Linha Tênue
31 Capitulo 29: Uma das funções de uma irmã
Notas iniciais
Senti o celular vibrar ao meu lado no sofá e, ao ver o nome do meu pai, ignorei, mais uma vez, como vinha fazendo nos últimos dois dias. Assim como das últimas vezes, o telefone da casa tocou. Não me preocupei com ele; todos os empregados haviam sido instruídos a informar que não estava.
“Mas lembre-se que esse resultado só ocorre porque não existem valores positivos.” Voltei minha atenção para os dois sentados no chão da sala. Durante o jantar, minha irmã comentou sobre a dificuldade em um dos exercícios de matemática e Peeta havia se oferecido para ajudá-la. Então, com uma naturalidade inesperada, eles se sentaram no chão, com os livros e cadernos da minha irmã na mesa de centro, e passaram a última hora discutindo exercícios que eu não tinha ideia de como eram feitos, já que minha irmã, diferente de mim, era muito boa em cálculos e estava na turma avançada. Não pude deixar de pensar que a cena me lembrava muito o dia em que fui até a casa do loiro estudar, anos atrás.
“Não acredito nisso, a solução parecia tão difícil.”
“Não sei por quê, mas parece que quem cria problemas matemáticos tem um senso de humor diferenciado para fazer essas pegadinhas.”
“Obrigada, Peeta, você me salvou de pelo menos umas três horas analisando os livros esta noite.”
“Não foi nada, acredite, ensinar sua irmã deu muito mais trabalho.” Revirei os olhos para a risada dos dois.
“Matemática não é fácil para a maioria das pessoas,” comentei, entrando no assunto. Sem demonstrar chateação, Prim estava se dedicando muito aos estudos e participar das aulas avançadas era um esforço que sabia que faria a diferença na hora de se candidatar a bolsas de estudo para a faculdade. Ainda assim, isso fazia com que ela e Peeta tivessem muito o que conversar e, de certa forma, lamentava não poder contribuir de alguma forma. “Além do mais, tive dificuldade, mas me saí muito bem naquela prova e no trabalho; passei de ano quando aquele professor Latier achou que não conseguiria.”
“Sabemos disso, mas, tirando os cálculos difíceis, você sempre foi muito boa em resolver problemas, Katniss. Sem contar suas outras qualidades: foi a mais nova líder de torcida da escola, lembra? E sua oratória sempre foi elogiada; até o papai fala o quanto você é boa em se comunicar.” Sorri para minha irmã e tive que concordar: eu era boa em resolver as coisas, talvez não de formas convencionais, mas era boa em achar soluções e talvez esse fosse o caminho, que estava procurando nos últimos dias.
“Devo concordar com você, Prim.” Peeta levantou do chão e sentou ao meu lado no sofá, passando os braços em meu ombro; afinal, o teatro nunca pode parar. “Sua irmã era uma ótima líder; eu mesmo nunca entendi como ela tinha coragem de ficar com tanta naturalidade no topo daquela pirâmide humana.”
“Nem eu, prefiro os livros.”
“Isso, porque você nunca quis tentar. Tenho certeza de que se daria muito bem na torcida.” Ela sorriu, terminando de guardar os livros.
“Não acho que teria aguentado um único dia, mas obrigada! Vou aproveitar e dormir mais cedo hoje. Boa noite.” Observei minha irmã subir as escadas e, no momento em que ela sumiu de vista, Peeta se afastou, me soltando do abraço. Sabia que ele iria seguir para o escritório e, no momento em que ele se levantou, acabei segurando seu braço.
“Espera.” Ele olhou para mim, sem entender. “Você falou sério quando disse que estava tomando a decisão de fechar a empresa, puramente como empresário, não por vingança, não para punir a mim e à minha família?”
“Katniss, de novo, não! Só aceita que essa empresa não tem futuro.”
“É um negócio à parte do nosso, ou não é, Peeta?” Ele me olhou por um momento antes de responder.
“É, independente de qualquer coisa, a Mockingjay é só prejuízo.”
“Me dá um tempo, seis meses, não por mim, mas pelas pessoas que trabalham lá. Independente de ser meu foco principal, me dá um tempo para analisar, pensar e tentar ter uma boa proposta, ou para ter certeza de que não há nada a ser feito.”
