Linha Tênue
38 Capítulo 35: Uma Mudança de Estratégia
Notas iniciais
Capítulo 35: Uma Mudança de Estratégia


As reações na sala foram diversas, mas, sem dúvida, a pessoa mais surpresa parecia ser Peeta. Ele me olhava como se tivesse deixado algo escapar, tentando reorganizar mentalmente tudo o que sabia sobre mim. Desviei o olhar. Não queria ver aquela expressão. Na verdade, não queria ver expressão nenhuma, até porque nunca desejei dividir isso com ele. Nunca. Porque era algo que eu temia que fosse usado contra mim e eu não suportaria isso. Já era difícil lidar com as poucas pessoas que sabiam. Admitir aquela dor que ainda estava ali, cravada em mim como uma flecha presa no peito, era doloroso demais. Eu havia feito de tudo para tentar esquecer, ou, ao menos, para parecer que havia esquecido. Para me convencer de que não fazia falta. Que simplesmente não era para ser. Que eu havia seguido em frente, mas como esquecer que não consegui proteger um ser tão frágil. Que, mesmo por pouco tempo, eu tinha feito planos e pensado em nomes, imaginado um rosto e um futuro.
Mas como esquecer o pior dia da minha vida? Esquecer que não poderia ser mãe? Esquecer que, no fundo havia um desejo impossível que ainda doía mais do que eu podia suportar.
“Senhora Mellark,” a voz de Gaiman quebrou o silêncio momentâneo. “Seu histórico médico não fala nada sobre isso. Essa complicação ocorreu em qual hospital? E quando, exatamente?”
“Não foi neste hospital. Nem aqui na Capital.” Respirei fundo. “E, com todo respeito, doutor, o hospital não importa. O que importa é que aconteceu. E que seu diagnóstico está errado.” Ele me olhou com um quê de descrença. “Na época, meus pais acharam melhor não registrar tudo. Acharam que não era necessário colocar isso no meu histórico médico, que eu não precisava lidar com isso toda vez que fosse a um hospital.” Como se a fina cicatriz no meu corpo não fosse uma lembrança diária. Vi a testa de Gaiman franzir com desconfiança, mas ele não disse nada. Apenas mexia no tablet como se a verdade estivesse somente nos dados frios que ele lia. E eu desejei, com força, que ele simplesmente fosse embora. “Fiz uma cirurgia de emergência. Retiraram uma das minhas trompas. Meu útero foi gravemente danificado e precisei de uma raspagem. E, por muito pouco, não fizeram uma histerectomia. Entretanto mesmo tendo ficado com meu útero o médico disse que não seria capaz de engravidar.”
“Certo. Então precisamos buscar outras causas para os resultados dos seus exames. Você sentiu cólicas recentemente?” ele perguntou, com o mesmo tom apático de antes.
“Mais cedo. Mas cólicas são normais. Tenho todo mês desde a adolescência, como a maioria das mulheres.”
“E houve algum sangramento?”
“Não.” Respondi, já cansada. “Eu não estou grávida. Provavelmente passei mal por conta da anemia. O senhor está me ouvindo?” Minha voz se elevou levemente, já no limite da paciência.
“Doutor Gaiman...” a doutora Porter tentou intervir com suavidade, mas ele a ignorou por completo.
“Se ela está falando sério.” Ele disse, como se eu não estivesse presente. “Talvez estejamos lidando com uma gravidez ectópica.”
“Uma o quê?” Perguntei, sentindo um frio inexplicável no estomago.
“Uma gestação fora do útero.” Ele finalmente me encarou. “Considerando a história de danos no útero e a retirada de uma das trompas, é possível que a trompa restante tenha liberado um óvulo viável, mas que ele não tenha chegado ao útero. Isso explicaria os níveis hormonais e o exame positivo. O embrião pode ter se fixado em outro lugar, na trompa restante, no ovário ou no colo do útero.”
“E o que acontece… se for isso?” Minha mente tentava acompanhar, mas tudo girava depressa demais, mas meu pequeno conhecimento sobre o assunto sabia que não era uma coisa boa.
“Precisaríamos interromper a gestação o quanto antes,” ele disse como se estivesse comentando o clima. “É uma situação perigosa. Podemos agendar o procedimento para amanhã cedo, se for o caso.”
Senti o ar sumir dos meus pulmões. Não era possível que eu tivesse errado tanto na vida ao ponto de passar por tudo isso também. Era cruel demais e me odiei por querer chorar.
“Nesse caso, ele não precisa ficar, certo?” Peeta falou com a voz tensa, e me assustei com o tom baixo, mas ameaçador. “Porque, até onde eu entendi, a senhora é a obstetra, doutora Porter. E esse tipo de caso deve ser acompanhado por você. E se, após avaliar melhor, determinar que não é da sua área, a gente pode muito bem chamar outro profissional. Um que saiba ouvir.”
