Linhas Paralelas

2 A evolução da Trinta e Cinco


Notas iniciais
Focada na personagem Trinta e Cinco, conhecemos o passado dela e a ligação complexa com seu parceiro, será que isso vai dar certo?

Uma casa do campo no plano abrigava um cheiro de nostalgia e musgo molhado naquela manhã, uma mulher de cabelos curtos com rosto enrugado trazia consigo uma cesta de um fruto avermelhado para aquele lugar. Ao abrir a porta deixando um pouco de ventania adentrar o lugar ela sentiu que precisava de alguma forma aquecer aquela sala antes que ela morresse congelada.

A sala consistia em um carpete em forma de urso que abrigava uma mesa com um vaso de água congelada e uma rosa morta no centro dela, um sofá marrom onde o apoio das mãos estava rasgado e uma chaminé com restos de galhos enegrecidos pela combustão, a mulher então arremessou um pedaço de uma perna de cadeira para alimentar a pequena fagulha que se mantinha nas ultimas condições para se mantiver acessa, em frente à sala ela depositou a cesta na mesa, pegou um pote junto a uma colher e começou a esmagar o fruto vermelho bem devagar com o intuito de tirar o suco da mesma, em um copo improvisado de pote de requeijão que continha o liquida do fruto vermelho ela levou para o quarto que nada mais é que tijolos improvisados com um colchão antigo onde uma mulher completamente enfaixada estava repousando.

A mulher doente então se pôs sentada com dificuldade e pegou com as mãos aparentemente sem pele coberto por faixas o pote de requeijão e a levou a boca, por algum motivo o liquido avermelhado irritou os ferimentos dos seus lábios que logo entregou o recipiente a mulher.

— Você pode ao pior dizer seu nome para procurar a pessoa responsável por você.

— Eu não sei, mas eles me chamam de trinta e cinco.

E assim trinta e cinco despertou de seu sono pesado quando seu parceiro a avisou da chegada ao destino combinado na missão.

2.0 — Universo 414, local não catalogado.

Trintacinco encara o cenário a sua frente bem diferente do que está gravado em sua memória. Em sua cabeça ela lembrava um terreno fértil com um gramado que estendia ao horizonte e no centro do mesmo encontravam-se uma casa simples com chaminé feito de tronco de madeira, agora não passa de uma terra morta e seca com uma casa completamente deteriorada como se tivesse entrado em chamas por motivos desconhecidos.

Trintacinco foi em frente até a casa destruída se perguntando o que havia acontecido e Vinteoito ignorou a preocupação de sua parceira e seguiu para o lado oposto tentando encontrar qualquer evidência do que tinha acontecido.

Caminhando pelos destroços ela passou os dedos no sofá completamente em combustão, na mesa da cozinha deteriorada, forçou a madeira para abrir passagem para um quarto onde ela não conseguia reconhecer nada pela destruição e no meio do quarto ela encontrou um copo de requeijão onde havia uma pequena planta que acomodava uma fruta avermelhada que um dia serviu de remédio para aliviar seus ferimentos de queimadura.

Vinteoito foi ao encontro a sua parceira no quarto completamente em duvida.

— O que aconteceu aqui? Parece que toda essa realidade foi consumida em chamas.

— O universo 414 é o menor universo conhecido pelas linhas paralelas, mesmo assim eles colocaram no setor não catalogado, como se eles não ligasse para o que acontecia para essa realidade.

— Mas não viemos averiguar o que realmente aconteceu aqui porque já foi tarde demais.

— Eu sei, é sobre o rastreamento de socorro nessa região, mas aqueles velhos da presidência parecem que me mandaram aqui só para me provocar.

Ela pegou o copo de requeijão com a planta dentro e colocou dentro de um envelope transparente.

— O que é isso?

— Evidências.

Não é a toa que o universo 414 é considerado o menor universo de todas as realidades, ela consiste em apenas um planeta no centro do universo (literalmente, pois analisando fotos de telescópios dessa realidade notou-se que há algum tipo de barreira que limita o universo em forma de um arco e esse micro planeta se encontra literalmente no centro dela).

