Linha Tênue

7 Capítulo 06: A Proposta


Notas iniciais
Boa noite... Vamos descobrir o que o loiro quer.

Ele se virou lentamente e não havia a menor dúvida: aquele era o Peeta Mellark que estudou no mesmo colégio que eu, embora o homem parado próximo à janela de vidro do escritório não lembrasse nem de longe o garoto que conheci anos atrás. Diferente do garoto magrelo que me lembrava, na minha frente estava um homem com excelente porte físico. Os cabelos estavam com um corte perfeito; ele não usava os óculos fora de moda, aliás, não estava usando óculos nenhum, muito menos as roupas ultrapassadas e sem marca. O terno tinha um corte perfeito e estava alinhado, a gravata, em um nó impecável, era daquelas que custavam mais do que muitos ternos. Na minha frente, não estava um bolsista sem dinheiro para comprar uma camiseta de marca; estava um executivo muito bem-sucedido.

"Srta. Everdeen, sente-se, por favor." A segurança na voz dele não lembrava em nada o garoto que conheci. "Gostaria de beber alguma coisa?" Ele perguntou se aproximando da mesa enquanto eu me sentava, tentando não demonstrar surpresa com nosso reencontro depois de tanto tempo.

"Não, obrigada." Não tinha ideia do que ele queria comigo depois de tantos anos, mas não pretendia demonstrar. Afinal, depois do que aconteceu na minha festa, eu duvidava que fosse uma reunião social.

"Obrigado, Cecelia, não vamos querer nada por enquanto, deixe-nos a sós, por favor." A secretária saiu, fechando a porta em seguida. Então, ele desabotoou o terno e se sentou em sua cadeira, me olhando atentamente. Tive a sensação de que estava me avaliando.

"Estou curiosa para saber o que você quer comigo" Comentei, quebrando o silêncio.

"Não pretendo fazer rodeios, Srta. Everdeen. Há alguns anos, comprei algumas ações, nada muito significativo, da empresa Mockingjay." Começou e eu não tinha a menor ideia de onde ele queria chegar ao dizer ter comprado ações da empresa do meu pai. "E há alguns meses, fui procurado pelo senhor Plutarch Heavensbee. Você deve conhecê-lo; ele é o outro sócio da Mockingjay, e ele me ofereceu a parte dele na empresa, uma barganha, na verdade. A empresa está com problemas enormes, mas estou pensando em arriscar."

"Você me chamou até aqui para dizer que pretende ser acionista majoritário da empresa do meu pai?" Aquilo era ridículo. "Porque não faz diferença para mim; eu não trabalho mais com meu pai. Só fiquei na Mockingjay enquanto estava na faculdade, então você não vai ser meu chefe ou coisa do tipo. Se isso é algum tipo de momento ‘Dei a volta por cima’, você perdeu seu tempo."

"Eu não a chamei aqui para isso, embora seja a verdade e provavelmente vou ser o acionista majoritário da Mockingjay. Mas tenho coisas mais importantes a tratar. Como eu estava dizendo, estou considerando comprar as ações do Heavensbee; meus advogados estão providenciando a documentação. Obviamente, procurei saber o que estava acontecendo dentro da empresa e cheguei a esse resultado." Ele me estendeu um envelope pardo, que peguei sem entender.

"O que é isso?" Tirei um monte considerável de folhas de dentro do envelope e li as primeiras linhas enquanto ele observava atento. Meu coração começou a acelerar com cada palavra naqueles papéis.

"Isso é uma cópia dos documentos que comprovam que Phillip Everdeen vem desviando dinheiro da a empresa há anos. Uma quantia quase insignificante no início, quando os negócios iam bem, mas que aumentou gradativamente ao longo dos anos, que sem dúvida contribuíram para quase a falência da empresa, também tem provas de fraude de documentos, uma péssima administração devo dizer."

"Não, isso está errado." Eram muitos papéis e eu não sabia o que dizer.

"Isso está correto; a assinatura dele está em diversos papéis: transferências bancárias sem justificativa, projetos nunca iniciados com verbas aprovadas e retiradas consideráveis."

