e aderindo às lembranças que detinha da cidade. Costumava viajar para lá, no intuito de assistir ao teatro das marionetes. Era tão bonito... Suspirei pensando o que poderia ter acontecido com aquele lugar tão belo. Minha cabeça renegava em acreditar que ali poderia ter acontecido algo. Pela primeira vez em muitos anos, temi pelo meu caso, talvez, eu não conseguisse solucionar um mistério.
Os cavalos relincharam, anunciando a proximidade com a fronteira. Em dois dias, eu estaria na cidade. Preferi não parar em pousada alguma, dormindo na própria carruagem.
─ Por que o senhor tem tanta pressa? ─ Perguntou-me o cocheiro. Um dia em que paramos em um lago no qual os cavalos se rebentavam em água e refresco.
Aquilo me fazia pensar. ─ Se demorar mais, sinto que não poderei salvá-lo. — Eu estava pensativo, mas muito inquieto. Sabia que não saciaria o cocheiro saber tão pouco, mas não tinha opção. Não poderia falar mais nada.
─ O senhor não está muito ligado a este caso?
Terminei por concordar com a cabeça, apesar de não desejar.
Adentrei a cidade, um tanto receoso em olhar pela janela, tinha razão. O lugar um dia tão feliz, estava totalmente diferente do que eu recordava, parecia estranhamente vazia e todo o seu brilho e juventude pareciam ter se esvaído, junto aos anos. Meu cocheiro veio a parar próximo a um hotel, o dono de tal estabelecimento provavelmente é meu contratador. Encontrei-o junto de uma bela moça, cujos olhos estavam cheios de lágrimas, inchados e completamente soturnos. Sim, Anna, eu me lembro de você. O velho senhor, por outro lado, estava com olhar distante, como quem esperava que logo tudo acabaria, de um jeito ou de outro.
Cumprimentei-os. A jovem, agarrando a manga de meu blazer, implorou em voz entrecortada:
─ Senhor, encontre meu filho, Simon, por favor! ─ Seus olhos que antes seguravam as lágrimas, voltaram a irromper como uma cachoeira, o qual demonstrava seu sofrimento em cada gota desperdiçada.
─ Tenha paciência minha filha, o senhor acabou de chegar. Provavelmente está cansado e já irá escurecer. Espere amanhecer para iniciar sua investigação. — O velho tocou no ombro da filha, ainda com olhar triste, mas um tanto impaciente. Ele, de alguma forma, parecia irritado.
─ Sinto muito senhor, mas... ─ ela se acanhou após um olhar repreensivo do pai, contudo, continuou. ─ Eu sinto que meu filho está vivo, mas da mesma forma, sinto como se cada segundo pudesse ser o último.
─ Entendo. ─ Respondi, tocando em sua mão para que relaxasse um pouco. Anna, não se lembra de mim?
A dama foi a primeira a se retirar, subindo ao quarto, o senhor ficara alguns minutos com o charuto, na sala de estar, mas logo subiu. Acredito que deva começar imediatamente. Não deveria deixar que Simon permanecesse desaparecido nem mais um instante.
Como era de se esperar, na cidade das marionetes, muitas eram vistas por todas as esquinas. A grande maioria quebrada, ou ao menos em estágio fúnebre.
─ Mas o que houve aqui?... — Eu me perguntava em dúvida. O que poderia ter acontecido. E Simon, quantos anos teria. Agora, ainda mais, vendo Anna, sinto-me impune perante o caso.
Estava na praça principal quando entrei no museu do construtor, este e o teatro se encontravam sobre o mesmo teto, era estranho que aquela cidade havia perdido tanto em tão pouco tempo, fazia o quê? Sete anos? Sim. Isso mesmo.
No teatro, no hall de entrada ainda havia um panfleto, já arranhado, mas com o escrito: ‘Show de marionetes mecânicas, hoje, às 19:00.’ Tudo aquilo era muito intrigante, no próprio teatro, mas principalmente fora dele, parecia haver mais marionetes que pessoas na região. Parecia que tudo havia parado no tempo e o lugar estivesse fantasmagórico.
Corri abruptamente de volta para a hospedaria. Adentrei sem pedir. O panfleto em mãos.
– Qual a história dessas marionetes? Há anos elas funcionavam bem, mas porque agora, só restam elas e não há pessoas nas ruas?! – Perguntei lembrando que elas eram usadas nos shows, mas jamais esperaria que tomariam tanto o lugar dos humanos. Perguntara apontando para uma, do próprio hotel, que se encontrava no banco do pianista, parada, por dar corda.
O dono da hospedaria pareceu ainda mais irritado. Irresoluto em responder a pergunta. Mas começou: — Muitas foram as pessoas que saíram deste lugar. Fugiram, se exilaram. Mas a grande maioria, verdadeiramente, sumiu.
