Para que eles pudessem se encontrar naquela noite, algumas mentiras precisaram ser contadas e algumas ameaças tiveram de ser feitas. Sentindo-se patético e empolgado ao mesmo tempo, Gajeel ligou para Natsu assim que perdeu a garota de vista. Disse que havia mudado de ideia, que decidira lhe emprestar o carro no sábado, mas sob uma condição – a de que ele levasse a namorada ao pub na noite de sexta. Como era típico dos dois, a conversa terminou com uma ameaça, caso o trato não fosse cumprido. “Quebro você em dois se não fizer a sua parte”, Gajeel havia dito.

Por outro lado, Levy ligou para Lucy e as duas ficaram quase uma hora naquela conversa que envolvia livros, férias de verão, cosméticos promissores para a pele e, é claro, o desconhecido da caminhonete cor de laranja. Enquanto Levy contava à amiga sobre aquele cara, sobre seus piercings e sobre o convite para vê-lo tocar num pub, Lucy se deu conta de que ela só podia estar falando de Gajeel Redfox, um dos amigos de seu namorado.

— Será que ele estava bêbado? – Lucy pensou em voz alta.

— Eu acho que não. Ao menos, não parecia bêbado.

— Mas isso é realmente estranho.

— Por quê?

— Bem... – Lucy apertou o celular entre o rosto e um ombro enquanto acabava de pintar as unhas de uma mão. – Ele não faz o seu tipo. E eu também nunca pensei que você fizesse o tipo dele.

— Conte-me mais sobre esse tal de Gajeel.

Lucy disse à amiga tudo o que sabia sobre ele, e que não era muito. A maioria das coisas que ficara sabendo a respeito de Gajeel tinha sido contada a ela por Natsu, já que os dois eram amigos há muito tempo. Ao que parecia, o cara poderia ser classificado como uma espécie de encrenqueiro. Na adolescência, tinha passado por dois ou três reformatórios por algumas confusões em bares e por algo que a polícia considerou como vandalismo. Até onde Lucy sabia, ele não tinha pai ou mãe e vivia mudando-se de um canto para o outro, trabalhando à noite como segurança, garçom ou músico.

— E ele não tem namorada? – Levy quis saber.

— Quem ia querer namorar aquele maluco? – a outra riu.

— Sei lá. Ele até que é bonito.

— Você estava usando seus óculos quando falou com ele?

Levy sabia que caras como Gajeel não faziam o tipo da amiga. Lucy preferia garotos mais bem vestidos, com o corte de cabelo em dia e com o lugar garantido no time de futebol da universidade. Previsivelmente, Natsu era o capitão da equipe e possuía todas aquelas qualidades. Levy, por sua vez, sentiu borboletas na barriga quando esteve diante de Gajeel. Com o fone ao lado do rosto, rolando sobre a cama e escutando a voz de Lucy, ela lembrou-se de como tinha gostado daquele cara alto, de ombros largos e mãos grandes, de seus piercings cravados sobre a pele, daquela voz grave – não uma voz de garoto, mas de homem – e do ar quase selvagem que ele possuía. Lembrou-se de como havia se sentido atraída por ele.

Lucy ainda tagarelava sem parar.

— Não sei o que deu no Natsu, francamente. Nós havíamos combinado de ir ao cinema na sexta-feira, mas então ele veio com essa história de querer ir ao pub e...

— Então é verdade que vocês vão?

— Por insistência do Natsu, sim. – silêncio. – Não me diga que você...

— Vocês podem passar aqui às oito?

~

Quando foi ao escritório do pai, batendo de leve na porta dupla e sendo admitida com um “entre, querida”, como se seu pai adivinhasse quando se tratava dela e quando se tratava de um empregado da casa, Levy tinha a consciência dolorida por uma espécie de remorso. Aquela seria a primeira vez que mentiria para o próprio pai por causa de um garoto. Sabia que não devia mentir, que aquilo era errado e que o pai apenas desejava protegê-la, mas o problema não se referia a um garoto qualquer – se referia a Gajeel.

E ela estava louca para vê-lo.

— Levy. – o pai ergueu os olhos dos papéis sobre a mesa para vê-la. – Está tudo bem?

— Uhun.

— E então?

