Linha Tênue

42 Capítulo 39: Não São os Hormônios


Notas iniciais
Olá, meus queridos. Espero que vocês estejam bem e que o final do ano tenha sido agradável. Vamos começar o ano com uma atualização. Sem mais demora, vamos ao capítulo.


Olhei pela janela do carro, impaciente, mesmo sem haver trânsito algum. O caminho, por alguma razão, parecia mais longo do que o normal. Peguei o celular outra vez. A última mensagem dele ainda estava lá.

“Indo pra casa.”

Curta, mas suficiente para fazer meu corpo ceder um pouco do estresse acumulado. Depois de horas no avião sem notícias concretas, saber que ele estava em casa… já era alguma coisa. Quando o táxi parou em frente ao prédio no centro do Distrito, desci o mais rápido que pude, atravessando o saguão conhecido e subindo as escadas quase sem pensar. Embora tivesse a chave a porta do 202 não estava trancada. E assim que entrei, meu olhar o encontrou.

Ele estava de jeans, sem camisa, pés descalços, cabelo ainda úmido, o rosto cansado. Muito mais do que da última vez que o vi. Ele tentava abrir uma embalagem de curativo, mas ao me ver largou tudo e veio até mim em passos rápidos. O abraço dele foi forte. Forte demais. Como se o dia tivesse sido pesado demais para carregar sozinho.

“O que houve?” Perguntei, tentando encontrar seus olhos. Eu só sabia que ele estava detido, nada além disso.

“Não foi nada.” A voz dele era baixa, quase um sussurro. Era a mesma entonação que usava sempre que fazia algo errado e tentava parecer arrependido ou inocente.

“Eu estava preocupada… vim sem nem saber o que aconteceu. Como você foi parar na delegacia? Por que ficou tanto tempo lá?”

“Já passou.” Ele encostou o rosto no meu ombro por um instante. “Só… fica comigo um minuto.” Suspirei quase involuntariamente era sempre assim. Ele fechava a porta emocional antes mesmo que eu pudesse tentar abrir. Quando ele recuou um pouco, meus olhos desceram para as mãos dele.

Machucadas. Os nós dos dedos abertos, vermelhos algumas partes já estavam roxas. Eram marcas de impacto.

“Gale… sua mão.” Minha voz saiu mais baixa do que pretendia. Ele olhou as próprias mãos com indiferença, como se não houvesse nada demais nelas.

“Ah… isso.” Ele tentou sorrir. “Coisa boba. Nem dói. Não se preocupe. Sou bem forte amor.”

“Isso não é nada bobo. Precisamos ir ao médico.” Ele desviou o olhar, irritado.

“Eu tô bem. De verdade.”

“O que aconteceu?” Usei um tom próximo ao dele para falar. “Passei horas em um avião sem saber o que estava acontecendo, não vem com essa de que está tudo bem, quero saber o que aconteceu.”

“Foi só uma discussão idiota numa festa do time. Não era nada demais, um dos caras se meteu a engraçadinho eu reagi e alguém chamou a polícia. Só isso.”

“Engraçadinho como? Por que você estava discutindo com ele? Se não era nada por que chamaram a polícia? Por que ficou detido por quase doze horas?”

“Katniss…” O suspiro dele dizia, não pergunte e o olhar indicava que ele não iria falar. “Acredita em mim. Não foi nada. Tá resolvido. A fiança foi paga. Eu tô em casa. Fim da história.” Ele se aproximou de novo, a mão quente no meu braço, como se o toque fosse a resposta para qualquer coisa. “Eu só preciso de você. Agora que você tá aqui… eu estou bem.”

Respirei fundo, eu precisava de mais informações, entender tudo que estava acontecendo, afinal sabia que ele estava escondendo algo grande. Era um padrão ele sempre usava afeto como forma de desviar os assuntos indesejados. Sabia também que não ia conseguir nada dele naquele momento, além de uma discussão que iria começar se insistisse no assunto.

“Vem, vamos cuidar dessas mãos.” Murmurei indo em direção à bancada onde ele havia deixado o curativo.

Gale sorriu com aquela pequena sensação de vitória quando deixei de insistir. Eu estava quase terminando o curativo quando a porta do apartamento se escancarou com tanta força que bateu na parede.

“Você enlouqueceu?!” A voz de Liam cortou o ar como um golpe.

“Pai…” Gale murmurou, o maxilar travado.

Liam entrou como se o lugar fosse dele, e de certa forma era já que ele quem pagava o aluguel e a maior parte das despesas do filho. Os passos firmes, olhos duros, nada da polidez calculada que ele exibia para o resto do mundo, naquele momento ele parecia apenas um homem possesso de raiva.

“Quer acabar com a sua carreira? Com a sua vida? É só me avisar. Assim eu paro de perder tempo fazendo planos pra você.” A voz dele era tão fria que fez o ar mudar ao redor deles. Gale respirou fundo, olhou para o pai como se estivessem tendo uma conversa silenciosa e só então olhou na minha direção.

“Katniss… pode nos dar licença? Você deve estar exausta da viagem amor. Vai tomar um banho longo pra relaxar. Já te encontro no quarto.”

Eu conhecia bem aquela tática, era a uma ordem disfarçada, odiava quando ele falava daquela forma comigo. Ainda assim, não protestei. Não era estúpida pra tanto, sabia que quando os dois tinham o que discutir o melhor era estar longe.

Caminhei até o quarto, mas o silêncio pesado deles parecia me seguir como uma sombra. Fechei a porta, fui até o banheiro onde liguei o chuveiro e deixei a água cair apenas para fazer o som que sabia que seria ouvido na sala. Mas não entrei. Voltei para o quarto e fiquei ao lado da porta, ouvindo. A discussão já estava acontecendo.

“…você não queria ser jogador? Onde já se viu um atleta com uma lesão dessas nas mãos?”

“Foi por impulso! Não fala como se você nunca tivesse perdido a paciência, pai.”

