Linha Tênue
45 Capitulo 42: O Pior do Passado
Notas iniciais
Mesmo com a música alta e o barulho da água que continuava caindo, meu corpo inteiro congelou. Minha mão foi instintivamente até a barriga, num gesto pequeno, quase inconsciente. Eu tinha vindo para surpreendê-lo, e eu que tinha sido surpreendida.
Eu só queria tentar reacender algo íntimo, simples, nosso. Para mostrar que, apesar do cansaço, dos enjoos, das semanas difíceis… apesar de tudo mudar com o fato de que seríamos pais, ainda éramos nós. Mas, no meio de tudo o que passava pela minha cabeça, eu não fiz nada, apenas fiquei ali parada olhado e foi o grito dela que rasgou o ambiente.
"Meu Deus!" Gale virou o rosto na mesma hora, o olhar surpreso me encontrando.
"Katniss… o que você tá fazendo aqui?" Não respondi. Meu corpo se moveu antes que minha mente acompanhasse. Virei as costas e voltei para o quarto, sentindo as pernas fracas, como se o chão tivesse perdido a firmeza. "Katniss!"
Ouvi passos atrás de mim e ele surgiu segundos depois, a toalha enrolada na cintura, o rosto fechado mais irritado do que culpado. Eu não conseguia falar. A raiva vinha misturada à decepção, mas, estranhamente, à ausência completa de surpresa. A lembrança do garoto que nunca passava um fim de semana sozinho atravessou minha mente como estilhaços de vidro depois de uma batida.
"Gale… o que está acontecendo? Quem é ela?" A morena apareceu atrás dele, tentando se cobrir com uma toalha, claramente perdida com o que estava acontecendo.
"Jully, sai." A voz dele veio seca. "Agora."
"Como assim?" ela perguntou, juntando as roupas espalhadas pelo chão, nervosa. "Quem é ela?"
"Eu mandei sair." Ele nem olhou pra ela enquanto falava. "Pega suas coisas e vai embora."
"Gale, o que está acontecendo?" A voz dela falhou. "Quem é ela?" Ele respirou fundo, impaciente, passando a mão pelo rosto.
"Minha noiva." Disse sem rodeios. "Agora veste alguma coisa e sai daqui."
"Não acredito…" ela murmurou, indignada. "Você é comprometido?"
"Não mais." As palavras escaparam de mim antes que eu pudesse segurá-las. "Fica tranquila. A partir de agora, eu sou só a mãe do filho dele."
Ele se virou para mim no mesmo instante, confuso, como se eu estivesse dizendo algo absurdo.
"Katniss, não fala besteira."
"Besteira?" Minha voz falhou por um momento. "Você estava transando com outra mulher, Gale. O que você espera que eu faça? Que vá embora em silêncio? Que volte depois e bata na porta pra garantir que vocês terminaram?"
O silêncio caiu pesado. Não era só a traição. Era tudo o que vinha com ela. Os planos. As tentativas de consertar algo que talvez já estivesse quebrado há muito tempo.
"Gale… eu quero uma explicação."
"JULLY, EU JÁ MANDEI VOCÊ SAIR!" Ele pegou as roupas dela do chão e praticamente jogou contra o corpo dela, avançando um passo. "Vai embora. Agora. Eu não vou repetir."
"Você não pode falar comigo assim..."
"Eu posso, sim." Ele a cortou, frio. "E você vai sair daqui antes que eu perca a pouca paciência que ainda tenho."
Ele a conduziu até a porta, sem espaço pra discussão, ignorando completamente os protestos dela e o fato de que ela ainda não tinha vestido nada além do que a calcinha e o sutiã. Eu queria sair dali também, mas minhas mãos ainda tremiam, e eu não conseguia sequer chamar um táxi.
Não sei exatamente quando ela saiu do apartamento. Só sei que, em algum momento, a porta se fechou. E, quando ele desligou o som, o silêncio ficou ainda mais cruel.
"Katniss…"
"Não quero ouvir. Não quero ouvir desculpas por você estar me traindo."
"Eu não estava te traindo. Você não devia estar aqui."
"O que?"
"A gente nem tinha combinado esse fim de semana. Iríamos nos ver só no próximo jogo, na semana que vem. Você apareceu do nada."
"Isso justifica o quê?" Minha voz começou a tremer. "Justifica você transar com outra mulher na cama que você divide comigo, enquanto eu estou aqui?"
"Foi só uma transa rápida. Sem importância nenhuma. Só pra aliviar a tensão antes da semana puxada de treino."
"Agora transar com outra mulher não é traição? Agora tem um nome novo: alívio de tensão."
"Não é isso, mas não é traição. Quer dizer, quando não significa nada, não muda nada, entende? Foi só uma mulher qualquer. Uma modelo que estava me dando bola."
"Uma mulher qualquer…" repeti, sentindo algo se partir dentro de mim.
"E ela estava dando em cima, e eu estava me sentindo sozinho. Mas você é a única que importa pra mim, sempre foi assim. Eu te amo. Você sabe disso."
