Notas iniciais
Wow! Demorei mas cheguei o/ Tudo bem meus anjos? Pensem só na saudade que senti de vocês T_T ~ Quatro da manhã e eu aqui postando fic, hahahahaha! Abstinência, minha gente! Estive viajando de quinta-feira à domingo ~Sim, esse foi o grande motivo do meu atraso dessa vez! Agora parece que minha vida está se estabilizando novamente, então tuuuudo volta ao normal xD Sem mais delongas, vamos ao capítulo... Está bem corrido, ok? Os dias voam xD Boa leitura meus lindinhos /o/ Nos vemos lá em baixo!

Los Angeles — 15h56min

~Kagami Taiga~

Fazia longos meses desde a última vez que Taiga passara por ali, naquela velocidade. O ambiente era o mesmo, com as palmeiras gigantes emoldurando o asfalto; as pessoas sempre sorridentes — geralmente turistas — conversando umas com as outras sobre a decoração de Natal; as ondas à sua esquerda chamando-o para um possível mergulho suicida no inverno... Essa era Los Angeles passando por sua visão, como um borrão de cores e formas. A cidade onde cresceu. A cidade à qual não pertencia mais.

Kagami cantarolava a melodia inconfundível (e praticamente ininteligível) de Chop Suey enquanto conduzia seu skate, hora fazendo impulso no asfalto — com o pé direito, calçando o Air Jordan de Daiki —, hora equilibrando-se no shape e seguindo apenas com o embalo anterior, realizando algumas curvas com sutis movimentos do corpo. Era uma sensação tão boa, jamais desaprenderia algo que gostava tanto.

Skate era tipo bicicleta, mas sem o guidão e o banco. E sem os pedais também. Na verdade não tinha nada a ver com bicicleta, exceto pelo princípio de que 'aprendeu uma vez, nunca mais esquece'. Kagami comprovou sua própria teoria após poucos minutos brincando na garagem de sua casa.

Além de conseguir manter muito bem a estabilidade em cima do objeto, o ruivo foi capaz inclusive de improvisar um 'Ollie', a manobra mais simples, depois de aproximadamente oito tentativas furadas. Não passaria tanta vergonha assim em público, a menos que levasse um tombo e ralasse o nariz. Soou como uma premonição em seus pensamentos, mas Kagami preferiu ignorar.

Depois de pouquíssimo esforço, Kagami estava ali, andando livremente pelo asfalto, sentindo o vento salgado e frio — mas não tão frio quanto o de Tóquio — bater contra seu rosto, deixando seus lábios minimamente secos. A atmosfera litorânea quase o levava aos dias passados, quando saía de casa como um louco em cima de quatro rodinhas, levando a bola de basquete em baixo dos braços. O local para onde se dirigia era o mesmo, pelo menos. E a pessoa que o esperava também.

Foi impossível não sorrir com o pensamento. Estava indo ao encontro de Himuro Tatsuya, seu irmão, a pessoa que sempre significou muito (praticamente tudo) para si. Ele foi seu primeiro ídolo, sua primeira inspiração, seu primeiro desafio, seu grande melhor amigo. Quase poderia arriscar dizer que ele foi sua primeira paixão, mas na verdade não era bem isso. Foi sua primeira confusão sentimental... Que veio seguida de uma bem maior, chamada Aomine Otário Daiki. Porém com o moreno era a mais pura paixão, não tinha como contestar.

Argh, já estou sentindo falta daquele idiota. O ruivo pensou, dando mais um impulso com o pé no asfalto, assim que o skate começou a perder velocidade. E sim, o Aho é um idiota, bipolar, arrogante, metido, preguiçoso, retardado... E fechado. Acrescentou mentalmente, cruzando a rua assim que o movimento dos carros deu uma diminuída — ser atropelado não era uma opção.

Apesar da lista infinita de defeitos que Daiki carregava consigo, o ruivo gostava demais dele. Não parecia haver uma explicação lógica para isso, no entanto já se acostumava com a ideia há um bom tempo. Ele era muito viciante, e até mesmo incrível. O admirava secretamente — desde sempre. Falaria essas coisas para ele quando estivesse de volta ao Japão. Foda-se o resto. Uma hora ou outra teriam que conversar.

Taiga continuou seu trajeto, procurando prestar atenção no trânsito à sua volta. Agora que seus pensamentos voltaram-se para Daiki, Kagami tinha a sensação de que aquilo ficaria martelando em sua mente até chegar na praça, onde encontraria Himuro. O moreno sempre 'chegava chegando' em sua cabeça, mas não era ruim. Era bom. Ou melhor, pensar nos lados positivos era bem agradável. Os lados negativos preferia ignorar — tornava tudo bem mais fácil, e não se desgastava tanto (até porque já pensara demais e de nada adiantava, pois perdera sua bolinha de cristal). Ser um paranoico também não era uma opção.

Assim que virou a esquina, o ruivo avistou seu destino final, à poucos metros, e mais uma vez foi obrigado a sorrir. Como sempre, Tatsuya o esperava sentado em seu skate, embalando-se distraidamente de um lado para o outro na calçada enquanto tomava um suco de caixinha — sempre com o sabor artificial de morango. Os anos nem pareciam ter passado, e a briga que tiveram era algo praticamente inexistente agora. Havia um ar nostálgico demais para pensar nas coisas chatas.

Assim que Himuro percebeu sua aproximação, sorriu também — ele estava radiante. Kagami reparou que encontrava-se na mesma situação. Hoje o clima estava diferente, nada de pressão ou desconforto, apenas alegria e até mesmo saudade. Seria o recomeço de algo que jamais deveria ter acabado.

Irmãos novamente.

~Himuro Tatsuya~

A sensação de ter o estômago virando cambalhotas foi completamente inevitável. As mãos suando e o sorriso quase partindo seu rosto ao meio também. Taiga estava chegando. Cada metro que ele avançava era um motivo a mais para o coração de Tatsuya quase sair voando. Estava tão feliz e ansioso que poderia explodir.

Himuro não sabia se desviava o olhar e fingia estar muito ocupado com seu suco, ou se permanecia encarando-o com aquela expressão boba que certamente ocupava seu rosto, mantendo o canudinho preso entre os dentes à mostra. Preferiu o encarar, e não se arrependeu.

O filho da mãe é tão bonito! Por que ele precisa ser tão bonito?

Tatsuya sempre gostou de vê-lo com aquele gorro preto. Dava-lhe um falso ar rebelde, assim como a expressão naturalmente emburrada, o moletom escuro, os jeans claros e surrados, e o costumeiro par de Air Jordan nos pés. Entretanto, por trás daquela fachada de bicho ruim, escondia-se a pessoa mais doce e inocente da face da Terra. A denúncia disso eram os caninos pontiagudos aparecendo aos poucos em um sorriso gigante — que hoje era exclusivamente seu.

Perfeito.

— Taiga! — O cumprimentou com a voz levemente tremida, levantando-se apenas com o esforço das pernas, assim que ele removeu os fones de ouvido.

Kagami provavelmente conseguiria ler a palavra 'SAUDADE' escrita no meio de sua testa, isso se não fosse capaz de perceber o quanto o amava só ao encarar seu olhar.

— Hey, Tatsuya! — O ruivo sorriu, com um dos pés ainda apoiado no skate, já estendendo o punho fechado. — Foi mal pelo atraso. Está... Está me esperando há muito tempo? — Ele arriscou perguntar, torcendo um pouco o nariz.

— Nah! Cheguei agora a pouco. — Mentiu, socando a mão do ruivo, ainda com um sorriso nos lábios. — Só deu tempo de comprar um suco para nós dois, como sempre. — Disse, abaixando-se novamente para pegar a outra caixinha que deixara ao lado do skate, na calçada. — Aqui, esse é seu. Ainda está um pouco gelado.

— Ah, obrigado! — Ele agradeceu, um pouco sem jeito, sem tirar os olhos vermelhos do objeto. — Não precisava ter se incomodado, eu mesmo ia comprar.