"Mesmo assim, você não comprou as ações ainda; isso é entre Heavensbee e meu pai."

"Como eu disse, já tinha ações da Mockingjay, então esses papéis comprovam que Phillip Everdeen estava me roubando também."

"E você só notou agora?" Ele sorriu levemente antes de responder.

"Digamos que as ações da Mockingjay passaram a ser mais interessantes agora; afinal, estamos falando de possíveis 60% de uma empresa. Mas acredite, sou uma pessoa muito bem informada." Estava claro que ele sabia há muito tempo desses possíveis desvios do meu pai.

"E você me chamou aqui para dizer que vai colocar meu pai na cadeia?" Por mais que papai e eu não estivéssemos nos entendendo bem nos últimos anos, saber que ele poderia ser preso doía.

"Eu a chamei aqui como uma gentileza, por assim dizer, já que seu pai não é o único com problemas devido a esse desfalque. Se olhar bem, vai encontrar a sua assinatura em um número considerável de documentos."

"Como? Não, eu não tenho ligação nenhuma com isso." Ele só podia estar blefando; eu nunca soube de qualquer tipo de fraude. Comecei a passar as folhas rapidamente e, no meio, pude ver minha assinatura em uma delas e depois em outras.

"Não se deve assinar um documento sem ler, Everdeen." Ele se recostou na cadeira confortavelmente. "Até acredito na sua inocência e acredito que seu pai vá inocentá-la perante a justiça. Mas acredito que a empresa em que trabalha atualmente possa não acreditar nisso, não é? Afinal, é óbvio que um pai assumiria a culpa sozinho para que a filha não vá para a cadeia. E com uma mancha assim no currículo, acredito que não vai ser fácil conseguir uma nova colocação no mercado de trabalho. Isso se acreditarem que você não tem envolvimento nisso. Caso contrário você só precisará se preocupar com isso em uns 5 anos no mínimo. " Eu sabia que ele estava certo; minha assinatura naqueles papéis me colocava em uma posição péssima.

"Por que tudo isso, Mellark? Você quer tripudiar?" Meu coração estava acelerado; para ser sincera, eu estava em pânico, mas não iria demonstrar meu desespero na frente dele.

"Não." Olhei em seus olhos e pude ver uma frieza desconhecida naquela imensidão azul. "Na verdade, vou fazer uma gentileza, pelos velhos tempos, por assim dizer."

"Gentileza pelos velhos tempos? Que tipo de gentileza?" Sabia que tinha magoado e humilhado ele; sem dúvida, ele não faria nenhuma gentileza.

"Estou disposto a não denunciar seu pai. Esse dinheiro não me faz falta nenhuma. Obviamente, ele vai sair da presidência; ele é um péssimo administrador."

"Só isso?"

"Obviamente não. Como você pode ver, é um valor alto e estamos falando de um crime, que pode leva-lo a cadeia por cinco talvez dez anos, sem contar as multas. Se isso vazar, vão começar a achar que podem me roubar e sair impunes, e isso não faria nada bem para os meus negócios. Porém, se eu estiver relevando as atitudes do meu sogro, seria ‘compreensível’." Ele fez aspas com as mãos.

"Seu sogro? Você enlouqueceu?"

"Não, mas acho que você entendeu onde quero chegar. Você se casa comigo e eu relevo o desvio de dinheiro do seu pai dentro da minha empresa. Crime esse que você supostamente está envolvida."

"Isso é ridículo! É alguma obsessão por mim desde o colégio? Porque eu não vou me casar com você. Não mesmo! Minha opinião sobre você ainda é a mesma e você deveria deixar essa paixão adolescente para lá, sabia? Porque me chantagear não me fará amar você. Nada me fará amar você."

"Quem está falando de sentimentos aqui é você, Everdeen. E outra isso não é chantagem é uma proposta são negócios onde ambas as partes ganham, não estou forçando você a aceitar."

"Negócios?"

