Linha Tênue
14 Capitulo 12: Os preparativos
Notas iniciais
O almoço com Effie Mellark havia sido apenas a ponta do iceberg do que estava sendo meu mês. A matriarca dos Mellark estava praticamente organizando todo o casamento; porém, após o almoço, onde o assunto foi como seria o grande dia, ela, mesmo nitidamente não gostando nada de mim, passou a entrar em contato e querer minha presença em quase tudo referente à ocasião, enquanto o filho dela estava sempre muito ocupado para nos acompanhar, mas deixando, segundo ele, carta branca para o que achássemos melhor. Ou seja, eu tive que acompanhar minha futura sogra em idas ao florista, escolha de louça e talheres, degustação de cardápio, escolha do bolo, entre outras coisas nas quais não estava com o menor interesse em participar. Porém, eu tive que ir e sorrir como se estivesse, de fato, planejando o casamento dos meus sonhos.
Como se uma cerimônia para cerca de cinquenta pessoas em um hotel no centro da Capital fosse realmente meu sonho de casamento. Aliás, isso foi, sem dúvida, a única coisa que surpreendeu minha mãe em meio a toda aquela situação do casamento repentino. Eu adoraria dizer que ela estranhou a cerimônia simples por me conhecer bem o suficiente e saber que sempre sonhei com um casamento na igreja, cheio de pompas e totalmente planejado, aquele tipo de evento que leva meses para que tudo saia perfeito, mas verdade seja dita, ela só estranhou por não ser algo grande e pomposo, então acabou aceitando quando disse que queríamos apenas as pessoas mais próximas e que ainda assim seria um lindo evento. Depois disso, ela passou a dizer por aí que seria um evento exclusivo para a nata da sociedade. Prim, que me conhecia melhor, foi mais difícil de enganar; minha irmã parecia sentir que algo estava errado a cada passo daquela “união” e não vinha facilitando minhas mentiras.
"Como assim você vai deixar o seu trabalho, Katniss?" Havia evitado ao máximo contar isso à minha irmã, mas era algo inevitável, então, pouco antes do “grande dia”, me vi sem escolha a não ser abrir o jogo e contar que já tinha dado meu aviso prévio na empresa.
"Ora, Primrose, sua irmã vai se casar com um empresário de renome, não precisa continuar trabalhando naquela empresa insignificante." Mamãe, como sempre, não deu a mínima para o fato de que eu estava deixando minha carreira, que, aliás, havia batalhado muito para conseguir e que adorava.
"Mãe, a Katniss é uma profissional excelente e não tem motivos para deixar o trabalho dela. Mulheres casadas também trabalham, sabia?"
"Como sempre, você e suas ideias." Minha mãe e Prim discordavam de praticamente tudo; pensavam tão diferente uma da outra que, se não fosse a semelhança física entre as duas, ninguém acreditaria que eram mãe e filha. "Katniss vai ter que se preocupar com a vida social do marido, eventos beneficentes, viagens. Acha mesmo que vai sobrar tempo para ela trabalhar? Não é fácil ser a esposa de um grande empresário, Prim; como eu sempre digo, por trás do sucesso de um grande homem existe uma grande mulher." Vi minha irmã revirar os olhos. A verdade é que mamãe se dizia a perfeita esposa de um empresário, embora ela tenha passado os últimos anos apenas gastando o dinheiro do meu pai. "Além do mais, pelo que soube, o patrimônio dele é exorbitante, até mesmo para a alta sociedade."
"Mãe, por favor." Respirei fundo, tentando não pensar em onde ela tinha conseguido essa informação e desejando não ter vindo para o chá naquela tarde.
"Não estou dizendo nenhuma mentira e, mesmo que o casamento não dê certo, Katniss vai ter direito a parte dessa fortuna, sem contar com a pensão que ele vai ter que pagar, já que ela parou de trabalhar após o casamento." Ela falava como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Você precisa concordar que sua irmã não vai precisar se preocupar em trabalhar nunca mais."
"Vou fingir que não ouvi isso." Minha irmã se voltou para mim. "É por isso que você vai deixar seu emprego e tudo que conquistou, Katniss?"
