Linha Tênue
47 Capítulo 44: O Nascimento de uma Rainha
Notas iniciais
“Eu estou tendo contrações.” Aquelas palavras fizeram meu coração disparar outra vez.
“Brutus, avisa a doutora Porter que estamos indo agora.” Minha voz saiu firme, sem espaço para dúvida ou questionamento. O paramédico continuou guiando a maca, e eu entrei logo atrás dela na ambulância. Naquele momento, nada mais importava. Eu precisava ir com ela até o hospital mais próximo.
“Peeta…”
“Vai ficar tudo bem,” falei imediatamente, segurando a mão dela enquanto me sentava ao lado da maca. “Olha pra mim. Fica comigo. A gente já está indo pro hospital. A doutora Porter vai estar lá. Vai ficar tudo bem.”
“Tem alguma coisa errada… está doendo.”
“Eu sei,” respondi mais baixo, me inclinando na direção dela. “Eu sei que está doendo. Mas você não está sozinha. Eu estou aqui… com vocês.”
“Eu não devia estar tendo contrações… ainda está cedo…”
“Pode ser só estresse… Braxton Hicks, lembra? Falaram que poderia acontecer. É mais comum do que parece,” falei, mantendo a voz estável, mesmo sem acreditar totalmente nisso. “A gente viu isso nas aulas. Seu corpo só está reagindo a tudo isso. Respira… puxa o ar… e solta. Vamos, faz comigo.”
Ela tentou, mas não conseguiu sustentar. Quando ela apertou minha mão, forte demais, algo em mim travou.
Era outra contração.
Vi o corpo dela enrijecer e, assim que passou, ela começou a chorar compulsivamente, por que no fundo ela sabia que estava na hora.
Eu já tinha visto Katniss em uma crise de pânico antes. Já tinha visto ela perder o controle, lutar contra a própria respiração… contra memórias que, mesmo sem saber quais eram, a arrancavam da realidade.
Mas aquilo…
Aquilo era diferente. Era bem pior.
Envolvia dor física e o presente.
Ela não estava com medo do passado ou de uma possibilidade futura. Não eram lembranças. Era o medo do que estava acontecendo agora, medo da realidade daquele momento.
“E se não for… e se…”
“Ei, ei… olha pra mim,” insisti, trazendo o rosto dela de volta para o meu. “Fica comigo. Não pensa em mais nada agora. Só respira. Eu estou aqui. E a gente vai fazer tudo que for preciso pra ficar tudo bem. Você não precisa segurar tudo sozinha.”
Ela tentou acompanhar minha respiração, mas falhou de novo.
O paramédico media a pressão, atento a cada movimento.
Eu queria gritar.
Queria acabar com Gale, fazer ele pagar por tudo isso.
Mas eu precisava manter a calma.
Precisava me controlar.
Por nós três.
Chegamos ao hospital, e a doutora Porter já estava à nossa espera, com a equipe pronta na porta. Assim que a ação policial começou, eu pedi que ela se posicionasse no hospital mais próximo. Ela, de forma extremamente profissional, conseguiu a liberação do local por cortesia só por garantia. As portas da ambulância se abriram antes mesmo de pararmos completamente, então tudo pareceu ganhar uma nova velocidade, era tudo rápido demais.
Mãos surgiram, vozes sobrepostas.
“Katniss Mellark, 34 semanas, iniciou contrações no local. Pressão 15 por 7.”
“Contrações com quanto tempo de intervalo?”
“Preciso de acesso venoso agora. Vamos fazer um ultrassom imediatamente.”
E, de repente, estavam afastando ela de mim.
“Não…” Katniss tentou se erguer, o pânico voltando com força total. “Peeta… não me deixa… por favor…”
“Eu estou aqui,” respondi na mesma hora, acompanhando ao lado da maca enquanto a levavam pelo corredor. “Eu estou aqui, olha pra mim. Vai ficar tudo bem. Eu não vou a lugar nenhum.” Outra contração. “Respira comigo,” falei, firme, mantendo o ritmo mesmo com o coração disparado enquanto eu acompanhava o passo da equipe e seguia do lado da maca correndo. “Isso… assim mesmo.”
“Senhor, precisamos levá-la agora.”
“Peeta, não… por favor…” A voz dela, daquele jeito, apertou algo no meu peito.
“Doutora...”
“Confia em mim, Peeta,” ela disse, firme, ainda em movimento. “Eu estou com ela. Vou fazer o melhor. Volto já com notícias.”