Ri, sem humor.
"Engraçado… porque não foi comigo que você estava minutos atrás."
"Não importa com quem eu estava. Eu só penso em você."
"Ah, não… me poupa de dizer que estava pensando em mim enquanto estava transando com outra."
"Não foi o que eu disse. O que você queria de mim? A gente não transa há semanas. Eu perdi as contas de quantas vezes fui até a Capital. E quando vou, é só jantar em família, conversa sobre o futuro, sobre o bebê." Ele subiu o tom da voz, cada vez mais irritado. "Você nunca estava bem. Ou cansada demais no fim do dia, ou acordava passando mal. Enjoada, distante. Você nem deixava eu tocar em você."
"Eu estou grávida, Gale. Você tem ideia do que é isso?"
"Claro que tenho. Por isso mesmo eu tentei, tentei ficar com você. Mesmo você estando diferente. Mesmo seu corpo mudando, eu ainda estava tentando."
"Você é inacreditável."
"Eu tentei respeitar seu momento, mas você se afastou. Me deixou de lado."
"Então a culpa é minha?"
"Eu não disse isso. Para de distorcer minhas palavras." Mas tudo nele dizia exatamente isso. "Eu sou homem, tenho necessidades. E tudo isso também vem sendo difícil pra mim."
"Você podia ter conversado comigo. Podia ter sido honesto comigo."
"Honesto?" Ele riu, sem humor. "Eu sempre fui honesto com você. Disse que não queria ser pai agora. Disse que não estava pronto. Que tudo ia mudar. Que era cedo demais. Mas você não ouviu. Droga, Katniss, você nem pensou em adiar. Nem pensou em interromper quando ainda era possível. Só colocou na cabeça que queria essa criança. E que eu teria que aceitar."
"Não coloca a culpa dos seus erros na minha gravidez. Eu não fiz essa criança sozinha."
"Mas decide tudo como se tivesse feito." Ele deu um passo na minha direção.
“Nunca pedi pra você ficar, nunca obriguei você a assumir qualquer coisa. Nunca te pedi nada.”
"Não, mas não teria ficado comigo se ao menos que aceitasse a gravidez, E foi o que eu fiz, alias eu fiz tudo que você quis. Te pedi em casamento como era certo fazer. Me humilhei pro meu pai pra conseguir mais dinheiro. Estou quase encerrando minha carreira pra viver na Capital… tudo porque você não pode vir morar aqui."
"Eu tenho um apartamento lá que não é bancado pelo meu pai. Tenho um emprego que paga melhor que o seu. Você quer mesmo que eu venha viver às custas do seu pai aqui?"
"Eu quero que você me apoie." A voz dele saiu mais dura. "Que fique do meu lado. Que não me faça desejar transar com outra mulher por estar distante." Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. "Droga, Katniss, o sexo era fenomenal até aquele maldito teste positivo. Depois você mudou. Tudo virou problema. Tudo virou cobrança."
Meu coração batia forte, descompassado. Não era só o que ele dizia. Era a forma. Como se meu corpo cansado, meu medo, minha gravidez… fossem defeitos. Inconveniências.
E ali, naquele quarto, eu entendi.
Ele não estava arrependido.
Só estava irritado por ter sido descoberto.
"Quer saber? Acabou, Gale. Nós acabamos. Eu não preciso de você pra criar meu filho. Posso fazer isso sozinha." Ele riu. Um riso curto, desacreditado. Quase debochado.
"Ah, para com isso, Katniss. Você tá exagerando. Nada mudou. Só preciso que você se acalme, pense um pouco e use a razão. Foi só uma transa. Nada demais."
"Nada demais?" Senti o sangue ferver. "Então tudo bem se eu sair agora e tiver uma transa rápida também. Com um cara qualquer. Nada demais. Nem preciso me preocupar em engravidar, mas vou usar camisinha pra..." O tapa veio antes que eu terminasse a frase.
Seco.
Violento.
O impacto me fez cambalear para trás, o corpo perdendo o eixo por um segundo. Minha mão foi direto ao rosto, o ardor subindo junto das lágrimas que eu me recusei a deixar cair.
"Olha o que você me fez fazer!" Ele passou a mão pelos cabelos, andando de um lado para o outro, agitado. "Caramba, Katniss. Eu já falei pra você não me tirar do sério. Não falar esse tipo de coisa." A voz dele mudou rápido demais. "Me desculpa, amor."
Ele se aproximou, rápido demais. A mão vindo na minha direção, como se fosse tocar o lugar do tapa. Como se fosse carinho. Dei um passo para trás.
"Não encosta em mim."
"Para com isso, amor. Eu confesso que perdi a cabeça. Você sabe como eu fico quando você começa com essas coisas."
"Me deixa passar. Eu vou embora agora."