— O que quer dizer? — Mordisquei o lábio roçando a mão direita em minha barba por fazer devido a viagem corrida.
— As pessoas têm sumido aqui, e em seu lugar, máquinas aparecem. Mas nada disso lhe convém. Não é mesmo? Luca. — O senhor me chamou pelo nome. Arqueei a sobrancelha esquerda.
— É verdade então... Não é mesmo? — Entortei o cenho com desdém. Ele sabia quem eu era. Mas e Anna?
Levantei-me e subi até os aposentos do andar de cima. Do começo do corredor, o pranto de Anna já era audível.
— Anna? — Chamei da primeira porta a esquerda. A maçaneta girou e de lá, uma jovem, de não muito mais que 30 anos surgiu.
— Detetive? — Ela me chamou.
— Sim. — Abaixei o olhar um tanto magoado. Não. Ela realmente não se lembrava.
O dia seguinte não tardou a culminar, e antes das seis horas, eu havia sido feito de pé, pela dama que ainda chorava. Aquilo começava a me irritar, mas também a me preocupar. Eu estava decidido. Entraria no salão do teatro hoje, iria descobrir quem anda construindo os substitutos humanos. Afinal, nada disso faz mais sentido.
O teatro se fazia grande, vistoso, porém, mal cuidado. Grande parte das cortinas vermelhas e pesadas haviam sido carregadas ao chão pela gravidade. As aranhas e traças se apossavam dos figurinos e restos de enchimentos de poltronas. Mas o que mais intrigava era a tremenda quantidade de marionetes relativamente novas e mais bem cuidadas que o resto.
Uma porta se fazia presente no canto do palco, na parte esquerda, e fiz uma força em abri-la. Totalmente em vão. Bater também não adiantava, e o que mais preocupava era como as marionetes pareciam observar cada passo e movimento muscular que eu dava.
A porta ainda era um mistério e falta de informações mais ainda. Nem se quer havia cidadãos suficientes que conseguissem dar um relato. Todos os jovem, ou a grande maioria, havia decidido sair da cidade, com razão, é claro. Eu fora um deles.
— Simon! — Gritei do meio do palco.
Nada.
— Simon! — Mais uma vez.
Nada. Contudo, o eco fez o serviço de repetir o nome mais um par de vezes.
— O que quer? — Um senhor, de quase sessenta anos apontou uma luz de lanterna alaranjada para mim.
— O senhor trabalha aqui?
O mesmo abaixou a ‘arma’, olhando melhor para mim. — Luca? — Perguntou o velhinho.
— Sim. — Respondi um tanto em dúvida.
— Você perdeu muita coisa... — O senhor grunhiu limpando os dentes em seguida. — Venha! Eu vou lhe mostrar... — O velhinho virou de costas, andando sem me esperar.
Corri para descer do palco, tentando ignorar a plateia de fios e segui o senhor.
— Lembra-se de Rita? — Perguntou-me, mostrando a mim um pequeno cômodo que se fazia presente duas poltronas. Provavelmente o ambiente mais bem conservado do teatro até então.
— Sim. Filha de Giovanni. — Assenti.
— Sua memória é mesmo boa. — O senhor sorriu. — Ela sofreu um acidente.
Eu fiquei perplexo. Como assim?! — Mas... Ela... Era tão bela.
— E a falta de beleza com a sobrevivência pode levar a ações catastróficas, não é mesmo? — O velhinho riu um tanto cético.
— O que quer dizer? — Perguntei.
O velho ajeitou os óculos nos calos do nariz. — Rita queria vingança... — Começou ele. — Ela nunca falara mais nada para mim, e olha que sou seu pai. Ela não aguentava a ideia de não ter mais a beleza de antes. E me pediu para que fizesse uma réplica dela. Não neguei, é claro... — Ele sorriu. — Ainda gosto de minha marionetes. — Seu ar começou a ficar fúnebre, frio, mas acima de tudo, amedrontador. Dando-me calafrios. — Mas ela queria mais, entende? Queria que eu fizesse-a marionete.
— Como assim?
— Queria sua alma dentro daquela réplica, assim, ela seria verdadeiramente bela. Para sempre. Mas, sua verdadeira beleza, eu percebia, começou a deteriorar, aos poucos.
— E... — Perguntei um tanto atônito. Aquela inocente jovem começou a mexer com magia negra? Arqueei as sobrancelhas com a conclusão.
— As crianças começaram a desaparecer, e algumas, encontradas mortas. Outras... Nem sinal. — Ele tremeu com algumas lembranças.
— Você sabe onde está Simon! — Afirmei pondo-me de pé.
— Sim, mas ele é um caso perdido, e você também será se for atrás dela.
— Conheço Rita! — Exclamei.
— Não. Nem eu mesmo a conheço mais... — O senhor parecia perplexo, um tanto atônito e assustado.