“Senhor Mellark…”
“Com todo respeito, doutor, mas não quero mais ouvir a sua voz. Não quero que se dirija à minha esposa. Estou a um passo e é um passo bem curto de processar você. E, se continuar falando, vou querer processar esse hospital também.” O médico murmurou algo. “E não é pelo dinheiro. Acredite, eu nem preciso dele, aliás não preciso nem ter chance de ganhar.”
“Vamos fazer assim.” A doutora Porter se aproximou de mim com um toque leve no ombro. “Vou solicitar uma ultrassonografia agora. Isso vai tirar todas as dúvidas e nos dar uma direção para um diagnóstico. Confirmamos se você está ou não grávida, avaliamos essa possibilidade de gestação ectópica, que é rara, mas importante de investigar, e vejo também o estado do seu útero. Assim posso entender melhor o que já foi feito no passado.” Assenti em silêncio. Uma parte de mim queria que ela estivesse certa, que aquilo esclarecesse tudo. Mas a outra parte… a outra parte sabia exatamente o que veria. Um útero vazio. Como sempre estaria. “Obrigada, doutor. A partir de agora, eu continuo com a paciente.”
A doutora Porter manteve o tom calmo ao pedir que o doutor Gaiman deixasse a sala. Ele hesitou, contrariado por ser dispensado, mas não teve escolha. Lançou um último olhar desconfiado na direção do tablet e saiu da sala. Então esperamos por alguns minutos que pareceram horas. O silêncio na sala era quase incômodo.
Peeta continuou em pé ao lado da cama, as mãos afundadas nos bolsos, o maxilar travado. Ele não disse mais nada. E, sabendo o que viria, por um momento pensei em pedir que ele saísse. No fundo, sabia que, se pedisse, ele sairia. Até porque saberia de tudo depois, mesmo sem que eu dissesse nada. Mas, de alguma forma estranha, sua presença ali era um conforto. Discreta, tensa. mas constante.
Quando a enfermeira entrou com o equipamento de ultrassonografia, meu estômago se revirou. A imagem do aparelho despertou em mim um pavor antigo. Não era como um exame de rotina. A tensão no ar trazia de volta uma lembrança antiga. Uma de quando Gale e eu estávamos em uma sala parecida para saber sobre o bebê. Respirei fundo, tentando afastar aquela lembrança e me preparar para o que viria. Meu corpo tremia e não era de frio.
E então, de forma inesperada, senti uma mão pousar no meu ombro. Peeta. O toque era leve, mas firme. E, por um minuto, não me importei se era por pena ou por qualquer outro motivo. Era só um sinal de que eu não estava sozinha naquele quarto.
A doutora Porter começou a preparar o exame com calma e profissionalismo.
“Sei que pode ser desconfortável, e não espero que relaxe completamente. Mas… respire fundo. A gente só quer entender direitinho o que está acontecendo, está bem?”
Assenti com um leve movimento de cabeça. Não havia como relaxar. Não naquela situação. E, mesmo que houvesse, eu não conseguiria. Só queria que aquilo acabasse logo. Queria levantar e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Voltar à minha rotina bagunçada e lidar com os problemas que eu conhecia.
Me posicionei como ela orientou. Peeta desviou o olhar de forma respeitosa, meio sem saber onde ficar, pra onde olhar. Confesso que teria achado graça em outra situação. Ainda assim, ele permaneceu ali. Quase imóvel. A mão no meu ombro.
Então começou. E o desconforto físico se misturou a tudo que eu estava sentindo. A médica observava a tela com olhos treinados e atentos. Sua expressão era neutra, concentrada. Nada no rosto dela me dizia o que via, então desviei o olhar para o teto, tentando não pensar. Tentando não esperar nada.
“De fato…” ela começou, ainda observando a imagem, “a cirurgia foi bem executada. A ausência de uma trompa está visível… e há cicatrizes significativas no útero. Aparentemente, você teve uma hemorragia grave na época.” Meu peito se apertou. A confirmação me atingiu como um lembrete cruel. Tudo o que eu já sabia. “…mas o profissional que fez o procedimento… bom, ele devia ter estudado mais antes de dizer a uma mulher que ela jamais poderia ter um filho.”
Meu olhar se virou para ela imediatamente, confuso. Havia algo em sua voz. Uma animação. Mas eu não conseguia entender.
“O quê?” perguntei, quase sem som.
Ela então sorriu. Um sorriso contido, mas real. Quase cúmplice. Senti um arrepio nas mãos, que começaram a tremer. E Peeta as alcançou e entrelaçou os dedos nos meus. Não olhei para ele. Mas apertei sua mão. E ele não soltou.
Foi nesse instante que a doutora girou lentamente o monitor em nossa direção.
“Olhe aqui,” ela disse, apontando para um ponto cinza flutuando no centro da tela. “Aqui está seu bebê. Bem posicionado. Dentro do útero. Exatamente onde deveria estar.” Eu paralisei. O mundo, por um segundo inteiro, parou de girar. “Parabéns, mamãe.” Ela olhou para o loiro. “Parabéns, papai.”
“Não…” Murmurei, me erguendo levemente. O ar me faltou. “Não é possível.”
