Linha Tênue
46 Capítulo 43: Lobo em pele de cordeiro
Notas iniciais
Não tenho ideia de quanto tempo ficamos rodando pelas ruas da Capital. O trajeto pareceu longo demais. Desconexo, como se ele estivesse evitando caminhos óbvios ou esperando algo. Eu estava no banco de trás, espremida entre Gale e um dos homens, o mesmo que havia segurado Darius pouco tempo atrás.
Meu lado racional gritava que aquilo não tinha nada a ver com dinheiro. Mas, ainda assim uma parte pequena, desesperada, insistia em tentar encaixar aquilo em algo “resolvível”. Resgate, negociação, algo que tivesse volta. Porque, se havia uma certeza, era que Peeta pagaria o que fosse. Não por mim… mas pela nossa filha. Entretanto nada na postura de Gale indicava isso.
Quando o carro parou, já era noite. Observei pela janela. A rua estava quase deserta, em um bairro que eu não conhecia. As casas eram próximas, mas quase todas pareciam em reforma naquela rua pequena e, pelo que vi, sem saída.
Tudo discreto demais.
A casa era um sobrado inacabado, com a fachada pela metade e andaimes na lateral. Algo me dizia que era um lugar de passagem, não de permanência.
Gale abriu a porta e estendeu a mão para mim. Como se fosse um homem gentil, como se aquilo fosse normal.
“Vamos.” Não toquei nele, entretanto ele segurou minha mão mesmo assim, firme, e me puxou para fora do veiculo. “ É melhor você não gritar.” Ele avisou enquanto me conduzia para dentro da casa.
Um dos homens abriu a porta, e pude ver que ele ainda estava armado, atento, olhando para os lados.
O interior da casa cheirava a tinta e poeira. Não havia muitos móveis. Um sofá estava no canto, em meio a várias latas de tinta e sobras de material de construção. Subimos as escadas. Cada passo ecoava mais alto do que deveria, devido a falta de móveis. Entramos no último quarto, no final do corredor. E ali tudo destoava do que eu tinha visto até então.
Era organizado demais.
Uma cama de casal com lençóis limpos. Um tapete no chão. Uma cômoda simples. Uma televisão presa na parede. Uma penteadeira com uma cadeira. Um frigobar no canto. Aquilo já estava pronto...
Para mim.
Olhei para a porta e vi que o homem havia nos acompanhado e estava ali, parado, observando. A arma na mão.
“Onde estamos?”
“Não se preocupa,” Gale disse, como se estivesse me tranquilizando depois de uma viagem comum. “Vamos ficar aqui pouco tempo.” Meu estômago revirou. “Nosso transporte até o Distrito 1 acontece em um ou dois dias. Só precisamos sair de madrugada.”
Meu coração falhou uma batida. Distrito 1, isso não era bom, sair da Capital não era bom.
“Gale… do que você está falando?” Ele sorriu, paciente. Como se eu fosse lenta demais e ele tivesse que explicar algo muito obvio.
“De ir embora. Daqui. De Panem.” O mundo pareceu parar, ele estava ficando louco. “Já organizei tudo. Documentos novos, rota, transporte. Quando chegarmos lá, pegamos o voo pro exterior. Sabe como é nada como contatos com as pessoas certas. ”
“Eu não posso sair de Panem.” A resposta saiu automática e alta, como um grito de desespero. Ele riu, baixo.
“Claro que pode. Até o fim de semana a gente resolve tudo. Vai ser corrido, eu sei… casa nova, móveis… ainda mais com o bebê chegando.” Vi um leve sorriso se formar no rosto dele. “Mas sei que você gosta dessas coisas, então deixei por sua conta. E não se preocupe, reservei um lugar provisório pra ficarmos enquanto a casa não fica pronta.” O ar sumiu dos meus pulmões.
“Gale… você enlouqueceu?” Dei um passo para trás. “Eu não posso pegar um avião. Me deixa ir embora. AGORA.” Gritei a última parte ele estava completamente louco.
Ele suspirou e então fez um gesto com a mão em direção ao homem na porta, que saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Ele esperou alguns segundos e só então voltou a olhar para mim.
“Não fala assim comigo.” O tom de voz não subiu, mas ficou mais firme. “Eu sei que você tem esse temperamento difícil. Sempre teve.” Mais um sorriso breve, dessa vez com certa malícia. “E eu até gosto… acho excitante.” Dei mais um passo para trás. “Mas isso aqui…” ele fez um gesto entre nós, “é sério agora. Vamos ter um bebê.” Ele deu um passo na minha direção. “Você não pode falar comigo assim. Muito menos na frente dos outros. Você precisa mostrar mais respeito.” Meu coração continuava disparado.