“Você não acredita que tomei a decisão empresarial certa? Acha mesmo que tem algo a ser feito?”
“Se fosse a M.Company, você não iria tentar de tudo?”
“Isso seria bem diferente. Você nunca teve interesse na Mockingjay; eu criei a M.Company.”
“O que não significa que eu não precise tentar. Por favor.” O pedido saiu amargo, mas eu precisava de tempo, precisava encontrar alguma solução. Ele me olhou com ainda mais atenção.
“Três meses. Sem joguinhos, sem exposição. Essa sua nova jornada não pode influenciar nosso acordo em nada, e não estou prometendo nada em relação à Mockingjay; pelo contrário, só estou adiando algo que você mesmo verá como inevitável. Mas você me deixou curioso, então vamos ver se você vai achar a solução mágica.” Ele saiu em direção ao escritório sem nenhuma outra palavra, aquilo não era uma vitória, ainda sim havia levado o jogo para as prorrogações.
O resto da semana passou sem surpresas. Peguei alguns documentos da Mockingjay com o contador e comecei a avaliar o que ele disse ser um pouco do que estava disponível. Ainda assim, não tive muito tempo para avaliar nada, considerando que havia o jantar com a família Mellark para organizar. Não que fosse um grande evento; pelo contrário, considerando o que aprendi com os jantares compartilhados pelo clã do loiro, a regra era exatamente a informalidade.
Então na sexta-feira, estava devidamente arrumada com um macacão leve de linho, muito confortável, mas sofisticado, e um saltinho lindo que havia comprado um tempo atrás, recebendo a todos com um sorriso ao lado do loiro. Willian foi o último a chegar, e Prim fez questão de apresentá-lo aos meus sogros, que sorriram para o namorado dela, sempre muito educados.
Aliás, o referido garçom havia conquistado a família do loiro, e não foi diferente com os mais velhos, e em menos de duas horas Effie e Haymitch estavam sendo chamado pelo primeiro nome por ele. Minha sogra logo o convidou para passar o feriado de Ação de Graças com a família, e meu sogro parecia animado ao falar sobre como adoraria mostrar a propriedade no Distrito 12, onde, segundo ele, o jovem precisava de um pouco de sol e ar fresco.
“Will, você já andou a cavalo?”
“Nunca, nem vi um, Alex.”
“Eu posso te emprestar o Cometa. Ele é ótimo e muito bem treinado; a Katniss andou nele e gostou, não é?” ele virou pra mim com expectativa.
“Sim, Alex, ele é muito bonzinho.” Sorri para a única pessoa presente, além da minha irmã, que gostava de mim. Estávamos todos sentados na sala; Peeta estava ao meu lado, com os braços em minha cintura.
“Não acredito que andou a cavalo e não me contou.” Prim parecia surpresa e curiosa. “Alguém gravou isso?” Peeta riu e negou com a cabeça.
“Não foi nada demais, Prim, só um passeio. Ainda assim, não acho que vou repetir tão cedo.”
“Sua irmã estava apavorada, mesmo comigo garantindo que ela estava segura e que o cavalo do Alex era manso e muito bem treinado.” Ele olhou para mim com um sorriso ligeiramente arrogante.
“Quedas de cavalo matam, meu bem.” Mantive o olhar fixo no dele.
“Jamais deixaria você cair, meu amor.” Ele não desviou os olhos do meu.
“Algumas coisas não são possíveis de controlar querido.”
“O Cometa foi treinado especialmente para uma criança; ele é ótimo e manso, e não deixei você longe de vista.”
“Ele poderia ter começado a correr na frente.”
“Tempestade teria alcançado rapidamente e sem esforço; meu cavalo é o mais rápido da propriedade.”
“Poderia ter caído antes de você me alcançar.”
"Só se você se jogasse, eu monto a cavalo há anos."
“Vocês querem subir? Se Peeta for rápido, podemos esperar.” Desviei o olhar, me virando novamente para as demais pessoas na sala.
“Thresh.” Delly deu um tapa leve no noivo, que apenas riu da cara fechada da noiva.
“Por que eles precisam subir, tio Thresh?”
“Por nada, Alex, seu tio está brincando.” Lavinia encerrou o assunto momentos antes de me avisarem que o jantar estava pronto.
