Linha Tênue
41 Capítulo 38: Culpa dos hormônios
Notas iniciais

O tempo é imprevisível. Fenômenos climáticos costumam ser repentinos e, às vezes, um belo dia de sol, cheio de promessas de tranquilidade, se transforma em questão de minutos num céu nublado, com ventos e chuva. E foi exatamente assim como uma rajada de vento que o chefe de segurança entrou na cozinha naquela manhã de sábado. Peeta, que até então mantinha uma expressão serena, mudou o semblante no mesmo instante, como quem reconhece o prenúncio de uma tempestade.
“Senhor… temos um problema.” O loiro pousou lentamente a xícara sobre o pires, o olhar firme, já em alerta.
“O que foi?”
“Acabou de sair.” Peeta pegou o tablet estendido a ele. Não consegui ver o conteúdo, mas observei sua expressão se transformar conforme lia, os traços antes tranquilos deram lugar a uma rigidez contida.
“Chama a Johanna. Agora.”
“A doutora Maison já foi avisada. Está a caminho.”
“Lavinia e Alex?”
“Airon já foi orientado a trazê-los para cá. Seus pais estão com os Odair, e a senhorita Mellark está em casa.” Deixei de prestar atenção na conversa, deixando o som das vozes cada vez mais distantes.
O tablet, agora sobre a mesa, parecia emitir uma força magnética impossível de ignorar. Peguei o aparelho e vi na tela, uma foto do jogo do sábado e uma manchete maldosa.
PADRINHO OU PAI?
Um dos homens mais ricos de Panem estaria escondendo um filho da adolescência?
Que o renomado empresário e fundador de uma das empresas mais bem-sucedidas de Panem evita falar sobre a vida pessoal não é novidade para ninguém. Mas o que estaria por trás de tanta discrição?
Reservado quando o assunto foge dos negócios, o magnata parece, no entanto, não conseguir escapar de certas aparições públicas ao lado de uma criança que muitos acreditam ser mais do que um simples afilhado.
Ele é visto com frequência em eventos escolares, atividades extracurriculares e, curiosamente, o menino também parece presença garantida em compromissos familiares, sempre acompanhado da mãe, Lavinia Chaney, com quem o empresário mantém uma relação antiga e, ao que tudo indica, bastante próxima.
O magnata foi flagrado recentemente no que muitos chamaram de jogo do ano, sentado na primeira fileira ao lado da esposa e da criança, em um clima de total intimamente familiar. As especulações, claro, não demoraram a surgir. Afinal, quem é realmente o menino? E quem é o pai dele?
O pequeno, de 11 anos, não possui registro paterno. Coincidência… ou segredo bem guardado? Ao que se sabe na época da gravidez, Lavinia era apenas uma estudante do Distrito Doze. Porém o que poucos sabem é que o empresário também estudava na mesma escola e na época que ela, um jovem bolsista de origem simples, muito antes da fortuna e do sucesso.
Ainda segundo relatos, a gravidez teria causado desconforto na família da garota, e foi justamente a família do então aspirante a empresário quem teria bancado as despesas da jovem e do bebê, além de oferecer abrigo. Há quem diga que o gesto foi fruto de uma amizade genuína. Mas há quem garanta que o envolvimento entre os dois foi bem mais profundo do que ele jamais admitiu.
O mais curioso e que atualmente Lavinia Chaney possui uma pequena participação societária dentro do império do magnata, embora nunca tenha investido um único centavo. Além disso, há uma quantia considerável de bens e aplicações registradas em nome do menor e administradas diretamente pelo empresário, o que levanta ainda mais suspeitas sobre a verdadeira natureza dessa relação.
Seria apenas generosidade… ou o rastro de um acordo silencioso costurado há mais de uma década? Moradores mais antigos do Distrito Doze lembram bem da história e, ao que tudo indica, ainda não a esqueceram.
“Ela deu o nome de outro rapaz, mas ele negou tudo.”
“Ele foi para faculdade, e ela ficou morando com os pais dele por um bom tempo. Depois, dizem que ela se mudou com ele... e levou o garoto junto.”
“O menino passa férias e feriados aqui. Não é incomum ver ele com os avós, pelo menos é assim que ele os chama.”
“Os pais dela dizem que não têm filha. Acho que nem conhecem o neto.”
“Nenhum teste de DNA foi realizado, apesar de, curiosamente, vários homens terem se apresentado como possíveis pais.”
“Ela deixou de mencionar o suposto pai, e o assunto simplesmente desapareceu.”
Esses relatos só reforçam o que muitos sussurram há anos: que o hoje respeitável magnata talvez não tenha tido, na juventude, a coragem de assumir as consequências de um namorico de adolescência de escolhas questionáveis que deixou para trás uma jovem com a reputação destruída e uma criança sem pai. Agora, com a esposa do empresário grávida do primeiro herdeiro oficial, o passado parece determinado a bater à porta.
E, ao contrário de outrora, talvez desta vez ninguém esteja disposto a fingir que não ouviu nada, talvez Lavinia seja esperta e garanta os direitos do filho e deixe qualquer acordo de lado. Mas a dúvida é será que a esposa conhece toda a história? Ou prefere acreditar na conveniente versão de que o menino é apenas um “afilhado querido”?
Uma coisa é certa, em Panem, o silêncio dos poderosos costuma valer mais do que qualquer verdade.
Observei Peeta seguir em direção à sala. Mesmo com a expressão calma, havia algo no olhar dele que deixava claro o quanto estava irritado com aquilo. Olhei o tablet novamente e reli a matéria dessa vez com atenção. Aquilo era estranho demais. Aparentemente, Diego Leon havia ido até o Distrito Doze para falar com moradores. Mas por quê? O que fez ele ir até lá? Havia detalhes demais. Fatos distorcidos sobre um passado que eu principalmente sabia ser mentira pura, nascida nos corredores do colégio Einstein.
E, como se não bastasse, era o mesmo jornalista que tinha publicado a matéria sobre mim no dia anterior. Era ruim. Muito ruim. E havia algo mais ali, só não conseguia entender o que. Terminei o café devagar demais enquanto pensava no assunto. Só depois segui até a sala, entrando no exato momento em que Johanna Maison chegava.
Diferente da mulher impecável que vi da última vez, ela usava roupas esportivas e o cabelo preso de qualquer jeito, como se tivesse vindo direto da academia ou de uma corrida.
“Quero aquilo fora do ar.” Peeta falou com voz firme, mas controlada.
“Já estou cuidando disso.” Johanna abriu o notebook sobre a mesa de centro. “Acionei parte do time jurídico no caminho. Eles já estão em contato com o site e com as plataformas, mas é sábado, Peeta.”
“Não me importa o dia.” A resposta dele veio sem qualquer alteração na voz. “Cada minuto daquela matéria no ar é um dano a mais.”
“Eu sei. O pessoal de Relações Públicas também foi acionado. Estão monitorando o conteúdo e preparando uma nota oficial.” Peeta passou uma das mãos pelo rosto.
“A foto do Alex está lá, Johanna. Sem borrão, sem autorização. É uma criança exposta no meio de um monte de mentiras. Quero que isso desapareça o quanto antes.”
“Estamos trabalhando nisso.” Ela garantiu, digitando rápido. “Mas o site está hospedado fora de Panem, o que dificulta a remoção imediata. Eu mesma vou liderar a ação não se preocupe.”
“Annie está fazendo uma lista de ações possíveis. Segundo ela, vai gerar um número de processos tão grande que até a próxima geração desse tal de Leon, vai precisar de advogados.” Me surpreendi quando Finn apareceu na porta da sala, com roupas casuais, o celular na mão e o rosto cansado.
“Você devia estar de licença, Odair. Com seu filho. Eu dou conta.”
“Eu sei Johanna. Mas também sei que você vai precisar de ajuda. E, antes que reclame, Peeta, agradeça que consegui manter Annie em casa.”
“Estou ouvindo, Finn, e não ouse desligar.” A voz de Annie soou pelo viva-voz, firme, com o choro leve do bebê ao fundo. “Já entraram em contato com o tal de Leon?”
“Sim.” Johanna respondeu sem tirar os olhos da tela. “Ele alega liberdade de imprensa, mas estamos acionando por difamação e uso indevido de imagem de menor. As notificações formais já estão sendo providenciadas.”