“Que relacionamento, Gale?” Minha voz falhou, mas continuei. “Nós não temos nada. E esse bebê não é seu. É do Peeta. Meu marido, lembra?” O olhar dele escureceu e a mão subiu rápido. Instintivamente, recuei mais dois passos, sentindo a cama atrás de mim.
Ele parou.
“Eu não vou te bater.” Ele falou isso como se fosse uma gentileza. Como se eu devesse reconhecer isso, então tentou tocar meu rosto. Me afastei imediatamente, saindo do alcance dele pelo lado e ganhando mais espaço entre nós. Ele não se opôs. Não tentou me impedir. “Tá vendo?” ele murmurou. “Eu estou calmo.” Aquilo era o mais assustador. “Mas não fala mais isso, tá?” Continuou, paciente demais. “Não diz que o bebê não é meu.” Ele respirou fundo, como se estivesse explicando algo óbvio demais. “Andei pensando… uma menina parecida com você vai ser perfeita. Sabe, minha mãe vai adorar uma neta. Ela vai precisar esperar um tempo pra conhecê-la, mas vai amar. E agora que sabemos que aquele médico errou, a gente pode ter um menino. Parecido comigo. Pra seguir meus passos.” Ele se voltou na minha direção e deu um passo, ficando mais perto novamente.
“Gale…”
“Mas isso me lembra algo… você não precisa dessa aliança e desse anel. Tira eles.”
“O quê?”
“Me dá, Katniss.” Retirei o solitário de ouro branco que, ironicamente, eu não havia tirado do dedo desde o dia em que Peeta me entregou no carro. Só havia mudado de mão no dia do casamento, depois de trocarmos aliança, e entreguei a ele, sentindo um certo vazio. “Ótimo. Você não precisa disso.” Um sorriso leve. “Vou comprar um anel lindo pra você, lembra como era o que te dei, vai ser ainda mais bonito que ele… e depois temos que escolher nossas alianças.”
“Gale, nós não podemos…”
“Você vai se ajustar,” ele continuou, sem me ouvir. “Não é de um dia pro outro. Eu sei.” Mais um passo. “Mas vai acontecer. E vai ser bom pra gente.”
Aquele não era o Gale que eu conheci.
Ou talvez fosse.
E eu só nunca tivesse visto até onde ele podia ir. Só achei que o que havia acontecido anos atrás era o pior dele.
“Gale...”
“Não se preocupa. A maternidade vai te ajudar a enxergar as coisas melhor. Tem roupas na cômoda. Toma um banho. Descansa.” Ele abriu a porta. “Vou mandar trazer comida. Você precisa se alimentar.”
E saiu. Pude ver ele jogando as joias na mão do homem que estava na porta.
O clique da porta trancando ecoou mais alto do que deveria.
Fiquei sozinha, mas não livre.
Olhei ao redor. Janela com grades... Segundo andar...
E, sem dúvida alguém do lado de fora.
Respirei fundo.
Gritar não era opção.
Confrontar também não.
Ele estava totalmente fora de controle. E pensando no que havia acontecido anos atrás eu não podia arriscar que ele perdesse o controle. Isso seria pior. Muito pior.
Eu precisava jogar o jogo dele e mantê-lo calmo.
Peguei uma das roupas da cômoda e tomei um banho rápido, como ele havia sugerido. Ele perceberia. E isso podia me dar alguma vantagem. Gale sempre gostou de ser atendido, mesmo nos detalhes, nas pequenas coisas.
Voltei, liguei a TV e me sentei na cama, tentando parecer tranquila.
A bebê se mexia com frequência, como se sentisse tudo.
Um homem trouxe uma bandeja com comida, mas não toquei.
Não estava com fome e não confiava que não haviam colocado nada ali.
Deitei e fingi dormir.
Quando ouvi a porta, meu corpo inteiro travou e desejei não estar tremendo quando senti a presença dele, mesmo sem abrir os olhos.
Ouvi os passo se aproximando da cama, e sabia que ele estava ali, em silêncio. Me observando, tentei não me mover ou respirar rápido demais, esperando que ele saísse logo dali.
Depois de um tempo longo demais ouvi novamente os passos, seguidos do clique da porta. Mas não foi alivio suficiente para conseguir dormir então passei a noite em claro, sem confiar que ele não voltaria.
Mas ele só voltou na manhã seguinte, usando roupas casuais, cabelo ainda úmido, e um sorriso largo demais. Uma bandeja nas mãos.
“Vejo que seguiu meu conselho ontem. Tomou banho, viu TV… isso é ótimo. Já está ficando mais à vontade.” Ele inclinou levemente a cabeça. “Mas não dormiu nada. O colchão não é bom? Pedi pra comprarem um bom.”
“É difícil achar uma posição nessa fase.” Ele sorriu ainda mais e colocou a bandeja ao meu lado e se sentou na cama.
