- Ikki, se apresse, senão iremos nos atrasar pra aula!

- Vai na frente vai, Shun. Eu entro no segundo tempo — o moreno disse, afundando-se ainda mais entre os lençóis.

O mais jovem bufou, indo em direção à cama de seu irmão e sacudindo seu corpo inerte para tentar acabar com a preguiça deste.

- Você já se atrasou demais esse mês, sabe que não vão te deixar entrar se chegar tarde de novo. Vamos, levanta logo!

Ikki apenas virou para o outro lado, enrolando-se novamente na coberta que o menor havia puxado.

- Não vão me deixar entrar? Melhor ainda, assim não preciso nem levantar.

Shun bateu o pé com força no chão para demonstrar sua irritação. Estava cansado de ter que passar por isso pela maioria das manhãs. Era sempre ele quem tinha que acordar primeiro, tomar banho, fazer o café e preparar tudo para que o maior não mostrasse nem o mínimo de animação na hora de levantar. Aquilo já havia passado dos limites, se o outro quisesse continuar com apenas o ensino fundamental completo pelo resto da vida, ele que permanecesse daquela forma. Shun não iria se atrasar por causa do irmão, iria correr atrás dos seus próprios sonhos e de uma vida melhor por meio dos estudos.

- Então fique aí, dorminhoco. Não vou mais te esperar. Estou indo e, se mudar de ideia, talvez se você correr me encontre no meio do caminho — andou sonoramente pela casa até a saída. — Tchau! — gritou antes de bater a porta com força.

O moreno ficou deitado durante algum tempo, em um ritual para tentar fazer o sono voltar. Suas pálpebras já não queriam mais permanecer fechadas e seu corpo já não conseguia conter o surto de energia que passava por ele, implorando-o para levantar-se. A preguiça era o único fator que o mantinha colado ao colchão. Preguiça de andar, preguiça de comer, preguiça de ver as pessoas da escola, de fazer presença numa aula na qual não prestaria atenção; preguiça de aturar as risadas que inundavam a classe no dia-a-dia. Preguiça de viver. Era isso que sentia: uma enorme aversão à vida.

Suspirou, virando-se para encarar o teto ainda escuro por conta das cortinas que impediam a passagem da luz pela janela. Estava frio, a vontade de levantar era mínima, mas tinha que cumprir com suas obrigações, pois era o irmão mais velho. Que exemplo estaria dando ao caçula se deixasse de fazer as coisas importantes? Não que Shun precisasse de alguém a quem seguir, pensava ele, o menor já tinha convicção suficiente para ir atrás dos próprios desejos, mesmo sendo um menino de treze anos. Queria ser médico, ajudar as pessoas, salvá-las. Quem sabe esse sonho não nasceu depois do que ocorrera a seus pais? Era uma coisa que queria saber, e não se esqueceria de perguntá-lo uma vez que o rapaz houvesse se tornado um profissional, algo que com certeza aconteceria. Shun era inteligente e dedicado, ao contrário de si. Não que Ikki fosse burro, mas não suportava certas matérias e não tinha vontade nenhuma de estudar, o que acabou resultando em sua primeira reprovação no ano anterior. Agora se encontrava na mesma turma que seu irmão, tendo que aturar os olhares que os demais lhe lançavam apenas por ser um repetente. Que eles fossem pro inferno!

Não sabiam nem da metade daquilo pelo que havia passado, não podiam julgá-lo por míseras notas baixas que ele só tirava pela falta de estudo.

Decidiu deixar os pensamentos de lado, pois eles só serviam para deixá-lo com raiva. Tinha que alcançar Shun antes que aquele pegasse o ônibus, mas realmente não queria chegar cedo naquele dia. Resolveu que iria se aprontar propriamente para ir à escola e chegaria tarde mesmo. Se não o deixassem entrar, paciência, ele havia tentado. Quem inventou essa regra de não poder chegar atrasado nos lugares, de qualquer forma? Que coisa chata!

O garoto caminhou até a cozinha, encontrando um prato com um plástico em cima e ovos mexidos com pães dentro, um copo de café com leite ao lado. Em cima do plástico estava escrito "para o Ikki" e isso fez com que seu coração apertasse. Shun era tão bom, diferente das outras pessoas que conhecera neste mundo estupidamente injusto. Os outros sabiam apenas julgá-los, assistir a eles com olhares feios e nunca os ajudaram quando mais precisavam, apenas os jogaram pedras. O menino era a única coisa que fazia com que Ikki ainda quisesse viver, acordar para ver o sol brilhar em um novo dia, pisar no chão gelado descalço e perceber que ainda existia. Shun era sua âncora a este universo. Enquanto ainda o tivesse, não se importaria com o que os demais seres humanos pensassem de si. Todos eram insensíveis e mereciam sumir da face da Terra. Se o planeta fosse composto apenas por milhares de Shuns, com certeza seria um lugar muito melhor do que era agora.

Interrompendo seus pensamentos, pôs a comida dentro do microondas para que não esfriasse e foi em direção ao banheiro. Despiu-se e se permitiu a ter a mente esvaziada pela água morna que caia em seu cabelo e logo percorria todo sua pele. Fechou os olhos e não percebeu o tempo passar.