“Perder a paciência justifica isso? Sabe quanto isso vai custar? Quanto eu vou ter que pagar por causa desse tal de Carter?”

Meu coração apertou. Eu conhecia Oliver Carter, ele era gentil, educado, mais novo que Gale, um talento promissor no time e a última pessoa que eu imaginaria envolvida em qualquer confusão. Havíamos tido até mesmo uma conversa interessante sobre a faculdade na última festa do time, poucas semanas atrás. E não foi sobre os próximos jogos, como quase sempre acontecia com a maioria dos caras do time que andavam com Gale. Foi diferente. Falamos sobre as matérias. Sobre o que estávamos estudando de verdade. Sobre o futuro e as possibilidades e carreiras que existiam além das quadras… inclusive as que ele próprio queria para si.

“Ele quase ficou cego, Gale.” Liam continuou, a voz grave, controlada. “A cirurgia terminou agora. Chamaram um especialista de outro hospital pra tentar salvar a visão dele. Fora o cirurgião plástico para reparar os dados no rosto. Isso vai cair no noticiário. Vai cair no time. Vai cair em mim. Que droga.” Houve um silêncio incomodo e involuntariamente segurei a respiração como se para evitar ser descoberta atrás da porta.

“Ele mereceu.” Gale respondeu, firme e sem qualquer sinal de arrependimento. “E não me olha assim. No meu lugar, você teria feito pior. Ele estava se achando. É um babaca prepotente.” Liam soltou uma risada seca.

“Pior? É difícil ser pior ao menos que tivesse matado o garoto, ele não te acertou um soco se quer para dizer que você estava se defendendo.”

“Ele é um babaca, mereceu cada soco.”

“Tudo isso por ele ter jogado bem? E você ter ido mal no último jogo que o garoto brilhou?”

“Eu não joguei mal!”

“Eu estava lá lembra, você não jogou bem Gale, pelo contrário foi individualista e teve que ser colocado no banco por isso.”

“Isso não tem nada a ver com o jogo. Ele estava feliz por ser escalado como titular, se vangloriando pelos pontos que fez, claro que estava. Mas ele já tinha me deixado no limite antes disso.”

“Como assim? O que ele fez?”

“Ele estava de olho na minha mulher.” Gale explodiu, e meu corpo gelou com as palavras dele. Tudo isso havia sido por ciúmes.

“Katniss não estava na Capital? Ela não chegou agora pouco?”

“Sim, ela estava isso foi antes. Eu vi pai. Não é de hoje. Toda vez que ele a vê, olha daquele jeito. E da última vez ficou falando com ela como se tivesse intimidade… olhando como se fosse uma presa. Achou que eu não percebi, mas eu vi tudo. O jeito que olhou pras pernas, pro decote… Ele estava imaginando coisas com ela tenho certeza. Hoje ainda vi ele comentando sobre ela com outro cara. Dizendo que ela era inteligente. Se alguém olhasse pra mamãe daquele jeito, você teria feito pior.”

Aparamente essa frase atingiu Liam que apenas respirou fundo e falou mais calmo.

“Talvez. Mas com a sua mãe isso não acontece. Ela sabe se portar. Sabe como se vestir. Já te falei mil vezes que você precisa cuidar da imagem da sua namorada. E outra coisa se Carter teve espaço pra conversar com ela, é porque você deixou. E porque ela deu liberdade. Você nunca soube conduzir seu relacionamento.” Mais uma vez o silêncio entre eles se fez presente. “Katniss não é como a sua mãe.” A voz de Liam tinha um desprezo contido.

“E qual é o problema?” A voz de Gale saiu mais afiada ele estava ficando nervoso.

“O problema é que agora você acha bonito essa ousadia dela. Essa petulância. Parece excitante. Katniss foi um desafio a conquistar, a mais popular, a que não caia aos seus pés, a que não queria assumir algo com você no colégio. Ela te desafia e você gosta, deixa a relação mais empolgante. O sexo deve ser o ponto auge da relação de vocês.”

“Pai...”

“O que? Estou mentindo, sei que é excitante, ela é jovem, bonita, ajuda na sua imagem, te desafia e isso na sua idade é empolgante, mas daqui a alguns anos isso vai mudar, você vai amadurecer e não vai achar nada empolgante uma mulher que não sabe seu lugar. Mulheres assim não são feitas para casar filho.”

“Quem falou em casamento?”

“Vai me dizer que vocês estão caminhando pra isso?” Gale nada disse. “Estão ou não estão?” Houve mais um momento de silencio entre eles. “Eu sabia! Você é tão fascinado por ela, tão cego por essa mulher e quer tanto ficar com ela que vai acabar fazendo um pedido de casamento antes mesmo de conseguir um contrato em um time.”

“Eu sei como lidar com meu relacionamento. E se fizer algum pedido será na hora certa.”

“Não parece, só espero que saiba que não vou bancar uma brincadeira de casinha, espero muito que saiba que casamento é coisa séria e ela não está pronta para isso, talvez nunca esteja ao menos que comece a mostrar como ela deve agir, e o que ela representa. Uma mulher deve se preservar meu filho. Deve ouvir e respeitar o marido. Katniss não te respeita desde agora e não vai respeitar no futuro. E você não exige isso dela. Ela vai acabar domando você.”

“Você está passando dos limites, pai. Ela me respeita, sim. E você deveria parar com isso e resolver o que tem que resolver com o Carter.”

“Esse é seu problema, não consegue ouvir a verdade.”

“Isso não é verdade! Para de falar essas coisas pai. PARA COM ISSO!”