Meus olhos estavam fixos na tela, tentando encontrar a falha, o erro, a ilusão. Aquilo era um engano. Tinha que ser. Eu conhecia meu corpo. Sabia o que me disseram. Sabia o que não podia ter. Como se soubesse que eu precisava de mais para acreditar, a médica apertou um botão e ligou o som. O quarto se encheu com um ruído ritmado, apressado, que fez meu coração acelerar junto.
Era o som do coração de um bebê. Do meu bebê. Dentro de mim.
Não consegui falar. Uma lágrima caiu sem permissão, seguida de outra. Olhei para Peeta. Ele também olhava a tela, como se não pudesse desviar o olhar. Seus olhos brilhavam, e sua mão apertou a minha com mais força.
E, por mais que minha mente gritasse que aquilo não fazia sentido… eu olhei para a tela mais uma vez. Então eu acreditei, era real. Eu estava grávida.
Então veio aquela sensação de felicidade absoluta, sem tamanho, inexplicável. Uma onda quente tomou meu corpo inteiro, como se meu coração estivesse finalmente batendo no ritmo certo. Olhei para o monitor sem conseguir desviar o olhar. Era tão pequeno... ainda não dava para reconhecer formas definidas, mas era real. Meu bebê. Dentro de mim.
No entanto, assim que a doutora Porter finalizou o exame, a euforia começou a dar lugar ao medo. E se meu útero não fosse seguro o suficiente? E se ele não suportasse essa gestação? E se...
“Eu senti cólicas mais cedo.” Comecei a falar rápido, atropelando os pensamentos. “Estou tomando medicação para a anemia. O médico me disse que não seria bom engravidar durante o tratamento. Achei que era impossível, então... não me preocupei.”
A doutora Porter permaneceu calma, com aquele olhar gentil.
“Fique tranquila, senhora Mellark. Suas cólicas foram intensas?”
“Não... foram leves, até estranhei geralmente sinto cólicas mais fortes. Achei que fosse o início do meu ciclo. Costumo sentir cólicas algumas horas antes.”
“Então não há com o que se preocupar neste momento. Cólicas leves são comuns no começo da gestação, especialmente em úteros que passaram por cirurgias ou traumas. Seu corpo está se adaptando ao bebê. E você mesma disse que não houve sangramento.”
Assenti, mas meus olhos ainda estavam cravados na tela escura do monitor, onde poucos minutos antes eu tinha visto meu bebê.
“Mas... é arriscado? Quer dizer existe risco de... você sabe, de um aborto?” Perguntei em voz baixa, tentando conter a ansiedade que ameaçava me engolir.
“Katniss, posso chamá-la assim?” Acenei positivamente com a cabeça. “Preciso, antes de tudo, que você respire e confie em mim. Pelo ultrassom, o bebê está bem. Estimo entre nove e dez semanas de gestação, mas vamos confirmar com mais exames. Entendo seus medos, e prometo que vamos avaliar sua saúde com atenção total. Quero garantir que você e o bebê estejam bem.” Ela fez uma pausa gentil antes de continuar. “Vou solicitar alguns exames específicos para o primeiro trimestre, além um pra ver a dosagem de ferro e de progesterona. Assim conseguimos um panorama mais preciso do seu estado atual. Talvez seja necessário que você passe o restante da noite aqui para fazer tudo. A não ser que prefira ir para casa e iniciar o pré-natal, com todos os pedidos em mãos.”
“Doutora, peça o que tiver que pedir, vamos ficar.” A voz de Peeta soou firme ao meu lado, e só então percebi que ele ainda segurava minha mão.
“Pode deixar, papai.” Ela respondeu com um leve sorriso. “Vamos fazer o melhor por vocês dois.” Tocou brevemente no tablet e continuou: “Vou pedir sua transferência para o andar da maternidade. Lá é mais silencioso e minha equipe está completa por lá.”
“Não.” As palavras saíram antes que eu pudesse pensar. Rápidas. Altas. Senti os dois me encararem. “Esse quarto está ótimo. É calmo... e...” Não sabia o que dizer. A verdade se enroscava na garganta como um nó impossível de desfazer. Eu simplesmente... não conseguia ir para o andar da maternidade. Não com as lembranças. Não com o que vivi lá da última vez onde depois de dias internada sai de lá com os braços vazios e o peito sangrando depois de ver mães rindo, com suas barrigas arredondadas, que não cheguei a ter e bebês recém-nascidos nos braços o oposto de mim, que deixava para trás meu luto e meu futuro interrompido. Um lugar que deveria representar vida e alegria, mas que, para mim, se tornou um pesadelo silencioso, em corredores cheios de luz e alegria.
A doutora Porter pareceu entender sem que eu precisasse explicar.
“Tudo bem,” disse ela, com empatia. “Podemos te manter aqui hoje. O importante é que você se sinta segura. Vamos fazer tudo com calma. E, uma coisa por vez, Katniss. Uma coisa de cada vez.”