“Agora é hora de se alimentar. Você não jantou ontem. Não pode fazer isso, amor nossa filha precisa comer, pra nascer forte e saudável.” Pensei em negar, mas não podia. Ele precisava sentir que estava no controle.
“Obrigada.” Peguei uma fruta e vi que o sorriso dele aumentou.
“Tenho boas notícias,” disse, comendo também. “Tá tudo certo pro nosso voo. A gente sai de Panem amanhã. Essa madrugada já vamos pro Distrito 1.” Meu coração disparou. Era cedo demais, precisava de tempo, a policia já devia ter sido acionada e provavelmente estava procurando.
“Não podemos.”
“Não começa, Katniss. A manhã está indo tão bem.”
“Eu não posso voar. É perigoso.” Isso fez ele parar lentamente. “Minha médica proibiu.” Agora eu parecia ter conseguido a atenção dele. “Não é seguro.”
“Isso é só precaução. Eu pesquisei. Várias mulheres voam grávidas.”
“Não. Minha gestação é de risco. Por causa do meu histórico médico.” Escolhi as palavras com cuidado, eu não podia falar nada que desse a entender que a culpa era dele. “Meu útero não é 100% saudável. Você lembra. Eu posso perder a bebê.” Aquilo o atingiu e pude ver hesitação. A primeira rachadura. “Você disse que faria qualquer coisa por mim,” continuei, mais baixo, apostando nisso. “Então não me pede pra arriscar ela.” Levei a mão à barriga. “Eu não posso passar por isso de novo. Eu não vou aguentar passar por isso de novo.”
“Não vai acontecer nada. Você só está com medo.”
“Não.” Balancei a cabeça. “Meu pré-natal foi diferente. Fiz mais exames, mais consultas. Você pode verificar. Posso te passar o nome da minha médica.” Ele ficou em silêncio pensando, analisando. “Sem contar que não posso arriscar nada nessa gestação. Não queremos qualquer dano pro meu útero que já não é completamente saudável, nada que possa complicar uma nova gestação, não é?” Podia ver que ele estava indeciso. “Queremos um garotão não é, forte como você, como nosso outro filho.” Eu precisava convencê-lo a ficar, mesmo que doesse falar sobre meu bebê. “Você disse que me ama,” continuei. “Então prova.” Aproximei-me devagar, empurrando a bandeja que nos separava para o lado. Levei a mão ao rosto dele. E o vi fechar os olhos ao toque e naquele momento eu tinha alguma vantagem. “Mais algumas semanas,” murmurei. “Até ela nascer.”
Ele franziu o cenho.
“Isso complica. Eu planejei tudo pra ela nascer fora de Panem.”
“Se alguém pode resolver isso, é você.” Eu precisava alimentar o ego dele, eu o conhecia o suficiente para saber que ele gostava disso, gostava de ser a pessoa que pode resolver tudo. “Você disse que conseguiu documentos pra gente.”
“Consegui. Foi difícil, mas ninguém vai perceber.”
“Então consegue pra ela também.” Ele hesitou.
“Katniss… é mais fácil seguir o plano.” Levei a outra mão ao rosto dele, obrigando-o a me encarar.
“Faz isso por mim.” Fiz uma pausa, acariciando o rosto dele, como fazia anos atrás. “Por nós.” Sustentei o olhar. “E eu vou me esforçar pra ser a mulher que você quer.” Ele não se afastou, mas também não respondeu. Os olhos dele se moveram pelo meu rosto, como se estivesse procurando algo. Verdade. Mentira.
“Você… faria isso mesmo?” perguntou, mais baixo. “Se esforçaria? Seria uma boa esposa… iria me obedecer, se comportar?” Engoli seco, mantendo a expressão o mais firme possível.
“Claro…” minha voz saiu controlada. Forcei um leve sorriso, os olhos dele suavizaram por um segundo, como se já estivesse imaginando um futuro. Mas durou só alguns segundos e então algo mudou. Não completamente, mas o suficiente.
Ele levou a mão até a minha, ainda no rosto dele, e a segurou. Fiz um esforço enorme para não puxar, para não reagir. Sabia que ele estava analisando cada reação.
“Tá bom…” murmurou. “Posso rever os planos.” Meu coração disparou, mas eu não me movi. Não ainda. “Algumas semanas,” ele continuou. “A gente pode esperar algumas semanas. Mas não aqui. Não podemos ficar no mesmo lugar por muito tempo. Não aqui em Panem,” ele continuou, agora mais seguro. “É arriscado. Já deve ter gente procurando… Aquele nerd vai dar trabalho. Infelizmente agora ele tem recursos, e isso dificulta as coisas. Mas ele não é único que tem uma equipe trabalhando pra ele, eu também tenho.”