“Eu estou bem aqui,” garanti, mesmo quando já estavam me afastando. “Eu vou entrar assim que puder.” Os dedos dela ainda tentaram segurar os meus, mas não conseguiram e então levaram ela.
As portas se fecharam na minha frente e o silêncio veio de uma vez.
Eu fiquei parado ali por um segundo, dois, três...
Sem conseguir me mover, sem conseguir pensar direito.
Só sentindo o vazio onde ela estava segundos antes.
Meu pai chegou logo em seguida com Finn.
“Filho…” Assim que os olhos dele pararam em mim, eu disse aquilo que parecia entalado na minha garganta desde a ambulância.
“Ela está tendo contrações.” Ele não respondeu de imediato, apenas se aproximou, com calma. Meu cunhado estava atrás dele, e pude ver o olhar de simpatia dele. Eles sabiam o que estava na minha cabeça, sabiam que estava cedo ainda.
“Pode ser o estresse… pode ser só Braxton Hicks,” disse, a voz baixa, estável, do jeito que ele sempre falava quando a gente precisava desacelerar. Ele sabia sem eu verbalizar que eu estava com medo.
“E se não for?” Ele me olhou por um segundo antes de responder.
“Aí… a gente conhece minha neta hoje.” Ele apertou meu ombro, me puxando para um abraço rápido, mais firme. E eu precisava daquilo, mais do que poderia admitir em palavras. “Ela vai precisar de você,” continuou, mais baixo. “E eu sei que você está aí se segurando, tentando parecer calmo, forte… mas eu também sei que você esta no seu limite...” Engoli seco, por que ele me conhecia demais. “Mas segura mais um pouco, filho. Só mais um pouco. Ela vai precisar disso agora, ela vai precisar de você... Seja Braxton Hicks ou não… você vai estar lá por ela. E eu vou estar aqui por você. Certo?”
Confirmei com a cabeça.
“Certo.”
“Liguei pra sua mãe no caminho. Ela está vindo pra cá. Vai dar tudo certo.” Uma enfermeira se aproximou com uma ficha. Eu preenchi no automático, sem realmente ler. Então sentei na sala de espera e o tempo desacelerou de novo.
Minha mãe chegou, e não foram necessárias palavras. Ela apenas se sentou ao meu lado e me abraçou, como fazia quando eu era mais novo e tinha pesadelos.
“Peeta.” A voz da doutora Porter me fez levantar na mesma hora. “A bebê está bem,” ela começou, firme. “Mas não são contrações de Braxton Hicks. A bolsa da Katniss rompeu. Vamos precisar fazer o parto.”Meu estômago afundou.
“Mas ainda é cedo,” falei, tenso. “Ela ainda não completou nem 35 semanas.”
“Eu sei que não é o cenário ideal,” respondeu com calma. “O plano era chegar em 39, 40 semanas. Estava indo tudo muito bem… mas o estresse foi intenso demais, a pressão subiu. O trabalho de parto está evoluindo rápido.” Respirei fundo, tentando manter a cabeça no lugar. “34 semanas é o que chamamos de prematuro tardio,” continuou. “As chances são ótimas. Talvez ela nem precise de suporte adicional. Sua filha se desenvolveu muito bem.” Talvez, parecia a palavra que gritava em meio a frase. “Mas não podemos mais adiar o parto. Já acionei o pediatra de plantão. Ele vai acompanhar tudo assim que ela nascer.”
Assenti, eu precisava confiar nela. Ela tinha estado ali em cada consulta, em cada decisão.
“Tá certo… eu posso entrar? Posso ficar com ela?”
“Vim te chamar pra isso.” Ela fez um gesto leve. “Mas tem um outro ponto.” Meu corpo enrijeceu. “A Katniss passou por muita coisa. Ela está abalada… e não está aceitando que a bebê precisa nascer agora.” Fechei os olhos por um segundo. “O melhor que podemos fazer agora é um parto normal,” continuou. “A bolsa rompeu, ela já tem dilatação, está tudo evoluindo bem para isso. Não há nada que indique a necessidade de uma cesárea neste momento e evitar cirurgia é o melhor para ela agora.”
“Mas…”
“Eu preciso da cooperação dela.” O olhar dela se fixou no meu. “Se ela resistir, o processo fica mais difícil. Mais longo. Mais desgastante. E isso também afeta a bebê. Você vai ser muito importante agora. Preciso que você fale com ela, tranquilize… ajude ela a fazer força.”
“Eu vou.”