Os momentos seguintes foram destinados à coleta de exames. Tudo foi feito com cuidado e discrição, diretamente no quarto. A equipe agia com uma eficiência silenciosa, quase gentil, como se temessem quebrar alguma coisa.
Peeta não saiu em nenhum momento. Permanecia ali, atento, andando pouco, os olhos sempre voltados para mim ou para o movimento ao redor, como uma águia protegendo um território. Mas não era proteção romântica ou heroica. Era um senso de responsabilidade contida. Um zelo que, por mais que tentasse esconder, estava lá. E eu não sabia exatamente o que se passava na cabeça dele se era preocupação real, desconforto, obrigação… ou apenas confusão diante de tudo aquilo.
A enfermeira disse que os resultados não demorariam, mas que seria bom tentar dormir um pouco enquanto aguardava. Assenti, mesmo com a mente acelerada ainda assim, quando nos deixaram sozinhos, Peeta se levantou, apagou as luzes.
“Durma um pouco, você precisa descansar um pouco, quando os exames ficarem prontos eles vão avisar.” Inesperadamente ele ajeitou meu travesseiro e antes que pensasse direito no gesto ele voltou a se sentar na poltrona ao lado da cama. O quarto mergulhou num silêncio acolhedor e, em algum ponto entre o medo e o cansaço, adormeci.
Acordei muito tempo depois, surpresa ao perceber que já era manhã. O relógio digital marcava quase seis horas. As cortinas blackout ainda não deixavam passar a luz do dia, o que me fez perder completamente a noção do tempo. A atmosfera do quarto era estranhamente calma. Acendi a luminária ao lado da cama com um movimento lento e meus olhos foram direto para o loiro. Peeta dormia sentado na poltrona, com o corpo curvado de lado, o maxilar apoiado na mão, o cotovelo afundado no braço da cadeira. O cansaço estava evidente, até mesmo na forma como os ombros pareciam mais pesados. E me perguntei por que ele não havia escolhido o sofá maior e mais confortável no canto do quarto.
Enquanto ponderava se o acordava ou não, a porta do quarto se abriu com cuidado e uma enfermeira entrou. O ruído suave bastou para despertá-lo. Ele se remexeu com um leve sobressalto, endireitando a postura e esfregando os olhos, antes de olhar diretamente para mim, mas antes que ele falasse qualquer coisa a enfermeira falou com um sorriso.
“Bom dia. Conseguiu descansar? Está se sentindo melhor?”
“Um pouco sonolenta ainda… mas estou bem”
“Ótimo. A doutora Porter virá vê-la após o café. Os resultados já chegaram, e ela mesma vai conversar com vocês.”
Peeta se levantou da poltrona. O cabelo ligeiramente desalinhado e a camisa amassada denunciavam a noite mal dormida. Ainda assim, seus olhos estavam atentos a cada movimento.
“Como você está se sentindo?” A pergunta saiu num tom baixo, mas havia sinceridade ali.
“Com vontade de dormir mais umas cinco horas, mas… bem.”
Minutos depois, trouxeram uma bandeja cuidadosamente preparada com frutas cortadas, pães macios, ovos mexidos, chá, suco natural. Tudo equilibrado, como só se vê em hospitais sofisticados ou em hotéis.
Peeta puxou a mesa de apoio até a beira da cama, sem dizer uma palavra. Eu comi pouco. Mais por educação do que por apetite. A sensação era a mesma de alguém que não tinha acordado ou que estava com medo de acordar.
Peeta também não parecia interessado na comida, embora tenha aceitado uma xícara de café preto, que esfriava nas suas mãos enquanto ele olhava fixamente para o chão, como se estivesse fazendo cálculos silenciosos. Por volta das sete, a porta se abriu com suavidade e a doutora Porter entrou com o tablet em mãos, os cabelos presos num coque prático e o olhar gentil. Havia nela uma leveza calculada, como quem entende o peso de cada palavra.
“Bom dia,” cumprimentou, com um aceno breve. “Espero que tenham conseguido descansar ao menos um pouco, especialmente você, Katniss.” Assenti, tentando fingir uma tranquilidade que não sentia. “Recebemos os exames. Analisei tudo com a equipe e já posso compartilhar algumas informações.” Meu estômago se apertou de imediato. Segurei o lençol com força, como se ele pudesse me manter no lugar. “A primeira boa notícia, é que os níveis hormonais estão exatamente dentro do esperado para uma gestação de cerca de nove semanas.” Nove semanas. O número ecoou dentro de mim com um peso mudo. Fazia sentido. Contando os dias, batia com a noite em que estivemos juntos, após a visita do meu pai. E mesmo assim… parecia impossível. “Seus exames de ferro e ferritina ainda indicam anemia, mas não em grau crítico. Vamos manter o reforço com vitaminas e uma alimentação mais controlada. Já há evolução desde seus exames anteriores.” Fiquei em silêncio. Era como se minha mente recebesse tudo com atraso. A doutora então me encarou diretamente. Seus olhos eram atentos, mas havia ternura ali. “Katniss, eu sei que é difícil acreditar, principalmente considerando o que você ouviu no passado. Mas os exames confirmam o que o ultrassom mostrou ontem. A gestação é viável, intrauterina, e saudável até o momento.”