//

O garoto estava no ponto, esperando o ônibus que já se encontrava atrasado. Era irônico, mesmo saindo cedo de casa e até dando esporro no seu irmão para que este o acompanhasse talvez não chegaria na hora da aula. Mirou mais uma vez o relógio, a condução se encontrava quinze minutos fora do horário. Já estava ficando impaciente e considerando ir a pé mesmo quando avistou um automóvel grande e familiar acercar-se velozmente a si. Olhou para trás, constatando mais uma vez que o mais velho realmente não o havia seguido, suspirando decepcionado em seguida por de fato não ter nenhum sinal dele. Não usufruía de muito tempo para decidir se esperaria mais um pouco ou não porque até mesmo o motorista conhecido aparentava estar com pressa, então subiu rapidamente as escadas e adentrou o veículo.

- Bom dia, senhor Kimura! — cumprimentou forçando um sorriso para esconder o nervosismo que sentia desde que discutira com Ikki. — Por que o atraso hoje?

O adulto aparentava estar cansado. Suava e sua respiração era ofegante, mas não deixou de retornar o gesto do jovem ao qual buscava todos os dias naquele mesmo ônibus. Secou as gotas de suor condensadas em sua testa e ajeitou o boné que usava.

- Problemas, garoto. Muitos problemas... Você não deveria se preocupar com eles.

Shun assentiu e pagou pela passagem. Era preocupante o estado em que o homem se encontrava, mas não poderia ajudá-lo de qualquer forma.

- Espero que tudo se resolva — falou, e observou o outro rir. Era o que realmente desejava, ninguém merecia vivenciar coisas ruins.

- Vai se resolver sim, mocinho. Todo mundo passa por problemas — respondeu divertido. — Agora sente-se que nós já estamos atrasados. Tentarei ir um pouco mais rápido.

O rapaz andou até o meio da viatura, buscando o lugar no qual costumava sentar, até ver uma senhora no assento. Deu de ombros, a idosa viu que este a observava de certo modo e virou o rosto. Shun decidiu que iria ficar na parte de trás do ônibus, que estava vazia no momento. Olhou para fora pela janela e pôs-se a pensar em tudo que o havia aborrecido naquele dia. Estava tudo errado, como o nervosismo exagerado com seu irmão, o atraso do senhor Kimura com o transporte e a velhinha antipática que roubara seu lugar. Com certeza, as coisas melhorariam depois que chegasse à escola e encontrasse com seus amigos.

A linha de pensamento do garoto foi interrompida ao cruzar olhares com uma menina na calçada. Era esquisita, possuía cabelos longos de um púrpura muito peculiar, seus orbes esmeraldas pareciam sustentar os seus próprios com uma atração muito forte, e trajava um vestido completamente branco, que a fazia parecer um fantasma. Sentia como se não estivesse mais ali, como se os únicos seres existentes fossem ele mesmo e aquela garota nos milésimos de segundos que durou aquele instante, até que a mesma finalmente se manifestou, sacudindo a cabeça lentamente como se estivesse negando algo. Shun não teve tempo de saber se aquilo queria dizer alguma coisa ou se devia ter respondido de qualquer forma, pois o motorista arrancou. Manteve o contato ocular até onde pôde, sendo invadido em seguida por uma sensação um tanto esquisita que o fazia ter vontade de voltar para casa e até mesmo matar aula com seu irmão.

//

Decidira que não iria à aula enquanto assistia a um filme qualquer na televisão para esperar o tempo passar. Estava aconchegado demais em seu sofá, no meio de algumas almofadas, e o desjejum que seu irmão havia preparado só havia aumentado mais ainda a vontade de não fazer nada. Mal prestava atenção no programa, parecia uma mosca morta sem nem mesmo saber quantas horas haviam passado desde que Shun saíra.

A mulher e o homem se declaravam um ao outro, a mesma coisa de sempre. Um enredo tão forçado que nem mesmo vontade de rir sentia. Romance era algo tão meloso, tão artificial para si, quem nunca havia experienciado a paixão, que mais parecia que não existia, e era algo fútil. Deixava as pessoas tão vulneráveis às outras, que elas com certeza sempre se aproveitavam a seu ver. Não queria ninguém tomando proveito de si, nem de Shun. Pessoas eram nojentas e não havia mais salvação para a humanidade, apenas algumas raras exceções.

Ikki sabia que, se seu irmão não existisse, ele haveria se perdido já há muito tempo. Sabe-se lá onde estaria agora e se estremecia só de pensar.

Soltou o ar, irritado ao ouvir o telefone tocar de repente. Por fim, olhou para o relógio para constatar que ainda eram oito da manhã. Droga de filme não conseguia nem fazer o tempo passar mais rápido. Levantou-se preguiçosamente e caminhou lento até o aparelho, que berrava incessantemente. Franziu o cenho, devia ser a porcaria da direção ligando-o para dar-lhe lição de moral por faltar mais um dia de aula. Considerou não atender a chamada, mas algo parecia o impelir até o objeto, como se este clamasse por seu nome em urgência. Permaneceu de pé frente a este, escutando o som irritante em um conflito interno para decidir se o tirava do gancho ou não. Quando parecia que o dispositivo ia parar de tocar, decidiu receber a ligação.

- Alô?

E foi após distinguir o que quem quer que fosse do outro lado da linha queria dizer que o mundo de Ikki ruiu.

//

- Ele foi o único sobrevivente, não que houvessem muitos no ônibus — o doutor disse, ajeitando os próprios óculos em cima do nariz. — Sofreu muitas fraturas, alguns ossos estão quebrados e recentemente conseguimos estancar o sangramento de uma ferida profunda. Serei sincero, rapaz, não acho que conseguirá sobreviver.