“Com o tanto de gente que entende de tecnologia nessa empresa, alguém devia saber como derrubar um site desses.” Pelo celular a voz de Haymitch era grave e impaciente.
“Vamos fazer tudo dentro da lei, pai.” Annie respondeu antes que Peeta pudesse. “Assim não damos o espetáculo que eles querem.”
“Lavinia é quem mais tem base pra agir.” Johanna levantou o olhar. “Ela é mãe e pode processar diretamente por exposição e dano moral. Sem contar que o nome dela está em destaque na matéria. Assim que ela chegar, alinhamos tudo. Foram duas publicações em dois dias, Peeta. Isso foi feito para provocar. Ah, e sobre a matéria de ontem, ele tentou subir de novo em outro portal, mas conseguimos remover, mas não foi fácil.” Então era isso. Ele estava por trás do desaparecimento repentino da matéria anterior.
“Não é provocação. É um ataque.” Peeta passou a mão na nuca, sério. “E eu não vou deixar barato. Quero todos os processos possíveis. E, além disso, quero esse homem fora do mercado. Não quero que ele escreva mais nenhuma linha.”
“Não dá pra impedir ele de escrever.” Finn observou, calmo. “Mas dá pra tirar a credibilidade. Ação por difamação, dano moral e exposição de menor. Ele vai pensar duas vezes antes de publicar qualquer coisa de novo.”
“Qualquer meio de comunicação que der espaço pra ele pode esquecer o acesso à M.Company.” Peeta completou. “Nada de entrevistas, eventos, convites, nem credenciamento para imprensa. Quero que isso fique muito claro para todo veículo de comunicação respeitável em Panem.”
“Logo vamos conseguir derrubar o conteúdo.” Johanna confirmou. “A nota oficial sai ainda hoje. O jurídico vai protocolar tudo em sequência.” Peeta ficou em silêncio por alguns segundos. Quando falou, a voz era baixa, mas firme.
“Faça o que for preciso. Mas não deixe isso parecer emocional.” A voz dele estava firme, sem espaço para contestação. “Quero que a imprensa saiba que a M.Company não é brincadeira e que a minha família não é entretenimento. Isso inclui os Chaney. Mas, principalmente, o Alex, o Kai e a minha filha. Nenhum deles deve ser mencionado, a menos que seja autorizado pelos respectivos pais.” O silêncio que se seguiu foi denso. Só se ouvia o som das teclas do notebook. Peeta continuava em pé, à frente de todos, e por um segundo, eu só consegui olhar pra ele.
Os ombros retos, o peito subindo devagar a cada respiração, o maxilar firme, o olhar voltado para ninguém e, ainda assim, para todos. Ele não precisava gritar para ser ouvido. E eu tinha certeza de que não eram apenas as pessoas naquela sala, mas também outros funcionários, que haviam sido acionados e estavam fazendo o melhor que podiam para atender o que ele havia pedido mesmo num sábado de manhã. Havia algo nele… uma presença que dominava o espaço de um jeito quase físico.
A forma como o tecido da camiseta se ajustava ao corpo, como o ar parecia diferente quando ele se movia. Era poder, mas não o poder de um empresário que encerra reuniões com uma palavra, mas o poder do controle absoluto de si mesmo, das próprias emoções e ações. E foi impossível não sentir. O meu corpo reagiu antes que a mente pudesse impedir. Um arrepio. Um calor subindo. Aquele desejo inesperado e inadequado.
Droga de hormônios.
“Vai ficar tudo bem, Peeta.” A voz de Annie soou do outro lado da linha, calma, quase materna. “Deixa a gente cuidar disso.”
“Não. Johanna vai cuidar disso. Você vai voltar pro Kai.” Um barulho na porta fez todos olharem. Lavinia e Alex estavam ali.
“Bom dia, padrinho.” Com a inocência de quem provavelmente não tinha ideia do que estava acontecendo Alex atravessou a sala em direção ao loiro como de costume.
“Ei, campeão.” Peeta sorriu, bagunçando o cabelo do menino. A expressão dele suavizou por um instante. “Como vai?” Mesmo com o sorriso genuíno, o peso da presença dele continuava ali firme, inegável.
E eu, por mais que tentasse, não consegui desviar o olhar de todas as camadas daquele homem que parecia disposto a lutar pela família com todas as forças.
“Tô bem. Achei que íamos para casa da tia Annie hoje.”
“Pois é, surgiu um imprevisto e vamos precisar ficar aqui.”
Lavinia continuava parada na porta. O rosto dizia tudo, pálido, tenso, com o olhar de quem estava prestes a desmoronar.
“Ei, Alex.” Falei suavemente. “Sabe, eu queria muito ver a reprise do jogo de ontem e analisar o próximo adversário dos Tordos… mas seu padrinho não entende nada disso. O que acha de ver comigo enquanto eles trabalham?”
“Legal! Eu assisti ontem, mas vai ser bom ver de novo com calma. E comentar as jogadas.”
“Vamos lá então.” Sorri e o conduzi até a sala de TV, que era bem decorada e aconchegante, um lugar tranquilo, embora eu quase nunca fosse lá. Alex se sentou animado no sofá, e dava pra ver que ele conhecia bem aquele ambiente. Era ali que passava horas jogando videogame ou vendo filmes quando estava na casa.
Colocamos na reprise do jogo e passamos quase uma hora comentando as jogadas. Ele falava com entusiasmo, gesticulando, rindo… até que ficou em silêncio por alguns segundos.
“Katniss?”
“Hum?”
“É uma coisa ruim ser meu pai?”
“Como?”
“Eu vi a matéria de hoje.” A voz dele era baixa, mas firme. “Um garoto da escola me mandou logo cedo. Minha mãe não viu que eu tinha lido. Meu padrinho está tentando resolver isso… porque ele não gostou das pessoas pensarem que ele é meu pai. Tipo, meu pai de verdade.” Ele me olhou com uma confusão tão inocente que doeu. “É tão ruim assim ser meu pai? Ele parece tão feliz com a bebê.”
“Claro que não, Alex.”
“Então por que ele ficou tão chateado com a matéria? Todo mundo parece incomodado com a ideia. Querendo que ela saia do ar.”
“Seu padrinho te ama, Alex. Ele te adora.”
“Mas não como filho.” Respirei fundo, tentando encontrar um jeito de explicar da melhor forma possível.
“Todos estão tentando resolver isso porque a matéria fala mentiras, entende? Não é por ele não te amar ou se importar com o que as pessoas pensam. Mas, se ele fosse seu pai, te amaria do mesmo jeito que te ama agora. Ele ama ser seu padrinho.” Ele ficou quieto por um instante.
“Quando a bebê nascer… as coisas vão mudar? Ele vai ser pai de alguém de verdade.”
“Não, Alex.” Sorri de leve. “Nada vai mudar. Tenho certeza disso.” E, de fato, eu tinha. Não havia como negar, podia não entender por completo, mas aquele menino iluminava a vida do loiro. Naqueles meses era impossível não notar o quando os dois eram próximos e o quanto ele ficava mais leve perto do afilhado. Fiquei em silêncio, observando aquele garoto que carregava perguntas grandes demais para idade. E senti raiva.
Raiva do Marvel por ter deixado um vazio tão grande em alguém que nem o conhecia, por ter feito uma criança duvidar do amor que recebia. Raiva de mim mesma, por ter me envolvido em toda aquela mentira que acabou desencadeando tudo.
Mas, no fundo, eu sabia que Alex estava melhor sem ele. Melhor sem a prepotência, a irresponsabilidade e o egoísmo de alguém que jamais entenderia o valor de um vínculo de verdade. Marvel não saberia ser pai.
“Posso te contar um segredo?” Perguntei, baixando o tom, instigando a curiosidade dele. Ele me olhou curioso. “Às vezes, ter um pai é superestimado. Eu amo meu pai, mas eu e ele nunca tivemos o tipo de relação que você tem com o Peeta.” Apertei de leve o ombro dele.
“Posso te contar um segredo também?” Ele perguntou, com um meio sorriso. Confirmei com a cabeça. “Eu não queria outra pessoa como pai. Gosto da família que tenho. Mas o tio Finn ficou tão feliz com a chegada do Kai… eu não tive isso.”
