Linked Together
2 Capítulo 2
— Que prazer conhecê-la, signorina. Lamento que seja em circunstâncias tão embaraçosas. – Aquela voz cortante derramava em meu interior palavras com um forte sotaque italiano e provocava uma ardência, como se fosse feita de uma mistura de mel e pimenta – extremamente doce e pungente ao mesmo tempo. Deus, onde se enfiara a força que demonstrei algumas horas antes? Um som animalesco emergiu da garganta de Clairmont, recebido por outro desse ser que me tirava o ar, pude sentir a vibração de sua garganta e sua mão foi aos poucos se afastando de mim – mas por alguma razão, sabia que o perigo ainda não passara. – Clairmont.
— Battaglia. Há quanto tempo, não? Deixe a moça em paz e poderemos colocar a conversa em dia.
— Vejo que ela é importante pra você. Foi ela que invocou o manuscrito perdido? Escolhe muito bem tuas companhias, amico.
Matthew saltou em cima do estrangeiro, rosnando, como um bicho caçando seu jantar; o outro, por sua vez, mostrava um sorriso atordoante, ávido, com duas pesqueninas adagas à mostra. Meu sangue gelou, Matthew não possuía presas... Talvez esse tal de Battaglia seja de uma raça, ou clã diferente. De qualquer forma, eu precisava fazer algo ou testemunharia um assassinato.
— Já chega — Disse mentalmente para aqueles dois, e eles reagiram, como se estivessem em uma espécie de transe. Matthew levantou-se lentamente, um outro som saiu de seus lábios, dessa vez como um bicho ferido. O tal do Battaglia ostentava uma expressão de estupefação, que quase me deu pena, e também afastou-se. Agora, aparentemente recuperado de uma ordem mental, Clairmont aproveitou para agarrar o colega pelo pescoço e proferir diversas imprecações em occitano – uma língua românica falada no sul da França, Vales Occitanos, Mônaco, e no Vale de Arão, regiões referidas como Occitânia ou País d'Oc. Atordoado, o italiano meneou a cabeça positivamente como pôde, isso fez com que o francês o soltasse.
Após a partida do estrangeiro hostil, ainda fui procurar a chave na bolsa, em vão; minhas mãos tremiam demasiadamente, e não queria mais nem relancear Matthew.
— Aqui, deixe-me ajudá-la...
— Pode deixar, faço isso sozinha. – Retorqui, entredentes – Obrigada, e tenha uma boa noite.
Resignado, e com as sobrancelhas franzidas, o vampiro tomou seu rumo – não sei se chegou a olhar para trás e honestamente, não me importava. Finalmente fui capaz de abrir o ateliê e entrei, desesperada para gritar e esquecer de tudo que vinha acontecendo.
Raios de sol cascateavam pelas janelas do estúdio, e acariciavam meu rosto; abri os olhos e um sorriso genuíno irrompeu de meus lábios secos e após me espreguiçar e contemplar mais uma vez aquele espetáculo matinal, juntei coragem para me levantar e iniciar mais um dia.
Uma amiga de Matthew Clairmont, Miriam – também vampira – fora encarregada de tomar conta de Diana Bishop e mantê-la longe de qualquer criatura enquanto estivesse na Bod, já que foi esse o local onde a historiadora invocou e desencantou o exemplar de Ashmole. Tantos segredos o rodeavam, tantos perigos e quanta inveja pode existir em uma comunidade na qual os membros deveriam se ajudar.
Naquela manhã, a acadêmica chegou ao vestíbulo da biblioteca na hora de sempre, subiu as escadas e se dirigiu ao canto próximo da mesa de devolução, certa de que o veria. Clairmont não estava lá.
— Está precisando de alguma coisa? – Perguntou Miriam irritada, fazendo a cadeira tombar quando se levantou.
— Onde está o professor Clairmont?
— Ele está caçando na Escócia – Ela disse de má vontade.
Caçando. Engoliu em seco.
— Ah. E quando volta?