“Ótimo.” Ela suavizou um pouco o tom. “Então vamos. Está na hora de você conhecer sua filha.” Olhei para meus pais e os vi sorrir como se me incentivassem. Me conduziram até a sala de parto, mas antes disso a doutora Porter me apresentou ao anestesista, que estaria na sala por segurança, se precisasse. E ao pediatra de plantão.
Mais uma camada de realidade.
Mais uma confirmação de que aquilo… não era só um alerta falso. Só então fui levado para trocar de roupa, colocar máscara, higienizar as mãos. Uma das enfermeiras havia dito que a doutora tinha optado por usar uma sala cirúrgica, para caso o parto precisasse ser cesárea. Apenas uma precaução segundo ela.
Quando entrei na sala vi Katniss.
Pálida.
Suada.
A respiração falhando, irregular, quebrada entre uma contração e outra. Os olhos perdidos. Sem foco.
Duas enfermeiras ao lado, falando com ela, o anestesista já estava olhando o monitor acompanhando tudo. O pediatra estava mais afastado, observando ao lado de uma incubadora pronta.
Aquilo apertou meu peito.
Porque, de repente…
Não era só sobre trazer nossa filha ao mundo.
Era sobre garantir que as duas saíssem dali bem.
“Olha só quem veio te fazer companhia nesse momento.” a doutora Porter disse com suavidade, já posicionada em frente a cama. “Eu disse que ele estaria aqui. Que estava vindo.” Katniss virou o rosto e seus olhos encontraram os meus. Me aproximei imediatamente, segurando a mão dela.
“Ei… eu estou aqui.”
“Ela não tá pronta… ainda é cedo… ela não pode nascer agora… diz pra eles fazerem alguma coisa… por favor…”
Aquilo acabou comigo, mas mantive a voz o mais firme possível.
“Não tem o que fazer… ela tá com pressa,” falei baixo, aproximando ainda mais. “Ela vai nascer agora, Katniss. E está tudo bem. Vai ficar tudo bem. A equipe está pronta… os batimentos estão bons… o pediatra esta ali e me garantiram que ele é ótimo.”
“Não… não ela não está pronta… não era pra ser assim… a gente nem escolheu um nome…” Engoli seco.
“Isso é o de menos, estamos em duvida em dois, três no máximo” respondi, quase num sussurro. “A gente escolhe depois, com calma olhando pra ela. Agora… somos você, ela e eu...”
“Katniss,” a médica chamou, mais firme agora. “Eu preciso que você faça força, na próxima contração, estamos quase lá.” Vi ela balançar a cabeça em negação.
“Não quero… não está tudo errado… meu corpo está fazendo tudo errado de novo…”
“Katniss…” apertei a mão dela com mais firmeza. “Você não fez nada errado. Nada. Seu corpo está fazendo exatamente o que precisa fazer.” Outra contração veio, forte em um intervalo curto demais e percebi que estava mais forte pela pressão que ela colocou na minha mão.
“Agora!” orientou a médica. “Faz força!”
“Eu não consigo...”
“Consegue sim.” Minha voz saiu mais firme agora. “Eu estou aqui. Eu não vou sair daqui. Vamos conhecer nossa filha,” Ela apertou minha mão com mais força ainda e não me importei, ela poderia quebrar se isso ajudasse, que não me importava. “Na próxima contração… você vai empurrar,” falei, baixo, próximo ao rosto dela. “Respira comigo.” Me aproximei ainda mais. “Olha pra mim.” Ela tentou acompanhar minha respiração.
A contração veio.
“Agora!” disse a médica. Ela respirou fundo e tentou, fez força, o corpo inteiro tensionando. “Isso… continua,” a doutora Porter orientou e não soltei a mão dela. “Só mais um pouco…” Ela chorou, apertando minha mão. “Mais uma, Katniss. Já está acabando.”
“Eu não consigo...”
“Consegue sim,” falei, baixo, firme. “Só mais uma, esta acabando.” Outra contração veio.
“Agora.” Ela fez força e então, ouvi o som. Fraco, quase um sopro. Meu coração parou por um segundo antes de disparar ainda mais forte, e sorri involuntariamente enquanto olhei na direção do som. O pediatra se aproximou rápido, e a doutora Porter ergueu a minha filha por um breve instante. “Como os exames indicavam… uma bela menininha,” disse, com um leve sorriso. “Muito bem, Katniss. Vamos avaliá-la e já já vocês vão poder vê-la melhor.”
Levaram ela para o canto, rapidamente. E então, o som cessou e o silêncio caiu sobre a sala. Pesado.