“Você teve, sim.” Falei com um sorriso pequeno. “O Peeta ficou feliz quando você nasceu. Ele estava lá, não estava?” Chutei, como ele fazia aniversário em dezembro imaginei que Peeta estava passado as férias no Doze naquela época.
“Estava. A mamãe disse que eu quis nascer antes só pra ele estar lá.”
“Viu só? Então você teve, Alex. Você tem tudo o que precisa. Vocês têm algo bonito, de verdade. Não pensa muito nisso, tá? E não se preocupa… nada vai mudar entre vocês dois.” Ele assentiu em silêncio, voltando a olhar pra tela. Mas eu sabia que aquelas dúvidas ainda ficariam ali, presas dentro dele, por um bom tempo.
Tentei voltar minha atenção para o jogo, comentando as jogadas e ouvindo as observações dele sobre o que acontecia na quadra. O jogo já estava nos minutos finais quando Lavinia apareceu na porta, avisando sobre o almoço.
Alex saltou do sofá e correu animado, desaparecendo pelo corredor. Fiquei parada, e quando levantei o olhar, ela ainda estava ali na mesma posição, me observando.
“Obrigada.” Olhei sem entender. “Por ficar com ele enquanto resolvíamos as coisas.”
“Não precisa agradecer, não foi nada demais. Já saiu do ar?”
“Sim.” Ela suspirou. “Embora depois de muita gente ver.” Hesitei por um instante antes de dizer.
“Alex também viu. Achei que você devia saber… se eu estivesse no seu lugar, gostaria de saber.”
“Eu sei...” A resposta veio rápida, e o olhar dela se desviou por um segundo antes de voltar pra mim. “Alex acha que me engana, mas eu conheço aquele garoto bem demais. Algum amiguinho da escola mandou o link, com certeza.” Ela se virou pra sair, mas as palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse conter.
“Eu sinto muito.” Ela parou por um instante e se virou devagar.
“Pelo quê?” Engoli em seco antes de continuar.
“Acho que você sabe… fui eu quem começou o boato. Fui eu quem pediu para os meninos confirmarem o que diziam… para deixar a história mais crível.” Ela arqueou uma sobrancelha sem surpresa, só a constatação de algo que já parecia saber.
“Sim. Você era a única que tinha esse poder naquele lugar.” Ela fez aspas com as mãos. “Sobre as pessoas… sobre as histórias contadas naquela escola.” Baixei o olhar sem saber direito o porquê, ainda sim incomodada com a realidade jogada na minha cara de forma tão corriqueira.
“Eu sei que não muda nada, mas eu nunca imaginei que fosse ir tão longe. Os boatos eram pra ficar dentro do colégio. O Marvel devia ter ido para a faculdade, mas não devia ter deixado de assumir as responsabilidades no final das contas. A ideia era só… que você não contasse nada antes do fim das aulas. Nunca foi para se tornar isso. Eu não sabia que tinha tomado essa proporção. Eu saí de lá e nunca mais olhei pra trás. E… eu sinto muito.” Por um momento, ela ficou em silêncio. “Eu queria poder dizer que, se estivesse lá na época, teria feito algo pra te defender…” Ela respirou fundo. “Mas não tenho certeza se seria verdade.” Confessei com sinceridade.
“Provavelmente você não teria feito nada.” Ela assentiu, com um meio sorriso cansado. “Já faz muito tempo, Katniss.”
“Não imagino o quanto foi difícil.” Ela soltou uma risada fraca.
“Como disse… faz muito tempo. E eu ganhei uma família no processo. E agora, você carrega parte da minha família.”
“Lavinia… não justifica, mas ele não seria um bom pai.” Eu a encarei. “Eu o conheci o suficiente pra saber que o Alex está melhor sem ele.”
“Não dá pra ter certeza.”
“Dá, sim.” Falei sem hesitar. “Alguns homens ou melhor, alguns garotos não nascem pra ser pais. Você pode achar que conseguiria fazer ele mudar, que o amor iria surgir… que o instinto viria, como veio com você. Mas pra alguns, isso nunca acontece. Alguns simplesmente não sabem amar, Lavinia.
E ele… ele não teria dado esse amor ao Alex. Não teria sido bom com ele. Ele não teria sido o que o Peeta é mesmo sem ser o pai.” Ela me olhou por um longo instante. “Ele poderia ter se arrependido, ter procurado vocês… mas não fez isso. Acredito que nunca vai fazer.”
“E talvez isso diga tudo não é.” Havia tristeza ali, mas também uma aceitação silenciosa. No fundo, ela sabia que eu estava certa. Talvez só doesse demais admitir e isso era algo que conhecia bem.
O restante do dia transcorreu com a maior calma possível, considerando tudo o que tinha acontecido. Peeta passou um tempo com o Alex, mas assim que Lavinia foi para casa, ele se recolheu ao escritório, onde permaneceu o resto do dia, saindo apenas perto da hora do jantar.
“Esse sorvete é maravilhoso.” Prim comentou, pegando mais uma colher e adicionando à taça. “Não vai querer mais, Katniss?” Balancei a cabeça em negativa. Sentindo o olhar do loiro em mim, como se me observa-se com atenção. Já tinha tomado um pouco o suficiente pra matar a vontade, mas sem exagerar na quantidade.
A conversa continuou leve, dispersa. Falamos sobre trivialidades, e por um instante o ambiente pareceu mais leve. Prim foi a primeira a se levantar e seguir para o quarto. Eu estava prestes a fazer o mesmo quando a voz dele me fez parar no meio do caminho.
“Vamos ao Doze na quinta feira.” Virei, confusa.
“Como é?”
“Vamos ao Doze durante a semana.”
“Por quê?”
“Tenho negócios a tratar lá. Haverá um evento na sexta, e é adequado comparecer.” Ele fez uma breve pausa, observando minha reação. “Além disso…” O tom dele ficou mais baixo, sereno, decidido. “Acho que vai te fazer bem. Um pouco de ar. Sair um pouco.”
“Peeta, não acho que seja uma boa ideia. São horas dentro de um avião… não sei o quanto isso é seguro.”
“A doutora Porter disse que é seguro, Katniss. Não tem problema.” Ele manteve o olhar firme, calmo. “Não é como se fosse um voo comercial, com escalas ou uma longa espera. Vamos no avião da família.”
“Ainda assim… algo pode dar errado.”
“Não vai dar nada errado.” A voz dele estava decidida. “Você vai ter todo o conforto, e toda assistência necessária. Você e a bebê estão bem. Não dá pra te manter dentro dessa casa, saindo só pra consultas ou compromissos que não consegue evitar. Você precisa respirar um pouco.”
“E se acontecer alguma coisa durante o voo? Ou lá no Doze?”
“Se acontecer, o que não vai, a gente pousa no Distrito mais próximo. A comissária tem treinamento básico em emergências, e o Doze tem um ótimo hospital. Sua gravidez é segura Katniss, a doutora garantiu, você fez todos os exames possíveis, alguns mais de uma vez.” Parte de mim sabia que ele tinha razão. A doutora já tinha explicado que, no estágio da gestação em que eu estava, viagens não apresentavam risco, que poderia continuar com uma rotina normal. Mas havia outra parte de mim… que não queria ir. E eu nem sabia explicar o porquê. Não fazia sentido. Não tinha lógica. Ainda sim sabia que não tinha argumentos para não acompanhá-lo. Assenti levemente e apenas segui para o quarto.
Os dias que se seguiram foram de organização para a viagem e de ajustes no projeto do quarto da bebê. E, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente me senti feliz por ter ajuda. Era uma sensação leve.
E no fundo, eu sabia que não haveria cobranças depois. Effie parecia fazer tudo aquilo por prazer em estar envolvida, não por obrigação. Eram tantas decisões, tantas pequenas escolhas como cores, tecidos, texturas, possibilidades encantadoras que ter alguém ao meu lado nesse processo fez tudo parecer mais leve. Ainda assim, eu não conseguia definir um tema. Talvez porque parte de mim ainda tentasse se acostumar com a ideia de que tudo aquilo estava mesmo acontecendo.
“Olha esse, que lindo! Imagina em um dia de primavera.” Effie mostrou um body-vestido em tons de lilás com pequenas flores bordadas que era, de fato, uma peça bonita e delicada.
“Lindo mesmo.”