— Tudo bem. — Himuro tentou manter a seriedade, vendo-o remover o canudo da embalagem. — Está me devendo dois dólares então. — Taiga parou o que estava fazendo para encará-lo, com uma expressão embaraçada e surpresa ao mesmo tempo. — Brincadeira. Estou te dando. — Tatsuya sorriu, arrancando um breve riso nervoso do outro.

— Retardado. — O ruivo soltou uma última risada nasal, tomando o primeiro gole. — Valeu. — Agradeceu de forma tímida, olhando distraidamente para a praça às suas costas.

Não havia muitas pessoas por ali, mas o aglomerado de árvores e brinquedos infantis parecia estar sendo uma vista muito interessante para Kagami. Ele estava com vergonha, Himuro sabia disso. O ruivo sempre focava o olhar em um ponto aleatório para disfarçar.

— Mas então, reaprendeu a andar ou vai dar um vexame na pista? — Tatsuya perguntou, colocando o skate no asfalto, mas sem desviar o olhar de Kagami.

— Sou bom demais para passar vergonha com um skate nos pés. — O ruivo o olhou de canto, com um sorriso presunçoso e seguro nos lábios. Completamente charmoso. — Não vou desapontá-lo.

— Você não era tão metido assim! — Obrigou-se a rir, não conseguindo tirar os olhos de Taiga. O canudinho entre os lábios úmidos começava a se tornar hipnotizante. Já o beijara tantas vezes... Queria tanto, sentia falta de seu gosto... Mas agora uma leve barreira o separava daquilo. — Vamos então? — Desviou o olhar, antes que desse bandeira. Não poderia botar tudo a perder agora.

— Vamos. — O ruivo assentiu, já preparando-se para recolocar os fones de ouvido com a mão livre.

— Taiga! — Himuro o chamou a tempo, atraindo seu olhar curioso e naturalmente brilhante. — Obrigado por ter vindo. — Sorriu de forma tímida, encarando-o fixamente.

— Claro que eu viria. — O ruivo desviou o olhar, sem jeito, coçando os cabelos por cima do gorro. — A gente está ... Recomeçando, não é? Então é um dia importante. — Ele disse, um pouco hesitante, voltando a encará-lo.

— É! — Himuro sentiu a garganta secar, ao mesmo tempo que percebeu o estômago recomeçar com a sessão de cambalhotas. — É um dia muito importante. — Concluiu, dando o primeiro impulso em seu próprio skate, acertando a cabeça de Taiga com a palma da mão, assim que passou por ele. — Quem chegar por último paga o café!

— Vai catando os yenes no bolso, Tatsuya! — O ruivo riu e o acompanhou com pressa, ainda com o maldito canudinho entre os lábios.

— Dólares, Taiga! Dólares. — Himuro sorriu de orelha a orelha, pegando mais embalo ao perceber que ele já se aproximava. Ele sempre vencia.

Hoje tinha tudo para ser o melhor dia do ano de Tatsuya. Seu íntimo dizia que tudo daria certo, conforme viera planejando há algum tempo. Faria de tudo para que assim fosse... Começando por hoje. Ficariam próximos novamente, essa era a primeira etapa.

***

A tarde transcorreu da forma mais agradável possível. Como esperado, a pista de skate próxima à quadra de basquete estava praticamente vazia, apenas dois garotos de aparentemente 13 anos brincavam por ali — e sabiam andar muito melhor do que Tatsuya e Taiga, juntos. Foi um dia muito divertido, apesar dos leves tombos que levaram por tentarem se aventurar em rampas íngremes demais. Um ralado aqui e outro ali não mudariam nada... Himuro estava feliz demais para se importar.

Não era o 'andar de skate' em si que animava Tatsuya, e sim a situação toda. A liberdade que ganhou com Taiga naquele curto espaço de tempo chegou a ser assustadora, e realmente inesperada. Foi como se nunca tivessem se afastado após uma briga besta e infantil. Infinitamente melhor do que estava esperando. Cada segundo ao lado de Kagami fazia o interior de Himuro praticamente fervilhar de empolgação e confiança. Tudo estava dando certo!

Assim que a noite começava a aparecer timidamente, Taiga anunciou — pela quarta vez — que estava com fome e que não aguentava mais a tortura, pois precisava restaurar em sua 'memória de obeso' o gosto do bolo de chocolate. Como ambos encontravam-se nitidamente cansados, sentaram-se à borda de uma das maiores rampas do local até a adrenalina baixar.

Aquele momento de descanso, que supostamente deveria ter durado poucos minutos, tornou-se meia-hora de conversa, onde riram ao comparar a quantia de machucados que adquiriram no dia (Nove à sete para o ruivo, sem contar o bônus pelo ralado no nariz). Somente no instante em que o estômago de Kagami roncou — muito alto —, lembraram-se que deveriam estar sentados em um acolchoado e confortável canto alemão, comendo o melhor bolo do mundo.

A atmosfera na cafeteria estava igualmente agradável, no entanto, para Himuro, o motivo não era o ambiente aconchegante e aquecido, e muito menos a comida. O único responsável era Taiga e sua energia calorosa e inocente. Kagami com certeza era a pessoa mais meiga e ogra que Tatsuya conhecia. Ao mesmo tempo em que comia o equivalente à quatro pessoas, ele conseguia ser atencioso e lançar os sorrisos mais verdadeiros e doces do mundo.

Himuro simplesmente não conseguia desviar os olhos de Taiga, tinha medo inclusive que ele flagrasse o fascínio em seu semblante. Discretamente, Tatsuya procurava prestar atenção em cada mínimo detalhe — desde os movimentos das sobrancelhas espessas e bifurcadas, até o costume dos dedos tamborilando na mesa conforme se empolgava com a conversa. O ruivo tinha um jeito transparente, abrasador e envolvente demais, e aquilo o atraía de maneira absurda — talvez por ser exatamente o seu oposto.

Já era aproximadamente 19h30min quando perceberam que era hora de sair da cafeteria. A razão? Estavam se tornando um verdadeiro incômodo para todos. Não era para menos... Himuro soltou uma inevitável, infantil e escandalosa risada ao reparar na boa quantia de chocolate incrustado nas divisas dos dentes de Taiga. A cena repentina arrancou vários risos nada discretos de Kagami também, pois os dentes de Himuro estavam igualmente sujos. Como um ciclo, as gargalhadas de ambos preencheram a cafeteria, atraindo olhares não muito amigáveis até sua mesa. Com certeza era a hora de ir para casa... Porém, antes de saírem, compraram alguns chicletes, para finalmente pararem de rir.

Para Himuro aquele dia não precisava ter fim. Estava tudo tão natural que não precisava nem mesmo de um beijo... Apesar de deseja-lo intimamente.

Mas ainda não.

***

~Kagami Taiga~

— E como está sua mãe? — Kagami perguntou em meio à um bocejo, olhando as luzes acesas por trás das cotinas da casa de Himuro, assim que pararam de caminhar. Já estava um pouco tarde.

— Ah, implicando, como sempre. — Tatsuya soltou uma breve risada nasal, encostando-se nas grades altas do portão. — Ela quer que eu volte para cá. Fica dizendo que não gosta de me ver solitário. — Comentou, deixando o skate apoiado ao seu lado. — Como se eu me importasse...

— Você está sozinho no Japão? — O ruivo questionou, com a testa franzida, colocando o skate no mesmo local. — Não conversamos direito desde quando você foi para lá. — Comentou, recordando brevemente da distante briga que tiveram. Isso não o preocupava mais, agora tudo estava bem novamente.

— Pois é... Estou morando com meus tios. — Himuro explicou, maneando o rosto para a franja se ajeitar, pois o vento a afastava de seu rosto, quase deixando a mostra o outro olho acinzentado. — Prefiro o clima de lá, meio frenético e ao mesmo tempo frio. Acho que combina mais comigo.

— Sinceramente, também prefiro o Japão. Mas ao contrário de você, acho o clima bem caloroso. — O ruivo sorriu minimamente, lembrando-se de Daiki e dos amigos. Já estava com saudade disso tudo. — Gosto de como as coisas acontecem por lá. Mas estou morando sozinho.