"Não. Você não vai a lugar nenhum." Ele se colocou na minha frente, bloqueando a passagem. "Você está nervosa, e isso não faz bem pro bebê. Se acalma. Depois a gente conversa." A voz dele mudou. Baixa demais. Controlada demais. "Olha… eu estava pensando. Acho que seu anel de noivado ficaria lindo com um conjunto de brincos que vi no shopping." Meu estômago revirou. "Como a gente não ia se ver, eu não comprei seu presente de aniversário de namoro. Mas você fica aqui, descansa… eu vou lá e compro rapidinho. Resolvido." Ele sorriu, como se estivesse oferecendo uma solução generosa. "E posso ver algo pro bebê também. Aquela cadeira que balança sozinha, sabe? Que nina, acalma e tudo mais… sei que você tá doida pra comprar. Vai ser incrível pro garotão."
Meu corpo inteiro tremia.
"Você acabou de me bater."
"Foi um erro." A resposta veio rápida demais. "Você me provocou. Mas eu estou aqui, tentando resolver."
Resolver.
Como se um tapa pudesse ser compensado com promessas. Como se a minha dor física e emocional fosse irrelevante. Como se tudo aquilo fosse culpa minha.
"Me deixa sair."
"Não. Você vai ficar. E vai se acalmar."
"Eu não estou suportando o cheiro de sexo aqui. O cheiro de outra mulher nesse quarto. Gale… me deixa sair." Ele me olhou em silêncio. Calculando. Como se pensasse no próximo movimento.
Mas não saiu da frente da porta.
"A gente pode superar isso." A naturalidade com que ele disse aquilo me deu náusea. "A gente vai pra um hotel hoje à noite. Só você e eu. Um hotel bom, suíte cara. Eu vejo outro apartamento, com móveis novos. Um quarto melhor, um banheiro com banheira." Ele falava como quem constrói um futuro enquanto empurra o presente para debaixo do tapete. "Talvez deixar pra depois… pro próximo ano. Quando o bebê nascer. Quando a gente casar… que tal morar no Doze?" Meu corpo travou. "Posso começar a trabalhar com meu pai. Se eu assumir os negócios da família, ele me dá uma casa. Um sobrado bonito, num bairro bom, no centro. É ótimo pra criança." Ele sorriu, quase confiante. "Minha mãe vai estar por perto. Ela tá amando a ideia de ser avó. Vai ajudar a cuidar dele… e a gente vai ter tempo pra gente." Uma pausa. "E eu juro…" Ele me olhou. "Juro que não vou levar nenhuma mulher pro nosso quarto de novo."
De novo...Foi ali que eu entendi.
Não era amor. Era controle.
Ele não estava pedindo desculpas. Estava negociando.
Usando tudo o que achava que funcionaria naquele momento.
Não havia mais amor. Nem desejo.
Mas ele não tinha a menor intenção de me deixar ir.
"Eu não quero morar no Doze. Eu não quero essa vida. Eu não quero isso. Não mais." O silêncio que veio depois foi pesado. Denso. Quase sufocante.
"Como assim não quer?" A voz dele não carregava surpresa.
"Eu estou te dando soluções, Katniss. Estou te dando exatamente o que você disse que queria nos últimos meses. Família. Estabilidade." Ele avançou um passo. Meu corpo recuou automaticamente. "Você tá grávida. Você quis esse filho. O MEU FILHO. Não é só sobre você agora."
"Não toca em mim." Ele ignorou e se aproximou ainda mais, segurando meu braço com força demais.
"Você não pode simplesmente decidir ir embora. Meu filho tá aí dentro. Ele é MEU. E isso significa que você vai ficar comigo."
Minhas costas bateram na parede. Fria. Dura.
Meu coração acelerou ainda mais, eu estava sem saída.
"Eu posso. E eu vou." Minha voz saiu trêmula, mas firme. "Isso não funciona assim, Gale. Já estava praticamente acabado. Eu vou ter meu filho. Você faz o que quiser. Segue no time. Dorme com quem quiser. Não importa. Me solta."
"A gente vai fazer isso juntos." Ele soltou meu braço, mas não se afastou.
"Não. Só me deixa ir."
"NÃO." O soco foi dado na parede ao lado da minha cabeça. O som seco fez meu estômago revirar. Por um segundo, tive certeza de que seria meu rosto. O ar do quarto mudou. Ficou menor. Mais pesado. "Você não sabe o que tá dizendo." A voz dele baixou. "Depois de tudo que eu estou oferecendo… depois de tudo que eu estou fazendo por você." Ele riu, sem humor. "Eu te amo. Fui contra meu pai. Estou disposto a desistir de tudo por você." Outro passo. "E você vai me largar agora? Vai jogar tudo fora… só porque agi como homem?"
Tentei me mover para o lado. Não havia espaço.
"Eu só quero sair. Ir pra casa. Podemos falar depois."
Ele deu um passo para trás. Olhei para a porta.
Por um segundo, achei que havia um caminho.
Então eu fui em passos rápidos.
Mas a mão dele fechou no meu braço de novo.
"Não. Essa é a sua casa. Já passou da hora de morarmos juntos."
"Me solta."
Empurrei. Tentei me desvencilhar. O medo virando força desordenada.
Ele soltou por um segundo, só para me agarrar de novo, mais forte.
Os dois braços agora.