Seguimos para a sala de jantar e pude ver o alívio no rosto do namorado da minha irmã ao perceber que a mesa não estava posta de forma tão formal como na noite em que ele veio jantar conosco. Haymitch Mellark detestava muita formalidade, evitava ao máximo jantares em restaurantes de alto nível e ficava realmente incomodado com todas as normas de etiqueta, embora soubesse como se portar e qual talher usar. Dessa forma, qualquer jantar na casa dos filhos ou em sua própria casa era regado de informalidade. O mais interessante ao observar o casal que meus sogros formavam era como Effie era o tipo de mulher que conseguia demonstrar elegância sempre que podia. As roupas que usava e a forma como agia em ambientes de alto nível deixavam isso muito claro, embora, ao redor da família, ela mostrasse uma informalidade que não conseguia ver em mulheres como minha mãe, por exemplo.
Dessa forma, Mags, que conhecia a família melhor do que os demais empregados, havia coordenado um cardápio elegante o suficiente para agradar minha sogra, mas sem muito requinte para não desagradar meu sogro.
Como entrada, um mix de folhas verdes, fatias de pêra, queijo gorgonzola, nozes caramelizadas e um vinagrete de balsâmico, seguido de um delicioso filé mignon ao molho de vinho tinto com purê de batata trufado e legumes assados.
Peeta havia escolhido um vinho branco leve e um tinto encorpado, que harmonizavam muito bem com as escolhas da noite.
Como era esperado, o jantar foi cheio de conversas paralelas que se misturavam de forma desordenada, mas que pareciam agradar a todos. Olhando para minha irmã, pude ver um sorriso sincero e, como era esperado, com seu jeito descontraído, ela estava no meio do caos que não estávamos acostumadas.
Não pude deixar de pensar nos diversos jantares da minha infância, adolescência e vida adulta, quando dividíamos a mesa com meus pais, e tudo era diferente. Na casa dos Everdeen, o jantar era sempre silencioso; as normas de etiqueta não eram opcionais, não para Paula Everdeen, que dizia estar nos preparando para a sociedade. O silêncio pairava durante quase toda a refeição; em algum momento, meu pai perguntava como tinha sido o dia ou como tinha sido na escola, mas, no fundo, ele não queria saber. Com o tempo, as respostas que, na infância, vinham acompanhadas de relatos, passaram a ser apenas frases curtas que não refletiam necessariamente a realidade do nosso dia. Minha mãe comentava sobre o dia dela com um pouco mais de detalhe, mas os dias eram tão parecidos que ninguém prestava atenção de fato nos lugares que ela visitava ou nas pessoas da alta sociedade que encontrava. Era quase um outro mundo. E, vendo minha irmã sorrir como nunca vi em um jantar antes, nossa infância pareceu ligeiramente cinza.
Após o jantar, voltamos para a sala e, como pretexto para entreter o Alex, a noite de jogos teve início. Outra coisa sobre a família de Peeta era que, embora supostamente a noite de jogos fosse por ter uma criança entre eles, independentemente da presença do afilhado do meu marido, eles sempre jogavam algo e normalmente competiam com muita determinação.
Assim, as horas seguintes foram repletas de risadas e uma atmosfera de competição intensa entre os três irmãos e uma criança. Juntos, eles debatiam regras, lançavam acusações de trapaça e trocavam provocações, tanto sutis quanto escandalosas. Cada movimento estratégico era acompanhado por gritos de "não vale!" e risadinhas, criando um clima de pura diversão. No fundo, era impossível não admitir: assistir àquela dinâmica era tão divertido quanto jogar. A alegria e a camaradagem iluminavam a sala, transformando a noite em uma experiência muito boa, tanto que nem dei atenção ao toque do telefone.
Após uma decisão de empate, os irmãos, ligeiramente contrariados, começaram a se despedir com a promessa de que a questão seria resolvida no próximo Ação de Graças, embora todos estivessem sorrindo em meio às despedidas. Pude ouvir Effie reforçar o convite para que minha irmã e o namorado passassem o feriado no Distrito 12.
Quando o último dos Mellark foi embora, Willian começou a se despedir, agradecendo pela noite de forma educada, quando Marian apareceu na sala, ligeiramente sem graça, avisando que meus pais estavam chegando.