“Se não parar vai fazer o quê? Me socar também?” Liam provocou, a voz calma e Gale não respondeu, embora tenha ouvido o som de algo quebrar, provavelmente um copo ou qualquer outro utensilio de vidro sendo arremessado na parede, mas eu duvidava que na direção de Liam, não Gale não se voltaria assim contra o pai. Apesar desses momentos em que a conversa entre eles era mais tensa geralmente por Gale ter feito alguma besteira, ele respeitava o pai. Não era segredo nenhum que a relação dos dois era próxima demais eles eram unidos demais. “Imaginei que não. Eu estou resolvendo isso, como sempre tenho que fazer. Vou propor um acordo para a família dele para que não haja denúncia. Mas vai sair caro. Muito caro.” Houve uma pausa lenta, pesada. “Então, da próxima vez antes de socar outro cara que olhar pra sua mulher… pensa se não vale mais rever a postura dela antes.”



As semanas que seguiram a inauguração foram surpreendentemente positivas para a imagem da empresa. Já no dia seguinte, o jornal local não falava de outra coisa. Uma fábrica daquele porte, com real potencial de crescimento, prometia movimentar o Distrito. E pelo jeito, isso estava incomodando alguns empresários locais, que agora teriam de disputar os melhores funcionários com uma concorrente de peso.

Também circulavam boatos sobre Peeta não ter ido à abertura da nova loja no centro, onde as famílias mais influentes o aguardavam e ter preferido ir à fábrica, onde só havia os trabalhadores e suas famílias. Peeta não parecia minimamente preocupado. Pelo contrário, seguia tranquilo, seguro, como se tudo estivesse exatamente no lugar. Percebi que a forma que ele lidava com a imprensa era permitir que falassem do seu trabalho…, mas jamais da sua vida pessoal.

A vida pessoal dele era um território fortemente protegido e qualquer um que tentasse desafiar isso estava comprando uma briga. Diego Leon que o diga, já que processos estavam rolando, e suas publicações se limitavam as suas redes pessoais e sites de fofoca duvidosos e sem credibilidade.

Quanto a nós… ainda não havíamos conversado sobre aquela noite. Ele teve o bom senso de não tocar no assunto da minha insegurança, e eu agradeci em silêncio por isso. Aquele não era um lado meu que eu queria expor para ninguém, muito menos para ele. Mesmo assim, ficou óbvio que Peeta tinha percebido o quanto eu estava vulnerável. Mas ao invés de comentar, ele passou a ser mais gentil. Pequenos elogios que surgiam de repente, como quem tenta costurar rachaduras invisíveis, mesmo que não tenha sido ele a danificar.

“Você ficou ótima nesse vestido.”

“Está bonita hoje.”

“Essa cor lhe caiu muito bem.”

Eu não sabia se ele realmente estava falando a verdade… ou se estava tentando me ajudar. Mas era doce, estranho, mas doce. E meu ego, aquela parte minha que raramente me abandonava aceitava e se sentia bem com isso. Principalmente porque parecia sincero e verdadeiro visto que, naquela noite… ele não pareceu se importar com nenhuma das mudanças no meu corpo. Desde o início o desejo entre nós era evidente e incontestável, e por mais que tenha ficado insegura ficou nítido que o desejo continuava ali, evidente no seu olhar. No jeito que suas mãos me tocavam, na forma como seu corpo reagia ao meu. Não havia amor, eu sabia disso, mas havia desejo, isso não dava para negar. E isso não tinha mudado.

Essa percepção me deu uma confiança nova. Aquela era uma fase do meu corpo e depois ele iria voltar ao que era antes. E isso foi fundamental para o ensaio fotográfico que fizemos logo depois de voltar do Distrito 12. Tudo foi organizado por Effie. Que ficou indignada ao descobrir que não estávamos registrando fotos mês a mês.

Com isso Peeta ouviu o suficiente para agendar as próximas sessões nos meses seguintes e também o registro do parto, garantindo à mãe que lamentava o esquecimento e que isso não se repetiria e que iríamos registra os próximos meses.

Esse primeiro ensaio foi… inesperadamente íntimo. Foi na casa. A luz suave entrando pelas janelas como se nos envolvesse. Fotos na sala, em tons quentes, nossas mãos entrelaçadas a mão dele sobre a minha na curva da minha barriga.

Depois, no jardim com o vento leve movimentando as flores, Peeta atrás de mim, as mãos na minha cintura, nossas sombras caindo lado a lado na grama.

Havia algo silencioso e profundo naquelas imagens. Algo que dizia, isso é real. Está acontecendo. E algo havia ficado claro ali, Peeta podia não me amar…, mas amava nossa filha. Isso estava estampado em cada foto em cada sorriso dele.

“Ficou maravilhoso.” Effie comentou ao ver as imagens após o almoço de domingo no apartamento de Delly. “Vocês ficam muito bem juntos. Peeta tem talento em frente às câmeras… e você também, Katniss. Ainda não acredito que, além do chá revelação, vocês não tiraram outras fotos. É importante registrar mês a mês. Esses momentos não voltam, precisam ser aproveitados.”

“Tinha muita coisa acontecendo, mãe.” Peeta tentou se justificar novamente.

“Não justifica.” Ela comentou firme. “Espero que se organize melhor. Sua filha não vai esperar sua agenda para os momentos importantes... Você que precisa se organizar para participar....”

“Pelo que eu sei, você chegou a pensar em ser modelo fotográfica, não é, Katniss?” Delly, sentada no sofá próximo à janela, interveio tentando suavizar as coisas para o irmão

O comentário não veio com a acidez que eu já estava acostumada a esperar dela, pelo contrário era corriqueiro suave até. Na verdade, nas últimas semanas, Delly parecia ter guardado qualquer julgamento sobre mim para si. No dia do anúncio da gravidez, ela tinha me parabenizado, de forma neutra, mas sincera. Embora quando tenha se virado para o irmão ela tenha tido uma reação muito mais empolgada com a notícia. Como todos os Mellark, ela sempre comprava presentes para a bebê, geralmente entregue a Peeta no escritório. Ainda assim, ela ainda era a mais distante entre eles. Já que Annie, desde o casamento mantinha uma cordialidade suave, quase política em relação a mim, e era pessoa que lançava olhares discretos para a irmã quando Delly se aproximava de qualquer comentário atravessado.