“Então a gente ajusta o plano,” disse, como se estivesse resolvendo algo simples. “Fica em um lugar mais seguro. Mais discreto.” Pude ver que já estava reorganizando tudo na cabeça dele. “E quando ela nascer…” inclinou levemente a cabeça, me analisando de novo, “a gente vai para o exterior.”
A mão dele apertou a minha mais forte.
“Certo… faz sentido. Mas…” Meu corpo ficou tenso. “Se você quer que eu mude o plano por você… então você muda por mim. Não basta se esforçar. Preciso de garantias.” Assenti, ouvindo. “Sem resistência. Sem dar trabalho. Sem discussão. Eu sei o que é melhor, então você obedece e não questiona.” A mão dele subiu pelo meu braço, devagar, observando minha reação, e por mais que quisesse que ele não me toca-se deixei. “Sem essas coisas que você faz. Nada de me contrariar na frente dos outros. Nada de tentar fugir. E nunca mais fala daquele nerd. Nunca mais quero ouvir o nome dele sair da sua boca…” Engoli seco. “E, principalmente…” Ele se aproximou mais, perto demais. Os lábios próximos do meu ouvido. “Você para de dizer que esse filho não é meu.”
Aquilo não era um pedido.
Era uma regra.
Ele se afastou o suficiente para me encarar.
Os olhos fixos.
Esperando.
Medindo.
“Porque ela é minha… é nossa,” continuou, mais baixo. “E você sabe disso.”
Mentira.
Delírio.
Mas, naquele momento… não importava. Eu precisava manter minha filha segura e pra isso eu sabia que era preciso entrar naquele jogo dele. Na versão distorcida dele.
Assenti devagar, com um movimento pequeno.
“Ok.” A palavra quase não saiu, mas foi o suficiente já que o sorriso dele voltou. Mais tranquilo, mais… satisfeito. Como se tivesse finalmente colocado tudo no lugar certo.
“Assim é melhor,” murmurou. Soltou minha mão só para tocar meu rosto de novo. “Eu vou falar com os rapazes… pensar em algo. Enquanto isso, você termina seu café.” Ele levantou, depositando um beijo na minha cabeça. “E depois a gente pode ver um pouco de TV juntos.”
Como se fosse… normal.
Como se aquilo fosse só mais um dia comum.
Ele voltou no final da tarde, acompanhado da mulher que estava com o bebê na estrada. Ela não olhou diretamente pra mim, mas também não desviou o olhar.
“Tenho boas notícias,” ele disse. “Falei com os rapazes e podemos adiar nossa partida, mas concordamos que ficar na Capital vai ser perigoso.” Ele parecia genuinamente empolgado. “O ideal seria voltar para o 13, temos mais cobertura lá… mas a viagem é longa, então vamos seguir até o Distrito 1 de carro, como planejado. Só não vamos hoje à noite, eles estão vendo uma casa segura. Estava pensando… a ideia é mudar sua aparência um pouco. Pensei em mudar a cor do seu cabelo, algo bem inesperado, como loiro ou ruivo. Depois você poderia pintar de volta… mas a Pam aqui me disse que grávidas não podem pintar o cabelo, e, se ela falou, eu acredito, já que ela tem dois filhos. Aliás, ela e a família vão conosco. Ela vai cuidar da bebê e ajudar você com o que precisar, considere ela sua assistente, babá e governanta. O que é ótimo, lembra do bebê? Então ele vai crescer perto da nossa filha, o que vai ser bom pra ela. Sabe ter um amiguinho.” Fiquei em silêncio e ele fez uma pausa, como se estivesse organizando o próprio plano. “Mas, voltando… ela vai cortar seu cabelo. Algo bem diferente, pra evitar que reconheçam você nesse período.”
“Isso é realmente necessário?” Ele deu um passo na minha direção e senti o ar pesar.
“Sem questionar, lembra? Eu sei o que é melhor.” Concordei e então ele olhou para a mulher. “Pam, faça sua mágica.”
Ele se sentou na cama enquanto eu me sentei na cadeira da penteadeira. Minhas mãos ficaram paradas no colo enquanto eu permitia que aquela mulher cortasse meu cabelo, um pouco abaixo do ombro.
Tentei ao máximo segurar as lágrimas.
Aquilo era tão absurdo. Tão ridículo.
E, ao mesmo tempo era uma violação.
Gale estava me agredindo novamente, mas dessa vez sem tocar em mim.
O som da tesoura era baixo, mas, dentro da minha cabeça, parecia alto demais. Cada mecha que caía levava junto algo que eu não conseguia nomear.
“Pronto, ficou ótimo,” a mulher comentou.
Eu não olhei no espelho. Se olhasse sabia que não conseguiria segurar, as lagrimas, eu estava no meu limite.