Não tinha ideia do que eles estavam fazendo ali naquela hora, mas sabia que coisa boa não era. Observei Prim pelo canto do olho e pude ver que ela estava surpresa com a informação. Willian, que até onde eu sabia não conhecia nenhum dos dois, estava ligeiramente pálido.
Peeta, por outro lado, parecia tranquilo, como sempre, enquanto cumprimentava meus pais como se fossem convidados chegando, como deveria ser. Entretanto, minha mãe não parecia demonstrar tanta classe, já que o olhar dela estava totalmente direcionado para o namorado da minha irmã, o mesmo olhar que ela deu a Peeta anos atrás, como se ele fosse insignificante.
"Esse é o sujeitinho?"
"Mãe..." adverti, tentando manter a calma, mas ela nem me olhou.
"Esse é o Willian, mãe, meu namorado, não um sujeitinho." Vi a raiva no rosto de Prim, uma raiva que nunca vi antes. Algo que, pela expressão dela, parecia estar guardado a muito tempo.
"Sujeitinho sim, interesseiro, que só está com você por dinheiro!" A voz da minha mãe soava cortante, impregnada de desprezo.
"Que dinheiro, mãe? Porque, segundo você, nem o direito as roupas que você mesma comprou pra mim eu tenho!" Olhei para o meu pai, esperando algum apoio, mas ele estava parado atrás de minha mãe, impassível, como se nada mais importasse.
"Por favor, vamos manter a calma," pedi, tentando aliviar a tensão, mas já sabia que as palavras estavam saindo de controle. E eu não queria que Peeta soubesse de todos os detalhes que estavam começando a surgir.
"Estou te protegendo de golpistas como esse, só você não percebe! Mas essa palhaçada acaba hoje!" Ela estava furiosa, agora encarando minha irmã com um olhar cheio de reprovação. "Você não vai ficar aqui com esse aproveitador, na casa da sua irmã. Chega! Vai andar com as próprias pernas, Primrose!"
"Senhora Everdeen..." Willian tentou intervir de forma calma, ficando ao lado de Prim, mas foi interrompido de forma bruta.
"Não estou falando com você."
"Não fale com ele assim, o problema é comigo, não com ele." Prim levantou a voz, a frustração clara em sua voz.
"Não grite com sua mãe, Prim," meu pai disse, em seu tom autoritário, aquele mesmo tom que usava quando éramos pequenas e fazíamos alguma travessura. "Somos seus pais, e exijo respeito com a sua mãe!"
"Ah, sim, os pais do ano..." Prim ironizou, a voz carregada de sarcasmo. "Esqueci como vocês são incrivelmente exemplares, sempre me apoiando e me acolhendo..." Ela olhou diretamente para minha mãe. "Então, mamãe querida, não fale assim com o Willian. Seu problema e desgosto são comigo, não com ele."
Minha mãe avançou um passo, agora bem próxima de Prim, como se estivesse prestes a invadir seu espaço. Sua voz ficou ainda mais dura e fria.
"O meu problema tem tudo a ver com ele. Foi ele que virou sua cabeça, é ele que está acabando com minha filha, com a menina que seu pai e eu criamos para ser melhor do que isso!" Ela tinha perdido completamente a compostura. "Eu te falei para sair de casa, lidar com as escolhas que fez, andar com suas próprias pernas, não viver às custas da sua irmã, como se nada tivesse mudado! Quer namorar um pobre que não tem nem onde cair morto? Namore! Mas se vire! Vá servir mesas em um bar, seis, sete vezes por semana, esperando por gorjetas para pagar as contas. Pare de estudar porque não consegue pagar o colégio, aquele lugar de patricinha, como você mesma dizia... Pois é isso que você escolheu, não é?" Minha mãe estava tão enfurecida que as palavras saíam como lâminas afiadas. "Então, faça! Mas não venha me pedir ajuda depois, quando estiver grávida de um homem sem futuro, que vai te deixar sem futuro também! Não venha me procurar, Prim, não enquanto continuar fazendo essas escolhas ou quando for tarde demais pra salvar você! Mas agora você vai sair dessa casa imediatamente e ir par onde quer que esse sujeito possa te levar." Vi lágrimas nos olhos da minha irmã, mas antes que ela ou eu pudéssemos dizer qualquer coisa, ouvi a voz do loiro ao meu lado.