“Vamos levar. Agora precisamos de um sapatinho que combine.” Ela decidiu sem hesitar, acenando para a vendedora, que sorria satisfeita com a pilha de roupas já acumulada de peças que iríamos levar.
Na véspera da viagem, eu tinha aceitado o convite da minha sogra para uma tarde de compras no shopping. E, para minha surpresa, estava sendo… divertido. Entrar nas lojas de bebê, escolher peças minúsculas, tecidos macios, tamanhos diferentes e, principalmente, fazer isso com alguém trazia uma sensação leve.
Antes, havíamos passado numa loja de roupas para gestantes. Segundo ela, “mães também merecem um mimo”. E, claro, porque nas palavras de Effie, eu “precisava começar a comprar roupas de grávida, pra ficar mais confortável”.
E isso ainda me deixava um pouco desconfortável. Ver o número nas etiquetas aumentar tão rápido era como uma lembrança constante das mudanças que eu ainda tentava aceitar. Mas confesso, que ela tinha razão e as roupas eram realmente bonitas e confortáveis.
“Fiquei tão feliz em saber que você vai com Peeta para o Doze.” Effie comentou enquanto observava um conjunto rosa com pequenos coelhinhos bordados. “É bom sair um pouco, respirar. Vai ser ótimo para vocês dois ficarem alguns dias fora. Eu até sugeri a ele uma baby moon, acho tão importante esse momento a dois, sabe? Antes da correria começar. ”Sorri de leve. “Ele não comentou nada sobre isso?”
“Ah, ele anda tão focado no trabalho… Acho que não teve tempo.” Ela suspirou, ajustando a alça da bolsa.
“Peeta é focado no trabalho, mas às vezes exagera. Vive pegando no pé das irmãs e da Lavinia por causa do tempo em família, mas ele mesmo passa a maior parte dos dias trancado naquela empresa.” Antes que eu pudesse responder, ela se distraiu novamente. “Olha esse aqui!” Pegou outro macacão, dessa vez com pequenos botões de madeira.
“É lindo.” Acabei sorrindo. Era impossível acompanhar o entusiasmo dela e, de certo modo, era bom ver uma das avós da minha bebê tão envolvida e animada com a chegada dela.
Seguimos a tarde inteira entre lojas e comentários sobre estampas e tecidos, até pararmos para almoçar em um restaurante charmoso que ela recomendou. O tipo de lugar calmo, com música suave e aroma de flores frescas nas mesas. E por um instante, tudo parecia simples.
Na volta, ela preferiu ficar na casa da Annie, ansiosa em mostrar as coisas que tinha comprado pro Kai. O trânsito estava tranquilo para o horário, o céu começava a ganhar tons alaranjados, e o som constante dos pneus no asfalto criava um silêncio confortável dentro do veículo.
Foi quando o telefone de Darius vibrou no painel. Mesmo sem nome no visor, ele pareceu reconhecer quem ligava e atendeu no mesmo instante, usando um fone discreto. Seu tom de voz mudou. Era firme. Preciso. Profissional demais pra ser uma ligação pessoal.
“Certo. Estou na rodovia sul. Tudo dentro dos padrões. Nada fora do esperado.” Houve uma pausa breve. “Vou mudar a rota. Seguir direto pela estrada que leva ao fundo da casa.” O modo como ele falava cada palavra me fez endireitar no assento.
“Está tudo bem, Darius?” Perguntei, tentando soar casual quando ele desligou.
“Sim, senhora.” A resposta veio calma… calma até demais. “Uma das residências próximas teve os alarmes disparados, indicando uma possível invasão. Pode ter sido engano dos proprietários ao tentar desligar o alarme, mas algumas viaturas foram chamadas. Vamos fazer outro caminho, só por precaução.” Assenti, tentando parecer tranquila. Mas uma parte de mim achou estranho.
Como ele sabia desse tipo de informação tão rápido?
Ainda assim, apenas voltei a olhar pela janela. Poucos segundos depois, meu celular vibrou. Uma mensagem de Peeta.
“Tudo bem?”
Desde a descoberta da gravidez, esse tipo de mensagem tinha se tornado rotina. Respondi apenas que sim, que estava chegando em casa.
Naquela noite, ele quis ver o que eu e Effie havíamos escolhido. Passamos um tempo olhando as roupinhas as cores suaves, os pequenos laços, o cheiro de tecido novo e foi… diferente, simples. Quase normal.
Nenhum noticiário mencionou invasão ou roubo naquela noite. E, considerando que aquele era um bairro de luxo, preferi acreditar que tinha sido apenas um disparo acidental de alarme.
Estranhamente, Peeta não foi trabalhar e saímos cedo na manhã seguinte. A viagem transcorreu dentro do esperado. Apesar do nervosismo, o voo foi tranquilo. Nenhum outro Mellark nos acompanhou éramos apenas ele e eu, no avião da família. Minha surpresa, entretanto, foi que, em vez de pousarmos no Distrito Doze o avião desceu no Onze.
Por alguns instantes, achei que fosse um erro, mas Peeta apenas disse que tinha negócios a tratar ali e que seguiríamos viagem mais tarde. Um carro já nos esperava do lado de fora do aeroporto, e ele mesmo assumiu o volante. Seguimos o GPS em direção oposta à cidade, por uma estrada de terra batida que cortava o campo aberto.
O sol da tarde se estendia sobre as colinas, dourando o capim. Em vez de ligar o ar-condicionado, Peeta abaixou as janelas, e o vento morno invadiu o carro, trazendo o cheiro de grama seca e poeira leve. O som dos insetos formava um zumbido constante, acompanhando o balanço suave do carro. A paisagem lembrava as partes mais afastadas do Doze com os terrenos planos, o horizonte limpo. Era bonito de um jeito sereno que contrastava com o ritmo acelerado da Capital.
Depois de algum tempo, ele parou diante de um haras. As cercas brancas se estendiam até onde a vista alcançava e de onde estávamos, era possível ver o campo aberto. Um dos empregados veio nos receber e nos levou até uma área coberta.
“Senhor Mellark! Então o senhor realmente veio.”
Um homem, de aparência robusta e pele morena, estendeu a mão com um sorriso sincero. “Avisei sua secretária que poderíamos mandar todas as informações por vídeo, mas parece que preferiu ver tudo pessoalmente.”
“Prefiro ver com os próprios olhos.” Peeta respondeu num tom cordial. “Ouvi dizer que é o melhor haras da região.”
“Pode acreditar, é verdade.” O homem inflou o peito. “Supera até o do Doze. Lá já não se encontra mais tantas raças de cavalos puros.” Ele fez uma pausa, lançando um olhar curioso em minha direção. “E trouxe companhia, pelo visto.”
“Minha esposa, Katniss.” Peeta ajeitou o relógio no pulso, o gesto preciso, automático. “Estamos a caminho do Doze, mas achei apropriado fazer uma parada aqui.”
Cumprimentei o homem com um aperto de mão breve. Antes de começar a nos guiar por entre os estábulos.
“Temos diversas raças aqui, todas puras claro.” O homem falava com o orgulho de quem exibe troféus. “Os cavalos competem há anos. Historicamente temos muitos campeões que saíram daqui. Temos veterinários próprios, nutrição controlada, linhagens cuidadosamente preservadas. “Enquanto o homem falava, Peeta observava tudo com atenção como quem analisa o lugar com calma e entende mais do que deixa transparecer.
“É um belo espaço.” Ele disse, por fim. “Mas o que me interessa é a linhagem Friesian.”
“Ah, sim.” O homem assentiu, visivelmente satisfeito. “Temos três garanhões e uma fêmea. Linhagem pura. É uma raça exigente, de temperamento forte, mas fiel ao dono por toda a vida. E ótimos corredores.” Peeta inclinou levemente a cabeça, um sorriso discreto surgindo no canto da boca.
“Tenho uma fêmea. Tempestade.” O criador parou por um instante, surpreso, antes de apontar para um cercado logo à frente, onde quatro cavalos negros se moviam lentamente. A pelagem deles brilhava sob o sol. “Esse é o Onyx?” Peeta perguntou, aproximando-se da cerca, o olhar fixo no maior deles.
“Sim, senhor.” O homem sorriu com visível orgulho. “Dez anos. Temperamento firme, mas dócil com quem ele respeita. É o mais promissor da geração.”