“Ela…?” a voz de Katniss saiu baixa.
Antes que alguém respondesse, o choro veio.
Mais forte.
Mais claro.
Preenchendo o ambiente de uma forma que não sabia explicar.
“Ela está respirando sozinha,” disse o médico, com tranquilidade. “E me parece bem.” O ar voltou aos meus pulmões como seu eu mesmo estivesse aprendendo a respirar sozinho naquele momento.
“Ela está bem,” falei, a voz falhando. “Ela está bem…” Katniss sorriu, exausta, sem soltar minha mão, mas segurando quase que solta. “Você conseguiu,” sussurrei, inclinando-me mais perto dela. “Você conseguiu… você foi incrível.”
Beijei a testa dela.
Alguns segundos depois, o médico se aproximou novamente.
“Papai e mamãe… olha só quem está aqui.”
Ele a colocou com cuidado nos braços de Katniss.
Pequena.
Vermelhinha.
Ainda chorando.
Eu não consegui dizer nada, só olhar. E, pela primeira vez desde que tudo começou… Eu senti aliviou.
“Eu sei que vocês querem ficar com ela,” disse o médico, com gentileza. “Mas precisamos levá-la para alguns exames. Ela volta logo, eu garanto.”
POV Katniss
Eu só queria ficar ali, segurando a minha filha. Mas o médico a levou rápido demais. Eu sabia que era necessário ainda assim, uma parte de mim não queria soltar. Como se, no instante em que ela saísse dos meus braços, tudo pudesse desaparecer.
“Como você tá se sentindo? Esta tudo bem?” Peeta perguntou e apenas confirmei com a cabeça, meu corpo estava estranho.
Mole.
Pesado.
Exausto.
“Eu vou com ela, tá? Fica tranquila. Te vejo em breve.” Assenti de novo, vendo ele sair atrás do médico. O olhar fixo na incubadora.
Não sei quanto tempo fiquei ali.
Em algum momento, a enfermeira tomou o lugar onde Peeta estava.
Vozes baixas. Movimentos ao meu redor… A doutora Porter tentando falar comigo.
Mas tudo parecia distante.
Meus olhos foram se fechando aos poucos.
Depois de tantas horas acordada… com a adrenalina finalmente deixando meu corpo. Depois de tudo.
O cansaço me venceu.
Acordei desnorteada e demorei alguns segundos para entender onde estava.
Por um momento… não tinha certeza se tudo tinha sido real ou só um sonho confuso. Instintivamente, levei a mão à barriga.
Senti o vazio e meu coração disparou.
Olhei ao redor, procurando, havia um berço ao lado da cama… Vazio.
Foi como um soco no estômago.
“Ei… você acordou.” Virei o rosto rápido, Peeta se levantou da poltrona do outro lado do quarto. Ele parecia cansado… mas veio imediatamente até mim.
“Cadê ela?”
“Calma, está tudo bem,” ele disse, com cuidado. “Ela tá bem. Vão trazer ela já já.” Ainda assim, o desespero não diminuía. “Você estava dormindo. Precisava descansar. Levaram ela de volta para o berçário… minha mãe tá com ela.” Respirei fundo.
“Ela está bem?”
“Sim.” Ele assentiu. “Fez todos os exames necessários, os resultados foram ótimos, ela ficou um tempo em observação na neonatal e depois ela ficou aqui um pouquinho.” Senti os olhos arderem. “Ela é pequena 44 centímetros… mas está com um bom peso. Dois quilos e quatrocentos e cinquenta.”
“Ela está bem…” repeti, mais pra mim do que pra ele. Parte de mim ainda precisava ver com meus próprios olhos, pra confirmar, mas eu acreditava nele. Sabia que ele não mentiria. Não sobre isso.
“Ela é linda,” ele disse, mais baixo. “Oficialmente… somos pais.”
Um sorriso pequeno escapou.
Quase involuntário.
Meu corpo doía.
Como se eu tivesse lutado uma batalha inteira.
Mas isso não importava, ela estava bem.
“Você tá sentindo dor?” ele perguntou.
“Não… bom não muito, acho que é só o cansaço…” murmurei. “Como se tivesse corrido uma maratona.” Observei o olhar dele e pude ver perguntas que ele não verbalizou.
“Vou avisar que você acordou. Precisam examinar você.”
Antes que eu respondesse, a porta se abriu e a doutora Porter entrou, com um sorriso tranquilo. Ela me examinou rapidamente, disse que estava tudo bem, aparentemente as horas dormindo eram apenas meu corpo cansado demais pelos dias em claro e pelo estresse.