"PARA. SE ACALMA, KATNISS."
Chutei. Errei. Tentei outra vez. Ele perdeu a paciência. Tentou me jogar na cama.
Rápido demais.
Forte demais.
Como se me conter à força fosse mais simples do que me ouvir. Mais simples do que me deixar ir. O empurrão veio seco.
Sem controle.
Meu corpo foi lançado torto.
Sem apoio.
A barriga bateu direto no criado-mudo.
O impacto ecoou antes que a dor chegasse.
Caí logo em seguida. O ombro girou ao tocar o chão.
E então outra dor atravessou o corpo, apagando todas as outras.
O quarto ficou em silêncio.
Só era possível ouvir a respiração dele.
Pesada.
Irregular.
Como se só então tivesse percebido que tinha perdido o controle.
Depois disso, tudo ficou escuro.
Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Quando despertei, me vi deitada na cama, o corpo mal posicionado entre os lençóis, o braço apoiado de forma improvisada, preso junto ao peito, como se alguém tivesse decidido por mim que aquela era a única posição possível. Doía, mas não como antes. Eu conseguia mover levemente, e isso foi suficiente para entender que não estava mais fora do lugar.
Olhei para a janela. Estava escuro lá fora.
Foi aí que percebi.
Eu não estava em um hospital. Ainda era o quarto dele.
"Ei… você acordou." Ele se aproximou depressa, rápido demais. "Eu estava ficando preocupado."
"Eu preciso de um médico." Minha voz saiu baixa, mas urgente. O coração batia acelerado, fora de ritmo. Algo não estava certo. A lembrança da queda voltou inteira. O empurrão. O impacto. A sensação de perder o controle do próprio corpo. Meu estômago se revirou.
"Amor, tá tudo bem." Ele falava rápido, sem pausa. "Você tá bem. Seu braço só vai ficar dolorido. Eu coloquei no lugar." Levantei o olhar devagar.
"Você fez o quê?"
"Tá tudo certo." Ele respondeu na defensiva. "Eu sei fazer isso. Aprendi na faculdade. No time isso é útil… às vezes não tem médico por perto, é bom saber." Ele tentou sorrir, mas o sorriso não se sustentou.
"E o bebê?" Minha mão foi direto para a barriga. Eu não estava sentindo nada. "Eu preciso ir pro hospital."
"Ele tá bem." A resposta veio imediata, automática demais. "Você não está sangrando, eu fiquei de olho. Não aconteceu nada grave. Você só precisa descansar."
"Eu bati a barriga." Minha voz falhou. "Me leva pro hospital, Gale."
"Não." A palavra saiu seca.
"Como assim não?"
"Você precisa dormir." Ele passou a mão pelos cabelos, andando pelo quarto. "Agora não é hora disso. Se você chega num hospital desse jeito, vão começar a fazer perguntas." Meu corpo gelou.
"Eu bati a cabeça." Tentei me mover, mas o corpo não acompanhou. "Eu preciso de um médico. Chama alguém. Chama a emergência." Ele parou de andar e me encarou.
"Você sabe que não pode me fazer perder a cabeça, amor."
"O que você tá dizendo?"
"Eu estou calmo agora." Ele respirou fundo, como se precisasse se convencer. "Tá vendo? Já passou. Não precisa transformar isso em outra coisa."
"Isso já é outra coisa." Minha garganta apertou. "Agora não é só sobre nós. É sobre nosso filho, nossa família." Tentei soar calma, tentando convencê-lo.
"Nosso filho está bem." Ele se aproximou da cama. "Eu sou forte. Ele também é. Puxou ao pai."
"Me leva pro hospital. Por favor."
"Se eu te levar, eles vão achar que fui eu." A frase escapou antes que ele pudesse conter. "E não fui eu. Você que me tirou do sério." Fiquei em silêncio.
"Diz que eu caí… não importa. Só me leva pro hospital."
"Eu não posso." Ele disse, mais para si do que para mim. "Agora não." Ele respirou fundo outra vez, forçando uma calma que não existia. "Você descansa hoje, dorme um pouco mais e amanhã a gente marca uma consulta. Vai ficar tudo bem. Vou pegar algo pra você comer." Ele repetia que ficaria tudo bem como se as palavras pudessem apagar o que tinha acontecido.
Mas não iam.
Ele tinha perdido o controle.
E agora, para não lidar com o que fez, preferia fingir normalidade.
Me manter ali.
Longe de médicos.
Longe de perguntas.
Longe de qualquer lugar onde a verdade pudesse aparecer.
Comecei a chorar, desejando desesperadamente sentir qualquer pequeno movimento na barriga. Meu celular não estava por perto e não conseguia me mexer. Não havia nada que pudesse me ajudar. Foi então que a porta do quarto se abriu de repente. Liam estava parado ali, com o filho logo atrás dele.
"O que você fez?" Ele entrou sem esperar resposta. O rosto era de puro choque, misturado com raiva.