“Promissor é uma palavra modesta.” Peeta respondeu baixo, e antes que o criador dissesse algo, apoiou as mãos na cerca. O cavalo o observou em silêncio, atento e se aproximou com calma, o passo controlado, ficando próximo do loiro, que manteve o olhar antes de estender a mão devagar, permitindo que o animal sentisse sua presença. Onyx bufou de leve, o som grave quebrando o silêncio. Então, com um movimento suave, Peeta tocou o pescoço do cavalo, os dedos deslizando pela pelagem negra e brilhante. “O porte, a força, a postura…” A voz dele soou mais baixa. “Ele é excepcional. É perfeito para Tempestade.” Fez uma breve pausa. “Meu interesse é simples. Quero cruzá-lo com a minha égua.” O homem arqueou as sobrancelhas.
“E onde ela está? Algum haras conhecido?”
“Na propriedade dos meus pais, no Doze. Ela tem dezenove anos. Eu a vi nascer.” A voz dele suavizou um pouco. “O pai dela foi o cavalo da minha mãe, cruzado com uma fêmea do próprio Distrito. Depois que ele morreu, não restou mais nenhum exemplar da raça por lá. Ela é a última.” O criador soltou um assobio baixo.
“Dezenove anos é arriscado. Pode ser perigoso.”
“Tempestade é forte.” Peeta falou sem hesitar. “Os veterinários me garantiram que ela ainda pode ter um potro com segurança.” Ele manteve o olhar fixo em Onyx. “Quero preservar a linhagem dela. Um último descendente. E acredito que Onyx seja o ideal pra isso.” O criador cruzou os braços.
“Se tem certeza, podemos providenciar o transporte dela até aqui. Acompanharemos tudo de perto. Mas quero uma avaliação dos meus veterinários também, só por segurança.”
“Não.” A resposta veio imediata, calma, mas inegociável. “Ela não sai da propriedade. O cavalo virá até nós. Fica o tempo necessário e depois retorna. Podemos providenciar para que sua equipe vá até lá, conheça o local, converse com o veterinário dela. Vai ver que temos tudo o que é necessário.” O criador hesitou.
“Não é o procedimento usual. Aqui, temos toda a instrutura e o controle de cada etapa, isso torna o processo seguro.”
“Eu também tenho.” Peeta ergueu o olhar, direto, mas sem dureza. “Temos estrutura, equipe, acompanhamento. Se quiser, pode visitar a propriedade quando quiser. Mas Tempestade nasceu lá. O potro dela também vai nascer lá.” Ele fez uma pausa curta. “Fico responsável pelo transporte, pela estadia, e, claro, garantiremos um contrato justo.” O homem respirou fundo, estudando Peeta por um instante. “E claro é sempre bom ter um haras de confiança caso queira comprar mais um cavalo não é.”
“Então o senhor pretende começar uma criação própria? Ou competir?”
“Não.” Peeta respondeu com naturalidade. “O potro será da minha filha.” Disse como quem afirma um fato simples, incontestável. “Na minha família, cada um tem um cavalo. Atualmente temos seis, três Haflingers, dois Andaluzes e claro Tempestade.”
O criador pigarreou, parecendo incerto, e se afastou dizendo que chamaria um dos veterinários. Peeta continuou ali, observando Onyx. Os dedos deslizavam pela pelagem do animal. O cavalo o observava de volta dois seres diferentes, mas, de alguma forma, semelhantes.
Quando o homem retornou, retomaram a conversa sobre exames, prazos e contratos. Peeta falava com calma, cada palavra precisa, o tom constante. Era impossível não notar como ele dominava o espaço sem precisar se impor. Ele simplesmente conduzia tudo do jeito dele. Havia algo quase físico nisso. Um magnetismo silencioso, como se o ar se moldasse ao redor dele.
Definitivamente culpa dos hormônios.
“Você vai mesmo comprar um cavalo pra nossa filha que ainda nem nasceu?” perguntei, quebrando o silêncio durante o trajeto de volta ao aeroporto. “A gente nem escolheu o nome dela… e você já tá pensando em cavalos.” Peeta sorriu, sem tirar os olhos da estrada.
“Não é comprar, Katniss. É deixar algo que já é dela. É tradição na minha família. Meu pai fez isso quando a Annie nasceu, ele escolheu uma égua, cuidou de todo o processo de cruzamento com um dos cavalos dele. Fez o mesmo para Delly. Elas cresceram junto com os cavalos. Era a forma dele de ensinar sobre responsabilidade… sobre cuidar de algo que também depende de você.”
“E também fez com você.”
“Sim. Tempestade veio quando eu tinha nove anos. Acompanhei tudo a negociação com o dono da fêmea, os meses de espera, o parto. Meu pai queria que fosse com um dos cavalos dele, como havia sido com minhas irmãs. Mas minha mãe insistiu que fosse o dela… dizia que eu tinha o mesmo jeito que ela com a raça. E ela tinha razão.” Um meio sorriso cruzou o rosto dele. “Astra, o cavalo da minha mãe, era meu favorito… até Tempestade chegar claro.” Os dedos dele batiam de leve no volante um gesto distraído, mas familiar. “Meu pai diz que o primeiro cavalo é como um melhor amigo pra uma criança.” A frase saiu baixa, quase um sussurro.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, deixando as palavras dele ecoarem.
“Então é por isso que você quer um pra ela?”
“Em parte.” Ele assentiu. “Mas também porque Tempestade está no limite do seguro para uma gestação. E se for pra ter um potro, quero que seja da nossa filha.”
“Não é cedo demais pra isso? Quer dizer… o cavalo vai estar velho quando ela tiver idade pra montar.”
“Não.” A resposta veio calma. “Antes de tudo, vamos fazer mais exames. O garanhão vai precisar passar um tempo na propriedade, e é preciso esperar o próximo cio dela. Se tudo correr bem… a gestação dura quase onze meses. Depois o potro ainda precisa crescer, se fortalecer. Os ossos, a musculatura, o temperamento tudo leva tempo.” Ele fez uma pausa breve antes de continuar. “Quando ele estiver pronto pra ser montado, nossa filha vai ter uns cinco, seis anos. Uma ótima idade pra começar. Até lá, eles vão crescer juntos. Ela vai aprender a respeitar os animais… e a criar uma ligação com ele.” Eu que nunca tinha tido nem um hamster, não conseguia entender, aquilo parecia surreal. Ainda assim, havia algo de bonito na forma como ele falava uma calma que tornava tudo possível. “Um cavalo ensina paciência, força, lealdade. Vai ser bom.” Olhei ele com atenção. E, por um instante, entendi. Não era só sobre cavalos. Era sobre o que ele queria compartilhar com filha. Apoiei o cotovelo na janela, deixando o vento bater no meu rosto.
“Então ela e o cavalo ainda nem nasceram… e você já tem planos pro futuro dos dois.”
“Eu não planejo o futuro, Katniss.” Ele continuou olhando a estrada. “Só gosto de garantir que as coisas certas estejam lá quando for a hora.”
Fiquei observando toda a tranquilidade, a certeza. E, por um instante, pensei no quanto era bom vê-lo assim. Tão calmo. Planejando o futuro da nossa filha mesmo antes de segurá-la nos braços. Pra ele, ela já era um fato. E isso, de algum modo, era novo… e era incrível.
Chegamos ao Distrito Doze um pouco depois do anoitecer e seguimos diretamente para a casa dos meus sogros. Entretanto, dessa vez, a propriedade estava vazia o que era estranho. Peeta podia muito bem ter escolhido um hotel, mas, ao invés disso, decidiu que ficaríamos ali, na casa da família, mesmo sem os pais dele ali.
O que era ainda mais estranho pra mim, que não me imaginava passando uma noite na casa dos meus próprios pais com eles lá… imagine sem eles. Era curioso ver aquele lugar sempre cheio de vozes, risadas e movimento mergulhado em completo silêncio. Fomos recebidos por duas mulheres que cuidavam do local enquanto os Mellark estavam na Capital.
Mas, ao que percebi no dia seguinte, a rotina seguia como se nada tivesse mudado. Os funcionários mantinham tudo em ordem, como se esperassem os donos chegarem a qualquer instante.
