Linha Tênue
10 Capítulo 09: Um jantar com a família Everdeen
Notas iniciais
Sexta-feira chegou muito mais rápido do que eu poderia desejar, e olhando meu reflexo no espelho de corpo inteiro do quarto, não fazia ideia de como seriam as próximas horas. Eu havia enviado uma mensagem com o horário do jantar para o número de celular com o qual havia falado da outra vez e não me surpreendi com a falta de resposta. Então, naquela tarde, ele havia mandado apenas um “Esteja pronta às 19h30min”. Enquanto esperava, estava uma verdadeira pilha de nervos, já que apresentá-lo a meus pais e à Prim faria tudo mais real e, de certa forma, eu não queria dar esse passo, não com tantas incógnitas em meio a esse futuro casamento.
No horário exato, o interfone tocou e o porteiro avisou que estavam esperando por mim. Eu não tinha ideia de como ele sabia meu endereço, mas não fiquei surpresa; afinal, mesmo não passando meu endereço, ele achou um modo de descobrir, se é que já não sabia há muito tempo onde eu morava atualmente. Chequei mais uma vez meu cabelo e maquiagem antes de pegar minha bolsa e sair do apartamento. Eu havia escolhido um dos meus melhores vestidos para a ocasião: vermelho, com decote em V, colado na cintura, embora ficasse ligeiramente mais soltinho nas pernas e fosse até a altura do joelho.
Assim que desci as escadas da portaria, avistei um Maserati Granturismo prata daquele ano estacionado e não tive dúvida de que era dele. Caminhei tranquilamente e, quando me aproximei do carro, ele não deu qualquer sinal de que desceria. Então, abri a porta do passageiro e entrei.
“Você está atrasada”, ele comentou com o mesmo tom sério de costume, dando partida no carro assim que fechei a porta.
“Eu desci no momento em que o porteiro interfonou”, usei o mesmo tom que ele enquanto colocava o cinto de segurança.
“As 19h30min você devia estar esperando no portão.”
“Eu não vou nem responder a isso, não sou mulher de esperar na portaria, Mellark.”
“Eu não gosto de esperar, Everdeen.” Revirei os olhos e olhei em direção à janela; não ia perder meu tempo com aquela discussão ridícula. Não disse a ele o endereço dos meus pais, mas vi que ele estava fazendo o caminho certo. “Ah! Isso é importante.” Ele abriu o porta-luvas quando parou em um sinal vermelho e pegou uma caixinha de veludo azul, entregando-me. “Você deve usar isso.” Observei-o voltar a atenção para o trânsito sem acreditar naquilo; ainda assim, abri e olhei o anel por um momento.
Um solitário de ouro branco com diamante retangular, realmente lindo, e acabei prendendo a respiração ao vê-lo. Não que eu fosse apaixonada por joias; ainda assim, como quase toda mulher, sabia admirar um belo diamante e não pude deixar de pensar que, se fosse algo real, aquela seria uma escolha perfeita para um anel de noivado.
“Sem um pedido romântico?” comentei com ironia. “Não estou surpresa; afinal, é um negócio, certo?” Ele não respondeu, mantendo a atenção na estrada. “Devo me considerar alguém de sorte por ter um anel? Achei que você se limitasse a comprar as alianças, já que é tão ocupado.”
“Vivemos em um mundo onde as aparências contam muito, Everdeen. Você deve saber disso mais do que eu, não é mesmo?” Sabia que ele estava falando sobre nossa época no colégio. “Seria no mínimo estranho você não ter um anel de noivado, ainda mais considerando o noivo.”
“Claro, as aparências.” Coloquei o anel no meu anular e ele ficou na medida certa. “Só para saber, se perguntarem, devo mentir dizendo que você fez um pedido especial e romântico?”
“Invente o que você quiser, tendo fundamento eu não me importo.”
“Então você pode ter feito o pedido do século, totalmente piegas?” Adoraria inventar um pedido totalmente meloso só para irritá-lo.
“Você não vai querer me irritar.” Se eu fosse sincera, eu queria e muito, mas não disse nada. “Limite-se ao básico e, se quiser acrescentar romance, conte que seja algo possível e sem denegrir a minha imagem, porque acredite, você não vai querer fazer isso.”
“Por que não?”
“Porque está no contrato que você deve zelar pela minha imagem.” O maldito contrato.
Seguimos o resto do caminho em silêncio e, assim que ele encostou o carro em frente ao prédio dos meus pais, eu respirei fundo antes de descer. Aquela noite prometia, no mínimo, uma dor de cabeça daquelas. Caminhamos lado a lado em direção ao elevador e notei que ele foi educado com o porteiro, que nos deu um sorriso simpático. Não pude deixar de reparar em como ele estava bem vestido, usando um jeans escuro com cinto preto; a camisa grafite estava devidamente arrumada dentro da calça, e completando, um blazer preto com corte perfeito.