"Foi só uma discussão." Gale respondeu rápido. "Ela caiu. Eu não queria fazer isso, pai, mas ela queria ir embora… ela queria me deixar." Liam olhou para mim. Para o braço imobilizado. Para o meu estado.
"E você achou melhor me chamar do que levar ela pro hospital?" A voz dele tremeu de fúria. "Esqueceu que ela está grávida? Droga, Gale… chama uma ambulância agora. Agora."
Ele não pediu.
Ordenou.
Mas já era tarde demais.
Darius parou o carro a alguns metros de distância, e pude vê-lo observar a cena à frente com uma atenção incomum, não apenas o carro que impedia nossa passagem, mas também os arredores, usando os espelhos, analisando tudo.
Aquele carro era ligeiramente familiar… embora eu não soubesse dizer onde o tinha visto. O choro do bebê continuava. Alto. Desesperado. A voz da mulher, vestida com o que parecia ser um uniforme de babá, pedia ajuda aflita, quase em pânico.
Apesar da sensação incômoda que se instalava no fundo do meu peito, soltei o cinto e levei a mão à porta, pronta para abri-la.
“Não, senhora. Não desça do carro.” Darius não se virou, mas sabia exatamente o que eu estava prestes a fazer. Interrompi o movimento imediatamente.
“Precisamos ajudar. Tem uma criança… parece que foi um acidente, o carro derrapou.”
“Senhora, não desça do carro.” O tom dele mudou, não era grosso, mas era firme. Sem tirar os olhos da cena, ele pressionou um botão no painel. “Temos um incidente na estrada dos fundos da residência, aproximadamente a dez quilômetros da casa. Um veículo aparentemente derrapou possivelmente o carro da família Wilson. Há uma mulher acho que a babá com o bebê. Não consigo confirmar a placa completa do ângulo atual, mas as iniciais batem. Preciso de apoio imediato e um segundo veículo para retirada da senhora Mellark.”
Wilson...Eu lembrava do sobrenome. Não porque conhecesse os vizinhos, mas porque fiquei tempo suficiente em casa nos últimos meses para ouvir conversas que não eram exatamente dirigidas a mim, mas sim entre os funcionários da casa. Sabia que eles tinham tido um bebê recentemente… e que haviam contratado uma nova babá.
Nunca tinha visto ninguém da família, mas, naquele momento… tudo parecia se encaixar, já que considerando a aglomeração na estrada principal eles também teriam que fazer esse caminho alternativo.
“Senhora,” ele disse então, olhando para mim. “Vou descer para verificar a situação.” Assenti. “Vou deixar a chave dentro do veículo. O carro é blindado. Com a chave aqui, não há como abrir pelo lado de fora.” Ele fez uma breve pausa. “Preciso que a senhora permaneça dentro do veículo e não abra a porta em hipótese alguma. Apenas quando eu retornar.” Assenti novamente. “Lembre-se o veículo é blindado. A senhora está segura aqui dentro.” Observei enquanto ele abria a porta e descia com rapidez.
A mão dele foi, quase automaticamente, para a parte de trás da cintura.
Aquilo me chamou atenção.
Por que um motorista estaria agindo como se estivesse armado?
Inclinei levemente para frente, acompanhando cada movimento pelo vidro da frente.
Ele se aproximou da mulher. Disse algo rápido direto quase inaudível por causa do choro do bebê, que ela agora segurava no colo. Sem se aproximar demais.
Em seguida, ele se moveu até o banco do motorista do outro carro, onde um homem de terno estava com a cabeça caída sobre o volante.
E então tudo aconteceu rápido demais. O homem que parecia desacordado ergueu a cabeça e então havia uma arma.
Não vi de onde surgiu. Só o movimento. Rápido. Direto.
Mas Darius reagiu.
Antes mesmo que eu entendesse o que estava acontecendo, ele avançou.
Vi o corpo dele se mover com força e a cabeça do homem ser jogada para o lado com o golpe. Um soco. Mais um movimento e impacto foi suficiente para fazê-lo bater contra o volante, antes que Darius o puxasse para fora do carro.
Meu coração disparou.
Por um segundo… um único segundo… pareceu que ele tinha conseguido dominá-lo.
Mas então.
Movimento.
Atrás dele.
Dois homens surgiram de trás do veículo. Ambos armados.
Não sei de onde vieram.
Só estavam lá. Eles avançaram ao mesmo tempo.
Um agarrou Darius por trás, o puxando com brutalidade. O outro se aproximou rápido demais, e eu só consegui ver fragmentos, braços, movimento, uma luta desigual.
Três contra um.
Era confuso.
Rápido demais.
Prendi a respiração quando vi Darius ser forçado ao chão.
E então um deles puxou algo da cintura dele.
Uma arma. Vi quando foi lançada para longe, deslizando pelo asfalto.
Meu coração disparou.
Darius realmente estava armado.
Por que meu motorista estava armado?
O ar pareceu sumir dos meus pulmões.
E então eu o vi.
Outro homem surgindo.
Gale sorria. O olhar fixo no carro. Em mim.
Ele começou a caminhar na direção do veículo, o sorriso aumentando a cada passo, como se aquilo tudo estivesse exatamente como ele queria.