Meu peito apertou. Uma lágrima escorreu antes que eu pudesse reagir. Ela apenas estendeu um lenço, ainda sim respeitando meu espaço.
“O médico disse que era impossível…” Murmurei, num fio de voz que consegui formular.
“Eu sei,” ela respondeu com serenidade. “E entendo que, até ontem, você não acreditava que isso pudesse acontecer. Não posso dizer o porquê do diagnóstico anterior, cada profissional tem sua leitura. Mas o que vi nas imagens de agora é um útero que cicatrizou bem. A retirada de uma trompa reduz muito as chances de engravidar, assim como todo o histórico… mas o corpo tem sua própria lógica. E o seu, Katniss, apesar de tudo, respondeu. Você é jovem e a juventude, quando combinada com resiliência, pode fazer milagres silenciosos.” Houve um instante de silêncio que parecia ocupar todo o quarto. “Isso não significa que será uma gravidez simples.” Ela prosseguiu, com honestidade. “Seu corpo já passou por muito. Por isso, vamos acompanhar tudo de perto. Sei que o médico de ontem não deixou uma boa impressão, e se ainda não tem um obstetra, nossa equipe é experiente, tanto para o pré-natal quanto para o parto. O mais importante agora é se cuidar. Seu corpo pediu uma pausa, Katniss. Significa que ele chegou ao limite. Então, minha primeira orientação é clara: desacelere, evite estresse, durma bem e coma em intervalos certos. Lembrando que não é só o que você come, mas quando e como.” Ela olhou para Peeta, com firmeza gentil. “E o pai tem papel fundamental nisso. O apoio emocional e a rotina da gestante fazem toda a diferença no primeiro trimestre.”
Peeta assentiu, e então pela primeira vez desde que ela entrou ele disse algo.
“Além disso… tem algo que a gente precise fazer agora? Existe algum risco imediato? Algum cuidado a mais que temos que tomar? Talvez fazer repouso?”
“Por ora, não. Vamos apenas repetir o ultrassom em duas semanas, para acompanhar o desenvolvimento. Nesse início, as consultas precisam ser mais próximas, mas se tudo correr bem, manteremos o pré-natal dentro da rotina normal.” A doutora falou com calma, escolhendo cada palavra. “Quanto ao repouso, evite esforços pesados. Sobre a intimidade de vocês, relações sexuais estão permitidas, desde que não haja dor ou sangramento. Elas podem, inclusive, ajudar no bem-estar da mamãe, mas devem ser conduzidas com cuidado e, acima de tudo, respeitando seus limites Katniss.” Ela me fitou com atenção antes de prosseguir, como se quisesse garantir que eu realmente a ouvia. “É essencial que seja clara com seu marido. Qualquer incômodo, qualquer dor, precisa ser dito de imediato. Vocês dois vão ter que caminhar juntos nisso. Um passo de cada vez, com escuta atenta. O corpo fala e agora, mais do que nunca… ele precisa ser ouvido por vocês dois.”
“Vamos fazer tudo que for preciso, doutora.” Peeta respondeu sem hesitar. Provavelmente tomado pelo senso de responsabilidade que era a cara dele.
“Bom…” Ela sorriu de leve, como se tivesse guardado uma pequena surpresa. Do bolso do jaleco, retirou duas imagens impressas e estendeu uma para cada um de nós. “Isso é pra vocês.”
Baixei os olhos para o papel em minhas mãos. Para qualquer outro, seria apenas um borrão em preto e branco, sem forma, sem sentido. Mas para mim… par mim era tudo. Aquele pequeno ponto cercado por sombras era a prova de que não era apenas uma palavra dita num consultório ou um engano de exames, era a lembrança do som daquele coração que ouvi na noite anterior. Era a prova de que ele estava vivo e dentro de mim. Que era real.
Meu coração disparou, porque era difícil de acreditar, mas, por mais que temesse, algo dentro de mim se quebrou. Ou talvez tivesse se acendido, uma chama frágil, quase tímida, mas impossível de ignorar. Pela primeira vez, depois de tudo, a esperança encontrou espaço.
Recebi alta e, sem demora, saímos do hospital já com as consultas marcadas para a próxima semana. O caminho de volta foi silencioso. Peeta, ao meu lado, manteve o olhar fixo na janela durante quase todo o percurso. E, de certa forma, fiquei aliviada por isso. Eu não estava pronta para falar sobre o assunto. Prim não estava em casa quando chegamos, então segui direto para o quarto. Tudo o que eu queria era um banho, sem precisar pensar muito.