Effie, que embora tenha sido a pessoa que me procurou no meu casamento para deixar claro sua opinião sobre nossa união e toda sua desconfiança sobre mim, sempre me tratou com respeito embora de fato muitas vezes tenha me sentido observada por ela, nos últimos meses estava cada vez mais próxima. Cuidadosa e atenta comigo e fosse pela gravidez ou não me fazia me sentir bem.

“É mesmo? Que interessante.” A tática havia dado certo e a atenção da minha sogra se voltou novamente para mim. “O que fez você mudar de ideia? Você teria dado muito certo como modelo. É bonita e fotogênica.” Respirei fundo. A nostalgia veio leve, mas certeira, não posso negar que amava os ensaios e toda a rotina da época que atuava no ramo.

“Obrigada. Eu comecei a faculdade e me apaixonei pela área. Quando percebi… já não queria mais seguir o outro caminho. Foi como se, pela primeira vez, eu tivesse encontrado algo que me escolheu de volta. Ai não teve jeito, deixei a ideia de ser modelo de lado, mas gostava bastante.”

Falei sem pensar, lembrando que de fato aquela escolha tinha sido unicamente minha, era algo que eu queria não meus pais. Vi que os olhos de Peeta estavam em mim atentos, silenciosos. A conversa seguiu de forma natural, Effie comentando sobre um possível retorno ao mercado de trabalho daqui a alguns anos.

Eu concordei.

Embora não fizesse ideia de como seriam as coisas, já que apesar das pequenas mudanças nos últimos meses, provavelmente pela gravidez ainda estávamos em um contrato onde trabalhar não fazia parte do acordo.

Peeta aproveitou a mudança de assunto e saiu com Alex para o salão de jogos do prédio, enquanto Finn e Thresh discutiam animadamente sobre sair e comprar “algo diferente” no mercado, mesmo depois de praticamente devorarem uma das tortas de chocolate servidas após o almoço sozinhos.

Foi em meio a essa rotina confortável que senti meu celular vibrar. Abri a notificação esperando ver uma mensagem da Prim, que estava com Willian na casa da mãe dele…, mas era um número desconhecido.

“Soube da novidade…”

“PARABÉNS!.”

“Teria mandado mensagem antes, mas não tinha seu número.”

Observei a bolinha de digitando aparecer. Parte de mim quis perguntar quem era. Mas não foi preciso.

“Estou muito feliz por você, Catnip.”

Só uma pessoa me chamava assim. Senti a mão ficar fria como se meu corpo tivesse entendido antes mesmo da minha mente. Bloqueei o número na mesma hora, mas o estrago já estava feito. Ele não podia saber. Ele não podia chegar perto. Ele não podia estar na minha vida agora. Não agora. Não quando mais alguém dependia de mim.

“Katniss…” Olhei para Thresh, que me observava com a naturalidade de quem não fazia ideia do que estava acontecendo dentro de mim. Por um momento, eu não soube o que fazer com meu rosto, minhas mãos, meu próprio corpo. “Você quer algo do mercado?”

“Não, obrigada.” Minha voz saiu… normal. Um milagre.

Eu só precisava me acalmar. Ele não tinha como se aproximar. Mas em meio ao turbilhão que se formava na minha cabeça, veio outra sensação.

Uma que não tinha nada a ver com ele.

Uma sensação… estranha.

Não era dor. Não era enjoo.

Mas também não era nada familiar, nada que estava acostumada sentir.

“Com licença…” Murmurei, levantando antes que alguém percebesse a mudança no meu rosto. Caminhei até o corredor, sem entender a sensação estranha que estava sentindo. No banheiro, tudo parecia normal. Normal demais. Mas assim que dei os primeiros passos de volta ao corredor, aconteceu. Minha barriga endureceu. Ficou rígida de repente.

Levei a mão ao ventre, surpresa, esperando que… relaxasse. Que voltasse ao normal. Mas não voltou.

Não doía, só era estranho. Profundamente estranho. E estranho nunca era bom. Não para mim. Não depois de tudo. O ar falhou. O coração acelerou do jeito errado. A mente se perdeu em lugares onde eu não queria voltar. Apoiei as costas na parede, tentando respirar. Tentando entender e não deixar o pânico assumir.

“Katniss…? Você está bem?” A voz de Delly surgiu antes que eu conseguisse fingir qualquer coisa. Em segundos ela estava na minha frente, os olhos com certa preocupação. Eu queria dizer que sim, que estava tudo certo, que não precisava de ajuda. Mas a sensação ruim já tomava todo meu peito, e as palavras… não saíam.

O que eu tinha feito de errado?

“Você está sentindo alguma coisa? Quer que eu chame o Peeta?” Tentei responder, qualquer coisa, mas só consegui apertar a mão contra a barriga, como se isso pudesse convencer meu corpo a cooperar. Como se isso pudesse impedir que algo horrível acontecesse de novo. “Droga, estou sem meu celular…” Delly murmurou, aflita. “Vem comigo.”

A mão dela encontrou a minha, firme, quente então me guiou com cuidado até um dos quartos. Eu deixei. Não confiava nas minhas pernas para me manter de pé por muito mais tempo.

“O que aconteceu?” A voz de Annie veio antes que eu percebesse que ela estava ali.

“Não sei. Encontrei ela assim no corredor. Você está com seu celular? Precisamos ligar para o Peeta agora, para ele subir.” Ela me conduziu até uma poltrona perto da janela e eu me deixei cair ali, o corpo leve demais e pesado demais ao mesmo tempo.

“Katniss, você está sentindo dor?” Annie perguntou, se aproximando. Eu queria dizer que não. Queria dizer que era só medo. Queria dizer que não sabia distinguir nada naquele momento. Mas nada saiu. “ Delly, chama a mãe primeiro.”

“Eu volto em um minuto.” Delly saiu quase correndo do quarto.

Annie ajeitou Kai no meio da cama de casal, cercado de travesseiros. Uma mãe com um bebê. Uma cena tão simples. Que já tinha visto várias vezes nas últimas semanas, mas por algum motivo cruel, aquilo me atingiu. Como se alguém tivesse cutucado um machucado que nunca fechou direito.