— Esse lugar não faz sentido ter algum tipo de fiscalização, ele não tem condições favoráveis para se criar vida.

— Eu nasci aqui.

— Bem isso é um mistério que não sabemos como aconteceu.

— Minha mãe estava aqui antes de mim.

— Tem gente que acredita que o universo foi criado por um ser ciente, mas nunca se perguntou de onde esse ser surgiu, deve ser a mesma lógica de sua mãe.

— Elas não tentam se perguntar por que é menos trabalhoso.

— Ou porque talvez não se tenha respostas.

— Você nunca se perguntou como a organização linhas paralelas surgiu?

— Não, eu só aceitei o trampo pelos benefícios mesmo.

Um barulho fora da casa chamou atenção dos dois, Vinteoito logo se armou com um pequeno revolver enquanto Trintacinco tirava de seu bolso um bastão que poderia se transformar em um chicote de plasma, eles seguiram sorrateiramente até a entrada da casa quando um brilho radiante cobriu toda a sala, ambos se abrigaram na parede mais próxima para que a luz não o tocasse, ate que a porta se abriu abruptamente revelando o vulto de duas pessoas trajando uma roupa de radiação.

“Trinta e cem?”- Pensou Trintacinco.

Mas não, não eram os agentes que vestiam uniformes de radiação para realizar missões perigosas em universos inóspitos e hostis, as vestimentas de ambos eram diferentes, de uma cor vinho utilizando mascaras de gás e empunhando um fuzil, ou algo parecido.

Um dos invasores levou o radio próximo a mascara de gás e confirmou que não havia ninguém ali em uma língua que ambos não tinham noção de qual realidade poderia ser.

Assim os dois invasores saíram da casa e foram em direção a sua nave, quando Trintacinco espreitando a janela viu a nave de eles abrirem voo, naquele instante ela achou que estaria mais segura quando um braço longo saiu de dentro da nave e guinchou o veículo que os dois agentes utilizaram para chegar naquele universo.

— Eles estão pegando nosso veículo! — Sussurrou Trintacinco.

— Deixa comigo.

No Pulso do Vinteoito havia um relógio que nada mais era que um controle do veículo, após apertar alguns códigos de autorização ele então pressionou o botão de autodestruição. Trintacinco então viu incrédulo o único veiculo que faria sair daquele universo explodir, atingindo um dos geradores da nave invasora que despencou e espatifou no chão.

— Você tá ficando louco! — Gritou Trintacinco. — Como a gente vai voltar pra sede seu idiota.

— Regras são regras, não posso permitir tecnologia de a linha paralela cair nas mãos de agentes desconhecidos.

— Puta que pariu que vontade de ti matar Vinteoito, agora me explica como a gente vai sair dessa situação?

— Simples, vamos mandar um envio de resgate.

— Pois fique tentando fazer isso.

— E você vai fazer o que?

— Ver se tem algo na nave que eu possa consertar para tirar a gente daqui.

2.1 — Dentro da nave dos viajantes desconhecidos.

Nenhum sinal vital.

É o que dizia o relógio de pulso da Trintacinco enquanto analisava o corpo dos dois invasores desconhecidos, mas ela sabia que por ser uma tecnologia poderia falhar às vezes assim sendo ela carregou os dois corpos para fora da nave e amarraram com seu chicote de plasma os dois indivíduos na arvore, por um instante ela teve curiosidade para saber quem eram eles, mas a vontade de sair daquele lugar que trazia péssimas memórias era mais forte que isso assim sendo ela se dirigiu até a nave.

Boa parte dos itens que poderiam ser uteis foram destruídos pela explosão, as únicas partes da nave que pareciam estar intactas era a sala de pilotagem e alguns quartos que aparentemente não tinha nada de útil neles, Trintacinco bisbilhotou entre os painéis e armários em busca de algo que pudesse ser utilizado para consertar o gerador destruído pela explosão, mas nada de útil até que um relógio semelhante àquele que utilizava em seu pulso estava jogado em uma bancada em meio a peças e componentes eletrônicos além de um soldador e aparelhos de medição.