Quando saí, com um dos robes de seda rosa e os cabelos ainda molhados caindo soltos pelos ombros, esperava encontrar o quarto vazio. Mas, em vez disso, vi Peeta sentado em uma das poltronas. Sua expressão era indecifrável, ele estava pensativo, distante. No fundo, eu sabia que ele estava caindo na real, entendendo o peso do que tudo significava. E não precisava de muito para concluir que ele não queria aquele bebê. Nunca esteve nos planos dele. Não ter um bebê comigo em meio a todo o ódio que guardava de mim, não nesse casamento que era apenas uma vingança. Eu conhecia bem demais essa história de gravidez indesejada.
“Que horas vamos sair?” Perguntei, quebrando o silêncio. Por algum motivo, sentia que precisava voltar à rotina, precisava fingir que tudo estava no eixo. No fim das contas, não importava o que ele pensasse. Independente dele, aquele bebê era meu. E eu o queria e só isso bastava.
“Sair?” Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. Estranhei afinal Peeta não esquecia compromissos, muito menos quando envolviam a família dele.
“Meu celular está sem bateria. Não lembro o horário do almoço na sua irmã.”
“Ah… nós não vamos.” Ele ajeitou-se na poltrona. “Já avisei minha mãe. A noite foi longa, e você mesma disse que dormiria mais cinco horas se pudesse. Descansa até o almoço.”
Olhei para ele, juntando as peças. Ele não queria falar sobre a gravidez. Talvez estivesse com medo de que eu acabasse contando algo.
“Eu estou bem. Se temos um compromisso, devemos ir. Não vou falar nada pra sua família, não precisa se preocupar.”
“Não, você não está bem, Katniss.” A calma da voz dele era nitidamente forçada. “E quanto a essa história de não contar… uma gravidez não é algo que se esconde. Não vou te mandar para o exterior nem esconder o bebê de todos. No momento certo obviamente vamos contar.” Ele respirou fundo antes de continuar. “Olha, eu não quero discutir. Só quero que você descanse. Você não apenas desmaiou ontem à noite… você apagou, Katniss. Estava com os olhos semiabertos, mas não respondia. E agora… não é mais só você, entende isso?” As palavras pesaram. Eu engoli em seco.
“Olha, sobre o bebê… eu realmente achei que não tinha chance de… ou teria tomado a injeção, ou…”
“Você não fez esse bebê sozinha.” Ele me interrompeu, firme. “Eu estava lá lembra, fui bem participativo até onde me lembro. Meios contraceptivos não são responsabilidade só da mulher.”
“Eu sei… não foi isso que eu quis dizer. Só que…” Minha voz falhou por um momento. “Eu sei que não é a notícia do século. Que não estava nos planos…”
Na verdade, para mim, aquilo era um milagre. Uma porta que se abria quando eu já não esperava nada. Pela primeira vez em muito tempo, senti um rastro de felicidade e esperança. Mas, no fundo, tinha medo. Medo de que ele não compartilhasse desse sentimento. Palavras poderiam magoar, e eu não suportaria ouvir a verdade que temia, não naquele momento de felicidade. Foi então que ele me olhou. O olhar fixo, atento. Diferente do que eu esperava.
“Não fala assim.” Ele respirou fundo e, por fim, um leve sorriso suavizou sua expressão. “Não foi planejado… mas eu estou feliz.” Olhei para ele, surpresa. Feliz não era exatamente o que eu esperava ouvir. “Um filho é uma dádiva, Katniss. Um presente. E, independente de qualquer coisa, eu estou feliz. Eu vou ser pai, não tem como não ficar feliz por isso. Vamos garantir que tudo corra bem… e que ele nasça saudável. Está bem? Então, por favor… descansa.”
Ele se levantou e saiu do quarto, me deixando sozinha com meus pensamentos.
POV Peeta.
Recostei-me na cadeira do escritório e fechei os olhos por um momento. Embora o relógio ainda não marcasse dez horas, eu já trabalhava havia mais de quatro. O evento de comemoração dos oito anos da empresa tinha sido um sucesso: tudo como previsto, perfeitamente planejado. As matérias saíram positivas, os repórteres respeitaram nossa privacidade, como solicitado. Para ser sincero, não havia a menor necessidade de eu chegar tão cedo. Ainda assim, eu precisava pensar, colocar as coisas em ordem na minha cabeça.
“Peeta Mellark, precisamos conversar.”
Lavinia entrou na minha sala sem avisar e não me surpreendi, o olhar que ela me lançou na sexta à noite já dizia tudo.
“Bom dia. Como vai? Como foi o final de semana? Alex está bem?” perguntei, tentando amenizar o clima e vi ela revirar os olhos. “Geralmente é assim que as pessoas se cumprimentam, sabia?”
“Sem gracinhas, Peeta.” Ela parou diante da minha mesa com aquele mesmo olhar sério que tantas vezes vi usar com o filho. “Por que Gale Hawthorne estava no evento de sexta-feira? Você me garantiu que não iria envolver a empresa nesse seu plano de vingança maluco. E do nada vejo aquele idiota sentado na mesa dos finalistas.”
“A empresa dele tinha um projeto concorrendo ao patrocínio.”
“Como? Por quê?” Ela ergueu as mãos, indignada. “Não vai me dizer que você queria promover o encontro dele com a Katniss. Por que isso agora? Qual o seu problema em deixar o passado no passado?”