Ela foi até uma das estantes de livros e fingiu ler as lombadas.

— Precisa de algum livro? – o pai perguntou.

— Não. – ela virou-se e sorriu. – Na verdade, eu queria pedir uma coisa.

— E o que é?

— O senhor se lembra da Lucy?

— A filha do gerente da loja de móveis? O que tem ela?

— Posso dormir na casa dela na sexta-feira? Temos um trabalho da faculdade pra fazer e depois pensamos em assistir a uns filmes.

— Os pais dela estarão em casa?

— Acho que sim.

O pai virou a página do relatório que estava lendo, passou os olhos pelo papel em silêncio, como se estivesse pensando sobre o que Levy acabara dizer, rabiscou qualquer coisa com a caneta que tinha entre os dedos e, por fim, olhou-a novamente. A garota quase comemorou, reconhecendo no rosto do pai aquela expressão que costumava acompanhá-lo sempre que ele decidia positivamente sobre algum assunto. Caso pretendesse brindá-la com um “não”, as grossas sobrancelhas estariam mais para baixo, e não arqueadas daquele modo.

— Então acho que não há problema. – ele disse. – Precisa de dinheiro?

Levy abriu um sorriso radiante, foi saltitando até o pai, abraçou-o em agradecimento e respondeu que não, que não precisava de mais dinheiro – já tinha o suficiente. Depois, retirou-se do escritório, fechando cuidadosamente as portas pesadas de madeira atrás de si, e subiu correndo as escadas para o segundo andar.

Antes mesmo de jogar-se sobre a cama e procurar o número de Gajeel para avisar-lhe de que estava tudo certo para a noite de sexta-feira, o sentimento de culpa por ter mentido para o pai já havia desaparecido completamente.

~

Gajeel estava trabalhando numa tabacaria naquela tarde, atendendo os clientes e operando a caixa registradora, quando Levy ligou. Um homem que desejava comprar uma caixa de charutos acabara de lhe estender uma nota de dinheiro no momento em que o celular de Gajeel começou a vibrar no bolso de seu jeans e ele ficou olhando para o dinheiro sem saber o que fazer. Havia esperado ansiosamente por aquela ligação e, agora, era como se alguma parte de seu sistema nervoso tivesse entrado em curto-circuito.

Ele pediu que o homem esperasse, enfiou-se atrás de uma cortina e atendeu.

Era mesmo ela.

— Oi. Sou eu.

— Oi. – ele respondeu.

— Então, eu já resolvi tudo com meu pai. Estarei lá na sexta-feira.

— Não me diga que ele deixou você ir a um pub na zona norte.

— Não exatamente. – ela riu baixinho. – Mas o que importa é que estarei lá.

— Ok. – ele sorriu. – Como você vai?

Gajeel ignorou o homem chamando-o do outro lado da cortina.

— Lucy e Natsu vão passar aqui e nós iremos juntos.

— Certo. – ele se perguntou como eles fariam aquilo, se Natsu estava sem carro.

— Bom... Era isso. Vejo você na sexta.

— Até sexta então.

Depois que ela desligou, ele ficou ali, sorrindo para si mesmo e lembrando-se do som da voz dela – uma mistura de divertimento com timidez, algo entre o sim e o não. Mas então o homem dos charutos começou a chamá-lo num tom irritado, dirigindo-se a ele como rapaz, e Gajeel saiu de trás da cortina empoeirada da loja com uma vontade infundada de atirar os malditos charutos na cara do cliente e de rir até a barriga doer. Contudo, apenas pegou o dinheiro, descontou o valor e deu-lhe o troco.

O homem saiu da loja com a caixa de charutos debaixo do braço, praguejando baixinho contra a insolência dos jovens, e Gajeel pensou que nem mesmo aqueles trabalhos inúteis de meio período arruinariam seu humor.

Levy McGarden valia o esforço.

~

Na sexta-feira, como Gajeel precisava ir mais cedo ao pub para testar as caixas de som, os equipamentos elétricos e acertar os detalhes com o dono do lugar, acabou permitindo que Natsu ficasse com a Chevy para buscar as duas garotas. Fazia uma semana que seu carro estava mofando numa oficina mecânica, aguardando pela chegada de uma peça para fazê-lo andar novamente, e por isso ele agora sentia-se meio sócio da caminhonete de Gajeel.