As mães no andar de maternidade, sorrindo com seus bebês, enquanto o berço do meu quarto estava vazio. Depois de toda aquela dor e a sensação de que eu não conseguia proteger ninguém, nem meu bebê e nem a mim mesma. A porta abriu.

“Katniss, querida…” Effie se abaixou até ficar na minha altura, os olhos fixos nos meus. “Pode me dizer se está sentindo algo?”

Aquele olhar… que nas últimas semanas tinha se tornado uma presença constante. Uma âncora silenciosa no meu dia a dia. Effie vinha surgindo com conselhos discretos, oferecidos sempre com uma hesitação doce, como quem não quer ultrapassar limites, mas que, sem perceber, já tinha cruzado a linha e começado a ocupar um espaço que eu nunca imaginei permitir. Um espaço acolhedor com um cuidado cheio de gentileza e conforto que eu só tinha visto poucas vezes na vida e nunca direcionado a mim, não daquela forma.

“Ela parece estar tendo uma crise de pânico.” Delly disse, a voz aflita. Effie assentiu devagar, tocando meu braço com a ponta dos dedos de leve, como quem tenta me chamar de volta a realidade.

“Consegue respirar comigo, Katniss? Vamos fazer isso juntas, está bem? Inspira… e solta devagar.” Ela começou a respirar de forma ritmada, e eu a acompanhei, quase como se meu corpo espelhasse o dela. Mantive meus olhos nos dela naquele azul calmo que, biologicamente, não era o mesmo do Peeta, mas carregava a mesma calma que nele muitas vezes me irritava e me intrigava, mas que ali trazia uma paz inesperada. Como se a convivência tivesse replicado o dele com o dela, como uma herança silenciosa de convivência. “Isso… muito bem. Está ficando melhor agora, não está?” Não sei quanto tempo estávamos ali apenas respirando, e embora não conseguisse responder podia sentir que o meu peito começava a ficar mais leve. “Preciso te perguntar algo importante.” A voz dela ficou ainda mais suave. “Você está sangrando?” Neguei com a cabeça. “Ótimo. Isso já nos tranquiliza bastante.” Ela inclinou o rosto, mas mantendo o olhar no meu. “Você ficou nervosa com alguma coisa depois que deixou a sala? No seu tempo está bem…, mas precisamos entender se é algo que exige irmos ao hospital?”

“Eu… não sei o que é.” Minha voz saiu baixa, fina, quase infantil do tipo que minha mãe chamaria de patética. Mas não havia julgamento no olhar da Effie. Nenhum julgamento. “Minha barriga ficou estranha. Eu não sei o que fiz de errado. Eu acho que… não fiz nada de errado. Não pode acontecer de novo.” Ela se aproximou um pouco mais.

“Primeiro, eu tenho absoluta certeza de que você não fez nada de errado. Está bem?” Ela esperou um momento esperando um sinal de confirmação ou de entendimento. “Agora me diga… estranha como?”

“Ficou… rígida. Dura. Eu não sei explicar.”

“Posso?” Assenti. A mão dela pousou na minha barriga com todo o cuidado do mundo. Ela esperou um instante, sentindo… e então um pequeno “Oh…” escapou dos lábios dela seguido de um sorriso inesperado para a situação. “Fique tranquila, meu bem. Isso é totalmente normal. Na verdade… é um ótimo sinal. Essa mocinha só está ficando maior e se ajeitando aí dentro.” Eu a encarei, sem entender. “Com vinte e seis semanas o espaço começa a ficar mais apertadinho, sabe?” O tom dela era macio, quase musical. A mão permaneceu ali, quente, firme. “Ela está se esticando, mudando de posição… e aquelas bolinhas que você sentia quando ela tinha mais espaço vão ficando diferentes. Está tudo bem com ela. Assim que ela se acalmar, você vai sentir tudo voltar ao normal. Ela é quietinha por isso você não sente movimentos tão fortes.”

“Pode ter sido a torta de chocolate.” Olhei para Annie, parada ao lado da irmã, alguns passos atrás de Effie. “Eu quase nunca vejo você comer chocolate ou doce na verdade…, mas hoje você comeu. Acho que minha sobrinha gostou.” Ela sorriu, cúmplice.

“O lado Mellark falando mais alto.” Delly brincou, e acabei sorrindo de leve.

“Pode ser. Bebês geralmente ficam mais agitados com chocolate mesmo.” Effie completou. “Delly se mexia horrores quando eu comia chocolate. Eu até comia antes da ultrassonografia para ela colaborar.”

“Chocólatra desde antes de nascer.” Delly revirou os olhos para a irmã.

“Por que eu sou sempre o parâmetro de exemplo das pérolas da família? Não é como se fosse a única na família que gosta de chocolate.” Effie apenas balançou a cabeça, divertida, antes de voltar o olhar para mim.

“Nas próximas semanas, vai ficar ainda mais nítido quando ela se mexer. Você vai reconhecer cada movimento. Mas está tudo bem, e só sua bebê de desenvolvendo bem. Não precisa se preocupar.”

Sem qualquer explicação, uma onda de alívio preencheu meu peito. Calma. Quente. Senti as lágrimas caírem antes mesmo de perceber que estava chorando. Mas não era tristeza, pelo contrário.

Eu estava finalmente alcançando uma fase da gestação que nunca cheguei da outra vez. Meu corpo estava reagindo de formas novas, sensações que eu não conhecia… A minha filha estava se desenvolvendo. Crescendo. Era incrível. Inexplicável.

“Querida… não chora, está tudo bem.” Effie murmurou com aquela doçura que eu ainda não tinha me acostumado a receber.

“Desculpa… são esses hormônios.” Eu funguei, rindo sem graça.

“E não pense que você vai se livrar deles depois do parto.” Annie comentou, sentando na beira da cama e lançando um olhar carinhoso para o filho, enquanto Delly revirava os olhos com um sorriso contido. “Eu ainda estou lidando com os meus, acredite.”