“Não. Não tive nada a ver com isso. Foi totalmente ao acaso, tá bom?” Respirei fundo, escolhendo bem as palavras. “Lembra daquele rapaz que comentei, que me abordou no Distrito 12 e me deu o telefone num pedaço de papel? Eu passei pro time analisar se era promissor. Pois bem, ele era sócio do Gale. Eu só soube depois que foram selecionados, algumas semanas atrás, no jantar social.”
“E você não pensou em passar a escolha pra outra pessoa?”
“Vocês não gostam de escolher, lembra?”
“Você devia pelo menos ter me contado. Eu teria ajudado. Mas não, você quer resolver tudo sozinho, como sempre. E se ele achar que foi prejudicado? Se ele sair por aí dizendo que você não foi imparcial por causa do passado de vocês?”
“Eu fui profissional, Lavinia. Ele pode falar o que quiser. Qualquer um que olhar os projetos vai ver o mesmo que eu. Os vencedores eram as melhores escolhas. Posso garantir isso. Se quiser, pode verificar por conta própria. Apesar de tudo, ainda sou profissional. Jamais colocaria a imagem da M.Company em risco por questões pessoais.” Inclinei-me na cadeira. “Você sabe o quanto lutei para chegar aqui, sabe o quanto valorizo essa empresa. E não falo só da nossa família. Cada funcionário que depende de mim faz parte dessa responsabilidade.” Ela suspirou e se sentou na cadeira em frente à minha mesa.
“Não quis te ofender, juro. É só que… ver aquele homem lá… eu fiquei sem entender. Eu me preocupo com você, com você se perder nisso tudo.” Sua voz suavizou, mas o peso da cobrança ainda estava lá. “Não acha que já durou tempo suficiente? Vai fazer um ano que ela assinou o contrato. O pai dela já perdeu a presidência, a empresa. Não é hora de seguir em frente? Pede o divórcio. Acaba com isso.”
“Não posso. Não agora.”
“Qual é, Peeta. Já deu. De verdade. Já passou da hora de seguir em frente, de se apaixonar de verdade, de ser feliz. Você mesmo disse que não iria durar.”
“Não posso pedir o divórcio agora. Katniss está grávida.” A expressão dela foi impossível de decifrar. Eu me preparei para a explosão.
“O quê? Você está brincando?”
“Não. Estou falando sério. Ela desmaiou durante o evento, levei ao hospital… fizeram até ultrassom. Ela realmente está grávida.”
“Qual é o seu problema, Peeta Mellark?” O tom dela subiu de uma vez. “Aliás, por que estava dormindo com ela? Não era tudo uma farsa? Não vai dizer que está gostando dela de novo?”
“Foi sexo.” Respondi cruzando os braços. “Não precisa gostar de alguém pra isso. Somos adultos.”
“Adultos que aparentemente não conhecem preservativo.” Revirei os olhos, tentando não levar para o pessoal. “E não ouse falar de mim. Eu era uma adolescente, idiota e ingênua.”
“Jamais falaria algo assim.” Ergui os braços em sinal de rendição.
“Olha, ela pode usar o bebê contra você, sem dúvida nenhuma. Um filho é um elo para a vida inteira. Vai virar guerra, acordo de guarda, pensão… Peeta, isso vai ser um caos. Seu plano de terminar o contrato e cada um seguir seu caminho acabou. Ela vai estar na sua vida para sempre.”
“Não tem com o que se preocupar. Já está tudo acertado.”
“Como assim, tudo acertado?”
“O contrato pré-nupcial tem uma cláusula em que ela abre mão da guarda de qualquer filho que tivéssemos.”
Lavinia me encarou como se eu tivesse enlouquecido e foi exatamente isso que ela disse:
“Você enlouqueceu? Por que esse contrato tem uma cláusula dessas?”
“Foi sem pensar. Mais para provocar, na época. Nem eu nem ela levamos a sério. Mas agora… agora vejo que foi bom.”
“E você pretende fazer valer isso?” Confirmei com a cabeça. “Você só pode estar louco. Ela é a mãe, Peeta. Você não pode simplesmente tomar a guarda unilateral dessa criança e tirar ela da jogada. Não é assim que funciona.”
“Ela vai poder fazer visitas. Qual é, Lavinia, não estou planejando fugir com o bebê.”
“Não. Mas está planejando criar uma criança sozinho!”
“Não vai ser só eu. Tenho certeza que meus pais e minhas irmãs vão estar ao meu lado. E achei que você também faria isso.”
“É claro que vou estar.” A voz dela suavizou, mas ainda havia indignação. “Mas uma criança precisa de mais, você sabe. Eu sou mãe solo, lembra?”
“O Alex está bem, Lavinia. Você cuidou dele sozinha, e ele está bem.”
“Isso não significa que foi fácil.” Ela balançou a cabeça. “Você sabe o quanto sou grata a você e à sua família.”
“Nossa família”, corrigi. Alex e Lavinia eram família.