— Eu sei. — Himuro afirmou, virando-se minimamente para fitá-lo de frente. — E também sei que você não gosta de ficar sozinho.

— Ah, não gosto mesmo. — O ruivo concordou, também encostando-se ao portão, ao lado de Tatsuya. — Sem falar que de noite quase me cago de medo. — Apontou, com um suspiro teatral.

— Você sempre foi medroso. — Ele balançou negativamente a cabeça, soltando uma breve risada. — Acho que nunca vi alguém tão cagão quanto você.

— A culpa é toda sua. — Taiga acusou-o, olhando-o de canto. — Você sabe, não é?

— Calúnia da sua parte! — Himuro fingiu sentir-se ofendido, fazendo um forçado sinal de rendição ao erguer as mãos. — Nunca te forcei a assistir nada! Nadinha!

— Seus filmes de terror foram os culpados, então. — Kagami deu-se por vencido, ainda vendo-o lutar contra a franja, para ela permanecer no lugar. — Ah, pare com isso! Já está me dando nos nervos. — Irritou-se de forma divertida, dando um tapa na mão dele. — Deixa teu olho aparecer, caralho.

— Sabe que não gosto. — Ele torceu o nariz, virando-se para olha-lo com um sorriso pequeno e culpado nos lábios. — Minha cara fica estranha. — Rendeu-se, abaixando os braços.

— Nossa, muito estranha. Mal suporto te encarar. — O ruivo revirou os olhos de forma cômica, fitando propositalmente um poste de energia no lado oposto do asfalto. — O que eu tenho de medroso, você tem de fresco.

— Taiga...

— Hm? — Kagami resmungou distraidamente, retirando a toca, que começava a fazer uma pressão chata em suas orelhas. Enregelou-se na hora.

— Desculpa?

A pergunta inesperada e completamente fora de hora fez o coração de Taiga parar por um breve instante, sabe-se lá por quê. Com calma e engolindo em seco, o ruivo virou o rosto para encará-lo, tentando aparentar a maior naturalidade possível. Seu gorro era o único que sofria os danos, pois o apertava com força, na tentativa de disfarçar a sensação que o preenchia no momento. Era uma mistura de medo, surpresa e curiosidade.

— Por...? — Soltou, mordendo os lábios inferiores de forma inconsciente. Teria que parar com isso, era sempre a denúncia de seu nervosismo. Ou prazer... Mas nesse caso, nervosismo.

— Pelas merdas que te falei, pelas merdas que eu fiz à você naquela época, pelo soco que te dei. Por tudo aquilo. — Ele suspirou, encarando-o, agora com os dois olhos a mostra. O vento estava bem forte e gelado. — Não precisava ter sido da forma que foi. Não pensei antes de agir e fui um babaca. Até hoje me culpo por isso.

— Ei, esquece. Já foi. — Kagami apressou-se em dizer, sentindo o estômago dar um leve salto. Apertou o gorro com mais força. Não gostava de falar sobre aquele passado, ainda tinha um pouco de receio, porém gostava menos ainda de vê-lo se culpar por algo que já deveria ter sido superado.

— A gente realmente recomeça hoje, não é? — Himuro perguntou em voz baixa, dando um passo a frente, para que ficassem mais próximos.

— Sim. — O ruivo respondeu, firme. — Somos irmãos novamente. — Acrescentou com um largo e confiante sorriso, mesmo quando uma leve inquietação perambulava por seu interior. Decidiu ignorá-la. Não queria pensar nessas coisas agora.

— Irmãos novamente. — Ele mostrou aos poucos os dentes (agora limpos), tocando sutilmente em sua corrente no pescoço. — Mas antes eu preciso saber se você me desculpa. — Acrescentou, olhando para o anel entre os dedos.

— Claro que te desculpo. — O ruivo sorriu de canto, percebendo o desconforto em Himuro. Ele sempre fora bem durão, então era raro se abrir assim. — Já passou, beleza?

— Certo. — Tatsuya sorriu ao soltar o objeto. — Posso te dar um abraço? — Ele perguntou, um pouco sem jeito, olhando-o novamente.

— Hm... Sim! — Kagami confirmou, sentindo o rosto esquentar minimamente. — Fresco. — Disfarçou, aproximando-se um pouco.

— Medroso! — O menor sorriu e envolveu seu tórax, apoiando a testa em seu ombro, com delicadeza. Foi um gesto extremamente tímido de início, mas que logo tornou-se intenso e até mesmo reconfortante.

Após poucos segundos, o ruivo teve a confirmação de que seus minúsculos receios realmente não passavam de meros receios. Aquele abraço estava sendo um gesto completamente fraterno, como era para ser, sem segundas intenções. O alívio foi imediato, mandando embora todas as pulgas chatas que ainda se encontravam atrás de sua orelha. O que passava pelo seu íntimo naquele instante era completamente diferente do que acontecia quando estava com Daiki, todavia não menos intenso.

Seguro, Kagami o apertou com um pouco mais de firmeza e apoiou o rosto nos cabelos escuros de Tatsuya. O cheiro doce que ele exalava era o mesmo, levemente fresco, bastante agradável. Era hortelã. Aquilo o fez sorrir. Sentiu uma imensa falta de seu irmão, de seu companheiro, de seu melhor amigo de infância. Recomeçariam, sem erros, beijos ou brigas. Tudo estava completo agora, e o selo de sua irmandade fora esse abraço.

***

— Cheguei, mãe. — Kagami anunciou pelo interfone, anexo ao muro, apertando o botão branco de forma distraída. Estava com a cabeça muito distante, incontestavelmente feliz e aliviado.

Não precisou esperar muito tempo até o comum e discreto ruído do portão automático soar, dando permissão para o ruivo abri-lo e avançar pela calçada de pedras de sua antiga residência. Não importava de que ângulo olhasse, aquilo sempre seria uma construção artificial e grande demais. Bonita, com certeza, porém fria.

Cantarolando qualquer melodia de Nirvana, o ruivo caminhou pacientemente até a grande e imponente porta branca, que já estava destrancada, e chegou ao hall da casa. Era seu hábito tirar os sapatos ali, e assim o fez, deixando o skate encostado à parede também. Como o objeto seria usado constantemente enquanto estivesse em L.A., largá-lo por ali seria a melhor e menos exaustiva opção.

Rindo de sua própria atitude preguiçosa, Kagami seguiu com os pensamentos variando entre a saudade que sentia de Daiki e a amizade mais uma vez firmada com Himuro. Eram sentimentos distintos, mas igualmente fortes.

— Oi Taiga. — Cho o saudou do sofá da sala, erguendo o olhar de seu tablet assim que o ruivo cruzou a porta. — Tudo bem?

— Olá mãe, tudo sim. — Kagami afirmou ao retirar o gorro, com um sorriso brincando nos lábios. — E com você? — Perguntou ao sentar-se no sofá, que ficava de frente para ela. Assim que soltou o peso do corpo naquele estofado confortável, o ruivo constatou que estava realmente cansado e que precisava deitar urgentemente.

— Estou bem. Trabalhando um pouquinho. — Cho soltou um breve sorriso culpado, voltando o olhar para o dispositivo, que deixava seus óculos brilhantes com a claridade.

— O pai já chegou? — O ruivo perguntou de forma distraída, olhando ao redor. Não havia nenhum outro som na casa, então a resposta quase não precisou ser verbalizada.

— Não. Ele volta apenas amanhã a noite. — Ela permaneceu fitando o tablet ao falar, mas uma pequena ruga surgiu em sua testa.

— Vocês... Estão bem? — Kagami arriscou questionar, com uma das sobrancelhas levantadas. Sentiu uma leve veemência no tom de voz dela, e isso o preocupou.