Silêncio.

- Sei que é seu irmão e que deve ser muito difícil aceitar isso, mas... É quase impossível salvá-lo.

Silêncio.

- Sinto muito.

...

Não era justo.

O garoto de apenas quinze anos — mas já com tanta bagagem emocional para carregar, com tantas fissuras em seu coração, sua alma já quase totalmente estilhaçada — não conseguia nem formular uma resposta. Será que se o médico soubesse que seu irmãozinho queria ser uma pessoa que nem ele, uma pessoa que salva vidas, conseguiria se empenhar mais em fazer com que o pequeno ficasse melhor? Será que se soubesse o tipo de pessoa que Shun era, tentaria com todos os seus recursos fazer com que ele ficasse bem novamente?

Não tinha coragem para vociferar suas perguntas, pois já sabia a única resposta que lhe seria dada e ela doía. Nem mesmo quem era suposto a ajudar os outros possuía a índole necessária para não desistir nunca e, nos primeiros sinais de dificuldade, já considerava o caso perdido. Ikki tinha certeza de que, se seu irmão estivesse no lugar do homem à sua frente, este lhe daria boas notícias, porque Shun nunca desistiria de um paciente e iria salvá-lo com certeza. Só que agora Shun não teria mais essa chance, porque ele iria morrer.

Ao se dar conta disso, o menino mais velho não sabia como reagir. Apenas sentia como se um milhão de pensamentos cruzassem uns com os outros no interior de seu cérebro ao mesmo tempo, e isso o deixava até mesmo meio tonto. As lágrimas começaram a cair, mas não as sentia por conta do entorpecimento que nenhum dos remédios que tomara em toda sua curta vida jamais o dera.

O adulto com o jaleco branco somente observava a cena do jovem sentado sozinho em um dos bancos do hospital, cercado pelas paredes de ladrilho branco. Estava de pé, então não conseguia ver qual a expressão no rosto dele pois permanecia de cabeça baixa, encarando o chão. Percebeu alguns tremores no corpo do rapaz e tomou ciência de que este chorava. Já havia passado situações semelhantes, então não demonstrava mais tanta reação quanto quando havia começado a exercer a profissão. Era difícil admitir, mas era algo possível de se acostumar. Apesar de tudo, ainda sentia uma grande solidariedade pelo moreno desolado.

- Por que? — pôde distinguir o menor dizer em um sussurro.

Suspirou, removeu os óculos e levou os próprios dedos às pálpebras fechadas. Essa parte era complicada.

- Ikki, lhe direi o que sempre digo quando isso eventualmente acontece aos pacientes, pois certas coisas são inevitáveis. Às vezes, acontecimentos ocorrem por algum motivo. Sou médico, um dos maiores amigos da ciência, mas acredito em destino, e em Deus. Se Ele quis que isso acontecesse, deve haver alguma razão.

O menino riu com escárnio.

- Deus... Se Deus realmente fez isso, ele não é alguém bom e justo. Se Deus realmente fosse bom, ele não faria o que fez com Shun...

O médico repôs o acessório e virou-se de costas.

- Isso cabe a você descobrir sozinho. Pode ir visitar o quarto dele, acho que terá alguns dias ainda. Está autorizado a permanecer lá o tempo que quiser, mas apenas você — informou, olhando para o relógio no pulso. — Tenho que ir, nos veremos mais tarde — disse e afastou-se do local fúnebre.

O adolescente demorou mais alguns segundos ali, mas logo levantou-se, caminhando em direção ao quarto de seu irmão arrastando-se pela parede já sem forças para andar. Já sem forças para viver.

//

Dois dias se passaram desde o acidente de Shun com este sem apresentar sinais de melhora. Ikki sentia-se mais desolado do que nunca, o mais novo não havia aberto suas pálpebras até agora e provavelmente não o faria nunca mais. O primogênito também mal pregava os olhos sendo que, quando o fazia, era atacado pelos mais diversos pesadelos e logo despertava novamente, aparentando estar mais cansado ainda. Era difícil sempre olhar para seu irmãozinho e ver que este ficava aos poucos mais pálido, seus cabelos cada vez mais foscos e seus batimentos cardíacos progressivamente mais fracos. Não, não era difícil, era amedrontador, uma sensação que preferia permanecer a vida inteira sem conhecer, mas não teve tal chance.

Talvez estivesse na hora de criar um discurso de despedida, aceitar logo o que ocorreria mais cedo ou mais tarde. Não queria desistir sem lutar, mas estava já ficando sem energia e não sabia nem pelo que lutava. Era incapaz de fazer algo para melhorar a situação de Shun mesmo, então provavelmente a melhor opção seria finalmente se dar por vencido, deixar com que o mundo o destruísse de vez ao levar a única pessoa que lhe dava uma razão de continuar existindo.

O pequeno era tão diferente de si próprio. Frágil, magricela, odiava um conflito e era dono de uma aparência um tanto afeminada, um reflexo completamente distorcido de Ikki. Havia momentos em que se perguntava se realmente eram irmãos, mas era algo irrefutável. Shun com certeza era seu parente, sentia isso como se fosse a única certeza do mundo todo. Sempre o protegera das crianças que queriam zombá-lo quando eram menores, e jurara mantê-lo seguro após a morte dos pais, mas a cena à sua frente mostrava que havia quebrado sua promessa. Se tivesse ido com ele no horário certo, pelo menos morreriam juntos, ou ele poderia ter evitado o episódio de alguma forma, quem sabe.