Quando acordei na manhã seguinte, Peeta já havia saído então tomei o café com calma e depois decidi caminhar pela propriedade, como havia feito meses antes. E, ironicamente, aquele lugar que antes parecia me sufocar agora me trazia paz. Sentei à beira do lago, observando a superfície da água. O reflexo das árvores se movia devagar, quebrado por pequenas ondas quando mergulhei os pés na água fria. Não sei por quanto tempo fiquei ali, apenas ouvindo o som das folhas e do vento. Até que escutei distante no começo, depois cada vez mais próximo o som firme dos cascos contra a terra.
Levantei o olhar. E lá estava ele. Peeta vinha montado em Tempestade e por um instante, tudo pareceu se mover mais devagar, mesmo com ela em alta velocidade.
O corpo dele acompanhava o ritmo do cavalo com naturalidade e precisão, como se fizessem parte um do outro. E por um instante, o ar pareceu mais quente. Mais denso.
Definitivamente, culpa dos hormônios.
Ele ergueu o olhar, me viu e sorriu de leve. Tempestade diminuiu o passo até parar perto de mim. Peeta desceu do cavalo com movimentos firmes, exatos e naturais, como se o corpo dele soubesse o que fazer antes mesmo de pensar sobre. Ele acariciou a crina do animal, o toque breve e seguro, antes de soltar as rédeas e deixá-la livre.
Por um momento, ficou ali, de pé, com o vento bagunçando o cabelo loiro e o sol refletindo na pele. A cena tinha algo silenciosamente bonito e desconcertante.
“É seguro deixá-la solta assim?” Perguntei, tentando disfarçar o calor no rosto enquanto observava o animal, que de onde eu estava parecia ainda maior.
“É claro.” Ele sorriu, estendendo a mão para tocar novamente o pescoço dela. “Tempestade e eu temos uma ligação, não é, garota?” A voz soou baixa, quase carinhosa. “A única coisa que faria ela correr seria se se assustasse e não há nada pra assustá-la por aqui.”
“Você saiu cedo.” Comentei, observando o olhar dele fixo no lago, antes de vê-lo se sentar ao meu lado.
“Sim. Eu estava em dívida com ela.” Ficamos em silêncio, mas não um silêncio incômodo pelo contrário. Era um silêncio leve que preenchia o espaço sem precisar de palavras.
“Acho que escolhi o tema.” Comentei repentinamente sem pensar. Ele me olhou, sem entender. “Do quarto dela... floresta encantada.”
“Certeza? Achei que estava mais inclinada a princesas.”
“Sim. O quarto deve trazer calma e paz pra ela. Deve ser um lugar onde se sinta bem. Princesas é lindo… mas de alguma forma, desde ontem no haras e hoje, aqui eu sinto uma paz que não é minha. Que nunca senti aqui antes.” Respirei fundo. “Pode parecer loucura, mas acho que é dela. Ela está calma.” Ele me observou por um instante, um sorriso discreto surgindo. “Acho que, de alguma forma, ela puxou você... e gosta do campo.”
“Vamos torcer pro quarto ajudar a mantê-la calma, então.” Ele brincou. “Confesso que estava torcendo por esse tema.”
“Você disse que não tinha um favorito, que os dois eram bonitos.”
“E são.” Ele deu de ombros, ainda sorrindo. “Mas gosto mais de floresta encantada.”
“Por que não disse antes?”
“Porque é uma escolha sua. Por mais que seja importante pra mim como pai, sei que par você... é diferente.” Por um instante, não consegui responder. Apenas o observei, sentindo o peito se apertar por um motivo que eu mesma não soube definir. “Já almoçou?” Ele perguntou depois de um tempo e neguei com a cabeça, sem tirar os olhos do lago. “Vou deixá-la nos estábulos e volto pro almoço.” Fez uma pausa curta. “Depois preciso trabalhar um pouco... antes do evento.”
Assenti, e observei enquanto ele se levantava. Apenas o segui com o olhar enquanto ele se afastava. O som dos cascos foi diminuindo, misturado ao vento, até que o silêncio voltou pesado, vivo, cheio de algo que não ia embora.
Meu corpo vinha reagindo a presença dele, era desejo, simples e involuntário. E totalmente inapropriado. E quanto mais eu tentava não pensar nisso, mais parecia impossível.
Definitivamente, culpa dos hormônios.
Após o almoço, subi para o quarto e comecei a me arrumar para a noite. Eu sabia que haveria um evento, mas ainda não fazia ideia de que tipo. A equipe de cabeleireiros chegou pouco depois para fazer meu cabelo e maquiagem.
Escolhi um dos vestidos que havia comprado com Effie no shopping. Ele era leve, em tom pêssego suave, discreto. As alças finas deixavam os ombros à mostra, e o tecido caía pelo corpo com uma elegância natural.
Peeta optou por um terno cinza-claro, gravata preta. Havia algo calculado na forma como ele se vestia… Era como se estivesse pronto para qualquer coisa.
Seguimos juntos até o carro, e o caminho foi em absoluto silêncio. Só percebi para onde íamos quando as luzes começaram a surgir ao longe, um brilho dourado refletido nas janelas recém-reformadas. A antiga fábrica da Mockingjay.
Embora… ela não fosse mais a mesma. A fachada antiga havia sido completamente transformada e amplos painéis de vidro, letreiros novos, e o logo da M.Company brilhando contra o céu escuro. O portão, velho, agora reluzia como novo. Por um instante, fiquei imóvel, enquanto Peeta descia do veiculo, ele contornou o carro e me estendeu a mão. Não havia repórteres na porta. Nenhuma lente esperando registrar a chegada dele.
Era quase estranho como se ali não estivesse acontecendo um evento que claramente reunia centenas de pessoas. Lá dentro, tudo respirava modernidade. Máquinas novas, painéis digitais, trilhas de luz no chão conduzindo os convidados, e telões gigantes exibindo a transformação do prédio, o antes e o depois. Passamos entre as pessoas, cumprimentando cada uma educadamente.
O mestre de cerimônias anunciou o nome dele, e os aplausos ecoaram pelo galpão. Peeta subiu ao palco improvisado, microfone em mãos, expressão calma e segura.
“É uma honra estar aqui esta noite,” começou. “A M.Company é hoje uma das empresas que mais cresce no setor, e abrir uma unidade no Doze sempre esteve entre os nossos planos. Como muitos aqui sabem, eu cresci neste Distrito. Então, trazer essa extensão da empresa até aqui é algo que me deixa profundamente feliz.” Ele fez uma pausa. “Mas este espaço… é mais do que uma expansão. É um recomeço.” As luzes suavizaram. “Este prédio faz parte da história do Distrito. Por isso, quando surgiu a oportunidade de restaurá-lo, nós soubemos que era o lugar certo.” Um murmúrio percorreu o público. “Mantivemos quase todos os funcionários da gestão anterior e, só nesse primeiro momento, conseguimos gerar mais de cem novas vagas. Trouxemos novas linhas de produção, novos equipamentos e, principalmente, novas possibilidades. Um mercado novo, promissor, uma chance real de crescimento para o Distrito. Mas esta noite não é apenas sobre a abertura desta unidade.” O telão mudou novamente. Agora mostrava a praça central, ao vivo. O letreiro luminoso da primeira loja da M.Company brilhava entre as luzes. Uma multidão se reunia diante da fachada espelhada, vibrante, curiosa, inquieta. “Enquanto estamos aqui celebrando o renascimento deste espaço.” Peeta continuou. “ A loja no centro do Distrito está sendo inaugurada. Duas aberturas, dois caminhos que se conectam: um para produzir, outro para compartilhar.” Os aplausos preencheram o galpão. No telão, flashes explodiam na frente da loja. O evento “importante” estava lá. E ele estava aqui. E enquanto as imagens mudavam, eu percebi.
Nada daquilo tinha sido por acaso.
Nem a escolha da fábrica.
Nem o cuidado em manter os funcionários antigos.
Era uma jogada. Claro que era. Ele havia enterrado a empresa do meu pai. O anúncio de falência, o fechamento… tudo isso tinha sido uma peça no tabuleiro dele. Mas ele garantiu que o golpe não tivesse efeito colateral nos empregados, nem no Distrito. Porque, para eles, não importava o nome na placa. Importava que a fábrica continuasse de pé. Gerando trabalho. Mantendo o pagamento no final do mês. E Peeta sabia disso.