— Ah, claro que sim! — Ela sorriu no mesmo instante, levantando o rosto para encarar o ruivo. — Está tudo bem, só o trabalho ocupa muito nosso tempo, você sabe. Inclusive nas vésperas de Natal. — Ela inclinou o rosto minimamente para o lado, com a intenção de mudar de assunto. — Sua tarde foi boa?

— Foi sim. Ótima na verdade. — Taiga abriu um largo sorriso, coçando o nariz de forma involuntária. Uma casquinha do machucado já estava se formando ali. Deveria ter confiado em sua premonição. — Bem cansativa também.

— Estou vendo. Você está com uma carinha de sono... E com alguns machucadinhos. — Cho disse com um tom gentil. — Mas me conte, como está o Himuro-chan?

— Ah, está bem. — Kagami deu de ombros, não conseguindo achar outra palavra para descrever. — Como sempre.

— E vocês dois? — Ela perguntou, com uma das sobrancelhas levantadas.

— Amigos! — Kagami afirmou, entendendo muito bem onde ela queria chegar. Cho estava insistindo demais naquilo, o que era um pouco chato. — Como antes.

— Essa sua carinha boba aí... Não sei não. — A mãe ergueu um pouco mais o rosto, mantendo o sorriso nos lábios. Era o indício de que aquilo provavelmente foi uma piada implicante. Ou uma tentativa, pelo menos.

— Nada a ver. Só estou feliz porque antes eu e ele havíamos nos afastado, e agora estamos bem novamente. — O ruivo justificou-se na mesma hora. — Tatsuya costumava ser o meu melhor amigo, então senti falta dele. Só isso. — Decidiu aproveitar a deixa para inserir Daiki no contexto. Não haveria momento melhor. Dane-se tudo. — E... Eu na verdade gosto de outra pessoa.

— Mesmo? — Agora ela surpreendeu-se, ajeitando os óculos com um calmo gesto de dedos. — Você não me contou...

— Bem, estou contando agora. — Kagami soltou um breve riso nervoso, olhando para as próprias mãos. Estava sentindo um leve alívio por ela não ligar imediatamente suas notas baixas ao affair, já que isso, aparentemente, era o que mais importava para ela.

— Me conte mais então. — Ela o incentivou, prestando atenção em si agora.

— Ah, ele... O nome dele é Aomine Daiki. — O ruivo endireitou-se no sofá, apertando o gorro entre os dedos em um sinal de animação e apreensão ao mesmo tempo. Lógico que não poderia sair falando coisas demais, mas o fato de sua mãe estar interessada no assunto o deixava satisfeito. — A gente está... Saindo há um mês e pouquinho. Pelo menos eu acho.

— Como assim, 'você acha'? — Ela franziu a testa, desviando o olhar rapidamente para o tablet, que vibrou, mas voltou a prestar atenção em si no segundo seguinte.

— Ah mãe... A gente... Sei lá como falar. — Kagami coçou os cabelos, nitidamente desconfortável. — Estamos juntos, mas não estamos juntos? — Perguntou para si mesmo, olhando para as paredes brancas da sala. — Acho que é isso. Mas estamos juntos. — Afirmou, rindo da expressão confusa da mãe.

— Só preciso saber se você está feliz. — Cho perguntou de imediato. — Quero dizer, você gosta dele?

— Estou feliz sim. — Kagami concordou, lembrando das expressões preguiçosas de Aomine. O sorriso enorme foi inevitável. — Gosto mesmo dele. E sem confundir as coisas dessa vez.

— Ele é um bom menino? — Ela continuou o questionário, encarando-o de forma gentil agora.

— É um idiota, mas é sim. — Kagami obrigou-se a rir, balançando a cabeça. — Estou com saudade dele. — Acrescentou em voz baixa, apertando mais ainda o gorro entre seus dedos. Nunca era fácil conversar com a mãe, muito menos sobre aqueles assuntos.

— Taiga, você sabe que apenas desejo sua felicidade, não é? — Cho disse em tom de voz brando, trocando a posição das pernas.

— Sei.

— Se isso te faz bem, fico realmente satisfeita. — Cho sorriu, pegando novamente o tablet em mãos. — Teremos bastante tempo para conversar sobre esse tal Aomine Daiki. Quero saber tudo sobre ele. Mas agora eu só te peço uma coisa... Nunca se jogue de cabeça em um relacionamento, pelo menos não tão cedo, ok amor? — Ela aconselhou, atraindo seu olhar. — Sei que sou um pouco chata, fico apertando na mesma tecla ao falar de suas notas, que você precisa estudar e deixar o namoro para mais tarde... Mas tudo o que digo é para o seu bem. Penso muito em seu futuro, querido.

— Eu sei, mãe. — Kagami voltou a fitar os próprios dedos. O assunto mudou de rumo e acabou ficando sério demais, como sempre. Ligeiramente desnecessário depois de um dia tão bom. Isso sem falar que estava cansado e queria muito conversar com Daiki antes de dormir.

Ele deve ter mandando alguma coisa no Whats...

— Você puxou seu pai, sabia? — A mãe sorriu, balançando a cabeça. — Os dois são avoados e colocam sempre as emoções em primeiro lugar. Sua cabeça está lá no Japão agora, não é?

Kagami não disse nada, apenas abriu um meio sorriso tímido, respondendo automaticamente à pergunta da mãe.

— Você está apaixonado, então é natural. Não posso e nem quero impedir isso. Mas só te peço para pensar um pouquinho antes de agir. E isso com qualquer coisa, não apenas em relacionamentos. — Ela comentou, já desbloqueando a tela do dispositivo. — Não quero que se machuque jamais.

— Ok, mãe. Eu não vou me machucar. — Kagami disse quase que automaticamente, em meio à um bocejo. — Prometo que vou pensar mais antes de agir.

— Eu sei que sim. — Cho disse com um sorriso pequeno, voltando ao tablet. — Comece fazendo isso hoje e vá descansar agora amor. Amanhã conversaremos um pouco mais sobre o assunto.

— Ok mãe, boa noite. — O ruivo falou, levantando-se do sofá.

— Boa noite querido. Se precisar, estarei aqui na sala, ok?

— Uhum. — Kagami confirmou, aproximando-se das escadas, que o guiariam ao seu refúgio artificial.

Enquanto começava a subir os degraus, Taiga voltou o olhar para a mãe. Ela novamente estava absorta em seu trabalho, analisando gráficos e todas aquelas documentações chatas que chegavam constantemente em seu e-mail. A atenção que ela dava ao dispositivo fez com que o ruivo soltasse uma breve risada nasal e continuasse seu trajeto escada acima. Cho jamais mudaria seu jeito racional e metódico.

O foco (verdadeiro vício) no trabalho era uma espécie de maldição na família Kagami — maldição da qual o se livrara por algum motivo desconhecido. Se não fosse tão fisicamente semelhante aos pais, Taiga arriscaria dizer que era adotado.

Não é como se estivesse triste, pois era muito bem acostumado a ficar em 'segundo plano' há anos, mas sentiu um leve ar de solidão quando chegou ao corredor escuro do andar superior. Poderia ter ficado com Tatsuya por mais tempo, conversando em frente ao portão sobre assuntos aleatórios e agradáveis... Mas agora, melhor ainda, iria tomar um banho e esconder-se em baixo da coberta dos Lakers, onde ficaria conversando com Daiki até sabe-se lá quando.

Estava realmente com saudade. Queria voltar para o Japão o quanto antes. Lá era seu lar agora.

***

25 de dezembro — Tóquio — 21h

~Aomine Daiki~

Todos os Natais de Daiki eram praticamente iguais, pelo menos os que conseguia recordar. A família inteira — por parte de Yumiko — se reunia para celebrar a data na chácara de sua avó. Todos conversavam animadamente até a chegada da bendita meia-noite, quando trocariam presentes simbólicos e finalmente serviriam a janta, para então poderem dormir com a sensação de 'missão cumprida'.

Por mais que gostasse da data, lá estava Daiki, caminhando sozinho por entre as árvores encobertas com uma fina camada neve, fugindo de seus primos e tios inconvenientes. A última coisa que precisava no momento era sentir bafo de saquê enquanto ouvia piadas bestas e sem graça. Solidão as vezes era necessário, e naquele instante era o que mais precisava — mesmo que fosse no dia de Natal.