“Não vou mentir,” Gale disse, se levantando. “Prefiro ele longo. Sei que você também. Mas é preciso.” Ele se aproximou. “Ei… não fica assim. Depois você pode colocar um aplique, deixar longo como antes… lembra quando você deixou ele bem comprido? E também... é só cabelo. Cresce de novo.” Ele colocou a mão no meu rosto. “Eu sei o que é melhor pra você amor. Você sabe disso não é?”
“Sei.” Eu me forcei a concordar com a cabeça. Me forcei a aceitar o toque enquanto minha mente gritava que não era só cabelo, não naquele momento.
“Ótimo,” ele sorriu. “Agora, o que acha de vermos algo, como combinamos?” Concordei novamente, sem discutir. Vi o momento em que ele dispensou a mulher com um gesto e seguiu até a cama. “Vem cá.” Observei ele me chamando e, inevitavelmente, lembrei do passado. De como aquilo já tinha acontecido tantas vezes antes. Mas, dessa vez senti o embrulho no estômago. Meu corpo não queria ir. Não éramos mais um casal. Mesmo assim, me forcei a sentar ao lado dele. “Acho que podemos ver os melhores momentos do futebol,” ele disse, como se nada estivesse errado. “Ontem não pude ver o jogo.” Fiquei ali ao lado dele. “Por que está tão longe? Vem cá… me abraça. Sei que você gosta de ficar juntinho.”
Me aproximei devagar, mantendo a barriga o mais afastada possível.
Com menos de mim do que antes.
Tentando não sentir.
Rezando, em silêncio, por uma saída.
POV Peeta
Já haviam se passado mais de 24 horas desde o desaparecimento de Katniss. Vinte e quatro horas tentando manter aquilo longe da imprensa. A última coisa de que eu precisava era transformar tudo em espetáculo… ou pior, pressioná-lo a fazer alguma loucura por medo de ser encontrado.
A polícia já estava atrás dele. Detetives assumiram o caso, e eu já tinha ido até a delegacia prestar meu depoimento. Diferente do oficial que atendeu a ocorrência, eles estavam mais interessados nas informações que o meu time de segurança tinha sobre Hawthorne. Eles já haviam mandado investigadores para o Distrito 12, até a casa dos pais dele, para o apartamento no 13, o endereço da empresa e alguns lugares que ele costumava frequentar na Capital, em busca de pistas, mas nada foi achado.
Aparentemente, ele havia chegado à Capital através de algum voo clandestino ou utilizado um carro para atravessar a fronteira com o Distrito 1. Também estavam varrendo câmeras de segurança por toda a cidade, tentando montar um trajeto que levasse a algum lugar onde ele estaria com ela.
Mas era como procurar um fantasma.
E isso… não era acaso.
A gravação da câmera do painel do carro havia sido recuperada graças ao sistema em nuvem da nossa segurança, mas as câmeras da região simplesmente não ajudavam. Algumas estavam desligadas. Outras, corrompidas.
Brutus já havia confirmado o que eu suspeitava. Alguém tinha invadido o sistema de segurança da casa vizinha e disparado o alarme, como se quisesse entender o movimento que seria feito pela nossa equipe.
Um teste.
Um hacker habilidoso o suficiente para não invadir apenas aquele sistema, mas também os de algumas casas ao redor, o que explicava como ele sabia exatamente qual rota que Darius seria obrigado a fazer com a rua principal bloqueada, quais pontos estavam cegos e até o melhor horário para agir.
Aquilo não tinha sido improvisado.
Tinha sido planejado.
Com cuidado demais
Eles sabiam da rotina.
Sabiam da movimentação.
Sabiam dos vizinhos.
O carro usado na emboscada era parecido demais com o dos Wilson. Mesma linha, mesma cor. Até a placa era próxima o suficiente para não levantar suspeita à distância.
Um bebê. Eles tinham usado um bebê. Provavelmente para gerar simpatia, para garantir que alguém sairia do carro. Darius foi certeiro em manter Katniss dentro do veículo, com a chave. Mas eles também foram.
Atiraram nele. E forçaram a saída dela antes que o reforço chegasse. Fechei os olhos por um segundo, aquilo era obsessão.
“Continua”, pedi, sem olhar para Brutus.
“Estamos cruzando possíveis rotas de fuga junto com a polícia”, ele respondeu. “As equipes estão cobrindo saídas da cidade, postos, rodovias, aeroportos… qualquer padrão suspeito. O celular dela ficou no carro, e o dele provavelmente foi descartado.” Assenti, mas, no fundo, eu sabia.
Ele não seguiria o óbvio.
Meu time de segurança estava espalhado pela cidade, tentando encontrar qualquer coisa , um erro, um rastro, alguém envolvido, qualquer detalhe que ajudasse a polícia.