Observei, em pânico, quando ele tentou abrir a porta do banco de trás e imediatamente deslizei para o outro lado do banco, como se a distância pudesse me proteger.
Graças a Deus… a porta não abriu.
“Amor…” A voz dele veio baixa, íntima. “Abre a porta.” Fiquei em silêncio e ele bateu levemente no vidro. “Katniss… abre.” Meu coração batia forte demais. “Amor, eu vim te buscar. Nós temos que ir.” A naturalidade na voz dele fez tudo parecer ainda mais absurdo. Como se aquilo fosse… normal. Como se nós estivéssemos no meio de uma conversa comum. Quando não respondi, ele acenou para os outros homens, e vi quando empurraram Darius para perto do veículo. A voz dele com eles não era tão leve quanto a usada comigo. “Abre o carro.”
“Não.” Ele lançou um olhar para um dos homens, que, sem hesitar, acertou uma coronhada no rosto do meu motorista. Levei a mão à boca, segurando um grito.
“Passa a chave. Agora.”
“Não estou com a chave.” A resposta veio firme.
“Como não está com a chave?” O tom de Gale mudou novamente.
“A chave ficou no interior do veículo. Sem ela, não dá para abrir do lado de fora.” Gale riu baixo. Sem humor. Então voltou a me olhar.
“Então abre você, amor.” Neguei levemente com a cabeça. Quase imperceptível. “Abre a porta, Katniss… e a gente vai embora. Rápido e simples, anda.” O sorriso dele voltou. Mas não era o mesmo. Ele estava ficando impaciente. “Não me obriga a fazer isso do jeito difícil, querida.” Meu corpo inteiro estava tenso. Ele fez um gesto com a mão. Um dos homens se aproximou, arma em punho. “Quebra.” O impacto contra o vidro fez meu corpo reagir automaticamente. Me abaixei, protegendo a barriga, esperando o estilhaço. Mas ele não veio. O som foi seco. Pesado. Mas o vidro permaneceu intacto. Nem sequer trincou. O silêncio que veio depois foi pior. Gale observou o vidro por um segundo… e então riu. “Claro…” ele passou a mão pelo cabelo, inquieto. “Blindado.” Os olhos voltaram para mim. Fixos.
“Anda logo, cara, não temos muito tempo. Alguém pode aparecer.” Um dos homens falou, e foi então que percebi. Dois carros haviam surgido atrás do meu e já estavam posicionados no sentido oposto. A mulher com o bebê entrou em um deles com naturalidade, ninando a criança. Aquilo nunca foi um acidente, era uma armadilha.
“Você sempre precisa complicar tudo, não é?” Gale voltou a falar. “Mas, querida, eu preciso que abra logo essa porta.” Meu ar falhou. A mão tremia quando peguei o celular. Devagar. Tentando não chamar atenção. Mas ele viu. “Amor…” A voz dele soou diferente mais fria, ligeiramente perigosa. “Não faz isso.” Congelei. “Se você ligar para alguém…” ele inclinou levemente a cabeça, me analisando. “Eu vou ter que resolver isso de outro jeito. E você não vai gostar.” Minha respiração estava irregular. Darius tinha feito uma ligação. Alguém estava vindo. Alguém precisava vir. Eu só precisava ganhar tempo.
“Anda logo, cara, já deveríamos ter saído. Vamos ter que deixar ela.”
“Espera. Ela vai sair.” Ele olhou diretamente para mim. “Sempre teimosa… petulante. Mas tudo bem. Vamos do jeito difícil.” Ele desviou o olhar. “Bate nele.” Olhei para Darius no exato momento em que o golpe veio. Um soco. Forte. Direto no rosto. A cabeça dele virou com o impacto, e mesmo à distância vi o sangue surgir quase na mesma hora, rápido, intenso. Parecia ter quebrado o nariz. Meu estômago revirou.
Ele estava com os braços presos por um dos homens. Mesmo tentando se soltar, não conseguia. Outro mantinha a arma apontada para ele. “Abre!” A voz veio mais alta dessa vez. Outro golpe. Meu peito apertou. “Abre essa porta.” Apesar do sangue cobrindo o rosto, Darius balançou a cabeça pra mim.
Um não. Lento. Firme.
Meu coração disparou.
O som dos motores aumentou.
Eles estavam com pressa.
“Anda logo. Faz essa mulher sair ou deixa ela aí.”
“Ela vai comigo. Não vou deixa-la pra trás, é pra isso que estou te pagando.” Ele voltou para o vidro. “Abre a porta, Katniss.” Ele bateu novamente, mais forte.
“Quer saber…” Um dos homens, o mesmo que tentou quebrar o vidro se virou para Darius. E, sem aviso atirou.
O som ecoou.
Seco.
Brutal.
O tiro atingiu o ombro dele. E meu grito preencheu o carro enquanto eu o via cair, de joelhos, em frente ao veículo. O mundo pareceu parar.