E então a porta se abriu de novo e uma enfermeira entrou.
Empurrando um bercinho de hospital.
Com um pequeno embrulho dentro.
Meu coração parou.
Peeta me ajudou a me ajeitar na cama.
E então…
Ela voltou pra mim.
Dessa vez, com calma, sem pressa, sem ninguém tirando dos meus braços.
Segurei com cuidado. Como se ela fosse feita de algo frágil demais para o mundo e tudo de ruim que tinha nele. E, ao mesmo tempo… Eu sabia que ela era forte.
Ela tinha passado por tudo aquilo comigo e estava ali, nos meus braços.
Meu pequeno milagre.
A sensação, todo aquele pequeno momento foi uma das coisas mais intensas que já senti na vida.
Nada tinha sido como planejado, nem mesmo o hospital era o que havíamos escolhido. Eu nem sabia direito onde estava, mas ela estava ali.
“Ela acabou de mamar um pouquinho,” disse a enfermeira, gentil. “Daqui a pouquinho a gente tenta de novo com você, tá bom?” Assenti, sem conseguir desviar o olhar.
A médica e a enfermeira saíram.
E, pela primeira vez…
Ficamos sozinhos, só nós três.
“Oi…” murmurei, passando o dedo com cuidado pelo rostinho dela. “Então é você… que ficava me chutando.” Observei cada detalhe, memorizando o máximo que podia. Ela tinha bastante cabelo, em um tom escuro. Como o meu. Eu sabia que ainda era cedo demais pra saber a cor dos olhos… ela mal os abria, sonolenta. Mas, mesmo assim… Desejei com tudo em mim que fossem como os dele. “Eu acho que ela tem o seu nariz,” falei, ainda meio incerta.
Peeta soltou um leve riso ao meu lado.
“Meu nariz? Não sei… talvez. Mas tenho certeza de que esse cabelo definitivamente não é meu. Não é, princesa,” ele murmurou, mais perto. “É igual ao da mamãe.” E, pela primeira vez desde que tudo começou… Eu me permiti acreditar.
Ela estava bem.
Nós estávamos bem.
Eu era uma mãe com um bebê nos braços.
O berço não estava vazio.
Ficamos ali por um tempo, em silêncio.
Só olhando pra ela.
“Você já segurou ela?” perguntei, sem tirar os olhos.
“Segurei… um pouco. Logo que trouxeram pro quarto. Mas ela dormiu rápido.”
“Quer?” Ele não hesitou.
“Se existe algo que eu nunca vou recusar… é segurar essa pequena.” Ele a pegou com cuidado dos meus braços. E eu observei, ver os dois me acalmou de um jeito difícil de explicar.
“Ela precisa de um nome,” comentei, vendo ele dar alguns passos leves, ninando nossa filha.
“Sim,” ele respondeu, sorrindo de lado. “E tem muita gente curiosa sobre isso. O grupo da família está cheio de sugestões… e o Thresh já começou um bolão. Vale até acertar a primeira letra.” Inesperadamente sorri, aquilo era muito a cara dele.
“Era pra gente ter escolhido antes…” murmurei. “Effie estava falando da plaquinha da porta do quarto.”
“O que importa é que ela está aqui,” ele respondeu. “E pode ter certeza… no momento que a gente anunciar o nome, minha mãe resolve isso e tudo que falta, não se preocupe, ela já esta ao telefone correndo com os últimos detalhes do quarto.” Não duvidava disso nem por um minuto. “Mas podemos ver isso depois,” ele continuou. “Você devia descansar mais um pouco.”
“Eu estou bem.” Fui um pouco pro lado e ele, e sem precisar dizer nada ele sentou ao meu lado na cama.
“Eu ainda gosto de Rayna,” disse, lembrando da nossa lista.
“Eu também…” respondi, aquele era o nome que mais estávamos cogitando. “Mas eu... Bom eu sei que falamos em não usar dois nomes, mas depois de tudo queria muito colocar Victoria.” Olhei pra nossa filha. “Depois de tudo… eu sinto que faz sentido.”
“Não vejo, por que não, um nome que já trás um pouco de quem ela é, não é meu amor.”
“Rayna Victoria Mellark.” Falei, testando em voz alta a sonoridade. Sentindo como aquilo ficava. “Soa certo pra mim.”
Peeta me olhou com atenção.
“E o Everdeen?” ele perguntou, com suavidade.
Desviei o olhar por um segundo.
Aquilo doía.