Minha família estava comigo. Todos, exceto Delly, que ainda estava fora, passaram as últimas horas na minha casa. Minha mãe tentava manter a calma. Às vezes tocava meu braço, dizia que iam encontrá-la. Meu pai repetia que aquilo ia passar, que tudo ficaria bem, atento ao telefone na espera de um pedido de resgate que eu sabia que não viria, mas com todos os telefones sendo monitorados, caso isso acontecesse.
Os demais envolvidos ainda não haviam sido identificados. Mas uma coisa era clara: Eles não eram amadores.
Gale tinha se cercado de pessoas perigosas o suficiente para atirar em alguém em plena luz do dia sem hesitar. E mesmo com tudo o que eu já sabia sobre Gale, eu tinha certeza de que não era tudo.
E isso era o que mais me assustava.
Algo nele sempre me pareceu errado, desde o colégio. Eu só nunca tinha dado a devida atenção e agora, olhando para tudo aquilo, o planejamento, o controle, a frieza, uma parte de mim não conseguia evitar pensar no passado.
Havia mais sobre ele. Muito mais.
No aborto que Katniss teve anos atrás.
Eu nunca perguntei.
Não era justo perguntar. Não com a relação que tínhamos. Não considerando o acordo, o contrato, o fato de que não éramos um casal de verdade. Mas o incômodo veio com força.
As fotos do caso Carter.
Os relatos daquelas mulheres e o padrão.
Ele era perigoso e escondia isso bem.
Um lobo em pele de cordeiro.
Embora eu nunca tivesse perguntado diretamente, ouvi o suficiente da doutora Porter para entender que o aborto foi sério o bastante para exigir uma cirurgia e levantar a possibilidade de uma histerectomia.
Engoli em seco. Se ele estava envolvido nisso de alguma forma…
Se ele havia feito aquilo com ela, grávida de um filho dele…
O que ele seria capaz de fazer agora?
Com ela grávida de outro?
E se…
Afastei o pensamento antes de concluir. Não era hora.
Eu precisava pensar positivo, mas a sensação ficou.
Pesada. Incômoda. Persistente.
Prim estava sentada mais afastada, encolhida no sofá, quieta demais. As mãos apertadas uma na outra, como se estivesse tentando se manter inteira. Will estava ao lado dela. Lavinia também. Os olhos vermelhos denunciavam o que ela não dizia. De vez em quando, ela me olhava.
Como se eu tivesse respostas.
Mas eu não tinha.
E aquilo me destruía.
Havíamos conversado mais cedo, mas ela ainda era muito nova quando Katniss terminou com ele. Sabia de pouco apenas que eles brigaram depois do aborto e decidiram seguir caminhos diferentes. Prim disse que, na época, achou injusto a irmã ficar sozinha depois de tudo o que aconteceu. Mas ela também não sabia o que, de fato, tinha acontecido.
Os pais dela haviam sido avisados e apareceram. Ficaram poucos minutos, só tempo suficiente para perguntar o que a polícia estava fazendo, ouvir, assentir… e ir embora. Sem insistir. Sem ficar. Sem realmente reagir.
E havia algo ali, algo que não encaixava, algo que eles tinham medo de vir a tona.
Foi só quando eles voltaram no dia seguinte que decidi falar com ele a sós.
“Phillip, preciso falar com você.” Seguimos até o meu escritório. Ele entrou com a postura controlada demais para um homem cuja filha estava desaparecida a quase 48 horas. Fechei a porta atrás de nós.
“Alguma notícia?” ele perguntou primeiro. “Algum pedido de resgate? Você vai pagar, não vai?”
“Se a questão fosse dinheiro, seria mais fácil de resolver”, respondi, sem rodeios indicando uma das poltronas e me sentando em outra. “Mas nós dois sabemos que não é.”
“Você não pode ter certeza.”
Eu tinha.
Lian Hawthorne tinha dinheiro suficientes e uma reputação importante demais para que o filho se envolvesse em um sequestro por dinheiro. Sem contar que todo aquele plano havia exigido muita grana.
“Preciso saber uma coisa. Existe algo que você está me escondendo sobre Gale?”
Ele demorou um pouco mais do que deveria para responder.
“Você sabe que eles foram namoradinhos na escola. Coisa boba. Nem assumiam nada na época.”
“Eu sei. Estava lá. Estudei com eles.” Mantive os olhos nos dele. “Assim como sei que, depois, eles namoraram sério na faculdade e ficaram noivos. Quero saber o que aconteceu depois.”
Ele ficou em silêncio por um instante.
“Como você disse, eles ficaram noivos. Tinham problemas. Katniss estava se estabelecendo aqui, largou a carreira de modelo, focou na faculdade. Ele estava jogando em um time qualquer do Distrito 13. Liam Hawthorne queria que o filho assumisse um cargo na empresa, ela ficou grávida, eles não conseguiam chegar a um acordo de onde se estabelecer, ela queria manter a carreira dela ele insistia que tinha um futuro no basquete. Então ela perdeu o bebê… e então não havia mais nada que os ligasse, ai eles terminaram. Você já sabe disso.”