Se tinha algo que Daiki apreciava de verdade era aquele clima bucólico, com o ar puro (e gelado) adentrando seus pulmões, acompanhado pelo cheiro doce do mato. Tudo isso ficava três vezes mais intenso com o silêncio, cortado apenas pelos ruídos dos insetos remanescentes — até mesmo de algumas cigarras suicidas que não fugiram do inverno.

O pensamento o fez sorrir discretamente. Lembrou-se que ainda teria que caçar as benditas cigarras no verão, para enfiar no cu de Taiga e provar que era melhor. Recordou-se também que no dia 28 seria o jogo final de Bulls x Spurs, no qual estava apostada a dignidade de um dos dois. E ainda lembrou que Kagami o devia pelo menos uns dez favores, por ter perdido tanto no fliperama.

— Vaza da minha cabeça Taiga, estou tentando ficar sem pensar. — O moreno reclamou para si mesmo, agitando o rosto assim que sua mente começou a fervilhar mais uma vez.

Ficar alheio ao mundo não estava sendo uma tarefa fácil nos últimos tempos. A verdade é que estava com saudade daquele idiota, e apenas as conversas esporádicas no WhatsApp não estavam mais sendo o suficiente. Isso o deixava inquieto.

Aomine nunca imaginou que algum dia teria a capacidade de gostar tanto assim de uma pessoa, e o mais engraçado é que isso aconteceu em um curtíssimo período de tempo — e com Taiga, seu rival nato. Era um pouco assustador, entretanto havia milhares de pontos positivos nisso tudo. Aprendeu a procurá-los e agora não via praticamente nada de negativo em se envolver. Não havia um motivo sequer que o impedisse de ser apenas de Taiga, e de ter ele apenas para si.

Queria algo realmente sério com o ruivo. Iria pedi-lo em namoro, estava mais do que decidido.

— Isso não é amor... É? — Perguntou para o ar gelado da noite, franzindo a testa. — Cara, não, não é! — Balançou a cabeça, abraçando o corpo enquanto continuava seu trajeto sem rumo.

Por mais que parecesse, não fazia o menor sentido amar alguém assim, de um mês para o outro. Se apaixonar tudo bem, mas amor estava em um patamar infinitamente mais alto. Sinceramente, conhecia muito pouco do ruivo para alcançar esse ponto — mesmo sabendo que o sorvete preferido dele era flocos, que ele tinha alergia à amendoim e que conseguia plantar bananeira por longos minutos sem perder o equilíbrio.

— Meu. Deus. — Suspirou, irritando-se consigo mesmo.

Aomine não lembrava que dentro de si havia um lado sentimental (e até mesmo romântico) oculto, que agora surgiu misteriosamente das cinzas e deu com dois pés no peito de sua parte racional e fechada. Mal se reconhecia.

Na verdade esse lado era extremamente vivo antes da mudança toda que aconteceu na Teiko — quando ficou repreendido e até mesmo angustiado pela falta de desafios e diversão em algo que tanto amou —, porém, mesmo assim, Daiki preferia guardá-lo bem lá no fundo. Essa fachada durona era sua segurança, seu escudo. Decidiu seguir os passos de sua mãe, mantendo-se mais recluso, independente e até mesmo racional, porém Taiga o fazia voltar a ser quem sempre foi... Não sabia classificar se era algo bom ou ruim. Sentia-se livre e à vontade na presença de Kagami, então provavelmente era bom.

Mas pode vir a ser uma bela de uma fraqueza em algum momento. O subconsciente o alertou, desconfiado.

— Acho que eu não deveria pensar assim. — Aomine suspirou, franzindo a testa para ingorar o aviso. — Tenho que ser eu mesmo com Taiga... A Momoi está certa. — Concluiu, sentando-se em uma pedra, mas arrependendo-se logo em seguida ao constatar que estava úmida e gelada (assim como sua bunda agora). — Oh, merda! — Reclamou, tirando os resquícios de neve de sua calça. — É um sinal de que estou fazendo uma cagada, é? — Perguntou para o nada, decidindo retornar para casa.

Durante o trajeto da volta, o sorriso besta foi inevitável. Estava agindo como uma menininha apaixonada e besta. E com saudade.

***

27 de dezembro — Los Angeles — 22h

~Kagami Taiga~

Assim que o celular vibrou, os dedos de Taiga foram atraídos automaticamente ao bolso do jeans claro. Lógico que era ele. O sorriso surgiu no mesmo instante em que viu o nome do moreno em seu WhatsApp. A leve pontada de saudade também se meteu na história.

Aomine Daiki: Já comprou meu presente?

Kagami teve que rir, já correndo os dedos pela tela. Falara que levaria alguma coisa de L.A. para ele, só não esperava que ele lembrasse do fato.

Kagami Taiga: Por que eu compraria um presente pra você, idiota?

Aomine Daiki: Ainda preciso dizer?

Kagami Taiga: Precisa.

Aomine Daiki: Pq sou seu ídolo. Simples.

Kagami Taiga: Morra _|_ Mesmo que você não mereça, comprei ontem.

Aomine Daiki: Sério?

Kagami Taiga: Sim.

Aomine Daiki: Vou precisar comprar um tbm?

Kagami Taiga: Claro q vai '-'

Aomine Daiki: Considere o tênis um presente.

Kagami Taiga: Ele já é meu por mérito, então não conta :D

Aomine Daiki: Mérito é o meu cu. Vc ñ me venceu ainda.

— Seu vocabulário culto sempre me surpreende! — O ruivo riu, revirando-se na cadeira, apoiando os cotovelos na mesa para digitar melhor.

Kagami Taiga: Já passei por vc .-.

Aomine Daiki: Sqn _|_

Kagami Taiga: Vamos discutir isso pela eternidade ¬¬

Aomine Daiki: Quem ganhar a discussão paga a próxima pizza. Fechado?

Kagami Taiga: Não tire o teu cu da reta. Você vai pagar a próxima pizza, porque eu paguei a última.

— Terminou ou vou precisar jogar seu celular na privada? — Himuro perguntou comicamente, atraindo sua atenção no mesmo instante.

— Ah, foi mal. — O ruivo riu um pouco sem graça, percebendo que ele o observava há algum tempo, segurando dois grandes copos de chopp. Nem percebera o retorno do irmão à mesa, estava absorto demais na breve conversa. — Vou dar tchau, já desligo.

— Relaxa Taiga. Eu estava brincando. — Himuro disse ao sentar-se, bebericando seu tradicional chopp de trigo. — Faça o que você quiser. — Ele sorriu, entregando-lhe o outro copo.

— Você me convidou para sair, não vou te deixar no vácuo. — O ruivo afirmou, já despedindo-se de Aomine. Sim, era um pouco contra vontade, mas seus princípios não permitiriam que deixasse Himuro de lado. Quando chegasse em casa Daiki ainda estaria online, e então poderiam conversar melhor. — Pronto! — Sorriu alguns segundos depois, vendo o irmão observar o térreo do Pub pelo parapeito da sacada metálica, propositalmente desgastada.

Estavam sentados em uma mesa redonda, para dois, no andar superior do Jimmi's Pub. A meia luz variando entre o amarelo e o vermelho era a mesma de sempre, iluminando parcamente as paredes rústicas de madeira e tijolo à vista. Pôsteres de jogadores de futebol americano e bandas de rock se misturavam à decoração retrô do ambiente, transmitindo um ar descontraído e até mesmo aconchegante. O único inconveniente era o cheiro de cigarro que subia com a fumaça, mas nada que atrapalhasse a noite.

— Não sabia que agora tinha música ao vivo aqui. — Himuro comentou de forma distraída, olhando para os integrantes de uma banda desconhecida, ajeitando seus instrumentos e aparatos em um pequeno palco de canto.

— Muito menos eu. — O ruivo ergueu as sobrancelhas, curioso. — O que será que eles tocam?