“Ah, como se você precisasse da desculpa dos hormônios, Annie.” Delly provocou. “Você sempre foi sensível.” Annie levou a mão ao peito, fingindo indignação.

“Um dia você vai engravidar, e aí eu vou te lembrar disso. Palavra por palavra.” Delly desviou o olhar, mordendo o lábio.

“Eu ainda não tenho certeza se vou engravidar.”

“Como é que é, Delly?” Effie arqueou as sobrancelhas. “Eu quero mais netos.”

“Mulher, você já tem três.” Delly riu. “E tenho certeza que a Annie não vai parar no Kai… e o Peeta vai querer uma grande família, isso é óbvio.” Ela olhou para mim, travessa. “Se prepara, Katniss. Talvez você tenha que lidar com hormônios mais vezes do que estava planejando.”

Sorri. Se ela ao menos soubesse… se tivesse a mínima ideia de que aquela gravidez tinha acontecido ao acaso, quase como um milagre, considerando tudo que meu corpo já tinha enfrentado e o fato de que meu casamento nem ao menos era de verdade.

“Uma coisa de cada vez, né? Essa aqui nem saiu ainda.” Murmurei, tentando manter a voz firme, mas sorrindo.

“É, você tem um ponto. Annie a bola está com você agora. O Kai já saiu.” Delly disse com naturalidade, quase como se quisesse deixar o clima mais leve, mais respirável.

“Você tá louca. Eu ainda não consigo dormir uma noite inteira, você tem noção disso? Para de empurrar as pessoas para terem filhos. Vai aproveitar sua lua de mel que está chegando… e já volta com um encomendado.”

“Meu bem, eu tenho viagens para fazer, lugares para conhecer… E um pânico enorme de sentir dor de parto. Não conte comigo tão cedo.”

“Ok, já deu vocês duas.” Effie cortou, balançando a cabeça com uma expressão carinhosa. “Delly, você tem muito tempo para pensar nisso. Foca no seu casamento.” Antes que qualquer uma falasse mais alguma coisa, ouvi batidas apressadas na porta.

Secas.

Urgentes.

No instante seguinte, ela se abriu e todos viramos ao mesmo tempo.

Peeta entrou devagar, a mão ainda na maçaneta, os olhos varrendo o quarto até encontrarem os meus.

Havia algo ali…

Uma preocupação silenciosa, contida, mas intensa.

“Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?” Ele perguntou, com a voz baixa e calma. Effie respondeu antes que eu precisasse lidar com o nó na minha garganta ou com a vergonha da situação.

“Está tudo bem, filho. Alguém aqui só ficou um pouco agitada depois de umas doses de chocolate.” Ela sorriu, cúmplice. “Mas já está mais calma.” Segui o olhar dela e só então percebi que minha barriga tinha voltado ao normal. “Vamos deixar vocês um pouco sozinhos.”

Ela saiu com as filhas, fechando a porta devagar… com cuidado. Quando o silêncio caiu, ele deu dois passos hesitantes até mim.

“Você estava chorando?” Ele parou exatamente onde Effie estava, a voz baixa, cuidadosa…gentil.

“Foi só… os hormônios.” Murmurei, passando a mão pelo rosto. “Eles me fazem ser alguém que eu normalmente não sou.” Ele inclinou a cabeça num gesto casual.

“Acho que eles só estão… te humanizando um pouco.”

“Quê?” Questionei, sentindo a irritação subir.

“Brincadeira.” Ele ergueu as mãos, rendido. Embora parte de mim sabia que não era uma brincadeira por completo. “Mas… o que aconteceu?”

“Aparentemente chocolate deixa bebês agitados.” Suspirei. “Senti minha barriga endurecer um pouco. Foi algo novo para mim, e eu não sabia se estava tudo bem. Me assustei. Mas sua mãe disse que é normal. Que ela está só… se espreguiçando. O espaço está ficando menor.”

Peeta ouviu tudo com uma atenção quase reverente, como se cada palavra fosse um código que ele precisava decifrar.

E então ele sorriu.

Um sorriso sincero, quente… e inesperado. Um sorriso que fez meu peito errar o próprio ritmo. Droga de hormônios. Ele olhou para minha barriga como se estivesse diante de algo valioso. Observei quando ele ergueu a mão… e recuou logo em seguida, como se tivesse medo de invadir meu espaço.

“Você quer… sentir?” perguntei antes mesmo de pensar. A pergunta saiu baixa, quase um sussurro.

Tudo aquilo era quase cômico, dormíamos juntos, tínhamos um contrato ridículo sustentando tudo o que vinha acontecendo no último ano… e, ainda assim, ele nunca tinha tocado na bebê. Mas olhando para ele ali… era óbvio que ele queria.

“Quero.” A palavra saiu dele com uma honestidade tão pura que meu coração vacilou.

“Vai em frente.” Ele ergueu a mão outra vez, mais devagar, e repousou a palma quente sobre minha barriga.

Fosse o chocolate… fosse coincidência… ou fosse a ideia absurda de que ela sabia quem estava ali… senti aquela leve rigidez. Suave e, dessa vez, nada dentro de mim se assustou. Eu só… senti. E o sorriso que surgiu no rosto dele foi uma das coisas mais bonitas que já vi.

Um sorriso que não fazia parte do contrato.

Nem da mentira.

Nem da obrigação dele como pai.

Era só… real.

Um sorriso que era só dele.

E, sem aviso nenhum…

Sorri de volta, observando enquanto ele se inclinava, apoiando a cabeça próxima à minha barriga, como se quisesse sentir ainda mais. Então depositou um beijo suave. E, involuntariamente, levei a mão até seus cabelos loiros, apenas sentindo aquela sensação boa e nova. Não eram os hormônios afinal. Eu estava me apaixonando por Peeta Mellark.