"Exatamente. Não estou procurando romance. Como pode ver, sou dono de uma das empresas mais bem-sucedidas da Capital, sem contar meus outros investimentos. Alguns acreditam que já está na hora de me estabilizar na minha vida pessoal, não que me importe com isso, mas digamos que alguém próximo se importa. Estou disposto a agradá-la, mas ainda não encontrei alguém que ame para me casar. Não quero enganar ninguém; afinal, é muito feio enganar as pessoas. Então, um casamento sem qualquer sentimento com você no momento seria o ideal; um jogo limpo e claro, com cláusulas pré-estabelecidas, como disse, um negócio."

"Não mesmo; não vou me casar com você."

"Bom, a escolha é sua, mas vou lhe dar um tempo para pensar melhor." Ele apertou o botão do telefone em cima da mesa. "Cecelia, marque um horário para a Srta. Everdeen em três dias, por favor, no mesmo horário. Obrigado." Ela assentiu e ele desligou em seguida.

"Eu não preciso de tempo; a minha resposta é não."

"Leve os documentos com você, leia cada um deles, procure um advogado se quiser e depois pense um pouco. Vamos ver se sua resposta ainda vai ser não em três dias, se for tudo bem pra mim."

"Eu não tenho um único motivo para me casar com você, Mellark."

"Não tem? Humilhação pública para você e sua família, seu pai atrás das grades, você sendo processada, possivelmente sendo presa ou perdendo o emprego. Um escândalo assim provavelmente acaba com as chances da sua irmã conseguir uma bolsa para a faculdade de medicina, sem contar com o fato de que vão precisar se desfazer de todos os bens da família. Não que sejam muitos, ainda assim são os imóveis, carros, joias, contas bancárias e, ainda assim, vão ficar devendo dinheiro. É, realmente, eu não vejo um único motivo para você aceitar minha proposta e se casar comigo, Everdeen."

"Você não faria isso."

"Testa."

"Isso é ridículo; você só quer me humilhar pelo que fiz você passar anos atrás." Vi um pequeno sorriso se formar rapidamente em seus lábios.

"O mundo dá voltas, Katniss, e estou em uma posição privilegiada, onde não preciso negociar nada com ninguém. As pessoas negociam comigo, então só posso dizer que fiz minha proposta; você aceita se quiser. Não faz diferença para mim, faz para você. Se você não aceitar, minha vida não vai mudar em nada; quem vai resolver tudo isso serão meus advogados. A sua, por outro lado, vai, e muito. Então, pegue os papéis e vá pensar no assunto, mas não pense que, se aceitar, sua vida vai ser um conto de fadas, porque eles não existem. Agora, acredito que nossa reunião tenha terminado; você já pode ir. Meu tempo é realmente valioso, Srta. Everdeen, e acredite, você não pode pagar por ele."

Senti vontade de gritar com ele por toda a arrogância que estava demonstrando, mas não o fiz. No fundo, ele não merecia minha atenção, então me limitei a levantar e sair sem olhar para trás, em passos largos e confiantes. Se ele queria me ver por baixo, não iria conseguir; não iria cair no papinho dele. Dirigi o mais rápido possível em direção ao apartamento dos meus pais; eu precisava entender o que estava acontecendo e a minha melhor chance era conversar com a fonte de tudo isso. Peeta Mellark tinha que estar enganado; afinal, se meu pai tinha feito tudo o que estava sendo acusado, estaria com grandes problemas.

Assim que cheguei ao prédio localizado no centro da Capital, entrei o mais rápido possível no elevador, sem nem ao menos cumprimentar o porteiro ou anunciar minha chegada. Havia morado pouco tempo naquele prédio, apenas nos meus primeiros dois anos da faculdade, quando estagiava na empresa do meu pai. Assim que consegui um estágio em outra empresa, decidi que era a hora de tomar as rédeas da minha vida e mudei para o apartamento que ganhei do meu pai e que vivo até hoje.

"O porteiro disse que você estava subindo." Minha irmã estava esperando na porta, com os braços cruzados e um sorriso no rosto. Mesmo com 17 anos, minha irmã ainda mantinha um ar angelical.