2.2 — Dentro dos restos da casa tomada pelas chamas.

Vinteoito com o seu gerador e micro antenas sobre a mesa tentava a todo custo acertar a estação que correspondia á frequência emitida pelo Limbo verso, local que se encontrava a sede, para enviar um pedido de socorro, por um instante ele se arrependeu por ter explodido o veículo, mas logo o seu sentimento de dever com a associação foi muito maior que seu arrependimento e ele assim esqueceram a historia. Trintacinco então sem nada encontrar de útil se dirigiu a casa munida do relógio que estava na bancada da nave, ela depositou o mesmo na mesa onde Vinteoito estava trabalhando para chamar sua atenção.

— Isso é?

— Um relógio da associação, aposto que o sinal de socorro veio desse item.

— E porque estariam com eles?

— Não é óbvio seu idiota? Eles devem ter matado um de nós, quando alguém tenta de alguma forma obter informações da tecnologia das linhas paralelas ele emite um sinal de socorro.

— Mas eles não estavam aqui quando o sinal foi emitido.

Ela pôs as mãos sobre a mesa para se apoiar.

— Será que eles fizeram isso de propósito? Para chamar nossa atenção.

— Assim contatando agentes das linhas paralelas que poderiam vir aqui com tecnologia de lá eles poderiam capturar os agentes e tomar a tecnologia para eles.

— Então possa ter uma ligação deles e de meu mundo ter sido destruído.

— Isso faz todo sentido, provavelmente eles estavam à espreita esperando que a gente chegasse então eu fiz certo ter explodido a nave.

— Mas mesmo assim de que adianta, estamos presos nesse universo.

— Não esquenta, é questão de tempo até eu achar a frequência certa.

— Porque não está achando? Esse lugar é fixo.

— Eu sei, mas tem alguma coisa descalibrando meu RF, mas eu não sei o que é...

Trintacinco então imaginou o motivo, talvez algo estivesse interceptando o pedido de ajuda e isso explicaria a mudança de frequência ocasionada por algo desconhecido, assim sendo não haveria um campo variado naquele universo, e sim que alguém estivesse procurando algum sinal de que aquele universo estava habitado por agentes das linhas paralelas.

Ela então pegou a chave inglesa e destruiu as antenas e os geradores de RF assustando Vinteoito com tal atitude.

— O que você está fazendo?

— Estamos mandando sinais para um daqueles agentes desconhecidos, é por isso que você não consegue contatar a sede.

— E o que faremos então?

— Não sei, mas se possível não podemos revelar que ainda estamos aqui.

Um homem com um bigode estranho com cabelo curto entrou na casa destruída segurando um revolver na mão esquerda enquanto na direita segurava o chicote de plasma.

— Parabéns por terem descoberto, mas receio que foi tarde demais.

— Você é? — Indagou Vinteoito.

— Um “agente desconhecido” como você mesmo diz. Meu nome não interessa a vocês, afinal vocês são meus reféns, já que não terei em minhas mãos a tecnologia de ponta da associação linhas paralelas vocês vão me contar tudo sobre ela.

Assim Trintacinco e Vinteoito foram levados para outra nave que havia chegado naquele planeta inóspito.

— Mas nem ouvimos o barulho do motor, ou das luzes.

— Ah, meus engenheiros fizeram um ótimo trabalho escondendo as evidências de minha nave, diferente do ferro velho que vocês explodiram.

Vinteoito tentou botar a mão para dentro da jaqueta, mas o senhor de bigode mirou para ele.

— Nem pense nada ou vai levar um tiro na boca.

— Pode me matar, não tenho interesse em revelar nada a vocês.

O cara de bigode inclinou a cabeça de desdém e disse.

— Tudo bem então.

E disparou contra o peito de Vinteoito, Trintacinco incrédula não conseguiu esconder o rosto de surpresa ao ver seu parceiro tombando sem vida no chão.

— Mas que merda é essa!

— Só preciso um de vocês, anda logo e entra na nave.