“Katniss não fala sobre a perda do bebê”, retruquei. “E eu nunca forçaria ela a falar. Então fala você. Por que ela perdeu aquele bebê? Ele fez alguma coisa com ela?”
A expressão dele fechou.
“Mulheres perdem bebês, Peeta. Acontece. Alguns nascem, outros não. Eles não souberam lidar com a perda. Katniss principalmente. Você sabe o que os médicos falaram. Ela era jovem e de repente o médico disse que ela não poderia ser mãe, quando ela ainda estava processando a perda do bebê.”
Mentira ou, no mínimo, metade da verdade.
Estava na rigidez da mandíbula dele. No cuidado excessivo com cada palavra. No modo como ele desviou os olhos ao falar.
Ele sabia de alguma coisa e estava escondendo.
“Então por que não existem registros médicos sobre o aborto dela?” Phillip ficou imóvel.
“Claro que existem registros.”
Outra mentira.
“Não. Não existem.”
“Katniss pode ter se confundido… falado alguma besteira.” Eu jamais diria a ele que havia investigado a filha dele, mas também não deixaria que pensasse que eu não tinha informações.
“Eu estava lá em cada consulta”, falei, controlando a voz. “Eu estava lá no momento em que descobrimos a gravidez. E os médicos de um dos maiores hospitais da Capital não tinham qualquer informação sobre isso. A ficha dela não dizia nada sobre o aborto. Nada sobre cirurgia, nada sobre as cicatrizes no útero. A medica dela pediu todo tipo de exame para entender o quadro dela, saber o quanto segura era a gravidez.” Me inclinei apoiando os ombros no joelho e olhando para ele. “E ela mesma disse que vocês pediram para tirar aquilo de lá.”
A expressão dele endureceu.
“Isso não importa agora. É passado. O importante é encontrá-la e trazê-la para casa.”
“Importa se o passado explica por que ele a levou.”
“Você está procurando problema onde não existe.”
“Se ele a machucou, por que não tem ficha policial?”
“Se não tem ficha, talvez seja porque ele não fez nada.” Soltei uma risada baixa, sem humor.
“Ah, mas ele fez muita coisa que deveria estar na ficha dele. E não esta.”
“Isso não é comigo.” Ele retrucou, seco. “E nem deve ser da sua conta.”
“É da minha conta.”
“Não.” A voz dele subiu um pouco. “Vocês não estavam juntos.”
“Mas estamos agora.” Minha voz saiu mais dura. “Ela é minha mulher. Está grávida da minha filha. Então importa. E muito, saber o risco que elas estão correndo agora com aquele homem.”
O silêncio que veio depois foi pesado.
Phillip apertou os lábios, como se tivesse se arrependido de ter dito demais ou de quase dizer. Mas eu não tinha a menor condição de insistir naquilo naquele momento. Não quando cada minuto importava.
Respirei fundo, passando a mão pelo rosto.
Eu tinha que encontrá-las. Essa era a prioridade.
“Você acha que ele vai machucá-la?” perguntei o que estava martelando na minha cabeça e ele demorou um segundo a mais do que deveria.
E, para mim, aquilo já foi resposta suficiente.
“Não”, disse enfim. “Acho que ele quer ela de volta. Ele nunca quis terminar, ele jamais teria terminado com ela, foi a Katniss que disse que não poderia mais olhar pra ele.”
“Então ele a machucou?”
“A diversas formas de machucar alguém...”
“Isso não é uma resposta.” Ele não me encarou.
“É a única que eu tenho pra você agora.”
Antes que eu pudesse continuar, ouvi batidas na porta. Brutus entrou sem esperar resposta.
“O seguro da joalheria Lumière entrou em contato agora.” Olhei pra ele, sem entender. “Uma loja de penhores entrou em contato com eles. Alguém tentou vender uma joia deles hoje. Eles acharam estranho, anotaram o código da peça e acionaram a joalheria. Que ligou para o seguro pra saber se havia algum acionamento de roubo, procedimento padrão para averiguação de possível golpe.”
Fiquei em silêncio por um segundo, sem entender direito. No último ano, eu havia comprado algumas joias para Katniss, assim como para outras mulheres da família, nada exorbitante, mas todas com seguro oferecido pela joalheria que era conhecida por suas peças únicas e exclusivas. Mas eram peças que Katniss usava sempre em ocasiões específicas como jantares, eventos...
Ela não devia estar com nenhuma delas em um almoço com a mãe dela.
“Delly pode ter pedido alguma peça antes de viajar e não deu falta... Cuida disso, por favor...”
“É o anel de noivado da senhora Mellark.” Ele me interrompeu e mundo pareceu desacelerar.
O anel.