Sua vista ardia por conta do sono, mas não ousava nem tentar adormecer. Ergueu-se da poltrona localizada no canto do quarto, a qual ele vinha usando e raramente se levantava desde que chegara lá pela primeira vez, indo em direção à porta para poder chegar à cantina do hospital, em busca de um copo de café. Antigamente, a bebida não fazia efeito em si, porém, na situação em que se encontrava, provavelmente o consumo mostrava resultado por conta de seu estado psicológico. Precisava de alguma desculpa que o mantivesse acordado, pois até mesmo os sonhos que tinha davam-no vontade de morrer.

Chegou ao balcão e logo fez seu pedido. Não tardou muito em receber um copo com a superfície totalmente quente, o qual teve que segurar pelas bordas de cima com as pontas dos dedos para não se queimar. Resolveu não beber o conteúdo ali, faria seu caminho de volta e esperaria o líquido esfriar um pouco. Andou até o quarto novamente, repetindo o único trajeto que vinha fazendo nos últimos dois dias sem contar com o caminho até o banheiro. Suas roupas fediam e já se sentia incomodado com a sensação de estar imundo, mas não sairia do hospital por nada neste mundo, apenas quando tudo tivesse acabado.

Girou a maçaneta de metal da porta, abrindo-a como de costume e levando um susto com a cena diante de seus olhos. O copo que segurava foi ao chão, o café se espalhou pelo assoalho formando uma poça em volta de seus pés. Alguns respingos quentes haviam ido parar em sua calça e até mesmo entrado em contato com sua pele, porém os ignorou por conta do alarme que tomava conta de seu ser, a adrenalina fazendo com que o sono sentido previamente se esvaísse rapidamente. Cerrou os punhos, encarando a garota de baixa estatura que se encontrava ao lado do leito de seu irmão, inclinada na direção do mesmo enquanto fitava os olhos do mais velho.

- Quem é você e o que faz aqui? — grunhiu, já adotando uma postura ameaçadora e indo em direção à menina rapidamente. — Saia de perto dele agora!

A jovem ofereceu-lhe um sorriso vazio. Afastou-se do menor, virando-se de frente para o rapaz que ia em sua direção totalmente possesso. Seus olhos brilharam, clareando ainda mais a coloração esmeralda que os constituíam e logo Ikki não conseguiu mais se mover, sentindo como se algo o impedisse de dar ordens ao próprio corpo. Parado no meio do caminho em uma pose um tanto quanto desconfortável — estava prestes a dar o próximo passo, que finalmente iria acabar com a distância entre ele e a intrusa -, o moreno entrecerrou as pálpebras no intuito de amedrontá-la apenas com o olhar, tamanha era sua irritação. O que estava acontecendo afinal? Como era possível que uma menininha, cuja estatura não alcançava nem mesmo seu nariz, conseguisse imobilizá-lo completamente sem nem ao menos tocá-lo? Aquilo não fazia sentido nenhum para si.

- Ikki Amamiya — ela finalmente disse.

O mencionado apenas ficava cada vez mais nervoso, várias perguntas assomando-se em sua mente. Um vento vindo de sabe-se lá onde começou a circular pelo quarto, levantando os longos fios de cabeço violáceos juntos ao vestido branco dela, mas o garoto não conseguia quebrar o contato com seus orbes esverdeados, os quais pareciam emanar uma energia muito além de sua compreensão.

- Co... Como sabe... meu... nome...? — esforçou-se para falar, pois até mesmo isso mostrava-se difícil.

A expressão da menor à sua frente era inexorável. Mantinha-se neutra, sem demonstrar qualquer alteração no humor ou algum nervosismo. Seus lábios permaneciam inalterados em uma linha horizontal, a respiração era estável, seus longos cílios lhe davam uma aparência mais adulta e feminina do que a que uma criança deveria possuir. Ikki então percebeu que a corrente de ar parecia vir dela mesma, o que somente lhe trazia mais dúvidas.

- Ikki Amamiya — repetiu. — Você deseja salvar seu irmão?

Arregalou os olhos, perplexo. Aquilo só podia ser uma brincadeira, e uma de um mal gosto terrível. Sentia o controle que exercia sobre seu corpo voltando aos poucos, logo conseguindo mexer os dedos e esticar o braço. A luz que vinha das pupilas da outra começava a oscilar, mas o menino sentia que o desejo dela era libertá-lo. Assim que conseguiu mover-se por completo, não tardou em alcançá-la e prontamente envolveu o pescoço da mesma com as próprias mãos, ainda sem exercer pressão.

- O que quer dizer com isso? — murmurou entredentes. — O que fez com Shun?

O rosto da menina ainda mostrava-se impassível. Nenhuma de suas ameaças parecia surtir efeito sobre ela e isso já estava começando a frustrar o adolescente. Prestes a começar a enforcá-la sem medir as consequência de seus atos, foi interrompido pelos dedos da mesma que subiram suavemente, roçando por seus braços até pousarem em seus pulsos e ficarem ali. Era um gesto calmante e inocente, até mesmo estranho para Ikki, que acabou se afastando subitamente como se o toque o houvesse queimado.