“Sejam bem-vindos à família M.Company.”
A frase ecoou, suave, firme sem esforço, sem teatralidade. Fomos então conduzidos ao coquetel montado no galpão adjacente. O coquetel era elegante… mas com um toque de simplicidade acolhedora. Luzes suspensas, mesas impecáveis, arranjos delicados, música ambiente suave tudo bonito, mas nada elitista. E os convidados eram… Homens de ternos simples, alguns claramente alugados, pela forma como não eram ajustados ao usuário.
Mulheres com vestidos de lojas de bairro, arrumadas com cuidado, mas com simplicidade. Adolescentes ajeitando o colarinho, o cabelo.
Eu não conhecia ninguém. Mas todos pareciam conhecer Peeta. Eles paravam não para bajular. Não para posar. Paravam para agradecer o convite.
Para dizer há quantos anos trabalhavam ali.
“Trinta anos. Foi meu primeiro emprego.”
“Dezessete anos. Era novo no Distrito”
“Vinte e dois, comecei assim que casei.”
E, por um instante vergonhoso, percebi que eu não reconhecia nenhum rosto. Eles apresentavam filhos, esposas, pais, avós.
E ele ouvia. Realmente ouvia. Com uma atenção que não era política, nem estratégica. Era humana. Como se ele tivesse nascido para estar ali no meio daquelas pessoas simples, histórias simples, vidas reais. E não no centro da cidade, rodeado de jornalistas e flashes, inaugurando a loja que aparecia brilhando no telão.
Fiquei ali, entre luzes suaves e conversas honestas, tentando entender o que estava vendo. Era… cuidado. Era atenção. Era o Peeta que, anos atrás, ajudou alguém sem pedir nada em troca. Era o garoto gentil que eu conheci por alguns dias e que, de alguma forma, ainda existia por traz daquele homem envolvido em um jogo de vingança.
Já passava das dez quando ele encostou o carro em frente à casa silenciosa, uma chuva fina estava começando. Depois do banho, vesti a camisola de seda vinho e o robe da mesma cor. O tecido era macio, leve, bonito… mas, ao mesmo tempo, mais justo do que eu lembrava quando coloquei na mala.
Não estava apertado, mas deixava evidente o óbvio. Meu corpo não era mais o mesmo. Liguei a TV, fingindo interesse, mas sem som e estrategicamente deixei apenas as luzes do abajur acessa, eram claras e iluminavam o ambiente ainda sim menos do que a luz principal. Estava quase deitando quando notei que meu corpo pedia outra coisa, sorvete. Uma vontade súbita, intensa, quase teimosa.
Desci até a cozinha, encontrei um pote na geladeira e coloquei um pouco num potinho de vidro. Subi devagar, provando cada colherada com uma calma exagerada, como se aquele sabor pudesse me acalmar por dentro. A chuva havia aumentado e parecia que seguiria durante toda noite.
Entrei no quarto e tomei a última colher, pensando que talvez valesse a pena pegar mais, embora eu soubesse que não devia exagerar. Foi quando a porta do banheiro se abriu.
E Peeta saiu. A toalha enrolada na cintura. O cabelo úmido, algumas gotas escorrendo pelo peito até desaparecerem no abdômen. O jeito relaxado, quase distraído, os olhos indo automaticamente para a TV ligada como se tentasse reconhecer o que estava passando.
Senti a boca salivar e, dessa vez, definitivamente, não era pelo sorvete. Ele passou a toalha pelos fios loiros com um movimento displicente. Ou talvez fosse só natural. Natural demais. Meu corpo reagiu involuntariamente, desejando por um momento tocar naquele abdômen.
Culpa dos hormônios
“Katniss?” Percebi que ele me chamava apenas quando sua voz ficou um pouco mais alta. Tentei erguer o olhar até o rosto dele, mas meus olhos, traidores, ainda deslizaram pela linha do abdômen onde uma gota insistia em descer. “Você está bem? Precisa de alguma coisa?”
“Não. Eu… estou bem.” Mantive o potinho na mão como se fosse um escudo e o levantei um pouco, como se aquilo justificasse alguma coisa. “Eu só vou… levar isso lá pra baixo.”
Uma mentira. Uma desculpa fraca. Sem sentido afinal, porque eu subiria com o potinho só para descer em seguida. Eu só não queria que ele percebesse o calor no meu rosto. Ou o modo como meu corpo parecia reagir apenas à presença dele.
“Eu levo para você. Aproveito e pego água.” Ele deu um passo. Depois outro. E, de repente, estava perto demais. Ele estendeu a mão para pegar o recipiente, devagar, quase com cuidado excessivo. Nossos dedos se tocaram por um instante. Um toque sutil. Pequeno. Mas que acendeu algo que percorreu minha pele inteira como um estalo.
Malditos hormônios.
Ficamos ali, tão próximos que o cheiro dele limpo, quente, recém-saído do banho substituiu todo o ar do quarto. Levantei o olhar, e encontrei aquele azul profundo me observando.
“Katniss…” Ele murmurou, ainda segurando o potinho, mas sem realmente olhar para ele. O olhar dele preso em mim por um segundo a mais do que deveria.
Meu coração tropeçou no peito.
A distância entre nós era pequena.
Ridiculamente pequena.
Um passo, um gesto, um descuido e não haveria mais espaço nenhum.
E eu senti cada respiração minha denunciando isso.
Cada centímetro da minha pele. Cada ponto do meu corpo em alerta.
Culpa dos hormônios.
Ou… Não só deles.
Dei um passo à frente. Um único passo. E alcancei sua boca.
O beijo foi urgente e eu sabia que ele estava seguindo meu ritmo. Um ritmo acelerado, quase desesperado, como se algo dentro de mim tivesse finalmente se soltado. Bastou um segundo, só um, para que a mão dele alcançasse minha cintura, me puxando com uma firmeza que arrancou o pouco de ar que eu ainda tinha. Peeta começou a desacelerar o beijo.
O lábio dele roçou no meu, lento demais, doce demais e aquilo… aquilo me desmontou por inteiro. O potinho de sorvete foi deixado em algum lugar atrás de nós. Eu não vi. Eu não quis ver. Não importava. Só conseguia sentir o calor das mãos dele na minha pele, e isso era a única coisa que importava.
“Katniss…” Ele murmurou meu nome como quem dá um aviso. Ou faz um pedido. Ou os dois. Ainda sim a forma que ele falava meu nome era inebriante, convidativa era sensual.
Ele me guiou pelo quarto devagar, até minhas pernas tocarem a beira da cama. Me deitei com cuidado e ele veio junto, deitando ao meu lado, a boca ainda na minha, o corpo encaixado ao meu como se fosse o único lugar possível. O Som da chuva preenchendo o ambiente. A mão dele deslizou até o laço do meu robe. E no instante em que ele puxou o tecido, meu corpo reagiu antes da minha mente. Ficou tenso. Rígido. Uma lembrança curta, um incômodo antigo atravessou minha pele. Não era uma imagem clara. Era só… o eco de um passado distante.
“A luz…” Murmurei entre o beijo. Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Ele afastou a boca um centímetro.
“O quê?”
“A luz. Apaga a luz.” Peeta parou. Só por um segundo. Mas aquele segundo pareceu longo demais. Antes que ele dissesse qualquer coisa, apaguei o abajur com pressa, como se a sombra pudesse me esconder do que eu temia, do que ele veria. Procurei a boca dele… mas ele não veio.
“Por que isso, Katniss?” A voz dele era baixa, ofegante, mas havia algo atento ali.
“É só a luz.” Tentei soar despreocupada, mas minha respiração me traiu.
“Não é só a luz.” Ele não se moveu. “Você nunca pediu pra apagar a luz.” Tentei puxá-lo de volta, sentindo a vergonha subir quente demais pelo meu rosto.
“Vamos, Peeta… vai ser gostoso no escuro. Só vem.” Mas ele não veio. A distância entre nós já tinha se aberto e doeu mais do que deveria. Senti ele se levantar. O colchão perdeu o peso do corpo dele e meu coração apertou, porque eu sabia o que vinha a seguir.
Luz demais revelava mudanças demais. Mas diferente do que pensei ele não abriu a porta e foi embora. Peeta caminhou até o interruptor. E acendeu a luz principal.