— O que será que barbudos e cabeludos com guitarras tocam, Taiga? — Tatsuya virou-se e soltou uma breve risada debochada e irônica, tomando mais um gole de seu chopp.

— Vai se foder! — Taiga soltou uma breve gargalhada, chutando-o por debaixo da mesa. — Sei que é rock, mas queria saber que tipo de rock é. Idiota. — Acrescentou, finalmente pegando o copo em mãos.

— Logo a gente descobre. — Ele deu de ombros, ainda sorrindo um pouco, voltando o olhar para o palco. — Mas e aí, quando ia me contar que está namorando?

— Hã? — Kagami exasperou-se, quase afogando-se com seu primeiro gole da bebida. Com certeza corou, mas a luz ambiente não permitiu que Himuro descobrisse. — Eu... Não estou namorando.

— Ah não? — Ele sorriu de canto, dirigindo o olhar insinuante para o celular jogado em cima da mesa. — Você não sabe mentir, Taiga. — Himuro acrescentou gentilmente, tornando a situação mais embaraçosa ainda.

— É sério... Não estou namorando. — Reafirmou, sentindo o rosto esquentar um pouco mais a cada instante. Queria poder dizer o contrário.

— É só 'amor de pica' então? — Tatsuya perguntou com uma naturalidade espantosa, que fez o ruivo engasgar com o próprio ar agora, arrancando uma breve risada do irmão. — Ei, não se faça de inocente, Taiga. Você sabe muito bem o que é isso. — Ele acrescentou, dando leves tapinhas teatrais em suas costas.

— Oe! — O ruivo desviou o olhar, tímido, para o pôster de uma banda chamada The Pretty Reckless, onde uma mulher loura e muito bonita tinha apenas fitas adesivas tapando os mamilos. Redirecionou o olhar mais uma vez, agora para o próprio líquido em seu copo. — Não fale essas coisas.

— Foi mal. — Ele disse, com as sobrancelhas levemente arqueadas, deixando o braço apoiado em sua cadeira. — Achei que houvesse algo sério entre você e o Aomine.

Pasmo, Taiga voltou a encarar os olhos acinzentados de Himuro. Até ele sabia?

— Como eu sei? — Ele maneou o rosto, ajeitando a franja que começava a cair por cima de seu nariz. — Você não é nada discreto, Taiga. Isso sem falar que eu te conheço muito bem.

— Eu sei. — O ruivo fez uma careta, tomando mais um longo gole do chopp. Precisaria dar um jeito em sua transparência, e urgentemente.

Kagami não conseguia afirmar com certeza, mas parecia estar sentindo uma leve culpa por conversarem sobre Daiki — afinal, querendo ou não, tivera uma espécie de rolo com Himuro, e aquele era o último assunto que deveria existir entre os dois —, no entanto o irmão parecia tranquilo e nem um pouco mal. Quem estava inquieto era o próprio Taiga... Só não sabia o motivo.

— Mas vocês estão juntos, não é? — Ele insistiu, um pouco confuso, tamborilando os dedos no encosto da cadeira de Taiga, roçando-os sutilmente em suas costas.

— Não sei, pra ser sincero. — O ruivo admitiu a contragosto, olhando para o palco logo abaixo. Não estava realmente prestando atenção no que a banda fazia, mas notou que o vocalista tinha cabelos castanhos muito longos e lisos. Era bem legal.

— Deve ser um 'amor de pica' então. — Ele deu de ombros, tomando mais um gole de seu chopp. — Já tive alguns assim também. Eles vêm e vão.

— Quê? — Kagami virou-se rapidamente para olhá-lo, com as sobrancelhas levantadas. Estava perplexo com a atitude diferente e confiante de Tatsuya, e um pouquinho irritado por ele afirmar aquelas coisas sem saber de nada. Decidiu ignorar a parte do 'amor de pica'. Seus sentimentos por Daiki estavam bem claros e não valeria a pena discutir.

— Ou você achou que eu ainda era um 'Cherry Boy'? — Ele riu, mordendo a borda do copo.

— Mas que bosta. Quem é você e o que você fez com o meu irmão? — Kagami obrigou-se a rir da expressão verbal um tanto bizarra que ele usou. — O que diabos é isso?

'Cherry Boy'? —Tatsuya questionou, divertido, com as sobrancelhas levantadas. — Significa virgem. E eu não sou virgem.

— Jura? — Kagami não escondeu o assombro em seu semblante. Inclusive arregalou os olhos.

Jamais imaginou Tatsuya por esse ângulo, e a cena que apareceu involuntariamente em sua mente o fez corar e desfazer o contato visual por breves segundos. Não tinha nenhuma segunda intenção, mas foi praticamente impossível não pensar em Tatsuya fazendo aquele tipo de coisa.

— Por que você está tão surpreso, idiota? — Ele riu, avaliando-o.

— Não sei... — O ruivo sorriu também, olhando mais uma vez para o vocalista cabeludo, que ajeitava a correia da guitarra ao redor de seu corpo. — Acho que... Sei lá... Tenho a mente pura demais. — Lançou a 'quase mentira', torcendo o nariz.

— Ah, claro que tem! — Tatsuya sorriu, completamente descrente, dando-lhe um tapa na cabeça ao remover o braço de suas costas. — Tão pura quanto a minha.

— A sua não é pura? — Novamente Kagami chocou-se, olhando para o rosto de Tatsuya. Não conseguia ver malícia nenhuma ali, para ser sincero. Talvez agora, quando ele mordia a borda do copo mais uma vez. Porém ainda parecia completamente inocente. Bem, nem tanto.

Meu pau, no que eu estou pensando? O ruivo repreendeu-se voltando a olhar para o palco. Tomou um longo gole de chopp, constatando que o conteúdo estava acabando.

— Passei tantos anos ao seu lado, e você ainda não me conhece direito. — Ele comentou, olhando para a banda, que agora ocupava-se em testar e afinar os instrumentos, preenchendo o pub com o som disforme e aleatório de guitarras.

Acho que não conheço mesmo... Pelo menos não esse seu lado B. O ruivo respondeu mentalmente, engolindo em seco. Sentia-se um pouco quente e desconfortável ali, provavelmente por causa da bebida e pelo rumo peculiar que a conversa tomou.

Não era a primeira vez que saía com Himuro desde quando chegara em L.A., inclusive já passaram algumas horas dialogando sobre todo e qualquer assunto... Mas nunca sobre Daiki... e muito menos sobre sexo.

Meu caralho, eu estava falando sobre sexo com ele? O ruivo questionou-se, um pouco atônito. Olhou de canto para o irmão, que continuava a morder a borda do copo quase vazio. Não era como se Kagami estivesse curioso sobre o assunto, mas realmente não imaginava que Tatsuya tivesse um lado pervertido — bem acentuado por sinal. A verdade é que sempre o viu como um ser protetor, então pensar naquilo era o mesmo que imaginar seus pais fazendo sexo. Completamente estranho.

Não foi surpresa nenhuma sua mente rapidamente direcionar-se para Aomine Daiki, ainda mais quando pensava em sexo. Lógico que, além da sentir falta do moreno, estava morrendo de vontade de transar com ele mais uma vez. Era sempre tão intenso, tão erótico, tão cálido... Tão único!

Agora os pensamentos do ruivo o traíam e o levavam para aqueles lados, fazendo com que a conversa anterior com Himuro simplesmente se dissipasse. Taiga flagrou-se divagando por longos segundos, recordando cada sensação que Aomine o proporcionava quando faziam sexo. Não queria nem imaginar como estava seu rosto, mas quando se deu conta, estava mordendo os lábios...

— Vou buscar mais um chopp. — Kagami anunciou repentinamente, levantando-se em um salto ao perceber o calor dominar seu corpo. Não era hora de pensar nessas coisas, poderia pegar muito mal. — Quer mais um? — Perguntou para Tatsuya, que ainda analisava a preparação da banda.

— Claro. — Ele sorriu de canto, olhando-o brevemente. — Pode ser duplo agora.