Mas eu não queria que ela levasse o meu sobrenome. Não quando sabia que ele vinha carregado de peso… de cobranças. Eu queria pra ela apenas a leveza que existia em ser uma Mellark. Um nome que vinha com a certeza de um amor que eu ainda não entendia completamente, mas que conseguia ver, tão nitidamente.
“Não vai ser necessário.”
“Katniss…” Ele hesitou por um instante. “Olha, eu não sou o tipo de homem que se negaria a colocar o seu sobrenome…”
“Eu sei,” interrompi, mais baixo. “Não se preocupe. Só… não é necessário.” Respirei fundo antes de continuar. “O Everdeen vai estar nos documentos, na filiação. Mas ela não precisa assiná-lo no futuro.” Voltei minha atenção para ela. “Ei… Rayna,” murmurei, tocando de leve a mãozinha pequena. “Você gostou, não é?” Peeta sorriu de leve. “O hospital faz o registro?”
“Esse não,” ele respondeu, num tom mais leve, tentando aliviar o clima. “Mas não se preocupa. Eu cuido disso. Vou resolver toda a parte burocrática.”
“Você vai precisar ir? Quer dizer…” A frase morreu no meio. Era ridículo. Ele não podia ficar o tempo todo ao meu lado. Mas, de alguma forma… eu não queria ele longe. Não agora.
“Não vou a lugar nenhum,” ele disse, firme, mas gentil. “Não agora.” Um leve sorriso surgiu. “E, além disso, o tio Finn vai adorar se meter nisso. Ele resolve os papéis pro papai e traz tudo aqui pra gente.”
As horas seguintes foram tranquilas e só no terceiro dia após o parto que as coisas se agitaram um pouco.
Os Mellark e Prim passaram para uma visita cheia de falatório, presentes e sorrisos. Todos animados, quase como se estivessem compensando os três dias que precisaram esperar. O quarto pareceu pequeno demais para tanta gente, vozes se sobrepondo, risadas escapando um pouco mais altas do que deveriam um ambiente hospitalar.
Apesar do cansaço, eu os quis ali.
De alguma forma, a presença deles me trazia uma sensação de normalidade, como se, por algumas horas, tudo que havia acontecido tivesse ficado para trás. Como se fosse só mais um dia comum, uma família reunida ao redor de um bebê recém-chegado.
Depois de ver toda aquela movimentação no dia em que Kai nasceu, acabei me imaginando em uma situação parecida. E, pelo menos isso… estava de acordo com o que eu esperava.
Ninguém comentou sobre o sequestro.
Era como se todos tivessem feito um acordo silencioso de não tocar no assunto. Ainda assim, perguntavam como eu estava, me abraçavam com cuidado, me davam os parabéns com animação enquanto entrevam flores e balões.
Prim foi a primeira a vir até mim. Os olhos marejados entregavam o que ela não dizia, o alívio, medo ainda recente, e felicidade. Pouco depois de acordar, eu havia feito uma chamada com ela, garantindo que estava bem. Ainda assim… tê-la ali foi diferente.
Annie também não conseguiu esconder as emoções. Os olhos se encheram de lágrimas assim que pegou Rayna no colo, depois de abraçar Peeta por tempo demais para ser só um cumprimento.
“Você é pai…” ela disse, rindo baixo, emocionada. “Meu irmãozinho é papai.”
Peeta sorriu daquele jeito aberto, quase surpreso com a própria felicidade.
“É a nova geração chegou,” Delly comentou ao lado da irmã, olhando para a sobrinha com um carinho fácil, natural. Que ela geralmente usava com a família. “Ela e o Kai vão crescer juntos… diferença de semanas. Como você e eu Peeta.”
“Eles vão dar trabalho,” alguém murmurou.
“Não duvido nada,” Finn respondeu, rindo de leve. “Ela vai ter um guardião. Se ele puxar a Annie, vai ser do tipo protetor.”
“Se ela puxar a Delly, vai ser teimosa.”
Peeta sorriu, e uma das coisas que passei a reparar era o quanto ele sorria quando via alguém da família , comentando que ele parecia com um deles, fosse na personalidade ou no físico. Agora, vendo isso acontecer com nossa filha… o deixava ainda mais radiante.
“Eu não sou teimosa,” ela retrucou, sem muita convicção. As risadas vieram fáceis. E, por um momento… foi fácil imaginar.
Os dois crescendo juntos. Correndo pela casa dos avós no Distrito 12. Fazendo barulho demais nas reuniões de família, sempre cheias demais.
