Linha do Tempo
11 11 - Nem tudo é o que parece - Parte 2
— Vou te mostrar a verdade, Karen. Vou te mostrar que não se deve confiar em ninguém.
Quando finalmente voltei a enxergar, me encontrei em um lugar totalmente diferente. Nunca tinha visto na minha vida. Fiquei zonza por alguns momentos até ouvir a voz de alguém bem conhecido.
— ...ser cauteloso. Não somos viajantes comuns, mas mesmo assim... — A voz de Bruno me desestabilizou um pouco.
Karo tinha aparecido em cima de uma barra de ferro ao meu lado. Demorei um tempo para reparar que estávamos em um tipo de armazém. Karo e eu estávamos escondidos nas sombras do teto.
Lá em baixo, dois rapazes e uma garota estavam conversando. Eu não conhecia a garota de lugar nenhum, mas os rapazes... Uma mistura de raiva e angústia se formou no meu coração e na minha garganta.
— Haru é o nosso líder. Mas acho que ele está se movendo muito pelo sentimento. — Kevin disse, se espreguiçando. — Ele é um idiota se pensa que a garota é especial.
Karo suspirou ao meu lado. Bruno pareceu não gostar nada do comentário de Kevin. Ele se preparou para segurar a gola de Kevin, mas a garota o puxou para trás.
— Parem com a brincadeira, crianças. — Ela disse com indiferença e tédio. — Emoção ou não, Karo nos colocou no rastro da garota.
Bruno se soltou e a olhou.
— Eu não ligo para as ambições de Haru, Lety. Deveria aprender a não ligar também.
A garota chamada Lety revirou os olhos e assobiou. Uma águia careca pousou em seu ombro e esticou as asas.
Ela olhou diretamente para Bruno.
— Se os desejos pessoais de nosso líder não deverão ser atendidos... Quem disse que seu interesse na garota deverá valer de algo, Misaki?
Kevin sorriu de lado e cravou uma faca na mesa.
— Letícia tem razão.
— Vocês estão se desviando do objetivo. Nao Mitsu deveria ser o próximo. Não a Karen.
Letícia sorriu.
— Mitsu foi apenas uma distração. Claro, ele nos causou muitos problemas no passado, mas os Conselheiros não querem seu sangue ainda.
— Em outras palavras — Kevin disse, com um sorriso confiante -, está tudo ferrado para a Karen.
Letícia se aproximou de Bruno e a águia em seu ombro gritou.
— Chegou a hora de escolher, Bruno — ela disse olhando em seus olhos. — Quer mesmo alimentar um romance adolescente ou quer viver como um dos grandes entre todos os seres?
Bruno ficou um tempo em silêncio, esse gesto dele me fez tremer de medo e de raiva. Eu queria gritar para ele não fazer isso. Queria gritar para ele enxergar o que estava prestes a fazer, mas não conseguia. Aquilo me fez entender uma coisa: não estava no presente. Aquela cena já havia acontecido e eu não poderia fazer nada para alterá-la.
De algum modo, Karo Haru me levou ao passado de meu namorado. De algum modo, eu e ele havíamos quebrado a linha do tempo e invadido o passado de alguém.
Assim que me dei conta disso, me senti fraca. Vozes sussurravam, me chamando de invasora. Culpada. Olhei para Karo. Ele estava sorrindo.
— Eu disse que teria a minha confirmação. — Ele sussurrou. — Agora... Só preciso de você.
Karo me segurou pela cintura com uma mão e, com a outra, meu pulso. Começávamos a desaparecer, quando eu ouvi, bem distante, a voz de Nao... Gritando para que eu permanecesse acordada. Mas... Já era tarde demais. Eu tinha desmaiado... Mais uma vez. Mas algo me dizia... Que aquilo seria a pior coisa para mim.
Apesar da péssima sensação... E da plena escuridão... Eu só pensava em algumas coisas... Bruno estava me traindo. Kevin era um caçador e poderia fazer qualquer coisa com os meus amigos. Karo me tornou culpada diante dos Conselheiros e ganhou o direito de fazer o que quisesse comigo (isso me assusta). E o pior... Não sabia o que aconteceria e não podia fazer nada. Só... Aguardar o futuro.
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