— Sinceramente, não sei dra. Bishop. – Ela cruzou os braços, batendo o pé de leve.
Revirando os olhos discretamente, a bruxa tratou de desviar do caminho da vampira com cara de poucos amigos e se dirigiu a sua mesa habitual para começar a trabalhar, porém, a dificuldade para se concentrar foi maior que a produtividade de suas investigações.
Depois do que pareciam horas, os dedos da pesquisadora americana começaram a formigar de uma maneira alarmante – era essa a sensação que a dominava toda vez que uma bruxa, ou um bruxo estava por perto. Hesitante, ao levantar os olhos azuis, ela pôde ver que se tratava de um bruxo, trajando um casaco de tweed marrom e cabelos tomando uma coloração esbranquiçada. Nada de bom podia vir daquele homem, ela tinha certeza. – Dra. Bishop? – Chamou-a, e seu corpo foi tomado por um pressentimento assolador.
— Posso ajudar?
— Meu nome é Peter Knox. – Os dois assentiram e ele prosseguiu. – Normalmente não há tantas criaturas por aqui... Acredito que se espalhou muito rapidamente o boato de que a senhorita abriu o Ashmole.
— Me desculpe, senhor Knox, estou ocupada. – Ela fez questão de enfatizar sua condição de não acadêmico.
— Faz bem em permanecer calada, mas lhe asseguro que sou um amigo. Hum, podemos conversar tomando um café? – Como Diana recusasse seu convite, ele precisou pensar rápido – Ou prefere chá, como sua mãe?
Os dois, que mais se assemelhavam a um avô acompanhando sua neta ou filha a um passeio, fizeram seu caminho a um elegante estabelecimento onde se servia variedades de chás, bolos e doces – indianos – se ela não se enganava. Conversaram a respeito dos pais da historiadora, principalmente sobre Rebecca Bishop, por quem Knox nutria um grande apreço. A tragédia os envolvendo fora tratado pelos dois, antes do bruxo iniciar o assunto que realmente lhe interessava – Então a senhorita o solicitou, simplesmente? – Como ela assentisse, Peter protestou – Isto é estranho, pois, eu pedi o livro esta manhã, e fui informado de que está desaparecido há anos.
— Como isso é possível? – Ela objetou – Eu o retirei.
— E presumo que o devolveu.
— É claro! – Replicou, já perdendo a paciência. – Não roubaria um livro da biblioteca.
— Claro que não... Talvez tenha sido uma reação típica de aniversário, relacionada com a data em que o feitiço foi lançado. Às vezes, a passagem do tempo interfere na feitiçaria, e os aniversários são momentos particularmente voláteis. Se você ainda não tentou evocá-lo outra vez, garanto que se tentar não será tão fácil quanto na primeira vez.
— E a celebração seria de qual aniversário?
— O sesquicentenário. Preciso perguntar... O que houve quando o abriu?
— Vi apenas uma página.
— E o que havia nela?
Aquilo estava indo longe demais – Uma ilustração... Da criança filosofal.
— Deve ter algo mais, deve ter visto mais alguma coisa.
— Agora eu é que preciso perguntar... Por que isso é tão importante para o senhor?
Depois de uma pausa para recuperar o fôlego, ele responde.
— Esse manuscrito nos pertence – ele disse com veemência. – Somos as únicas criaturas que podem compreendê-lo e guardar os segredos nele contidos.
— O que há nesse manuscrito?
— Feitiços jamais imaginados. Encantamentos que podem trazer a união ao mundo. – O rosto de Knox se fez sonhador. – O segredo da imortalidade. Como as bruxas fizeram o primeiro demônio. Como os vampiros podem ser destruídos de uma vez por todas. Esse manuscrito é a fonte de todo o nosso poder, passado e presente. E não pode cair nas mãos de outros seres.
— Engraçado como o senhor se contradiz. Se me dá licença.. – Sua voz era pura decepção e aborrecimento, e não fez cerimônia para sair logo da presença do bruxo.