Assim que a porta do elevador se abriu, ele segurou minha mão, me pegando de surpresa. Então avistei Prim nos esperando na porta com um sorriso largo, o porteiro e a mania de interfonar, mesmo me conhecendo.
“Uau! Você realmente cresceu”, ele falou com um sorriso cheio de simpatia para minha irmã, após eu ter reapresentado os dois e entrado no apartamento. “A última vez que te vi você era uma garotinha desse tamanho.” Sinalizou com a mão e ela riu.
“Confesso que demorei a ganhar altura; cheguei a achar que seria a única baixinha da família, mas você não mudou muito; sua fisionomia é quase a mesma.” Ele agradeceu. “Aliás, nunca tive a oportunidade de parabenizá-lo por conseguir ensinar matemática para Katniss na época. Sério, você conseguiu um milagre naqueles dias.”
“Não foi muito difícil; só foi preciso empenho.”
“Ela tem sorte de não utilizar matemática na carreira dela; acredite, ela ainda é péssima.”
“Eu ainda estou aqui.” Naquele momento, meus pais entraram na sala, então fiz a apresentação e vi o olhar da minha mãe sobre ele, analisando cada centímetro do mesmo, roupa, sapato, relógio, corte de cabelo ela não deixaria passar nada naquele momento ela analisaria até o perfume dele para tentar identificar se era caro. Era como um déjà vu, mas, diferente de anos atrás, a análise foi muito mais positiva aos olhos dela fazendo com que seu tom de voz soasse com muita simpatia.
“É um prazer revê-los, Sr. e Sra. Everdeen.”
“Igualmente, Peeta, não é?” Papai não parecia nada interessado naquele jantar; na verdade, tive sorte de ele estar preocupado demais com a empresa e estar evitando sair, mas sabia que ele queria que fosse um jantar rápido.
“Então vocês estudaram juntos”, minha mãe comentou quando nos sentamos na sala de estar após alguns minutos. “Desculpa, eu realmente não estou me lembrando de você; Katniss era tão popular no colégio, eram tantos amigos transitando pela casa em festinhas que fica difícil lembrar de todos. Você era do time de basquete?”
“Não, senhora.” Ele não parecia ofendido por ela não se lembrar dele; pelo contrário, era como se já esperasse por isso. “Na verdade, eu fui pouco à casa de vocês. Éramos de grupos diferentes no colégio; eu não era do time. Na verdade, eu só fui lá para ajudar a Katniss a estudar nas últimas semanas de aula.”
“Ah! Acho que estou me lembrando.” Pelo olhar dela, eu soube que ela se lembrou dele e de como ele parecia não ter dinheiro na época. “Você mudou bastante; não sabia que tinha vindo fazer faculdade na Capital. Aliás, achei que da turma da Katniss apenas ela tivesse tido esse privilégio.” Minha mãe costumava se gabar por ter, segundo ela, me proporcionado essa caríssima experiência. “Afinal, a Panem University é uma instituição de ensino bem cara, com um número quase inexistente de bolsas de estudo.”
“Na verdade, eu me formei na Gates, bolsa integral.”
“O Instituto de Tecnologia Gates é uma excelente universidade”, minha irmã comentou. “Uma das melhores, muito difícil de entrar.”
“Verdade, eles são um pouco mais rígidos na hora das admissões que a maioria das grandes universidades.”
“E o que trouxe você à Capital? Vai ficar por muito tempo? Seus pais ainda moram no 12?” Minha mãe perguntou, falsamente interessada, no mínimo pensando na possibilidade dele ter vindo atrás de mim. Não tinha dúvida que ela estava pensando que eu poderia ser a responsável pela mudança dele, e se tinha algo que Paula Everdeen. Tinha pânico era de ver as filhas se envolvendo com alguém sem dinheiro.
“Negócios; na verdade, estou morando aqui há alguns anos, embora viaje com frequência. Mas meus pais ainda passam a maior parte do tempo na casa deles no Distrito 12; eles gostam muito de lá.”
“É mesmo, vivi lá por anos, mas fiquei muito feliz em me mudar. A Capital tem tantas coisas em comparação ao 12. Que tipo de negócios você lida aqui? Deve ser algo razoavelmente bom para você não voltar ao Distrito 12.” A palavra indelicadeza definia muito bem minha mãe.
“Podemos dizer que sim. Da pra viver bem” Sem dúvida ele queria ver onde a conversa ia e até onde minha mãe poderia se indelicada.
“Peeta é o presidente da M.Company, mãe.” Tentei parecer indiferente à informação, mas sabia que estava na hora de acabar com o interrogatório. Naquele momento, vi a fisionomia dos meus pais mudarem completamente. Minha mãe suavizou o sorriso forçado com a palavra presidente e meu pai pareceu nitidamente impressionado, voltando sua atenção ao loiro pela primeira vez na noite.