Ela usava junto com a aliança sempre, como a maioria das mulheres casadas. Era tão constante que simplesmente não veio a minha cabeça. O diamante de sete quilates tinha certificado, número gravado a laser, registro no seguro.
“Onde?”
“Uma loja na região do Hob. O cara da loja disse que achou estranho. Tentaram vender o anel e uma única aliança, sem caixa, sem certificado, querendo fechar negócio rápido, disse que aceitaria um valor abaixo do que ele valia. Ele anotou o código e entrou em contato. A polícia já está indo pra lá pegar as imagens das câmeras.”
Aquilo não fazia sentido.
Gale não venderia o anel daqueles, ele saberia que uma joia assim sem certificado chamaria atenção e qualquer vendedor com conhecimento de joias, buscaria informações antes de fechar negócio. E ele não parecia estar atrás de dinheiro.
Fui direto para a delegacia e esperei cerca de seis horas para receber o relatório dos detetives que analisaram as imagens.
Não foi o Gale que esteve na loja de penhores.
Era outro homem.
Segundo o vendedor, ele nunca tinha aparecido ali antes. Mas a câmera de segurança pegou o rosto dele com clareza e de frente. E isso foi o suficiente para circular a imagem entre os comerciantes da região.
Victor Hoskins.
Um nome novo no bairro.
Um homem que havia se mudado recentemente para uma casa em reforma na região. Dava para sentir a tensão no ar enquanto todos aguardavam a localização exata da casa. Ninguém falava muito. Só olhares trocados, passos curtos, vozes baixas ao telefone.
Até que veio.
Uma rua sem saída, ao sul do bairro.
Os policiais começaram a se movimentar imediatamente, organizando a estratégia de abordagem. E, embora cada parte de mim quisesse mandar minha equipe invadir aquele lugar, eu sabia que o certo… era deixar a polícia agir.
Eles não tinham ideia de quantas pessoas estavam lá dentro.
Nem se ela de fato estava lá.
Nem do nível de risco.
Ainda assim, o mandado saiu rápido. Invadir durante a madrugada era a melhor opção. Daria vantagem. Com o endereço em mãos, eles seguiram com cautela. Eu fui com Brutus até as proximidades, meu pai e Finn junto. Minha equipe não participaria diretamente da ação, mas estava posicionada nos arredores.
Cobertura.
Ele não sairia dali sem ser visto.
Ou pelo menos… essa era a intenção.
Eu precisava acreditar que ela ainda estava lá.
Que aquele sinal não era só… um rastro.
A espera foi lenta.
Pesada.
Mesmo a uma certa distância da casa, eu me mantinha atento a qualquer som, qualquer movimento. O tempo parecia arrastar.
Até que... a ambulância que eu mesmo havia solicitado para ficar nas proximidades passou por nós em alta velocidade.
Meu coração parou.
Brutus reagiu na mesma hora, ligando o carro e seguindo atrás, enquanto ligava para quem estava mais próximo ao local.
“Jon, o que está acontecendo?”
“Houve disparos no local. A polícia já entrou. Chamamos a ambulância de imediato, por precaução. Não temos uma visão completa daqui e não dá pra passar. Mas não temos nenhum veículo em fuga.”
Disparos. Ele não atiraria nela, ele não podia ter atirado nela.
Quando chegamos na rua havia uma barreira policial, alguns moradores já estavam nas portas, observando sem entender o que estava acontecendo.
Saí do carro antes que Brutus pudesse terminar de estacionar.
Um policial tentou me segurar, assim que me aproximei da barreira.
“Senhor, não pode...”
“É a minha esposa!” Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. Mais urgente.
Ele hesitou. E, por um segundo, achei que ia me barrar.
Mas então o responsável pela operação fez um sinal, autorizando minha passagem. Eu avancei.
Cada passo mais pesado que o outro.
O som ao redor parecia distante, abafado e foi só então que eu vi.
Uma maca sendo trazida pela porta principal.
Cabelos escuros espalhados.
“Katniss...”
“Peeta…” A voz veio fraca, ligeiramente chorosa, mas clara.
Ouvir meu nome saindo da boca dela nunca me deu tanto alivio.
Ela estava consciente.
Fiz uma análise rápida, quase automática, em busca de qualquer sinal de ferimento, bala, sangue, marcas de agressão… qualquer coisa.
Mas, embora o cabelo estivesse bem mais curto e ela estivesse nitidamente exausta, ela parecia fisicamente intacta.
Nenhum ferimento visível, sem sangue. Ainda assim, o desespero nos olhos dela era impossível de ignorar.
Não era só medo, havia algo errado, muito errado.
“Katniss…” minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, a mão já alcançando a dela e ela segurou meus dedos com força.
“Eu estou tendo contrações.”
Meu coração falhou.
Era cedo demais pra qualquer alívio.
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