- Seu irmão — ela começou, desviando o olhar para o garoto desacordado ao seu lado, — Shun, morrerá ainda hoje caso nada seja feito.

O moreno também passou a fitar a direção que a outra fazia, visualizando seu irmão que aparentava estar ainda mais fraco. Como assim? Mas já? Pensava que já aceitara que não haveria mais nada que pudesse ser feito, mas ouvir aquilo de outra boca, dito com tanto convicção, fazia-o perceber que ainda não estava pronto para aquele momento, e que talvez nunca estivesse. Como aquela pirralha poderia saber daquilo de qualquer forma?

- Você é o único que pode salvá-lo — a menina havia voltado a fitá-lo sem que ele percebesse.

- ... Que? — foi a única coisa na qual conseguiu pensar em responder.

A menor virou-se novamente para Shun, só que dessa vez tocou em seu peito com uma das mãos. Ikki se alarmou um pouco, porém logo qualquer receio quanto à estranha ali no quarto se esvaeceu ao sentir como se uma onde de aconchego emanasse dela. Uma sensação indescritível de bem estar apossou-se de si, enquanto observava uma luz dourada sendo emitida da palma da mão dela como se fosse a coisa mais normal do mundo.

- Isso — proferiu — é a linha da vida de seu irmão.

O garoto percebeu que, em seu dedo indicador, ela puxava um fio grosso dourado que partia diretamente do tórax de Shun, no lugar onde deveria ficar o coração.

- Por enquanto, seu cosmo ainda corre por ela, mas logo esse movimento cessará. Você deve salvá-lo antes que isso aconteça.

De fato, uma espécie de fluxo percorria a extensão do fio, que parecia se ramificar em outros mais finos para várias partes do seu corpo. A intensidade da corrente diminuía rapidamente, sobressaltando Ikki. Talvez nada daquilo passasse de um sonho. Podia ter adormecido na conhecida poltrona e tudo o que se passava agora era uma das alucinações loucas que vinha tendo. Fechou os olhos com força, na intenção de tentar acordar e viu que não deu resultado. Ficou ainda mais nervoso, nada daquilo fazia sentido! Uma desconhecida entra no quarto de seu irmão sem nenhum maldito segurança do hospital ver e agora o mostrava coisas que não deveriam existir no mundo real, dizendo que ele era o único que poderia salva Shun. Ele, o preguiçoso inútil que não fora capaz de protegê-lo agora era o único que poderia salvá-lo.

- Por que devo acreditar em você?

Visualizou-a afastando-se de Shun e novamente encarando-o de frente.

- Não posso obrigá-lo a nada. Se não acreditar, custará a vida dele. Se acreditar, poderá salvá-lo, mas também há a chance de você falhar. A escolha é totalmente sua.

Ikki mirou o chão. Era tudo ainda surreal demais, informação demais para absorver em um período de tempo tão curto.

- E por que você iria querer nos ajudar de qualquer forma? — questionou sem nem mesmo pensar, mas percebeu que a pergunta deixou a outra um tanto quanto desconcertada pelo tom de voz evasivo com o qual ela respondeu.

- ... Isso não vem ao caso agora.

Os dois permaneceram em silêncio durante algum tempo, o único som que ecoava no recinto era o do aparelho que media os batimentos cardíacos de Shun, que apitava preguiçosamente, representando o ritmo do coração do pequeno. O vento cessara e tudo voltara ao normal, exceto pela presença persistente da menina à sua frente. Foi deixado sozinho com seus pensamentos, travando uma batalha interna sobre o queria que acontecesse e o que deveria fazer. Seria ele capaz de salvar o caçula e, como prometera, protegê-lo? Não sabia nem por onde começar, o que deveria cumprir e, mesmo que soubesse, será que haveria tempo?

O som proveniente do monitor cardíaco alterou-se para um ruído singularmente contínuo. Desviou o olhar para o mesmo, atônito, percebendo que o mesmo não sinalizava mais sinais de vida.

O coração de Shun havia parado.

- Ikki.

Aquilo não podia estar acontecendo. Shun não deveria morrer. O mais velho deveria estar no lugar dele e...

- Ikki!

Sua atenção voltou para a menina que o encarava séria.

- Você tentará salvar seu irmão?

O vento voltou, as próprias mechar de cabelo escuras batiam em sua face e proporcionavam-lhe cócegas leves, acordando-o de seu transe. Os olhos dela eram intimidadores, mas pareciam transmitir confiança. Certamente, não tinha tempo para questionamentos. Se havia algum modo de salvar seu irmão, Ikki tentaria qualquer, não importa o que fosse. Assentiu com a cabeça e a observou sorrir, a primeira demonstração de emoção voluntária e sincera que havia recebido da mesma.

- Segure minha mão e feche os olhos.

Hesitou um pouco em fazer o que lhe foi dito, porém a garota estendeu-lhe o próprio braço, incentivando-o e ele logo se viu cumprindo sua ordem. Sua mão era lisa, macia e muito mais branca que a sua. O insistente som vindo do aparelho fez com que voltasse à realidade um tanto contraditória e se desesperasse um pouco, fechando os olhos e sendo tragado pela escuridão.