— Ok. — O ruivo seguiu seu rumo, sem olhar para trás. Estava com medo de ter sido flagrado, e com mais medo ainda que ele interpretasse suas manifestações de forma errada.

Antes de viajar para L.A., Taiga teve um pressentimento estranho, mas que logo sumiu ao constatar que tudo estava sob controle. Porém, assim que começou a descer as escadas do pub, o pressentimento voltou novamente.

— Deve ser o chopp... — Comentou distraído ao se aproximar do bar.

Assim que pediu a bebida, seu olhar foi atraído pela banda, que finalmente começou sua apresentação. Kagami sorriu ao reconhecer o som cover da banda Black Label Society, Stillborn. Música boa sempre o fazia esquecer as coisas ruins.

Olhou brevemente para o irmão, no andar superior. Seria uma noite agradável, não tinha motivos para ficar pilhado... Era tudo coisa de sua cabeça.

***

Los Angeles — 01h12min

~Himuro Tatsuya~

As risadas espontâneas e desnecessárias começaram a surgir após quatro doses duplas de chopp, porém, agora que chegaram na casa de Himuro, os sintomas do excesso de álcool estavam se manifestando com bastante intensidade. Taiga não estava diferente. Apesar de o ruivo ter comido o Big Joe — e livrado-os da conta na saída do pub —, ele sempre fora fraco para bebidas.

Hoje, pela primeira vez, Himuro usaria isso ao seu favor.

— Preciso sentar. — Tatsuya murmurou com a voz arrastada, piscando os olhos com frequência assim que deixara o tênis na entrada de casa e se aproximava do sofá da sala. Estava bastante tonto, mas não ousou acender as luzes. Logo se acostumariam com a penumbra, já que a fraca e amarelada iluminação do poste entrava pela janela.

— Eu também preciso. — O ruivo comentou, esbarrando em um móvel enquanto andavam no escuro. O barulho dos pés de madeira arrastando no assoalho preencheu o silêncio. — Opa! — Ele murmurou em meio a uma risada, com um tom culpado na voz.

— Shhhhh! — Himuro estava segurando-se para não rir, jogando-se no estofado. — Eles vão acordar, idiota. — Referiu-se aos pais, apontando para o andar de cima.

— Shhhhh! — Kagami repetiu com o dedo indicador em frente aos lábios, sentando-se também. Segundos depois de se acomodar, apoiando a cabeça no encosto do sofá, ele murmurou: — Putz, não vou conseguir levantar daqui nunca mais. Como eu vou pra casa?

— Não vá, ué. — Tatsuya sugeriu, também relaxando o corpo. Durante o movimento, encostou o ombro de ambos.

— Não tenho escovas de dentes aqui. — Ele murmurou em meio a um bocejo, fechando os olhos.

— Como se você nunca tivesse usado a minha. — Himuro sorriu de canto, virando o rosto para fitar os contornos da silhueta de Kagami. Ele era simplesmente perfeito. — Taiga... — O chamou, tomando uma coragem que possuía o gosto levemente amargo de chopp de trigo.

— Hm? — O ruivo resmungou, porém sem mover um músculo do corpo.

Era agora ou nunca.

— Desculpa? — Tatsuya perguntou em tom baixo de voz, umedecendo brevemente os lábios com a língua.

— Oe? — Taiga franziu a testa, um pouco confuso, virando o rosto para encará-lo. — Por...?

— Por isso...

Sem pensar muito mais, Himuro aproximou o rosto e tocou carinhosamente a boca quente do ruivo com a sua, em um inocente beijo. Poderia explodir naquele momento, relembrando a textura dos lábios que tanto sentiu falta... Todavia não houve retribuição, apenas uma clara manifestação de surpresa em Taiga. Mesmo assim Tatsuya não se afastou, apenas entreabriu sutilmente os lábios para sentir melhor os de Kagami, sugando-os com uma leveza desnecessária antes de se afastar.

Um silêncio enorme se instaurou na sala, assim como uma tensão irrevogavelmente palpável. Himuro ouvia apenas a respiração acelerada de ambos e as batidas do próprio coração. Quase podia escutar a adrenalina correndo por seu corpo também. Fora um gesto deveras impulsivo, e poderia ser catastrófico... Mas não seria. Disso Himuro tinha certeza. Pelo menos não à longo prazo.

— Você não deveria ter feito isso. — A voz séria de Taiga cortou o silêncio, assim como o barulho do estofado quando ele endireitou-se, ficando com a coluna reta. — Tatsuya... Você... Não... — A frase se perdeu assim que ele olhou para um ponto qualquer em sua frente.

— Eu te amo. — Himuro sussurrou com calma, deixando-o sem reação. — Quero pedir desculpas por isso. Por não conseguir separar as coisas... Por não conseguir te esquecer. — Continuou a falar, ainda com parcimônia, apesar de seu interior estar praticamente fervilhando e se contorcendo com várias sensações. Medo, ansiedade, enjoo, paixão. — Sei que você aparentemente está com o Aomine, mas ele jamais vai ser capaz de te amar como eu o amo. Você sabe disso, não sabe?

Taiga nada disse, apenas entreabriu os lábios, fechando-os logo em seguida. Permanecia olhando para frente, estupefato.

— Sei que você também não me esqueceu. — Tatsuya arriscou continuar, sentando-se com as costas retas também, encostando sutilmente as pernas de ambos. — Enquanto estivemos afastados você permaneceu com nosso anel no pescoço. Essa é a maior prova de que o sentimento continuou aí dentro também. Estou enganado?

— Tatsuya... — O ruivo passou as mãos pelo próprio rosto em um gesto demorado, sem encontrar uma resposta.

— Olha pra mim, Taiga. — Himuro pediu com gentileza, tocando-lhe a bochecha com o polegar, forçando-o carinhosamente a virar o rosto.

Mesmo no escuro pôde ver o brilho no olhar dele, refletindo a pouca luz. Ele estava confuso, perdido. O faria encontrar o caminho certo em breve. Com suavidade, Tatsuya permaneceu acariciando a pele quente do ruivo, e voltou a falar:

— Eu te conheço melhor do que qualquer pessoa nesse mundo. Melhor até que sua mãe. — Himuro sorriu, um pouco nervoso. — E por isso sei que você está deslumbrado com tudo o que vêm ocorrendo entre você e o Aomine. E isso está te cegando. — Continuou, sentindo o ar do suspiro de Kagami bater em seu braço. — Ele nunca vai te conhecer como eu conheço... Nunca vai te entender como eu te entendo... Nunca vai te amar como eu te amo.

— Tatsuya... — O ruivo suspirou, fazendo menção de se afastar.

— Quantas vezes ele olhou nos seus olhos e disse o quanto você é especial... Doce... Incrível? — Himuro insistiu, removendo a mão de seu rosto para dar-lhe espaço, mas sem desviar o olhar um instante sequer. — Saiba que você é tudo isso para mim. Você é tudo para mim.

Ele virou o rosto para encará-lo mais uma vez. Himuro não conseguiu ler exatamente o que havia em sua expressão, mas a dúvida estava ali, assim como a surpresa.

— Eu te amo de verdade. — Tatsuya repetiu, segurando em sua mão. — Conheço tudo sobre você, cada mínimo detalhe. Cada qualidade, cada defeito... Desde o sabor de seu sorvete preferido, até sua alergia à amendoim. — Soltou uma breve risada, vendo uma sombra de sorriso passar rapidamente pelo rosto de Kagami. — Sei também que você tem pesadelos, mas isso Daiki deve saber também. Porém ele não faz a mínima ideia de como te afastar disso. — Himuro fez uma breve pausa, puxando o ar gelado que envolvia a casa. — É só fazer carinho na palma de sua mão. Assim... — Concluiu, passando o indicador com suavidade pela pele sensível. O ruivo olhava para baixo agora, para o movimento de seus dedos. — Sei que anos de convivência não se esvaem em apenas alguns meses. É ilógico. Por isso não entendo... Por isso me culpo... Eu fiz algo tão errado para você me esquecer tão facilmente?