POV Effie

Eu sempre amei os domingos. De todos os dias da semana, ele sempre foi o meu favorito. Na infância, é verdade, competia com o sábado, muito por causa da folga, do descanso e de toda a brincadeira que eu podia aproveitar. Ainda assim, o domingo tinha algo diferente. Era mais calmo. Mais lento. Como se o mundo respirasse um pouco melhor, mais colorido.

Mas foi depois que me casei que ele se tornou, sem dúvidas, o meu dia preferido. Era o dia em que Haymitch e eu estávamos de folga. O dia em que podíamos curtir um ao outro, com manhãs preguiçosas a dois, sem pressa, como se o tempo estivesse do nosso lado, como se se houvesse nós dois e nada mais.

Mais tarde, quando a maternidade entrou na minha vida, o domingo ganhou outro significado afinal Annie e Delly nasceram em um domingo. E a extensão daquelas manhãs preguiçosas, com nossas filhas ainda pequenas entre nós, acabou se transformando nos dias em que meus filhos corriam até o meu quarto, invadindo o ambiente sem pedir licença, pulando na cama e se juntando a nós, mesmo quando já eram grandes demais para caberem todos ali.

Eram momentos leves. Momentos dos quais hoje sinto falta, mas que guardo com carinho. Os cafés da manhã mais longos, as conversas mais profundas. Uma interação em família que preenchia a casa inteira. Não só isso afinal foi em um domingo, em meio ao caos de uma dessas manhãs preguiçosas, que Peeta me chamou de mãe pela primeira vez.

Tão natural. Tão espontâneo. Tenho certeza de que ele nem percebeu o que fez, mesmo com meus olhos cheios de lágrimas enquanto observava ele brincando com as irmãs, talvez só Haymitch do meu lado tenha percebido o que aquilo significava já que ele sorriu enquanto apertava minha mão de leve.

Outra coisa que amava nos domingos era que as tardes vinham com almoços tardios e aquele clima agradável que só o domingo tem, mesmo carregando uma certa melancolia pelo início da semana que se aproximava.

E, atualmente, o domingo continua sendo o meu dia favorito por ser o dia de reunir a familiar. Sem eventos. Sem jantares formais. Só a família. Não que não nos encontrássemos em outros dias da semana, me orgulho do quanto minha família é próxima. Mas o clima era diferente, mas familiar. Parecido com o que tínhamos anos atrás. É o dia de reunir todos os meus filhos. De ter cada um deles um pouquinho mais perto de mim. Cheio de pequenas memorias involuntárias, como os primeiros passos do Alex, em um almoço assim, ou o nascimento do Kai a poucos meses, em uma manhã de domingo.

Não importava onde estivéssemos, fosse no Doze ou na casa de qualquer um deles, na Capital. Eram os domingos que davam às reuniões de família um clima diferente. E aquele domingo não era diferente.

Conversas aleatórias. Risos soltos.

A típica barulheira que eu amava e desejava desde muito jovem… desde quando comecei a me imaginar como mãe. Então quando Delly me chamou para ver Katniss, foi nas coisas boas do domingo que me agarrei. Na ideia silenciosa de que coisas ruins não aconteciam em um domingo em família.

Domingos não traziam más notícias.

Domingos não quebravam o coração do meu menino.

E eu estava certa.

Porque, em meio a todo o medo inicial, foi em um domingo que senti minha neta se mexer pela primeira vez.

Quando saí do quarto e deixei os dois sozinhos. Katniss estava mais calma e sabia que Peeta a faria se sentir segura. Isso era evidente. Não pelo que diria a ela, mas por estar ali.

De volta a sala me deixei pensar no que tinha acontecido e algo me chamou a atenção. Todo o desespero que vi no olhar dela, a maneira como o pânico parecia ter tomado o corpo inteiro antes de ceder a boa notícia de que a bebê estava bem.

Eu sabia que havia mais ali. Embora nenhum dos dois tenha verbalizado estava claro que, em algum momento, ela havia perdido um bebê… Paula deixou escapar algo sobre uma gravidez anterior, sobre dificuldades para engravidar, algum diagnostico de que ela não poderia ter filhos…, mas eu não havia entrado no assunto, nunca havia perguntado a ela, afinal não era assim que essas dores funcionavam.

Não se entrava nelas sem permissão. Se um dia ela quisesse me contar, eu estaria ali para ouvir. Sem perguntas. Sem pressa. Mas nunca perguntaria a ela o que aconteceu.

Ainda assim, não era preciso saber muito para reconhecer aquela insegurança que ia além de uma mãe de primeira viagem. Havia estado perto o suficiente para perceber o medo que ela tinha de perder a filha, de que algo poderia dar errado. De que ela estava levando a gravidez com um cuidado maior do que o normal. Dessa forma a crise de pânico não me surpreendeu.

Situações do passado, traumas, medos podiam ter esse impacto nas pessoas, era algo involuntário e sem controle e que eu conhecia bem. Peeta tivera algumas crises durante o período de adaptação, algumas, até mesmo anos depois. Mesmo com acompanhamento psicológico. E nesses momentos Haymitch e eu só podíamos estar ao lado dele, esperando passar, usando técnicas de respiração para fazê-lo respirar conosco, como se aquele gesto simples o ajudasse a se acalmar.

Talvez por isso ele a entendesse. Os últimos meses haviam sido como uma virada de página. Um capítulo à parte de toda a história conturbada entre aqueles dois.

Não havia como negar que o que aconteceu anos atrás, naquela festa, mudou a forma como Peeta passou a se relacionar. O primeiro amor geralmente costuma ferir de um jeito específico. Mas no caso dele havia feito ele mudar, meu doce menino parecia ver o amor de uma forma diferente. Menos encantadora e mais prática, não que meu casamento seja perfeito ainda sim me considero uma mulher de sorte com um homem que sempre esteve ao meu lado que sempre me apoiou, um homem que amo e que sei que me ama de volta, criamos nossos filhos com amor o suficiente para que eles não duvidassem desse sentimento ainda sim, meu menino parecia não ver as coisas dessa forma.