“Senhora…” A voz do homem veio fria, enquanto ele balançava a arma com uma naturalidade que estava me deixando desesperada. “É melhor sair logo.” Ele puxou Darius pelo terno, erguendo-o com brutalidade. A camisa branca já estava manchada de sangue, se espalhando rápido demais. E sem cuidado algum, o jogou sobre o capô do carro. “A menos que queira que o próximo seja na cabeça dele.”
Meu estômago revirou. Os olhos de Darius estavam semicerrados, a dor evidente em cada traço do rosto. Mas, ainda assim… ele negava com a cabeça. Lentamente. Me dizendo para não sair.
Não tinha como não pensar em tudo. No último ano.
Na presença constante dele.
Sempre ali. Sempre atento.
Como se tivesse sido treinado para aquilo, não só comigo… mas com Prim também.
E eu não vi.
Era tão óbvio agora.
Ele não era só um motorista.
Nunca foi.
Sempre discreto. Eficiente. Confiável. Sempre presente. E agora…
“Vou contar até três, senhora.”
Vi o momento exato em que o homem pressionou a arma contra a cabeça dele.
Durante toda a minha vida, eu nunca tive muito contato com as pessoas que trabalhavam para a minha família. A maioria mudava com frequência, e eu nunca me dei ao trabalho de conhecê-las.
Mas no último ano foi diferente.
Os mesmos rostos.
Sempre os mesmos.
Não só na casa de Peeta, mas em tudo que envolvia os Mellark.
Eles não eram invasivos… mas estavam lá.
Na cozinha durante as refeições. Circulando pela casa. Conversando entre si ou com Prim, ou com Peeta.
Às vezes… comigo.
Minha respiração falhou.
Eu e ele quase não conversávamos. Mas ele sempre estava lá.
Pronto. Me levando de um lugar para outro.
Levando e buscando Prim na escola, na casa do namorado. Esperando.
Observando. Cuidando… sem nunca ultrapassar um limite.
E, ainda assim, presente em tudo.
Lembrei da única vez em que ele falou mais do que o normal, ele estava feliz e era tão nítido. Prim estava no carro também, animada como sempre.
Ele sorrindo, um pouco sem jeito, contando que estava noivo. Havia feito o pedido na noite anterior. Que o casamento seria no próximo inverno, no aniversario de namoro deles.
Ele estava feliz.
Ele tinha uma vida.
Um futuro.
“Um.”
Meu peito apertou enquanto eu olhava pra ele balançado a cabeça para que eu não saísse do carro. Ele estava disposto a arriscar levar um outro tiro.
Não era justo.
“Dois.”
Não era justo ele morrer por mim.
Muito menos… por causa do meu ex.
Instável. Perigoso.
Eu nunca me perdoaria, por isso.
Nunca.
O som do engatilhar da arma cortou o ar.
E, antes que ele dissesse “três”, levei a mão à maçaneta e abri a porta.
O ar me atingiu imediatamente.
E, no segundo seguinte
Gale já estava ali.
Perto demais.
Ele segurou minha mão com força, como se aquilo fosse natural, como se eu estivesse apenas… saindo por vontade própria.
“Boa garota…” A voz dele era baixa, satisfeita. Ele me puxou para fora do carro e me guiou em direção ao veículo atrás.
Eu soube que a pior parte do meu passado estava voltando para me assombrar.
POV Peeta
Assim que Brutus parou o carro, senti o impacto antes mesmo de entender o que estava vendo. Luzes vermelhas e azuis cortavam a pista.
A área já estava isolada com fitas de contenção.
Duas viaturas, uma ambulância… e um carro que reconheci como da minha equipe de segurança. O veículo usado na emboscada permanecia atravessado na pista, forçando a parada.
O carro de Katniss estava alguns metros antes. Porta traseira aberta. Porta do motorista aberta.
Vazio.
Abandonado.
Havia sangue espalhado pelo asfalto.
Pelo capô.
Perto da lateral do carro.
E um nó se formou no meu estômago.
“Senhor, a via está isolada. Preciso que mantenha distância.”
Um dos policiais se aproximou assim que descemos.
“Ele é o dono do veículo,” Brutus disse atrás de mim, firme. “A esposa dele foi levada.” Eu apenas observei o local como se, de alguma forma, aquilo fosse me ajudar a entender o que houve. “O que temos até agora?” Brutus perguntou, assumindo a frente com a calma profissional de sempre.
“Não muito ainda,” respondeu o policial. “A câmera do painel foi danificada, então não sabemos exatamente o que aconteceu, nem quantos indivíduos estavam envolvidos.” Ele indicou discretamente a equipe mais afastada. “Esses homens se identificaram como de uma empresa de segurança particular. São vinculados ao senhor?”
“Mellark. Peeta Mellark.” Minha voz saiu baixa. “E sim. São meus funcionários. Ele é meu chefe de segurança.” O policial assentiu, fazendo uma anotação.
“Por que o senhor possui uma equipe desse porte? Houve alguma ameaça recente?”
“Não,” Brutus respondeu por mim. “Nossa equipe também cuida da segurança da empresa do senhor Mellark.”