“Sim. Mas mesmo com a ajuda de vocês, não foi simples. Como mãe, penso no melhor pra ele, penso no que não pude dar e queria ter dado. Queria que ele tivesse tudo. Queria que tivesse um pai que o amasse, não um que o renegasse. Katniss pode ter muitos defeitos, mas não parece alguém que abandonaria um filho. Não funciona assim, Peeta. Você não pode usar um pedaço de papel para tirar os direitos dela. Muito menos um contrato que foi assinado por outros motivos. Isso não é certo. Tirar a mãe da jogada, por pior que tenha sido os erros dela… ela errou com você, não com esse bebê. Eu não vou ficar do seu lado nisso.” Ela respirou fundo, os olhos firmes. “Até porque agora já não importa mais o que é melhor pra você, ou pra ela. Vocês precisam pensar no que é melhor pra essa criança.”
Ela tinha razão. Eu sabia disso. Mas ainda era mais fácil me agarrar à ideia de que tudo estava garantido pela lei. O resto… eu lidaria aos poucos.
“Agora que você já brigou comigo… que tal me dar os parabéns? Você é a primeira pessoa que contei.” Tirei a carteira do terno e puxei a foto que tinha colocado lá de manhã. Estendi pra ela. “Parece só um borrão, mas tem um batimento cardíaco fortíssimo.” Os olhos dela brilharam e sabia que ela estava feliz, e segurando o choro.
“Mas é claro que vou te dar os parabéns.” Ela levantou e veio me abraçar. “Você vai ser pai, Peeta. Parabéns. Sei que você está feliz, não preciso nem perguntar. E a Katniss? Como ela está? Você disse que desmaiou… foi por causa da anemia?”
“Não exatamente, a médica pediu para ela desacelerar, evitar estresse. A anemia está controlada, mas ela vai continuar com o tratamento e com uma alimentação adequada. Por algumas questões do passado, vão acompanhar de perto a gestação, mas, no geral, a médica disse que é uma gravidez saudável.”
“Então vou ser tia duas vezes este ano. Você sabe que vou amar essa criança, não sabe? Vou mimar ela demais. Estou muito feliz por você. Qual é a sensação?” Fechei os olhos por um instante antes de expressar o que havia sentido em voz alta pela primeira vez.
“Primeiro veio o choque. Depois, a surpresa. Mas então… a felicidade. Tudo isso tão rápido. Eu vi aquela imagem e, por um instante, o mundo parou. Então tudo voltou a se mover com o som das batidas do coração enchendo a sala. Eu vou ser pai, Lavinia. Dá para acreditar? Você sabe o quanto amo minha família. Mas, pela primeira vez desde que me lembro, vou ter alguém que carrega meus genes. Sei que não é a genética que faz uma família… mas no fim de semana não consegui evitar de pensar nisso. Que vou me ver em alguém.” Abaixei os olhos, sentindo uma pontada de vergonha por admitir aquilo em voz alta. Foi quando ela me puxou para um abraço.
“Está tudo bem, Peeta. Não é errado pensar isso.”
Eu amava minha família. Amava de verdade. Mas, por mais que a cor do meu cabelo fosse parecida com a da Delly e, consequentemente, com a da minha mãe, havia um abismo entre mim e aquelas pequenas semelhanças comuns que só disfarçavam o óbvio. Eu era adotado. Minhas irmãs carregavam os traços reais dos meus pais. Traços que eu nunca teria. E, mesmo sabendo que isso não mudava o amor que eles sentiam por mim, e eu sabia que o que ligava nossa família era um amor maior que aparência, maior que sangue, mas no fundo, eu sempre pensei nesses detalhes. Sempre em silêncio, com uma certa culpa até.
Mas agora, pela primeira vez, a ideia de não apenas amar, mas de me ver em alguém da minha própria família não parecia impossível. Parecia real. E isso era… indescritível.
Ainda assim, o peso da realidade permanecia comigo. Meu filho era tão dela quanto meu. E, por mais que eu tivesse tentado manter distância, focado apenas em dar o troco pelo passado, o jogo havia se tornado mais complexo. Agora não havia como ignorar que, de um jeito ou de outro, Katniss era uma peça que eu não poderia simplesmente retirar do tabuleiro.
Vencer a rainha, nesse ponto, significava vencer a mãe do meu próprio filho. Mas isso valeria a pena? Eu havia levado a partida longe demais para simplesmente parar… e, ao mesmo tempo, cada avanço parecia mais arriscado. Conduzi cada jogada até aqui, mas agora, com uma nova peça em jogo, a vitória já não era apenas minha. Eu precisava vencer, sim, mas com cautela… e, acima de tudo, proteger a vida que mudava todas as regras.
E a pergunta era simples e cruel: como derrotar a rainha, quando parte dela já estava destinada a permanecer comigo para sempre? Como vencer sem machucar o que realmente importa? Por mais que quisesse controlar o jogo, sabia que, dessa vez, o tabuleiro era maior do que eu imaginava.
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