"Não é pelo dinheiro dele, Prim." Não via problema em mentir para o mundo; nunca me preocupei com isso, mas odiava mentir para minha irmã. Ainda assim, na atual situação, não tinha outra escolha. "Peeta e eu conversamos e nossa rotina é tão atarefada, ambos temos muitos compromissos, e nossa agenda quase não bate, então eu achei melhor dedicar esses primeiros meses ao nosso casamento, só isso. Não é como se eu não fosse trabalhar nunca mais; você sabe que eu amo o que faço."
"Bobagem, sua vida está feita, filha." Era tão irônico ver a felicidade no rosto da minha mãe. Em anos, eu nunca tinha visto ela tão satisfeita comigo. Eu havia passado parte da minha vida tentando agradá-la e nunca tinha visto tanta felicidade dirigida a mim como estava vendo com toda essa mentira. Por outro lado, Prim nunca pareceu tão decepcionada comigo antes.
"Não é pelo dinheiro dele, Prim, eu juro." Era um juramento parcialmente verdadeiro, já que era o dinheiro dele que iria impedir meu pai de ir preso; era o dinheiro dele que iria comprar parte da empresa. Ainda assim, no fim de tudo, eu sairia sem nada. "Vou assinar um pré-nupcial antes do casamento." Minha mãe engasgou com a bebida enquanto minha irmã me olhou surpresa.
"Como! Que história é essa de pré-nupcial? Qual a porcentagem que você está abrindo mão?"
"Não estou abrindo mão de nada, mãe; esse dinheiro não é meu para que eu abra mão dele. Não quero o dinheiro dele; se não der certo e nós nos separarmos, eu vou seguir minha vida como era antes e ele vai seguir a dele. Eu não quero nada." Vi um pequeno sorriso no rosto da minha irmã e, por mais que aquela não fosse a verdade completa, me senti melhor.
"Katniss Shrader Everdeen, você enlouqueceu? Como assim não quer nada dele? Você acha que se encontra um marido rico a cada esquina?"
"Mãe..."
"Não, eu não criei você para pensar desse jeito, para ser tola assim."
"Não é uma discussão, mãe; o contrato está sendo feito e eu vou assinar, simples assim."
"Eu não acredito nisso." Meu pai entrou naquele momento, nos cumprimentando com um aceno.
"O que houve, Paula? Você não parece bem." Nenhum dos dois parecia bem.
"Sua filha foi o que houve." Meu pai revirou os olhos e suspirou. "Katniss enlouqueceu, Phillip; ela simplesmente enlouqueceu. Chame um médico para sua filha porque ela está fora de si." Ele fez sinal com as mãos para que ela continuasse. "A sua filha." Minha mãe tinha a mania de dar ênfase de que éramos filhas do meu pai, como se fôssemos só dele, sempre que não estava satisfeita conosco, ou seja, quase sempre. "Vai assinar um contrato pré-nupcial abrindo mão de tudo."
"Era de se esperar algo assim; nenhum homem na posição dele se casa sem um pré-nupcial."
"Isso é ridículo! Ela assinar fica parecendo que ele não confia em nossa família, que não confia em nossa filha. Não somos qualquer um, Phillip; temos um patrimônio também."
"Pare de drama, Paula; eles nem se casaram e você está se preocupando com o divórcio." Ela iria contestar alguma coisa, mas ele se virou para mim. "Preciso falar com você em particular; vamos ao meu escritório."
Ele seguiu pelo corredor e aproveitei para deixar minha mãe e suas lamúrias por um tempo, mesmo sabendo que ela não iria se conformar tão cedo com a situação. Fechei a porta do escritório como ele pediu e me sentei na cadeira de frente para ele.
"Aconteceu alguma coisa?"
"É exatamente isso que quero saber. Heavensbee me procurou para dizer que assinou a venda da parte dele das ações; o comprador é a mesma pessoa que tem os outros 25% da Mockingjay. Aparentemente, ele ofereceu a parte dele e o empresário se interessou em ficar com 60% da empresa." Para ele querer falar comigo, estava claro que era mais do que isso. "E sabe o que é mais interessante? Eu procurei saber quem é esse empresário e adivinha a minha surpresa ao saber que ele é nada mais nada menos do que Peeta Mellark."
"Pai..."
"Você pode me explicar por que seu noivo, que tem uma das maiores empresas de tecnologia de Panem, tinha 25% das ações da Mockingjay, que não tem qualquer ligação com a área dele? E o porquê de ele ter comprado mais 35%, sendo que a empresa está indo de mal a pior?"