"Papai está em casa?" Perguntei sem rodeios e vi pela expressão dela que percebeu meu nítido desespero.

"Está no escritório. Aconteceu alguma coisa, Katniss?"

"Só preciso falar com ele; é importante. Não deixa ninguém nos atrapalhar, por favor." Pedi, indo em direção ao escritório que papai tinha em casa. Nos últimos anos, ele quase não ia à empresa; resolvia a maior parte dos negócios em casa mesmo. "Pai, precisamos conversar." Entrei sem nem ao menos bater e vi o olhar de surpresa dele com minha atitude.

"Perdeu a educação que lhe dei no caminho, Katniss?" Observei ele recolher alguns papéis e colocá-los dentro da gaveta da mesa. "Acredito que sua mãe e eu ensinamos que se deve bater antes de entrar."

"Não tenho tempo para lições de bons modos agora, pai." Fechei a porta e me aproximei da mesa dele, jogando o envelope na mesma. "Preciso saber o que é isso." Ele me olhou sem entender e pegou o envelope calmamente, retirando os papéis e olhando atentamente. Vi seu rosto perder a cor logo na primeira folha.

"Como conseguiu isso?" Eu esperava ver surpresa em seu rosto, esperava que ele não soubesse de nada, que aquilo fosse uma mentira ou que ele fosse tão vítima quanto eu, mas pela expressão dele, eu soube que não era.

"É verdade então; essas provas são verdadeiras." Sentei na cadeira em frente à mesa, sentindo minhas pernas bambearem. "Você realmente fez isso, pai?"

"Katniss..."

"Você roubou a empresa, pai?"

"Como você acha que mantive o padrão de vida de vocês? Os negócios estavam indo de mal a pior; não tive escolha."

"Como não teve escolha? Sempre tem uma escolha, pai. Não foi uma vez; foram várias. Você roubou milhões."

"Como acha que comprei esse apartamento? Como acha que paguei sua faculdade, seus carros e roupas da moda ou o seu apartamento?"

"Isso não justifica o que você fez."

"Tem certeza? Porque não vi nem você nem sua mãe reclamando de cada presente caro, muito menos pedindo menos de mim nos últimos anos." Ele largou os papéis em cima da mesa. "Viagens de férias, joias, roupas exclusivas e tudo que o dinheiro pode comprar, não é? A única que nunca fez muita questão dessas coisas foi sua irmã, então não venha me julgar, afinal, quem gastou a maior parte desse dinheiro não fui eu."

"Você colocou meu nome nisso; eu confiei em você e você me fez assinar papéis que podem acabar com a minha carreira, podem me mandar para a cadeia."

"Eu fiz o que era preciso."

"Você fez o que era mais fácil e agora nossa família pode perder tudo."

"Quem investigou isso?"

"Não importa; a questão é que isso pode causar problemas enormes para toda nossa família, principalmente para nós."

"Eu sei disso." Ele apoiou a cabeça entre as mãos, nitidamente nervoso. "Como ficou sabendo disso? Talvez possamos fazer um acordo. Eu posso tentar pagar esse dinheiro, pelo menos a parte do acionista minoritário, e conversar com Heavensbee. Nos conhecemos há muito tempo; podemos entrar e um acordo."

"Pagar como? É muita coisa."

"Sua mãe não vai aguentar passar por essa humilhação; você sabe como ela é. Eu preciso achar uma solução, negociar isso."

"Não; eu vou pensar em algo. Me dá alguns dias; eu vou achar uma solução." Eu precisava de uma solução; precisava entender o nível de problemas que tínhamos em mãos e achar uma solução. "Só não piora as coisas." Pedi, me levantando, pegando os papéis em cima da mesa e saindo sem olhar para trás.

Notas finais
O que a Katniss vai fazer agora? Espero que tenham gostado do capitulo, acabei de escrever e devido ao horário vou deixar para responder os comentários amanhã, mas eu li adorei cada um deles. Fiquem a vontade para deixar a opinião de vocês. Beijos.