O foco na carreira em conquistar tudo que ele conquistou nos últimos anos fez com que ele nunca apresentasse nenhuma mulher a família, claro sabia que havia mulheres na vida dele, um número considerável de pretendentes que eram ótimas e que ele poderia facilmente se envolver em algo mais sério do que encontros sem compromisso. Então ao invés disso ele trouxe Katniss de volta para a vida dele e isso de fato foi algo que nunca imaginei.

Confesso que, quando o namoro virou noivado… e o noivado, casamento, tudo em tempo recorde, não acreditei que duraria.

Talvez fosse luxúria. Talvez paixão não resolvida. Talvez apenas a tentativa, já adulto, de conquistar aquilo que ficou inacabado na adolescência. Parte de mim acreditava que não iria funcionar. Que ele iria se divorciar em alguns meses, talvez semanas. Que, no fundo, era só Peeta tentando fechar um ciclo antigo. Estava claro que não havia amor ali. De nenhuma das partes, ele dizia ter perdoado, mas não parecia não quando olhava nos olhos dele. Ela olhava pra ele com interesse, mas podia ver certa raiva no olhar dela, mesmo quando ela sorria.

Não sou ingênua havia desejo, claro. Mas não é só de desejo que se sustenta um casamento. Havia algo no ar, uma tensão constante. Como se estivessem sempre em um jogo de aproximação entre eles, um jogo de conquista ao mesmo tempo em que havia uma certa tensão no ar.

Ele parecia diferente perto dela, mesmo quando tentava não demonstrar, mesmo quando tentava demostrar carinho não me parecia real, não parecia natural era como se ele estivesse mostrando aquilo que os outros esperavam ver de dois jovens supostamente apaixonados.

E ela… parecia não se encaixar na vida dele no jeito dele, nas coisas que ele valorizava, na nossa família. O olhar dela julgava cada momento de reunião ou de interação entre ele e a família. Não havia qualquer interesse em se aproximar. Ela estava presente quando ele estava presente, pelo menos fisicamente, já que nunca participava de fato do que estava acontecendo.

Entendi com o tempo e a convivência com Prim que elas não estavam acostumadas a isso, afinal os Everdeen pareciam levar uma vida diferente da nossa. Eram pais que impunham coisas que não apoiavam as filhas e que estavam dispostos a abandoná-las quando elas não faziam aquilo que eles acreditavam ser o certo. E isso era mais um sinal de alerta a grande diferença entre eles. Ainda assim, fiz o possível para aceitar e para respeitar. Para conter os pequenos atritos que aquele casamento causava entre meus filhos, que sempre foram unidos, mas que sabia que era motivo de discórdia entre eles, principalmente por Delly nunca perdoar a dor que Katniss causou anos atrás. Peeta desviava as indiretas da irmã, da críticas.

Eu realmente não acreditava que aquilo seguiria adiante. Pelo menos, não até a notícia da gravidez.

Já que junto com as boas novas, algo mudou. Eu sabia que ser pai era um sonho que Peeta tinha, sabia o quanto ele estava feliz em ter alguém que fosse geneticamente parte dele, há eu sabia que por mais que amassemos ele, por mais que ele nos amasse, havia algo que ele sentia falta, pequenas coisas que para alguns poderiam ser tolas, ainda sim que para ele não era. Eu o conhecia bem demais para saber que ele jamais diria isso para mim ou para o pai dele em voz alta, mas ele se veria em alguém pela primeira vez e isso era importante para ele.

Passei a ver no olhar do meu filho uma proteção diferente. Mais atenta. Mais constante. Uma proteção que não era só para Katniss, mas também para a vida que crescia dentro dela. A coisa mais importante do mundo dele estava ali e ele faria de tudo por ela.

O jeito como ele observa o ambiente antes dela se mover, como se certificava de que o caminho está livre, de que nada pode surpreendê-la. Como antecipava as necessidades que ela nem chega a verbalizar.

Gestos pequenos, como um copo de água colocado em suas mãos sem ela pedir. O cuidado com a alimentação dela, o modo como ele ajeitava a almofada antes dela sentar. O corpo levemente inclinado na direção dela, sempre. As mensagens ao longo do dia fazendo sua presença constante, mesmo quando estava ausente.

Detalhes que antes não existiam. Ações naturais e não ensaiadas, não ações esperadas pelos outros apenas cuidado genuíno e natural.

E Katniss… passou a permitir essa proteção. No início, de forma quase imperceptível e cada vez com menos resistência.

O jeito como o olhar dela o procura por ele aquando entrava em um cômodo. O sorriso de leve quando ele fala, um sorriso que talvez ela nem perceba que está em seu rosto. O modo como relaxa os ombros só por saber que ele está ali. Como o corpo dela se aproxima do dele involuntariamente, o modo como ela olha as mensagens que sei que são dele. O tom de voz que ela usa quando fala com ele, pequenas coisas que mostram que agora há amor ali. Ainda tímido. Ainda em construção. Mas que me faz acreditar que ela ama ele.

Pequenos detalhes. Mudanças sutis que provavelmente são invisíveis para a maioria das pessoas. Mas que, aos poucos, parecia mudar tudo o que eles estavam vivendo. E que eu percebi.




Notas finais
É isso, gente. Espero que tenham gostado do capítulo e desse pequeno POV da Effie. Acho que a visão dela como mãe tinha algo a acrescentar à história e eu também queria muito escrever algo pelo ponto de vista dela. As artes do capítulo foram feitas pela Bel. Muito obrigada, Bel. Quero agradecer, de coração, a cada um de vocês que me acompanhou ao longo desse ano. De verdade, vocês fizeram meu 2025 melhor. Cada comentário, cada frase de carinho, cada sinal de que tinha gente caminhando comigo nessa longa jornada… tudo isso significou muito. Obrigada. Pelos meus cálculos, temos mais uns cinco capítulos até o final. Estamos chegando lá. Beijos e até o próximo