A claridade tomou o quarto inteiro. Eu prendi a respiração e minhas mãos fecharam o robe por reflexo, como se eu pudesse me esconder. Ele acendeu as arandelas e depois o abajur que eu tinha apagado. E então voltou para cama. Devagar. Sem pressa. Os olhos fixos em mim.
“Você não precisa esconder nada.” A voz dele saiu rouca, firme. “Eu nunca disse que você não era linda.” Ele pegou o laço do robe das minhas mãos com cuidado. Com calma. E desfez o nó, abrindo o tecido como quem abre algo precioso. “Eu sempre disse o contrário.” A seda vinho se abriu devagar. E em seguida ele ergueu minha camisola. Meu corpo queria puxar o lençol. Minha mente queria esconder a barriga, os seios ligeiramente maiores e todas as mudanças inevitáveis, eu queria evitar ouvir as críticas veladas, comparações silenciosas e o julgamento.
Mas nada disso veio.
Ele se deitou ao meu lado novamente, os olhos percorrendo meu corpo com uma reverência tão inesperada que minha garganta travou.
“Se quiser parar, eu paro. Nunca vou fazer nada que não queira também.” Sua mão desceu pela minha coxa, quente, firme. “Mas eu me recuso a não te ver.”
“Peeta…”
“Você está linda, Katniss.” Ele deslizou o polegar pela minha coxa devagar. “Você é linda.” O elogio caiu sobre mim quente demais. Forte demais. Inesperado demais. “Eu desejo você.” Ele aproximou o rosto do meu pescoço. “Eu quero você.” Sua respiração tocou minha pele. “E eu quero ver você.” A voz dele veio baixa, rouca, como se falasse direto dentro da minha pele. “Carregar nossa filha não muda isso…” A boca dele roçou meu pescoço de leve. Um quase-beijo. Um quase-toque. O suficiente para a respiração fugir do meu corpo. “As mudanças no seu corpo…” Sua mão deslizou pela minha cintura, firme, reverente, como se estivesse tocando algo precioso. “…só te deixam ainda mais linda.” O lábio dele traçaram um caminho lento e torturante pelo meu pescoço. Ele sabia exatamente onde tocar, seus lábios encontraram o ponto sensível no meu pescoço, aquele que sempre me deixava vulnerável de um jeito quase inexplicável.
Algo dentro de mim finalmente relaxou. Meus dedos subiram até o cabelo dele e o puxaram de volta para mim urgentes, desesperados. Ele ergueu o rosto. Os olhos azuis estavam mais escuros. Mais densos.
“Se quiser parar, eu paro agora.” A voz dele era um sussurro grave na minha boca. “Mas eu não vou apagar nenhuma luz. Eu quero ver você Katniss. Quero você e quero você inteira. Eu desejo você, Você quer parar?”
Meu coração bateu tão forte. Eu deveria ter sido racional. Deveria ter pensado. Mas minha boca tocou a dele, primeiro suave, depois firme e eu sussurrei contra os lábios dele, rendida.
“Não. Eu não quero parar.”
Então só me deixei levar pelos hormônios.
POV Peeta
O som da chuva tinha diminuído, reduzido a um ritmo leve contra o vidro. Pela janela, o lago ao longe refletia alguns lampejos da noite, e o cheiro de grama molhada enchia o quarto como algo familiar, quase reconfortante.
O relógio marcava duas da manhã quando caminhei de volta para a cama. Katniss estava dormindo. Os cabelos espalhados pelo travesseiro, um dos cachos colado à bochecha. O rosto sereno, relaxado, a respiração profunda. O lençol subindo e descendo devagar, cobrindo o corpo nu. Cada detalhe que, mesmo na escuridão suave, parecia perfeito.
Ela era linda. Sempre foi linda.
A primeira vez que a vi foi nos corredores do colégio. O cabelo solto caindo em ondas, o andar confiante, o sorriso que parecia iluminar o lugar inteiro e que, naquele dia, iluminou meu mundo. Eu era jovem demais, completamente tolo… e, ainda assim, não conseguia evitar olhar pra ela.
Passei quase dois anos inventando motivos para cruzar o caminho dela. Ia a todos os jogos de basquete só para vê-la na lateral da quadra, levantando a equipe com aquelas coreografias impecáveis, subindo em pirâmides humanas com uma segurança que parecia que cada movimento era fácil, mesmo que eu soubesse o quanto aquilo exigia força, treino, confiança e coragem.
Ela sorria… mas havia uma sombra ali. Uma tristeza que eu queria, desesperadamente, que desaparecesse. E mesmo sabendo que ela estava quilômetros acima de mim, mesmo sabendo que eu não era nem o cara que poderia carregar seus livros… ela falou comigo. E eu deveria ter desconfiado.
Ela errou meu nome. E eu teria deixado que ela me chamasse como quisesse. Os dias seguintes foram incríveis, mesmo que só estudando, até tudo desabar. Até eu descobrir uma versão dela que doeu ver… e doeu ainda mais não ter percebido antes.
Agora, onze anos depois, dividindo a cama há um ano em meio a todo meu jogo eu sabia que aquela mulher era forte, teimosa e confiante… mas horas antes eu a via insegura por causa de alguns quilos a mais. Algo que já desconfiava estar acontecendo. Mas que não tinha o menor sentido.
Aqueles quilos eram esperados. Bonitos. Parte da gravidez.
E ela parecia incapaz de enxergar isso.
Me sentei na beira da cama e esperei. Queria ter certeza de que ela estava mergulhada no sono profundo, sem risco de acordar. Assim que percebi o ritmo constante da respiração dela, os traços suaves e entregues… deixei escapar um sorriso pequeno. Eu já fazia isso há semanas.
Me inclinei um pouco, aproximando o rosto da curva suave da barriga dela, sem tocá-la. Era um ritual silencioso, quase sagrado. Algo meu, só meu, que eu repetia todas as noites quando tinha certeza absoluta de que Katniss estava realmente dormindo.
“Ei, filha…” murmurei, baixo. “Você não vai acreditar.” Era estranho aquele sentimento, eu sabia que ela ainda não podia me ouvir com clareza. Segundo os livros, faltavam algumas semanas até que o som começasse a fazer sentido pra ela. Mas mesmo assim… eu falava. Falava porque me fazia bem. Falava porque queria que ela sentisse, de algum jeito, que eu já estava aqui. “O dono do haras me ligou hoje.” Um sorriso escapou. “Ele vai assinar o contrato. Isso quer dizer que logo você vai ter seu cavalo. Aquele que o papai prometeu.” Falei mais baixo, mais suave, quase como um segredo. “E ele vai ser incrível, viu? Forte, rápido… desses que fazem o vento bater no rosto enquanto a gente anda nele. Você vai amar o vento. O vento deixa tudo mais simples.” Olhei para a pequena elevação sob o lençol. Um detalhe tão pequeno… e tão enorme ao mesmo tempo.
Era ela. Crescendo. Se formando.
“Eu sei que você ainda não escuta claramente.” Suspirei, rindo de mim mesmo. “Mas… eu gosto de falar com você.” O quarto estava silencioso, só o som suave e distante da chuva preenchendo o espaço. “Seu mundo não vai ser complicado,” prometi. “Eu vou fazer o que tiver que fazer para que ele seja leve. Pra que você cresça sabendo o que é calma… o que é paz… e o que é ser amada sem medo nenhum.” Fechei os olhos por um segundo. “Eu já disse que te amo, né?” Um sorriso pequeno tocou meus lábios. “Mas eu adoro repetir. O papai te ama. Muito. Sei que você e sua mãe já são um pequeno time… ela sente você, sente suas emoções.” Respirei fundo, tentando guardar aquele instante. “Mas lembra que eu estou aqui também. Prometo que vou estar aqui pra você. Sempre. Do jeito que você precisar. Eu vou ser o melhor pai que eu conseguir ser.” Levantei o olhar para o rosto de Katniss. Ela dormia tranquila completamente alheia às conversas noturnas que eu tinha com nossa filha. E eu gostava disso. Gostava de ter esse espaço silencioso, esse pequeno momento só meu com ela. Inclinei a cabeça um pouco mais perto da pequena saliência e murmurei. “Dorme bem, pequena…”

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