//

Ikki acordou em um espaço completamente vazio. Não havia nada a seu redor, apenas o negro, a inexistência de conteúdo. Seus primeiros passos foram cautelosos, testando para ver se realmente conseguiria andar pois não tinha noção dos limites de nada, nem de que havia chão. As solas dos pés, no entanto, encontravam-se com a superfície invisível mas consistente que havia embaixo de si, e logo caminhava com mais segurança pelo local inabitado. Não sabia onde estava, mas lembrava-se do que havia acontecido antes. De alguma forma, aquilo tudo estava relacionada a salvar seu irmão da morte certa.

"Ikki!"

Escutou a voz agora familiar da garota que o havia levado a tal área. O som vinha de alguma parte acima, mas ao olhar para a direção não identificava nada diferente.

- ... Oi? — desconhecia seu nome, então não sabia como se referir a ela.

"Ikki, você está bem?"

Nem mesmo ele sabia, então fez uma averiguação de si mesmo, analisando algumas partes do corpo para ver se não havia nada errado consigo, constatando que estava intacto. Meneou que sim com a cabeça, mesmo sem ter certeza se ela podia vê-lo. Era desconcertante ficar gritando para o nada, parecia que estava maluco.

Ouviu-a soltar um suspiro de alívio e continuar a falar.

"Aqui é o interior da mente de seu irmão. Você deve encontrá-lo antes que ele se perca aqui para sempre e trazê-lo de volta."

Aquilo o deixou apenas ainda mais confuso.

- Como assim? Como eu encontro ele? Não tem nada aqui! Pra onde devo andar? — berrava enquanto olhava para todos os lados em busca de algum trajeto novo.

"... Não posso ajudá-lo nisso. Deverá achar o caminho até ele sozinho. Você consegue, Ikki, apenas não desista."

Com isso a voz da menina se extinguiu de vez, deixando o moreno realmente sozinho.

Não perdeu tempo ficando irritado com a situação na qual fora largado. Apenas seguiu por uma direção qualquer, sendo obrigado a olhar para os próprios pés por conta da dificuldade de focar em alguma coisa, o que o deixava sem equilíbrio.

Continuou andando até que foi parado por outra pessoa falando.

Tenho medo.

- ... Shun? — sussurrou, alternando o olhar freneticamente para todos os lados à sua volta.

Seu irmão estava perto de si, finalmente conseguia sentir sua presença! Havia escutado sua voz após dois dias sem nenhum sinal de vida do mesmo, e aquilo o deixava mais feliz do que se sentia há anos. Seu coração batia mais rápido, manifestando suas emoções mesmo naquele mundo astral.

Eu não quero morrer.

O menor não parecia tê-lo escutado, então Ikki locomovia-se em volta sem um rumo certo, apenas andando. Precisava achar Shun, precisava certificá-lo de que ele ficaria bem, abraçá-lo, sentir seu corpo frágil encolher sob seus braços, saber que ele ainda existia e permaneceria com ele para sempre.

Ikki, por favor me ajuda!

Sua voz parecia desesperada, fazendo com que o coração do mais velho apertasse. Shun não deveria estar com medo, não quando ele estava ali. Será que havia esquecido que ele prometera protegê-lo?

- Shun, onde você está? — gritou, apertando o passo para tentar encontrar o menino o mais rápido possível.

Não, eu não deveria pedir ajuda ao Ikki.

... O que?

Eu devo ter sempre sido um estorvo. Ele sempre me ajudava porque eu não sabia me defender, não queria crescer e me tornar forte como ele. Era cômodo para mim pois ele sempre me ajudava, não precisava fazer nada. Então eu brigava com ele sempre que ele fazia algo que eu achava errado, mesmo com ele sempre me auxiliando. O quão ingrato eu sou?!

Não, aquilo não era verdade. Shun nunca seria um empecilho para si, ele não deveria pensar dessa forma! Ikki o defendia porque o amava, porque seu irmãozinho era a coisa mais preciosa que existia no mundo todo! Certamente, ele errava várias vezes, e talvez realmente precisasse de sermões, então não tinha porquê ele se sentir culpado.

Se eu morrer, ele não vai mais precisar se preocupar comigo, não serei mais um incômodo. Ele vai poder viver a vida que ele quiser e finalmente vai ser feliz, sem mim...

- Não, Shun! Isso não é verdade.

Ele ainda não ouvia.

Eu queria poder me desculpar com ele pelo menos antes de ir. Agradecer tudo que fez por mim, mas acho que não vai dar. Me desculpa, Ikki.

- Shun, para com isso! Me escuta, droga!

Soluços começaram a percorrer todo o ambiente à sua volta, deixando o maior ainda mais desesperado. Ele agora corria, sem nenhum destino aparente.

Mas eu ainda não quero morrer! Eu quero poder viver com o meu irmão, realizar meus sonhos e ser feliz. Eu não quero morrer, não quero! Alguém me ajuda por favor... Eu não consigo fazer isso sozinho...

Ikki agora tinha lágrimas que escorriam por seus olhos. A voz de Shun era tão angustiada que seu peito doía toda vez que o escutava soluçar. Tinha que achá-lo logo.

De repente, o cenário mudou. Cessou seus movimentos pelo susto, visualizando o redor e percebendo que estava em casa. À sua frente, estavam ele e Shun quando crianças, e também seus pais. Era a cena de quando eles haviam ido viajar para nunca mais voltar. Sua mãe lhe dissera para tomar conta de seu irmão, seu pai passara a mãos em seus cabelos, bagunçando-os; depois eles saíram pela porta e jamais retornaram.