Ninguém havia acertado o nome, e isso por si só rendeu assunto suficiente pelos próximos minutos enquanto isso, minha pequena circulava de colo em colo, tranquila demais. Sem choro. Sem incômodo. Apenas sonolenta, quietinha, como se aquele caos todo não fosse com ela.
Assim como o primo meses atrás, ela parecia se adaptar à família com uma facilidade que eu não tive quando cheguei.
Meus pais chegaram depois, quando já estávamos apenas com meus sogros no quarto.
A mudança no clima não foi nem um pouco sutil.
Minha mãe se aproximou primeiro, com movimentos cuidadosos demais para ser natural, ajustando a manta antes mesmo de pegá-la, como se algo estivesse fora do lugar. O olhar… atento. Avaliando. Sempre avaliando.
Ainda assim, a pegou no colo e sorriu. Já meu pai ficou alguns passos atrás, como se houvesse uma linha invisível que ele não podia, ou não queria cruzar.
“Ela é pequena demais…” disse, negando com a cabeça quando minha mãe a estendeu na direção dele. E meu sogro, sentado no sofá do quarto não deixou passar.
“Pequena? Ou você que não sabe segurar bebê?” comentou, com um sorriso leve. “Você não pegou suas filhas quando eram recém-nascidas?”
Antes que meu pai respondesse, minha mãe interveio, por ele.
“Homens costumam ser mais desajeitados com essas coisas. Não é exatamente o forte de vocês segurar bebes..”
“Fale pelo seu marido Paula,” Haymitch rebateu, sem perder o humor. “Eu levo jeito.”
E levava mesmo. Desde o primeiro dia, ele não hesitou em pegá-la no colo. Assim como Effie, ele esteve no hospital quase o tempo todo, mesmo quando não aparecia no quarto, eu sabia que estava por perto.
Meu pai não respondeu.
E aquilo… pesou mais do que qualquer palavra.
Por um segundo, me peguei tentando imaginar se ele havia me segurado quando nasci. Se havia segurado Prim. Ou se aquela distância sempre esteve ali.
Mas não me permiti ficar nisso.
Não quando havia outras coisas exigindo mais de mim.
Amamentar era mais difícil do que eu imaginava.
Rayna não parecia querer colaborar e, depois de tantas tentativas falhas, eu já estava angustiada. No início, pensei que fosse porque ela estava sendo alimentada no berçário. Esperei mais. Tentei de novo.
E nada.
Ela simplesmente não pegava.
E cada tentativa frustrada vinha com uma pontada crescente no peito.
“Vamos lá, filha… você precisa me ajudar aqui,” murmurei, tentando manter a voz leve.
“Não se preocupe, querida, logo ela vai pegar.” Minha sogra sorriu em incentivo, com uma calma que parecia firme, quase treinada.
Ela e minha mãe haviam ficado no quarto enquanto meu pai e meu sogro iam até a lanchonete do hospital.
Effie fazia sentido ficar, ela estava ali desde antes do parto, indo e voltando, resolvendo tudo, trazendo o que faltava.
Minha mãe… não.
Em três dias, aquela era a primeira vez que ela aparecia.
“Ela não parece querer comer.”
“Senhora Mellark, é comum bebês levarem um tempo após o nascimento para começar a mamar bem, principalmente quando nascem mais cedo. Já era esperado, lembra?” a enfermeira explicou, paciente.
Eu já tinha ouvido aquilo.
Mas não conseguia assimilar, não depois de tantas tentativas.
“Mas ela tem que comer. Ganhar peso.”
“Se for necessário, podemos dar um reforço no copinho, como fizemos antes.”
“Mas e quando formos para casa?”
“Minha filha, aí é ainda mais fácil… mamadeira, fórmula… rapidinho ela ganha peso.” Olhei para minha mãe, sentindo aquele incômodo subir devagar. “Você e Prim tomaram fórmula e estão ótimas,” ela completou, como quem encerra a discussão.
“Eu sei, mãe… não sou contra fórmula. Mas…”
Mas eu queria tentar.
Queria conseguir.
Queria aquilo que todos diziam ser natural.
“Não se preocupe, vamos acompanhar o desenvolvimento dela. A alta só sai quando ela estiver mamando bem e ganhando peso. Mas está tudo correndo bem até agora.”
Aquilo devia me tranquilizar.
Mas não tranquilizou.
“Katniss… fica calma. Ela vai comer.” A voz de Peeta veio mais baixa, mais firme.
Levantei o olhar e o encontrei na poltrona, um pouco afastado, respeitando o espaço, mas completamente presente.