— ONDE! — Gritei não aguentando mais.
— No rio. Próximo ao mausoléu de sua mãe. — Ele assentiu e eu parti correndo.
Como Rita faria aquilo? E na frente de mamãe! Não poderia ser verdade! Não poderia! Por que a ignorei por tanto tempo?! Porque não fui mais presente?! Por quê?! Julguei-me internamente quando vi a luz que transpassava do chão, próximo de onde o velho me indicara.
— Rita! — Gritei.
— Ah... Ah... Ah... — Ouvi a voz doce, porém seca de minha irmã.
— Pare! — Berrei. Adentrei onde ela estava. O cheiro de pólvora e de cadáveres em putrefação me davam horror e ânsia.
— Sabia que encontraria um jeito de ter sua atenção.
— Sim Rita. Agora pare! — Ordenei uma segunda vez.
Segui a voz da garota, cheguei a um cômodo fechado, onde minha irmã, com uma marca queimada em metade do rosto parecia não conseguir ver a si mesma e o que estava se tornando. Os cabelos ruivos em uma trança do lado do rosto não queimado. As mãos, em luvas, e os olhos, um completamente branco. O outro, do verde que eu tanto achava surpreendente. Ao seu lado, vi uma jovem, uma marionete. Uma porcelana, tão real, que jurei ver o piscar de seus olhos uma ou duas vezes. Realmente, parecia-se muito com Rita.
— Não vou parar. Só seu olhar já comprova que eu não posso continuar nesse corpo! — Gritou ela. — Eu tenho que voltar a ser o que eu era! Só assim te terei de volta.
— Irmã. Você me perdeu a muito. Anna também me perdeu. Eu te amo, mas você não pode fazer isso, está matando esta cidade.
A garota parou. Mas não parecia refletir sobre o que eu falava. — Não vai voltar para mim. Tudo bem, vou tirar então de ti tudo que me lembra você. — Ela riu satiricamente. — Tia Flora, Irmã Iara, Tio Breno, Guilherme e Júlia. Todos. E agora, o prato que lhe trouxe aqui... Simon! — Ela correu e agarrou um garotinho. Olhos negros como os de Anna. Os cabelos loiros. Seus olhos cheios de lágrimas e medo.
— Por que ele é tão especial?! — Gritei ainda em dúvida. Não poderia ser o que eu estava supondo. Não poderia.
— Não percebe? Seus cabelos são iguais. Até a pinta atrás da orelha direita é igual. Ele é seu filho... — Cuspiu a megera que um dia fora minha irmã!
— Largue o menino! — Mandei. — Largue! — Eu não sabia se aquilo era verdade, mas de alguma forma, poderia fazer algum sentido.
— Não! — Minha irmã gritou, mas de seus olhos brotava uma lágrima.
Eu estava prestes a pular sobre a garota irredutível e louca quando uma voz feminina intercedeu, seguida por uma luz alaranjada que agora eu já reconhecia.
— Não faça isso com meu filho! — Gritou Anna.
— Mamãe... — O garotinho chutou a canela da jovem que o segurava pelo cangote. Correndo até a moça de olhos negros.
— Óh Simon! — Abraçou o pequeno a mãe antes tão atordoada. — Prendam-na!
Detrás da mãe, não só o velhinho, meu pai, Paul saiu. Mas um grupo de quatro policiais e um médico, que prenderam minha irmã. — Por favor. — Pedi mostrando o distintivo. — Cuidem bem dela.
Todos assentiram e saímos juntos da tumba pútrida.
— Obrigado, senhor. — Assentiu Simon.
Eu sorri ao garotinho. Mas corri a mão no ombro da jovem mãe. — Anna? — Chamei.
— Luca. Pare. Eu sei que nunca conseguirá voltar a vida de antes. Mas agora, ao menos, você sabe toda a verdade.
Mordi o lábio. Pela primeira vez há muito estava sem reação. — Vocês poderiam ao menos, Deixar essa cidade? Venham comigo?
A menina negou. — Não... Eu tenho esperança. — Sorriu ela com o garotinho andando na frente, já muito menos assustado. — Eu sei que tudo vai melhorar. Mas, — Ela hesitou. — você é bem-vindo. Sempre. — Terminou depositando um beijo em minha bochecha.
Na manhã seguinte, corri à carruagem, e já em cima dela, via várias atrás desta, adentrando a cidade. A notícia corre rápido, presumi. — Vai ficar tudo bem... — Suspirei, pegando o cachimbo. Não, não o acendi. — Vou voltar a Lion... — Disse ao objeto. — Um dia. — Olhei pela janela, recebia um tchau de uma bela dama, Anna; dois pais carrancudos, meu, e meu sogro; e um sorriso feliz de um garotinho, cujo nome Simon, jamais esquecerei.
Notas finais
:3
Por favor, qualquer coisa, comentem!
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