Por que aquilo estava ali? O mais novo lhe dissera que já havia superado aquele acontecido, que agora a única coisa que importava é que os dois conseguissem manter uma vida com uma qualidade estável, o que eles vinham fazendo até o pequeno sofrer um acidente. Olhou em volta, à procura de alguma pista até que o viu. Shun — o Shun de hoje em dia — estava parado na entrada do corredor que levava aos quartos de ambos. Encostava-se parado a uma das paredes, seu olhar vazio assistia à cena e parecia não avistar o irmão do outro lado da sala. Sem vigor nenhum em seus movimentos, virou-se e adentrou o caminho atrás de si. Ikki o seguiu, apressado para alcançá-lo. Quando chegasse até ele, a primeira coisa que faria seria sacudi-lo pelos ombros para que o mesmo parasse com aquele olhar morto e sem brilho que portava, não aguentava vê-lo daquela forma.

O caçula adentrou uma das portas, a de seu quarto. O moreno foi atrás, sendo recebido por mais uma cena, e agora o outro observava pelo lado de fora da janela. Shun, ou sua forma criança, estava deitado na cama chorando, e Ikki tentava consolá-lo. Aquilo havia acontecido depois que receberam a notícia da morte de seus pais. Foi naquele momento que fizera sua promessa, e seu irmão parara de chorar, sentindo-se seguro com a presença do maior. O Shun de verdade se afastou mais uma vez ao término do episódio e Ikki o seguiu, abrindo a janela e pulando por ela.

Foi sendo assim, os dois assistindo a acontecimentos importantes no decorrer de suas vidas. Era como se Shun quisesse mostrar aquelas coisas para seu irmão, mostrar o quanto aquilo significava para si, e o outro apenas o seguia. Chegaram a um lugar ao qual nunca haviam ido antes, mas Ikki reconheceu como sendo a projeção da foto de um dos locais aos quais o menor queria viajar quando fosse mais velho. Estavam no topo de um penhasco, o solo rochoso era duro sob seus pés e real o suficiente para não ser um sonho. O vento soprava gentilmente e balançava seus cabelos, o cheiro do mar entrava por suas narinas e o sol batia em sua pele. O som das ondas abaixo chocando-se contra as pedras viajava até seus ouvidos e o céu estava isento de nuvens, mas foi distraído da paisagem local ao perceber que seu irmão encontrava-se na beirada do penhasco, olhando para baixo.

Quero que minha vida termine aqui. Pelo menos, a última coisa da qual me lembrarei será de algo belo, algo que não traga saudades e nem arrependimentos. Eu quero esquecer, esquecer tudo. Quero que o mundo me engula e não que eu não sinta mais nada. Se não posso ter o que desejo, realizar meus sonhos, quero que seja assim.

E então ele se jogou.

Ikki ainda permaneceu um tempo sem acreditar no que havia acontecido, porém não tardou muito em ir atrás, sem nem mesmo pensar. O que o esperava lá embaixo não importava, caso se chocasse contra as rochas abaixo de si e seu corpo se desfigurasse todo não se arrependeria. O que importava era Shun, e não o deixaria fazer algo impensado como isso, pelo menos não sozinho.

Desculpa, Ikki. Eu não fui forte o suficiente. Espero que me perdoe um dia.

Já bastava daquilo. O mais velho não ouviria mais aquelas declarações que o outro tinha a fazer. Abriria seus olhos, aquele sofrimento não deveria estar ali, porque nada daquilo era verdade. Shun era bom, era a melhor pessoa que conhecia, não deveria se diminuir dessa forma.

Juntou todo ar que podia nos pulmões e bradou o mais alto que já havia feito em toda sua vida.

- SHUN!

Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, sentiu os olhos do irmão sobre si, reconhecendo-o.

-... Ikki? — o menor disse e o moreno se surpreendeu ao perceber que podia escutá-lo apesar do vento que batia em seu rosto por conta da queda que ainda acontecia.

Shun ainda estava abaixo de si, o corpo virado para cima e o encarava. Lágrimas derramavam-se de seus olhos e pareciam bater contra o rosto do maior, mas ele não tinha certeza se a umidade na verdade não era das águas mais abaixo. Jurava que aquela queda estava demorando mais do que o que deveria, mas ignorou tal informação pois aquilo era até mesmo bom por causa da situação na qual estava. Estendeu a mão, tentando alcançar o irmão, porém o mesmo não retribuiu o gesto.

- O que está fazendo aqui? — o mais novo gritou. — Eu não preciso mais da sua ajuda, vai embora!

Ikki entrecerrou os olhos, modificando o ângulo no qual caia para pode chegar mais rápido ao irmão.

- Shun, para com isso! — berrou em resposta. Agora ele mesmo chorava, e Shun se assustou por ser a primeira vez em que via o irmão soltar lágrimas. De fato, Ikki jurara a si mesmo que nunca o faria na frente do caçula, pois precisava ser forte, tinha de ser o pilar que sustentava os dois, mas naquele momento precisava que Shun o ajudasse a salvá-lo.

- Eu ouvi tudo o que disse, e nada do que você pensa é verdade!

O menor arregalou os olhos com a informação.

- Você... ouviu...? Estava aqui o tempo todo?

Ikki se aproximava aos poucos, mas os dois também se acercavam cada vez mais às pedras e a maré sob ambos. Não havia tempo para incertezas, tinha de ser direto e o mais breve possível. Tinha de convencer Shun que valia a pena viver, que o amava incondicionalmente.