À tarde, terminava uma pintura que comecei assim que terminei o café da manhã; tentei ao máximo retratar a cortina dourada que testemunhei quando despertei e acho que obtive sucesso, apesar de que a magnitude daquele acontecimento não podia ser reproduzido por mãos humanas. Enquanto eu lavava as mãos, ouvi o som característico de um punho batendo à porta, não precisava nem abri-la para saber que se tratava de Dra. Bishop. – Diana, não posso dizer que foi uma surpresa, mas que bom ver você! – Ela me saudou com um abraço, muito bem vindo, por sinal. – Entra, meu bem. Quer um chá?
— Você lê mentes e nunca me falou?!
Com um riso compartilhado por nós, me virei de costas para ela a fim de preparar a bebida fumegante. Quando a chaleira apitou, desliguei o fogo e fiz a infusão de um dos meus chás preferidos; depositei uma pequena jarra de leite e o açucareiro na mesa, servi a bebida em duas xícaras, também as colocando em cima da mesa. Pedi a Diana que se sentasse e relaxasse. Já instalada, ela adicionou meia colherinha de açúcar e, um pouquinho de leite à bebida. Depois de cumpridas todas as etapas, mexeu o chá no sentido horário, e então, sorveu um gole. Sorri assistindo ao seu ritual, porque... Eu fazia da mesma forma.
— Di, aconteceu alguma coisa com você por esses dias? Juro que posso sentir quando não está bem, mesmo à distância...
— Um bruxo chamado Peter Knox veio me abordar...
— Deixe-me adivinhar: à respeito do tal Ashmole 782, correto? É estranho, mas toda vez que alguém o menciona, minha cabeça doi pra caramba. Desculpe, estou te interrompendo...
— O homem odeia todos aqueles que não são bruxos, e eu tenho medo, Jo. Só quero ter uma vida normal. O que devo fazer?
— Querida, por mais que seja difícil crer, você não é normal. Não pode continuar negando sua natureza. – Tomava sua mão, acarinhando-a – E quanto ao livro... Posso tentar retirá-lo.
Os olhos de Diana se arregalaram e me encolhi na cadeira, me preparando para um discurso de irmã para irmã.
No dia que se seguiu, Diana acordou cedo, e se preparou para correr pelo largo da Universidade, aproveitando que os alunos voltariam de férias na próxima semana. Dois hábitos que a pesquisadora possuía e que a ajudava quando precisava esvaziar a cabeça: Remar e correr. Para ela, era como voar, o estresse se dissipava de seu sistema como a escuridão se dissipava de um cômodo quando o interruptor era acionado. Entretanto, naquela manhã, a corrida não estava surtindo o efeito desejado, sua pele formigava e seu coração apertava-se.
— Aquilo foi rápido. – Soou uma voz nada acolhedora, cuja dona se achegava em passos calculados e tomava a mão que continha aquela queimadura – O que aconteceu com sua mão? Oh, acho que foi o livro, quando você o abriu.
— Quem é você? – Rapidamente puxou a mão do aperto da outra.
— Você foi o imã disso, magia atrai magia. Mas a sua está escondida... – Algo começou a acontecer àquela bruxa, como se estivesse sendo possuída por algum demônio ou, por uma sensação muito forte. – Alguém fez algo com você, ou você fez a si mesma. Alguém muito importante pra você corre perigo...
— Você é o que? Uma serva do Knox, é isso? Diga a ele para se esquecer desse manuscrito. – As palavras jorraram da boca de Bishop como nunca antes, os limites dela estavam sendo testados há um tempo.
— Não é apenas sobre esse manuscrito – A morena murmurou, estendendo a outra um sorriso maléfico – É sobre você.
Enquanto isso, na propriedade de Hamish Osborne, em Lanarkshire, Escócia, temos um vampiro se preparando para partir e um demônio o aconselhando a agir com cautela. – Espere! Pense antes do seu próximo passo.
— Não, outras criaturas irão querer o livro. Tenho que botar as mãos nele antes que consigam.