"Senhora Everdeen, chega." Peeta havia permanecido em silêncio até aquele momento, com a expressão neutra, como um observador distante. Mas o tom com que falou agora era sério, autoritário, tão firme quanto o de meu pai minutos antes. "Devo lembrá-la de que está na minha casa, e o mínimo exigido aqui é respeito com os meus convidados."
"Seus convidados?"
"Sim, meus convidados. Prim está aqui a meu convite e ficará enquanto Katniss e eu quisermos. Ou até ela decidir sair por motivos que não têm nada a ver com você, que, aliás, devo lembrar, não tem voz alguma sobre isso."
"Ela é minha filha!"
"E você a colocou pra fora de sua casa. Mas aqui, na minha casa, você não tem direito de opinar. Embora não tenha intenção de me envolver em um assunto entre mãe e filha, devo lembrá-la de que o Willian está aqui a convite meu, e exijo respeito com ele dentro da minha casa."
"Já havia falado com a Katniss, que não queria que ela ficasse aqui, ou ela vai continuar com esse namoro absurdo."
"Namoro absurdo por quê? Vocês conhecem o rapaz? Ele fez algo inapropriado ou desrespeitoso com sua filha? Não tem caráter, ou a tratou mal?"
"Absurdo porque ele não tem futuro."
"Quem disse que ele não tem? Sabe o que eu acho um absurdo? Pessoas que julgam os outros pelo salário ou pelas condições financeiras da família. Isso é um absurdo! Prim me apresentou um homem de caráter, trabalhador, com uma ótima família, que a trata bem, se preocupa com ela, que a faz feliz. No que me diz respeito, ele tem um futuro promissor."
"Ah, que lindo! Você acha que é certo apoiar o relacionamento entre classes sociais diferentes, mas não vi você se casando com uma pobre." Vi o sorriso cínico no rosto do loiro com toda a situação.
"Mãe, por favor, isso já passou de todos os limites," pedi, desesperada, não sabia onde aquilo poderia chegar.
"Por acaso a Katniss tinha o mesmo nível financeiro que eu quando casamos? Vocês têm o mesmo patamar financeiro que minha família?"
"Paula, é melhor irmos para casa," meu pai sugeriu, sabendo onde aquilo poderia nos levar.
"Não, Phillip, não somos qualquer um! Todo o Distrito 12 conhece os Everdeen. Somos uma das famílias mais conhecidas de lá. Mesmo depois de anos morando na Capital, onde nosso escritório está, nossa fábrica emprega boa parte da população daquele lugar!" A medida que minha mãe falava, o loiro parecia se divertir, com um sorriso cínico no rosto. Olhei para meu pai, pedindo socorro, mas ele parecia ter congelado, como sempre. "Não me lembro de ouvir falar de nenhum Mellark no tempo em que vivi lá."
"E veja onde cheguei. Você já procurou saber sobre o meu sobrenome na internet? Nos círculos sociais? Fora de Panem, talvez? Sei que sabe o que meu sobrenome representa ou não teria apoiado tão firmemente meu casamento."
"Katniss tem berço, teve a melhor educação acadêmica, de acordo com o lugar onde morávamos, ela tem etiqueta, nossa família tem um nome!" Minha mãe levantou o tom, como se quisesse esfregar na cara de todos a posição que acreditava ter. "Você não nos fez nenhum favor!"
"JÁ CHEGA!" gritei, mais alto do que qualquer um havia feito naquela noite, fazendo todos se virarem para mim.
"Katniss, isso são modos."
"Mãe, chega. Quero que vá embora. Você já desrespeitou minha irmã, o namorado dela, a mim, a minha casa e ao meu marido. Por favor, vá embora. Podemos conversar em outro momento."
"Sua irmã tem que ir embora."
"Não, Peeta e eu já falamos que ela não vai sair daqui. Vamos falar em outro momento, quando tudo tiver mais calmo."
"Katniss, sou sua mãe, você não pode me mandar embora assim, enquanto deixa seu marido falar desse jeito comigo e permite que esse sujeito esteja aqui com sua irmã."