— Não é isso... Tatsuya... — Kagami fechou os olhos com força, mas não conseguiu pronunciar mais nada.

— Fica comigo, Taiga. — O menor pediu em um sussurro, atraindo mais uma vez seu olhar ao apertar sua mão. — Sei que ainda estou ai dentro de você.

Em um outro impulso, Himuro o puxou sem pressa pela nuca, e mais uma vez encostou os lábios de ambos. A reação de Kagami foi diferente dessa vez. Ele não retribuiu o gesto naquele instante, tampouco se afastou ou fez menção. Apenas paralisou, sentindo os dedos de Himuro enterrarem-se suavemente entre seus cabelos ruivos, e os lábios finos fazerem uma breve pressão nos seus próprios.

Aquela falta de resposta doía de certa forma em Tatsuya, estava se doando por inteiro, praticamente rastejando aos pés dele, mas não se importava... Sabia que não seria uma troca imediata, ele não mudaria de ideia do dia para noite. Himuro já se preparara para isso há tempos. Estava correndo atrás dos meses perdidos, buscando reparar um erro fatal. Não era pecado amá-lo, e nem lutar por isso.

Com carinho, Himuro iniciou um lento movimento com os lábios, incitando Kagami ao mesmo. Ele tremia um pouco, estava confuso e bêbado, fragilizado com certeza... Inseguro também, podia notar. Porém, Tatsuya queria acima de tudo tirá-lo do caminho errado. Seria seu protetor, o acalentaria e o abraçaria sempre. Queria que ele soubesse disso, mas não verbalizou... Apenas o beijou com carinho e inocência.

Essa era a segunda parte.

~Kagami Taiga~

Taiga estava assustado, verdadeiramente paralisado, sentindo os lábios de Tatsuya moverem-se contra os seus. Aquele gesto acabou trazendo para seu interior todas as dúvidas, medos e receios dos quais imaginou ter se livrado no momento em que se abraçaram na pista de skate, quando recomeçaram e selaram sua nova irmandade.

Irmandade essa que aparentemente existia apenas em sua mente.

Sua cabeça girava, um pouco pelo efeito do álcool, e o resto pelas palavras que ainda estavam frescas em sua memória e em seu coração — fazendo-o saltitar tão rápido que poderia simplesmente explodir. Tatsuya falara tantas coisas intensas, se confessara, abrira todos os seus sentimentos... Não poderia deixá-lo desamparado, no entanto não poderia mentir ou fingir.

O que eu faço agora?

Sem parar para pensar — como sua mãe aconselhara — ou dar-se conta das consequências, Kagami começou a mover os lábios com muita sutileza, sentindo os dedos finos e gelados de Tatsuya acariciarem seu couro cabeludo. Ele não entendia... O amava muito, mas como um irmão. Por que não conseguia dizer isso a ele? Por que estava retribuindo o beijo, se não poderia corresponder o sentimento?

Isso significava que estava traindo Daiki?

— Tatsuya... — O ruivo afastou-se naquele instante, franzindo a testa ao sentir uma onda de remorso e insegurança corroer seu estômago por inteiro. — Me desculpa. Eu... Eu não posso.

Silêncio. Olhares. Dúvidas.

— Você gosta dele, não é? — Himuro sorriu tristemente, afastando as mãos de seus fios ruivos com suavidade.

— Eu... — O ruivo balbuciou, mordendo os lábios. Não conseguia dizer nada, pois sabia que cada palavra que saísse de sua boca seria um machucado a mais em seu irmão, e não queria isso. — Me desculpe. — Foi somente o que conseguiu pronunciar, desviando o olhar.

— Você está enganado, Taiga. — Tatsuya suspirou, com os olhos marejados, acariciando seu rosto por uma última vez antes de deixar o braço cair no sofá. — Só quero que saiba... Vou estar aqui te esperando. Mas não para sempre.

— Tatsuya... — Kagami murmurou, afastando a franja escura e densa com a mão trêmula, para que pudesse encará-lo plenamente. — Você é tão importante para mim. Não... Não misture as coisas, por favor.

— Não sou eu quem está misturando. Não dessa vez. — Ele sorriu com pesar, dando-lhe um peteleco na testa. — Fica bem, Taiga.

— Tatsuya...

— Relaxa. Sou duro na queda. Só preciso ficar um pouco sozinho agora. — Ele sorriu, secando a única lágrima que rolou por sua bochecha, ao se levantar. — Vou ficar bem se você ficar bem. Não precisa dizer nada. Vá para casa e pense também.

Kagami levantou-se também, encarando-o. Doía vê-lo dessa forma, poucos dias após terem refeito a amizade. Estava tudo tão bem há algumas horas... Por quê?

— Boa noite. — Ele sorriu de forma forçada, já dirigindo-se até as escadas. — Só tranque a porta e coloque a chave no esconderijo de sempre, ok?

— Boa noite...

As palavras já não saiam mais, pois a garganta do ruivo estava muito seca. Himuro sumiu pelo corredor e deixou Kagami ali, sozinho. Na verdade fora o ruivo que o deixara sozinho... Não conseguia corresponder aos sentimentos da forma que ele desejava, mas por que correspondeu ao beijo então? Por que não falou a verdade?

— Me desculpe, Tatsuya. — Murmurou, virando as costas, dirigindo-se até a porta de saída. — Eu também te amo... Mas de uma forma diferente.

A vontade de chorar se fez presente, mas o ruivo segurou-a em sua garganta áspera. Remorso, culpa, dor, impotência. Sentia um misto de tudo isso.

Assim que sentiu o ar gelado da noite, Kagami pensou em voltar para dentro da casa e subir até o quarto de Tatsuya para abraçá-lo, no entanto, se o fizesse, estaria selando outra coisa. Algo que não seria capaz de carregar. E agora tinha Daiki... Ele não ficaria nada feliz ao saber das coisas que acabaram de acontecer.

— O que eu faço agora? — Perguntou-se, dividido, trancando a casa.

Precisaria pensar. Pensar muito. Teria que resolver a situação sozinho.

***

~Himuro Tatsuya~

Silenciosamente, foi até a janela de seu quarto e acompanhou a partida de Taiga, até ele virar a esquina e desaparecer. Com certeza a rejeição estava machucando muito, mas ela era esperada. Agora era só aguardar... Kagami faria por si só a terceira parte.

— Te amo, Taiga... — Murmurou, secando a última lágrima que permitiu-se soltar. — Até mais.

***

Tóquio — 18h01min

~Aomine Daiki~

O moreno olhava para o celular, relendo a mensagem que enviara sobre o jogo dos Bulls e dos Spurs no dia seguinte. A resposta de Taiga não chegou.

Ele deve estar dormindo. Sorriu com o pensamento, jogando o celular na cama, onde largou o peso do corpo também.

— Boa noite, Taiga.

Notas finais
Uou... Esse capítulo ficou grande! E a treta começou justamente no capítulo 13. Acho que é minha sina, como em Inevitável! O que acharam? Aguardando... Música de hoje... Like I Can - Sam Fofinho Smith: https://www.youtube.com/watch?v=xeugznpGKPA Sim, tem um ritmo animado demais para a gravidade do problema que está se formando na cabeça do Taiga, mas a letra é a cara do Tatsuya! Ó aí: http://www.vagalume.com.br/sam-smith/like-i-can-traducao.html Galera, preciso de opiniões! A história está boa? Está ruim? Enrolada? Heheheheh... Enfim meus anjinhos, vejo vocês nos comentários, que agora poderei responder apropriadamente, aleluia aleluia aleluia! Uma pergunta! Tem alguém de SC por aí? Hein? Hein? Bem, como já está tarde e eu estou cansada, devo estar falando muita bosta por aqui! Só queria agradecer a todos, de coração mesmo, por tudo ~pelos favoritos, comentários, aos leitores anônimos e a tooooodo mundo que acompanha minha fic! Beijão meus anjos! ;**********************************