Sempre presente.
Ele não tinha saído do hospital em nenhum daqueles dias. Aquele quarto havia se tornado nossa casa. Effie havia trazido roupas, carregador, o computador dele.
“Pensa que ela só está se adaptando aqui fora… como se estivesse com uma preguicinha,” minha sogra acrescentou, com um sorriso leve. “Por isso quer mais dormir do que comer. Daqui a pouco ela se ajeita…ai vai dividir melhor o tempo dela.”
Era simples.
Quase ingênuo.
Mas, vindo dela… parecia possível, parecia acalmar.
“Se não for usar fórmula, logo você vai estar desejando que ela pegue a mamadeira, e você use a bombinha.” minha mãe comentou, como quem fala algo óbvio. “Recém-nascido mama o tempo todo… principalmente à noite. É cansativo. Alias você começou a procurar babás?”
Neguei de leve, mas não respondi, apenas deixei ela falar e se oferecer para ajudar a encontrar alguém, de uma forma estranha, aquele era o jeito dela de se importar.
Além da amamentação, havia todo o resto.
A medição constante da temperatura. O cuidado quase obsessivo em mantê-la aquecida. As mantas, as trocas, os ajustes.
Durante os primeiros dias, ela precisou passar as noites no berço aquecido do berçário.
As enfermeiras diziam que era só por precaução… que isso nos permitiria dormir um pouco mais.
Mas não ajudava.
Porque o cansaço não era só físico era mental e a preocupação não ajudava com ele
A doutora Porter vinha todos os dias me ver. Dizia que eu estava bem, que minha recuperação estava dentro do esperado, que eu poderia até ir para casa… mas que seguraria minha alta até que o pediatra liberasse Rayna.
E eu agradeci em silêncio.
Ela me conhecia o suficiente para saber que eu não sairia dali sem minha filha.
No quarto dia, o pediatra voltou com outra ideia.
“Podemos fazer um teste, Peeta?”
“Claro.”
“Abra sua camisa, por favor.”
“Como?” observei da cama enquanto ele se levantava, claramente sem entender.
“A camisa.” O médico manteve o tom calmo. “A temperatura da Rayna caiu um pouco. Nada grave. Em vez do berço aquecido, quero tentar outra abordagem. A doutora Porter comentou que você gosta de participar… e, pelo que vejo, não saiu daqui esses dias.” Ele esboçou um sorriso leve. “Conhece a técnica canguru?”
“Não.”
“Você vai segurá-la junto ao peito, pele com pele. Seu calor natural vai ajudar a estabilizar a temperatura dela… e incentivar o corpinho dela a se aquecer também.”
Peeta assentiu, ainda meio sem jeito, mas não hesitou. Abriu a camisa e se sentou no sofá.
Da cama, observei a cena.
A enfermeira a preparou com cuidado e a entregou a ele. Eu já tinha visto Peeta segurá-la outras vezes nos últimos dias… ainda assim, aquilo parecia diferente.
Mais íntimo.
Ela era pequena demais contra o peito dele.
Perfeita ali. Protegida.
“A ideia,” o pediatra continuou, ajustando o cobertor leve sobre os dois, “é reduzir o tempo no berço aquecido. Quando necessário, vocês podem manter a temperatura dela com roupas adequadas ou com o método canguru. O pai pode fazer, a mãe também.” Ele olhou para mim. “Acredito que, em casa, você vai se sentir mais à vontade para fazer quando precisar. Ajuda a acalmar também.”
Assenti, sem conseguir desviar os olhos.
“Vamos seguir assim pelas próximas horas e reavaliar. Se ela responder bem, talvez nem precise voltar para o berçário esta noite… e, se tudo continuar como estou prevendo, logo podemos liberar essa princesa para casa.”
O tempo passou devagar, me sentei ao lado dele no sofá.
Quase uma hora.
Silencioso, na maior parte do tempo… mas, em alguns momentos, nos pegamos falando de coisas aleatórias, vendo fotos tiradas ao longo do dia no celular dele.
Quando o pediatra voltou, mediu novamente a temperatura. Esperou alguns segundos… então fez um leve sinal positivo com a cabeça.
Peeta sorriu, um sorriso diferente.
Desde o nascimento, ele vinha sorrindo mais, mas aquilo… aquilo era outra coisa. Aberto, genuíno, quase luminoso.
Como se estivesse exatamente onde queria estar.
E, pela primeira vez desde que tudo começou… eu senti que talvez a felicidade não precisasse ser tão complicada.
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