"Ele comprou as ações há muito tempo; foi investimento, pai. Ele queria investir e a Mockingjay era do distrito onde ele cresceu tinha um nome conhecido, nada de mais."
"Certo, isso eu posso entender, mas por que ele comprou a parte do Heavensbee? Onde você conseguiu aqueles documentos que me mostrou, Katniss? Mellark tem algo a ver com isso?" Papai é um homem de negócios e, durante toda a vida, se dedicou à empresa, e eu devia esperar que ele estranhasse tudo aquilo.
"Eu não sei o que ele pretende com a compra das ações do Heavensbee; isso o senhor tem que perguntar a ele, mas, até onde eu sei, ele não tem nenhuma ligação com os documentos que mostrei ao senhor naquele dia." Mentir para o meu pai era mais fácil do que para Prim, mas eu sabia que ele, diferente da minha irmã, esperava mentiras da minha parte; apesar de tudo, ele me conhecia bem.
"Quem deu a você aqueles documentos, Katniss? Estão chantageando você? Por que seu noivo comprou uma empresa à beira da falência?"
"Não, ninguém está me chantageando. Os documentos chegaram pelo correio sem remetente. E a questão da compra da empresa, o senhor deveria perguntar a ele; não sei o que Peeta pretende." Mellark que pensasse em uma maneira de enganar meu pai; eu estava cansada daquilo e não iria perder meu tempo pensando em algo que fizesse meu pai acreditar que o loiro era apenas uma boa pessoa.
"Eu já perguntei."
"E o que ele disse?"
"Que comprou por você, que não queria ver nossa família envolvida em nenhum escândalo." Tentei sorrir, mas não tenho certeza se consegui. "Este homem está nitidamente apaixonado por você, Katniss; tanto que está sendo um tolo em comprar mais ações da empresa do que já tem. A Mockingjay é um investimento que praticamente nenhum empresário em são consciência faria."
"Que bom que estamos apaixonados, então." Ele me olhou por um minuto, como se tentasse escolher as próximas palavras.
"Não pense que não me preocupo com você, porque me preocupo. Mas não faça nenhuma besteira nesse relacionamento, Katniss; sei que já é grandinha, mas um erro ou probleminha normal de casal nesse relacionamento pode nos custar muito caro, principalmente se ele começar a olhar pra esse investimento com olhos mais atentos." Não devia estar surpresa com a atitude dele; ainda assim, fiquei afinal ele era meu pai, uma das pessoas que deveria me amar mais do que qualquer um, o homem que devia me proteger e cuidar de mim.
"Claro." Não bastava ser uma peça no jogo do Mellark; meu próprio pai estava me considerando um objeto negociável. "Antes de qualquer briga com meu futuro marido, vou me lembrar da empresa da nossa família."
"Você me entendeu mal; só estou dizendo que a forma como vai conduzir seu relacionamento pode acabar comigo. Filha, se vocês terminam mal e ele descobre o que eu fiz, ele pode querer se vingar. Não sei, não o conheço; ainda assim, falando por mim, eu não pensaria duas vezes em levar adiante um processo se descobrisse que fui enganado, claro que se fosse o pai da sua mãe eu teria muito a ponderar, pelo menos enquanto estivesse casado com ela."
"Eu entendi, pai; não se preocupe com o meu casamento." Aquelas palavras doeram mais do que imaginei. "Como você mesmo disse, ele deve estar muito apaixonado e eu vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para que seus erros não venham a público." Levantei e saí do escritório o mais rápido que pude em direção à porta de saída, sem me despedir de ninguém.
Eu odiava me sentir assim, mas uma coisa é fazer tudo que estava fazendo pensando no bem da minha família, no melhor para eles; outra é sentir que meu próprio pai não veria problema em me usar para encobrir seus erros. Era horrível saber que, talvez, se ele soubesse da verdade, não iria me impedir.
Fraqueza não é algo que gosto; ainda assim, era o que estava sentindo naquele momento, como se Peeta e sua família perfeitinha fossem mais fortes do que eu. Respirei fundo antes de dar partida no meu carro em direção ao meu apartamento. Eu sou uma Everdeen e os Everdeen não se deixam abater facilmente; nunca fomos fracos e eu não seria a primeira a demonstrar fraqueza.
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