O policial voltou a me encarar.
“Empresa de médio ou grande porte?”
“Grande porte.” Respirei fundo. “E eu vou responder tudo o que for necessário. Mas quero saber das buscas pela minha esposa. Ela está grávida. No último trimestre.”
O policial hesitou por um segundo.
“Entendemos a gravidade, senhor. Essa foi a primeira informação passada pelo seu pessoal. Vamos fazer o possível para localizá-la e entender o que aconteceu. Mas preciso que o senhor colabore e permita que a policia trabalhe para achar sua esposa.” Acenei com a cabeça. “Houve alguma ligação? Algum pedido de resgate?”
“Não.” Minha resposta veio imediata. “E não vai ter. Ele não quer dinheiro.”
O policial franziu o cenho.
“Senhor, ainda não temos confirmação de quem a levou. Houve um disparo de alarme nas proximidades existe a possibilidade de tentativa de fuga. Sua esposa pode ter sido levada como refém.”
Respirei fundo, segurando a resposta.
“Jon, vocês já recuperaram as imagens?” Brutus perguntou, ao jovem que havia se aproximado sem que eu percebesse.
“Já solicitamos, senhor. Devem chegar em alguns minutos.”
“Todas as imagens ficam armazenadas em nuvem,” Brutus continuou, voltando-se para o policial. “Vamos compartilhar tudo com vocês. Mas não vamos nos afastar. Nosso trabalho é a segurança dessa família e vamos continuar procurando. Já temos um nome. Acredito que meus homens passaram aos senhores.”
O policial respirou fundo, visivelmente se controlando.
“Já recebemos o nome que vocês mencionaram. Gale Hawthorne. Mas não podemos trabalhar com base em suposições.”
“Não é uma suposição,” Brutus respondeu, sem alterar o tom. “Antes de perder a consciência, o segurança que estava com a senhora Mellark mencionou claramente o nome do responsável.”
“Um nome dito sob efeito de dor intensa não é confirmação,” o policial rebateu. “Ainda assim, estamos investigando. Pelo que apuramos, ele não tem registro recente de entrada na Capital e não possui ficha criminal.”
“Mas é o ex-namorado da minha esposa,” cortei. “E estava rondando ela nos últimos meses.”
O policial sustentou olhar.
“Não há registro de denúncias sobre isso. Nem nada que indique um histórico problemático. Ainda assim, não estamos ignorando a possibilidade, senhor.” Ele fez uma pausa breve. “Encontramos uma arma no local. Ela será analisada para confirmar se foi utilizada no disparo e identificar o registro.”
“A arma encontrada é a do Darius, senhor,” Jon acrescentou. “Não tocamos em nada, mas, pelo que vimos, ainda estava com a trava acionada.”
Fechei os olhos por um segundo.
Aquilo significava que ele nem teve chance de defesa.
“Olha… Seu segurança anda armado?”
“Ele assim como alguns dos meus outros colaboradores tem licença para porte de arma, todos são treinados e temos todas as documentações podemos providenciar para que a policia veja sem problema.”
“Por que ainda estamos aqui discutindo isso?” Minha voz saiu mais firme, porém baixa. “Esse homem é o ex da minha esposa.” Fiz uma pausa curta. “Instável. Com histórico de comportamento violento.”
“Senhor...” Meu celular vibrou no mesmo instante em que Jon estendeu o tablet para Brutus.
“As imagens da câmera do veículo chegaram.” Brutus analisou rapidamente… e então passou o tablet ao policial.
“Isso deve ser suficiente para parar de tratar isso como suposição. É possível ver claramente Gale Hawthorne.”
O silêncio que se seguiu foi curto.
Pesado.
Não esperei resposta.
Não ia ficar ali.
Atravessei até o outro lado do veículo que bloqueava a passagem, em direção ao carro do noutro lado.
“Brutus,” chamei, fechando a porta. “Tem alguém procurando?”
“Sim, senhor. Assim que a equipe chegou e viu a cena, acionamos reforço por outra rota, já que o caminho estava bloqueado. A equipe da casa dos Odair iniciou a busca imediatamente. Todos foram acionados. Temos homens no aeroporto, e Jon vai ficar aqui acompanhando as investigações policiais.”
Assenti.
Peguei o celular e abri as imagens.
A sensação de raiva foi imediata. Vi toda A emboscada. A abordagem violenta a chantagem emocional e o disparo.
“E o Darius?” perguntei, sem tirar os olhos da tela. “Conseguiram falar com a família dele?”
“Ele será levado para cirurgia em breve,” Brutus respondeu. “Um dos nossos já está com a noiva e a mãe dele no hospital.”
Travei a mandíbula e respirei fundo.
“Providencie tudo o que for necessário. Todo o suporte para ele e para a família. E me mantenha informado, por favor.”
“Já está sendo feito, senhor.” Desviei o olhar para a janela, tentando pensar. Para onde ele a levaria.
“Vamos encontrá-las senhor.”
Respirei fundo.
Porque precisava acreditar nisso.
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