"Pai, leva minha mãe para casa, por favor. Eu vou procurar vocês quando ela estiver mais calma e puder conversar como uma adulta."
"Vamos, Paula."
"Phillip, ela não pode nos mandar embora assim! Somos os pais dela! Sempre fizemos de tudo por essas duas!"
"Senhora Everdeen, minha esposa pediu para a senhora sair."
"Isso é ridículo!"
"Mãe, chega de cena, não me faz chamar o segurança, por favor."
Minha mãe se virou, passando com raiva ao lado de meu pai, e eu estava quase respirando aliviada por ela finalmente estar indo embora, quando ela parou na porta e se virou.
" Escuta bem o que vou falar, se sua irmã acabar grávida, sem futuro algum e sozinha pelas ruas, a culpa também será sua, Katniss."
Olhei para minha irmã, que estava sendo abraçada por Willian. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, embora ela tivesse se esforçado para segurá-las. Ela não merecia nada daquilo. De todas as pessoas que conheci, Prim era a que mais merecia o melhor da vida. Minha irmã era o melhor da família Everdeen. Ela era justa, bondosa, verdadeira, simpática com todos ao seu redor e nunca esperava nada de ninguém. Por mais que eu entendesse as questões relacionadas às diferenças entre ela e o namorado, Prim não merecia ouvir aquilo. Ela não merecia ser abandonada pela família, que deveria estar ali para apoiá-la, não pela aparência, mas para protegê-la.
"Ela nunca vai estar sozinha, mãe. Eu não vou deixar que ela fique sozinha nunca. Essa é uma das funções de uma irmã, não é?" Sem dizer mais uma palavra, minha mãe saiu pela porta, com meu pai atrás dela. Eu senti um leve tremor nas minhas mãos antes de respirar fundo e olhar para minha irmã. "Prim..."
Ela se soltou do namorado e veio até mim, e como fazia quando era pequena, me abraçando forte.
"Ei, Will, vamos até a cozinha pedir um pouco de chá. O que acha?" Peeta falou, guiando suavemente o rapaz para fora. Eu odiava Peeta Mellark, mas naquele momento, pensando em como ele defendeu minha irmã, e como estava nos dando espaço naquele momento agradeci mentalmente por tê-lo por perto.
"Katniss, ela me odeia. Não queria que ela me odiasse..." Pela voz dela, o choro finalmente não pôde mais ser segurado, e senti um aperto ainda maior no peito. Sentei com ela no sofá e olhei em seus olhos por um momento.
"Ela não te odeia, você conhece a mamãe, ela fala muita coisa sem pensar. Vem cá." Apoiei a cabeça dela no meu colo e comecei a acariciar seus longos cabelos loiros. De repente, me lembrei da garotinha que ela tinha sido, com medo de trovões e filmes de terror.
"Não queria ter que escolher, mas eu amo o Will. Ele me faz feliz. Não é pelo dinheiro, ele nem sabia quem eu era quando nos conhecemos. Você sabe que ele teria me acolhido quando mamãe me expulsou. Você pediu para que eu ficasse, mas eu posso ir embora, você sabe. Sou muito grata a você e ao Peeta por me ajudarem com a escola, por me deixarem ficar, mas não quero causar problemas com a mamãe."
"Você é nova demais para morar com seu namorado, ainda nem terminou o colégio... Precisa focar em entrar em uma boa faculdade, ser uma grande médica para ajudar um montão de gente." Usei a frase que ela sempre dizia quando eu era mais nova e dizia que queria ser médica, e ela sorriu. Suspirei, olhando para ela com carinho. "Coloca isso na sua cabeça, Prim. Eu posso não concordar com tudo o que você quer, mas eu sempre vou estar com você. Sempre, entendeu?"
"Obrigada!"
"Não tem o que agradecer, tudo vai ficar bem, patinho." Beijei o topo da cabeça dela com carinho, e pude ouvir o sorriso dela novamente ao ouvir o velho apelido, não usado há anos. Eu só queria proteger tudo o que ela era e sempre seria.
Tudo o que eu estava fazendo, na maior parte, era pela minha família. Eu estava disposta a me sacrificar pelos meus pais, mas não iria permitir que eles destruíssem o que nossa família tinha de melhor. Não ia deixar que destruíssem a Prim.
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