Linha do Tempo

7 7 - Conversa entre "amigos"


— Vai ficar tudo bem. Você vai ver.

Depois de um tempo apenas chorando, eu finalmente perdi forças para continuar acordada. Senti quando Kise me pegou nos braços e subiu as escadas devagar, mas depois disso eu simplesmente apaguei.

...

Quando acordei, estava tudo escuro. Meu quarto estava com a porta encostada e o abajur ligado. Kise foi embora e deixou um recado no celular explicando sua saída e dizendo que chamou alguém para tirar o corpo da minha vó.

Suspirei. Sentia o coração pesado por causa de Nana. Não queria sair da cama.

Peguei o celular e coloquei as músicas em aleatório. Começou a tocar The Call, de Regina Spector. Aquilo me colocou pra baixo e decidi desligar o celular.

Fiquei mais um tempo deitada na cama, até que o estômago reclamou de estar vazio. Desci as escadas e peguei alguma coisa para comer, qualquer coisa.

Acabei vendo meu reflexo no microondas.

Você está horrível, Karen, pensei.

Ouvi o telefone tocar e fui atender.

— Alô? — A minha voz saiu mais rouca do que o esperado.

— Karen? O que aconteceu? Sua voz não parece nada boa. — Ouvi a voz de Davi no outro lado.

— Não é nada — menti.

Mas eu deveria saber que era inútil. Davi era ótimo em perceber quando precisávamos de ajuda.

— Estou passando aí pra gente conversar.

— Não, Davi. — Tentei impedir. — Por favor.

Mas ele não me ouviu e desligou. Suspirei, em parte por frustração, em parte por alívio. Não queria admitir, mas talvez uma companhia me fizesse bem.

Depois de um tempo, ouvi uma batida na porta e fui atender, certa de que era Davi.

Seu olhar estava na cor azul-marinho e me olhava com atenção.

— Quer me contar o que aconteceu? — Ele perguntou.

— Eu não sei... Foi algo muito ruim.

— Entendo, mas você não pode guardar só para si. Sou seu amigo, não sou? Pode me contar.

Suspirei.

— Podemos dar uma volta, se acha que isso vai te ajudar — ele sugeriu.

Assenti e saí. Fechei a porta atrás de mim e comecei a andar junto com Davi. Contei a ele o que aconteceu e ele me olhou com preocupação.

— Sinto muito. — Disse ele colocando a mão em meu ombro.

Assenti.

— Olha, você sabe que pode voltar no tempo e desfazer isso, não é?

— Mas a que preço? — Perguntei. — Não se deve mudar o passado... Por mais que o presente seja doloroso.

Davi passou a mão ao meu redor e me abraçou de lado. Eu me senti um pouco constrangida, mas não disse nada. Ele queria ajudar.

— O presente não precisa ser tão doloroso assim, Karen. — Ele comentou.

— O que está querendo dizer? — Perguntei olhando em seus olhos.

Ele sorriu e olhou para o chão.

— Só estou dizendo que você pode contar conosco — me olhou antes de terminar a frase: — seus amigos.

Senti um conforto com as palavras dele. Sorri, e isso pareceu agradá-lo. Ele iria dizer mais alguma coisa, mas um cachorro o atrapalhou, pulando em cima de mim e me lambendo inteira.

— Argos! — Ri. — O que faz aqui?

Davi ficou sem reação enquanto Argos me dava um banho de saliva de cachorro.

— Parece mesmo que ele vai me trocar por você. — Ouvi uma voz conhecida e logo me coloquei de pé.

— Nao!

Nao estava na minha frente, sem o machucado em sua boca de antes. Ele sorriu quando disse seu nome.

— Olá, Karen. — Olhou para Davi um pouco confuso. — Eu... atrapalhei alguma coisa?

— Não. — Davi respondeu, sorrindo. — Eu sou Davi, amigo da Karen. — Seus olhos assumiram um tom arroxeado, sinal de que estava sendo educado por educação.

— Eu sou Nao. — Sorriu. — Nao Mitsu, mais novo amigo de Karen.

Davi o saudou com um movimento de cabeça.

— Então, Nao, o que faz aqui? — Perguntei.

Ele olhou para mim e Argos foi para seu lado.

— Estava te procurando. Tive sorte em te achar aqui.

Sorri.

— Teve mesmo. O que quer comigo?

Nao ficou sério. Sabia do que ele iria falar. Ou melhor, de quem ele iria falar.

— Quero falar sobre Karo Haru.

— O caçador? — Davi perguntou.

Nao assentiu.

— O que quer falar sobre ele? — Perguntei.

Argos lambia as mãos abaixadas de Nao, mas ele não ligava. Seus olhos estavam fixados em mim, e isso me deixou um pouco desconfortável. Depois de algum tempo em silêncio, ele finalmente disse:

— Ele está preparando uma caçada. -Disse ele, devagar. — E adivinha quem é o prêmio.

Senti minhas pernas falharem. Davi me segurou antes que eu caísse. Karo realmente queria alguma coisa comigo. Mas... o quê?