- Não sei se estava aqui o tempo todo, Shun! Você está praticamente morto do outro lado e eu vim aqui pra te salvar! — observou a expressão do irmão mudar de perplexidade para incerteza. Sim, ainda tinha de dispensar de sua mente a ideia de que ele era um estorvo para si.

- Eu não quero ser salvo! Me deixa em paz!

- Cala a boca e me escuta, Shun! — exigiu irritado. — Nada do que você pensa é verdade! Você não é um incômodo pra mim, Shun, mas que droga! Tira isso logo dessa sua cabeça de vento! Você é a pessoa mais importante da minha vida, você é meu irmão! Se eu disse que ia te proteger é porque eu quero, porque eu não quero te perder! Não sabe o que eu sentia toda hora que olhava pra você cada vez mais sem vida no hospital! Eu nunca senti tanto medo antes e queria morrer também!

O pequeno ainda o fitava, sem responder. A imagem de Ikki acima de si apertava seu coração, o céu azul atrás dele fazia com que seu rosto fosse tomado pelas sombras por ele estar praticamente caindo de cabeça, mas conseguia distinguir a expressão de desolação em sua face. Queria muito aceitar sua ajuda, voltar com ele para casa, comer a janta enquanto os dois assistiam o jornal da noite para depois dormirem, fingindo que tudo aquilo havia sido um sonho ruim. Mas ainda havia o medo, medo de que atrapalharia a vida do outro caso obtivesse esse seu desejo.

- Ikki... — sussurrou, e ainda mais lágrimas jorraram para fora de seus olhos. Queria tanto alcançar a mão do outro e sentir-se seguro mais uma vez. Não queria ficar sozinho. O jeito grosseiro com o qual seu irmão falava consigo apenas o fazia perceber que era realmente Ikki quem estava ali, e isso o deixava feliz.

- Shun, por favor vem comigo! Você não precisa ficar sozinho, eu quero poder estar com você! Por favor, Shun! — estendeu mais ainda a mão para que o outro pegasse. Não conseguia chegar mais perto do outro, talvez porque ele não quisesse, afinal, aquele mundo era criado por Shun. Se fosse para ele sair de lá, ele teria que querer. — Se não for por você, faça por mim!

Ainda caíam, e o mar estava se aproximando rapidamente. Shun fechou os olhos, em conflito sobre o que deveria fazer. Ikki ainda não tinha medo de se estatelar todo lá embaixo, mas sim da decisão de seu irmão. Não sabia o que faria se ele o recusasse.

O mais novo finalmente voltou a encará-lo sorrindo, com os olhos cheios de resolução.

- Obrigado, Ikki.

E alcançou a mão do outro. Quando estavam prestes e chocar-se contra o cenário abaixo, uma luz forte os envolveu e tudo sumiu, até mesmo os dois.

//

O rapaz acordou, sentindo o solo duro e frio em suas costas. Abriu os olhos lentamente, aos poucos tomando foco da imagem da garota que o encarava acima de si, em pé. Passou uma das mãos na parte de trás da cabeça, que latejava, provavelmente porque havia batido com a mesma em algum lugar. Ergueu-se lentamente do chão, sentindo-se tonto, até que conseguiu se estabilizar ao se segurar na cama na qual seu irmão dormia. Passou o olhar por ele, analisando-o enquanto tentava se lembrar do que havia acontecido. Seus olhos se arregalaram ao dar-se conto pelo que havia acabado de passar. Virou o rosto para o monitor cardíaco e constatou que este agora se encontrava estável e não mais com o som incessante que sinalizava a falta de vida.

Desviou-se então para a garota que ainda o encarava, sem saber o que dizer. Os dois demoraram se encarando, até que o mais velho resolveu se manifestar.

- Deu certo...? — indagou em baixo tom, incerto de tudo que ocorrera.

A menina fez que sim com a cabeça e sorriu.

- Sim, você conseguiu.

Ikki suspirou de alívio. Sentia-se cansado como nunca, então nem mesmo conseguia demonstrar a felicidade que realmente o acometia por dentro agora.

- Então agora ele ficará bem, certo?

Ela desviou o olhar, passando a mirar o chão.

- Não, ainda há coisas que eu preciso que você faça.

O moreno franziu as sobrancelhas, mas estava grogue demais para se irritar com a resposta que lhe foi dada.

- Como assim?

A jovem voltou a fitá-lo, com um semblante sério.

- Ainda não acabou, mas ele ficará bem agora. No entanto, não acordará até que você faça mais algumas coisas. Este foi apenas o começo, Ikki.

O adolescente não sabia o que pensar, só queria dormir naquele momento. Suas pálpebras estavam pesadas, quase se fechando contra sua vontade. Resolveu caminhar até a poltrona de sempre e se acomodou lá, cobrindo-se com a coberta que lhe fora dada por um dos funcionários do hospital desde que havia resolvido instalar-se lá. Fechou os olhos, mas, antes que o sono o tomasse por completo, conseguiu proferir algo mais.

- Tudo bem, mas agora eu só quero dormir. Mais tarde nós conversamos...

A outra o observou adormecer. Olhou mais uma vez para Shun e passou a mão em seus cabelos em uma carícia, e depois fez o mesmo em seu irmão. Retirou-se do quarto sem dizer nada, permitindo que os dois tivessem seu momento de descanso antes de terem que lidar com o que viria mais adiante.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.