Linhas da Vida

13 Pirilampos que são luz


Enquanto eu admirava a pequena imensidão que meu jardim poderia oferecer, eu contava os brotos de flores que há muito tempo eu não via florescer, é um sentimento agradável quando podemos ver os frutos que não são nossos verem a luz do dia, como se fossem pequenas gotas do orvalho evaporando e ascendendo como espíritos livres e sem remorso, de não terem usurpado o próprio tempo em devaneios e inconsequências. Eu conseguia contar cada pedaço de retalho que usaram para amarrar um a um dos caules e troncos frágeis que foram surgindo, em que a força era maior e menos frágil quando estavam unidos.

Era estranho a sensação de não poder descer pelas escadas e conseguir estar com eles, mas saber que lá de onde eu estava, conseguia admirar o esforço de cada um que fazia aquele jardim florescer. Era um passo atrás do outro, um cavar diferente, outros mais lentos, outros mais rápidos, mas todos com o mesmo capricho e cautela para não incomodar a plantação do broto ao lado. Conseguia ouvir as conversas, conseguia perceber as risadas fartas de alívio e alegria, eu estava feliz ao admirar aquilo.

Embora houvesse um aperto no coração, de não estar presente, de sentir que poderia fazer mais por eles. Entretanto, havia comigo as minhas batalhas que eu não poderia abrir mão, tudo dependendo do meu esforço no momento, eu estava combatendo meus próprios medos e anseios, eu precisava de suporte, e sabia que ali eu fazia comigo o que era melhor para mim, sem pular fases, pois cada areia da ampulheta era importante para o meu florescer.

Nem mesmo odor do café recém coado diante da minha visão no parapeito da janela confortava meu coração, eu bebericava cada momento com calma, encarava a minha existência com um prazer único, nem um pouco sereno, não consigo mais me enganar ao afirmar que não poder plantar minhas próprias flores não me afeta, eu apenas sinto que estar enraizado onde estou me permite um sentimento que inconforma meu coração. Eu posso sentir o odor do orvalho já repousando, posso admirar a luminosidade desaparecendo, posso ouvir os sons do entardecer se reduzindo.

Anoitecer era um fato, com o crepúsculo consumindo totalmente os últimos raios de sol, porém, diante de mim, não era um jardim que adormecia junto dos demais, ali havia vida, ali nada repousava. Tudo se alumiava com os pirilampos, eles seguiam os caminhos próprios, de flor em flor, e somente eu conseguia vê-los naquele instante, e eu os seguia com meu olhar cansado, eram momentos de calmaria e sanidade, em que se permitia que os devaneios fossem ou viessem, retornando ao estado basal de ser apenas um momento interessante de se comparar.

Era mais um dia solitário em que eu me abraçava sozinho, com meus próprios sentimentos, eu sabia que nada poderia realizar se não somente permanecer onde estava, sem perpassar por cada momento, cada evolução. Não há virtude sem sofrimento, embora seja um sofrimento que amo, momento este que preciso estar, preciso resplandecer para ser meu aquilo que me é aguardado. Sei que foram anos e momentos, foram minutos e segundos, cada degrau dessa minha cura foi e será um momento único para eu poder descer novamente e estar com eles, em um jardim, podendo regar e irrigar as minhas plantas, que agora serão minhas e de mais ninguém, as quais poderão florescer em seu tempo e em seu novo amanhã. Afinal, o amanhã não chegará logo se eu dormir mais cedo, então só me resta esperar.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.