“M.Company, a de tecnologia?!”
“É, pai.”
“Quantos anos você tem, meu rapaz?”
“Vinte e sete.”
“E já chegou à presidência?! Bem jovem; herdou a empresa? Subiu de cargo?”
“Pai.” Estava me sentindo péssima com aquela situação, mas parecia que apenas a Prim, que estava calada, dividia essa sensação comigo.
“Está tudo bem, querida.” Peeta falou tranquilamente, colocando a mão ligeiramente na minha perna de forma gentil, e me surpreendi com o toque. “Na verdade, eu sou um dos fundadores da empresa; comecei ainda na universidade juntamente com minhas irmãs e uma amiga, e deu certo.”
“Impressionante; ela hoje é o quê? A quarta melhor no segmento?”
“A segunda, na verdade, mas estamos trabalhando para alcançar a liderança.” Ele sorriu e, antes que meu pai falasse mais alguma coisa, fomos avisados de que o jantar seria servido e não pude ficar mais aliviada. Quando nos sentamos à mesa para iniciar o jantar, minha mãe acabou vendo o anel em meu dedo e não conteve a euforia.
“Katniss, isso é o que estou pensando que é?” O sorriso dela era enorme e eu sabia que minutos antes, se tivesse visto o anel, ela não teria essa reação tão exagerada.
“Mãe...”
“Sr. e Sra. Everdeen, talvez não tenha sido o ideal fazer as coisas assim, sem falar com vocês.” Peeta segurou minha mão por cima da mesa. “Mas eu realmente amo a filha de vocês e acabei pedindo a ela primeiro; espero que não considerem um desrespeito, mas ela aceitou se casar comigo.” Quem visse ele falando não duvidaria de suas palavras, e confesso que ele teria dado um bom ator.
“Que notícia maravilhosa! Temos que comemorar.” Minha mãe logo pediu para buscarem um champanhe, enquanto recebíamos os cumprimentos do meu pai e da minha irmã, que era, sem sombra de dúvida, a mais contida com a notícia. “Deixa-me ver esse anel, filha.” Estendi a mão e vi ela analisar a joia com atenção. “É lindo! Perfeito para você, meu bem.” Traduzindo, era valioso o suficiente; afinal, se havia algo que Paula Everdeen entendia bastante, era de joias, e nem mesmo meu outro anel de noivado havia feito ela sorrir assim, mesmo aprovando o noivo em questão na época.
Após um brinde, começamos o jantar, onde contei uma versão simples do pedido, supostamente feito na noite anterior durante um jantar. Nada muito extravagante, nada em público; afinal, na noite anterior eu estava no meu apartamento trabalhando.
“Katniss.” Me assustei quando Prim me chamou; eu havia ido ao banheiro e acabei ficando por alguns minutos no corredor, tentando fugir daquela situação sem sentido que se formou na sala de estar após o jantar. “Está tudo bem?”
“Sim.” Tentei sorrir; de todas as pessoas, eu sabia que minha irmã seria a mais difícil de enganar.
“Mesmo? Quer dizer, você diz que vai apresentar o novo namorado e, de repente, ele é na verdade seu noivo e você nem ao menos me contou.”
“Sei que parece que as coisas estão indo um pouco rápido demais, Prim, mas talvez seja melhor assim. Eu não me dei muito bem com namoro longo, não é?” Era uma cartada horrível de usar, já que eu sabia o quanto ela se preocupava com o que tinha acontecido com meu relacionamento anterior; ainda assim, usei, já que ela não poderia desconfiar de nada.
“Você sabe que não é bem assim; não precisa se apressar por conta disso.”
“Eu quero me casar com ele, Prim, e quando ele pediu, eu não estava esperando; ainda assim, não vi motivos para dizer não. Talvez estejamos atrasados, talvez fosse para termos ficado juntos anos atrás. Talvez Peeta seja meu destino.”
“Você não acredita nessas coisas, Katniss.” Prim me conhecia bem demais.
“Talvez comece a acreditar.” Brinquei, tentando amenizar o clima e evitar suspeitas.
“Só quero que você seja feliz, Katniss.” Sabia que ela estava sendo sincera. “Eu me preocupo.”
“Eu sei disso, e pode até não parecer, mas eu sei o que estou fazendo, Prim.” Aquela era a maior mentira que eu contei a ela, e olha que durante as últimas duas horas eu tinha mentido mais do que tudo. “Vamos voltar para a sala antes que a mamãe me envergonhe ainda mais e pergunte quanto ele ganha por mês.” Ela riu antes de concordar e voltar comigo para a sala de estar.
Eu sabia que precisava de mais para tranquilizar minha irmã; sabia que não seria fácil convencê-la de que estava tudo bem. Aquele jantar tinha sido apenas uma prévia do que teria que enfrentar, e de alguma forma, eu sabia que não seria nada fácil seguir com aquilo.
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