— Sei que precisa do livro, mas você representa perigo pra ela. Pense no que houve com as mulheres que desejou. Elena, Cecilia...
— Queria nunca ter te contado.
— Mas o fez, porque queria que eu fosse sua consciência.
— Depois de Cecilia, jurei que nunca mais me envolveria com outra sangue-quente de novo, sabe disso.
— Mas, Matt, o jeito como fala de Diana Bishop, e dessa Joanne... É tão atípico de você. Apenas quero protegê-lo. Não volte para Oxford até ter certeza que será capaz de se controlar perto das duas.
Após um drinque que tivera com Nicholas Marsh, o diretor da faculdade, Bishop tomava seu caminho de volta para seu apartamento, quando uma voz minaz ecoou por sua cabeça, fazendo-a se sentir vulnerável como nunca.
Não pode escapar de mim tão facilmente
Eu preciso desse livro, precisamos desse livro
Pavor lhe permeava o ser, e este se transformou em fúria assim que localizou o dono da voz. Knox. Tamanha fora sua concentração e força que o vidro da janela de onde o odioso ser espiava partiu-se em mil pedaços.
Algo me chamava, uma energia que chegava a ser musical me atraía como uma sereia seduz o marinheiro; Um poder ao mesmo tempo perigoso e convidativo me deixava sem escolhas a não ser me dirigir até o local onde me guiava. Foi no pátio da Universidade onde encontrei minha amiga, totalmente fragilizada e exasperada; Sem pensar em nada, apressei-me em sua direção, envolvendo-a em meus braços, prometendo sempre cuidar dela. A acompanhei até seu alojamento e passei a noite por lá.
Assim que amanheceu, ela me pediu para ir com ela até o alojamento do Professor Clairmont, talvez já tivesse retornado da caçada; seria bom conversar com mais alguém sobre isso tudo que está havendo, e certamente ele nos receberia de braços abertos.
O vampiro chegara alguns minutos depois, seus olhares repousaram um no outro como imãs, uma conexão profunda era compartilhada e evidenciada toda vez que se viam, era deveras emocionante. Fomos convidadas e adentrar seus aposentos; ela sentou-se em uma cadeira, enquanto ele eu ficamos de pé. – Como foi na Escócia? – Di indagou, iniciando um tópico relativamente leve.
— Ótimo.
— Miriam disse que você estava caçando.
Ele soltou um suspiro e fincou as unhas na palma das mãos.
— Ela não devia ter falado.
— Por quê? – Como ele não respondesse, ela fez outra pergunta, a testa suando – Você estava sozinho?
Ele levou algum tempo para responder. – Não.
— Também não estivemos sozinhas por aqui... – Palavras ditas por mim, em tom ácido, enquanto passava a mão pelo rosto. Ainda estava um pouco zangada com Clairmont, e creio que a historiadora notou, pois olhou para mim com uma expressão grave.
— Abordaram você também? Por que não me contou?
— Achei que não fosse importante, ora. Há outras coisas para nos preocuparmos.
Depois de um silêncio intimidador, Bishop reconheceu que estávamos certos quanto ao livro e ao uso de magia; Por mais que quisesse, e necessitasse negar tudo o que tivesse relação com seus poderes, a verdade é que a mágica estava em seu sangue, em seu coração, e já era hora de assumi-la.
— Por que me procuraram? – Ele tava falando sério?
— Matthew, ela precisa de ajuda. Precisa de pessoas que a apoiem ao invés de julgamentos e indagações...
— Knox quer o livro? – Ignorada com sucesso.
— Segundo ele, contém os primeiros feitiços; métodos para se obter imortalidade; fórmulas para criar e destruir...
— Ele sabe que você o devolveu?
— Sabe, e quer que eu pegue novamente.
— E você vai? – Questionou ele, incrédulo.
— Eu vou tentar. – Me manifestei, obstinada.
— Você não está raciocinando, Joanne. Como, em nome de Deus, faria isso?
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