Uma hora antes do que tinha sido combinado, Levy já estava pronta e ansiosa. Após revirar o guarda-roupas, havia escolhido um vestido simples, mas que lhe caía bem, uma jaqueta jeans para o caso de sentir frio e botas de cano curto. Em relação ao cabelo, apenas amarrara uma fita azul à maneira de uma tiara. Como precisava dos óculos apenas para ler, resolveu deixá-los em casa – não queria parecer mais intelectual do que de fato era.

Quando ouviu que o som do motor de um carro se aproximava, saiu pela porta da frente e desceu correndo os degraus que levavam ao jardim de arbustos bem aparados. Não precisou preocupar-se com o que o pai pudesse pensar ao vê-la vestida não para uma noite do pijama, mas para uma festa, talvez, pois ele havia saído para um jantar de negócios com investidores. Tudo parecia estar colaborando.

Levy quase perdeu o ar quando viu a caminhonete cor de laranja estacionando na beira da calçada. Será que Gajeel havia decidido buscá-la pessoalmente? Mas então ouviu a voz de Lucy e, olhando melhor, se deu conta de que eram realmente a amiga e seu namorado. Quando Lucy deslizou para o lado e ela acomodou-se na ponta do banco de três lugares, sentiu-se subitamente constrangida por estar no carro dele. E, durante o caminho até o pub, perguntou-se o quanto de Gajeel havia ali.

~

Ele estava na metade da segunda música quando os três chegaram ao pub e precisou desviar os olhos para o violão na tentativa de não perder-se no ritmo. Depois, quando conseguiu estabilizar os sentimentos o mínimo possível, voltou a olhar para frente. Gajeel estava sentado num banco alto sobre um palco apenas trinta centímetros mais alto do que o nível do chão, iluminado por lâmpadas amarelas que quase o cegavam. Seu trabalho ali consistia em tocar e cantar um repertório que ele já sabia de cor – “nada de muito intenso para não espantar as pessoas, está entendendo?”, o dono do pub havia dito. Então ele limitava-se a Johnny Cash e a Blake Shelton.

O pub estava mais cheio do que o comum, talvez porque fosse véspera de feriado, e Gajeel levou algum tempo até localizar os três junto do bar. As duas garotas estavam sentadas em banquetas, viradas para o palco enquanto bebericavam qualquer coisa em seus copos, e Natsu permanecia de pé, um braço apoiado na superfície do balcão e aquela expressão de quem está curtindo a festa. Gajeel reparou em Levy e percebeu que ela também o olhava, e quando cantou aquela parte da música que dizia “oh, I love you, woman”, foi como se estivesse cantando para ela, para a garota de fita no cabelo e pernas cruzadas que sorria na sua direção.

Gajeel ficou de olho nela durante a noite inteira. Enquanto dedilhava o violão e cantava aquelas canções que, pela primeira vez, não lhe pareceram tão toscas, ele memorizava cada um de seus movimentos – o modo como ela sorria, conversando com Lucy, a maneira de segurar o copo e de beber pequenos goles da bebida, de agitar um pé ao balanço da música, de ajeitar uma mecha de cabelo que lhe caía sobre o rosto, de acomodar a tira da bolsa sobre um ombro quando ela deslizava pelo braço, de olhar ao redor como se tudo aquilo fosse inteiramente novo para ela, de fitá-lo e de abrir aquele sorriso que o deixava mole.

Ele teria tocado as duas últimas músicas do repertório sem ter visto o tempo passar, apesar da garganta seca e do braço que começava a doer, mas então percebeu uma agitação estranha perto do bar e sentiu o clima mudar ao seu redor. Apertando os olhos na intenção de ver melhor, ele entendeu o que estava acontecendo e amaldiçoou-se pela infeliz ideia de ter envolvido Natsu naquilo.

Natsu encontrara-se com Gray, os dois trocaram insultos como sempre faziam, apesar das reclamações e das ameaças das namoradas, para então partirem um para cima do outro como dois galos de rinha. Aquilo vinha acontecendo desde o primeiro ano de escola, como se ambos não suportassem conviver sob o mesmo teto, mas agora, depois de tanto tempo, as pessoas que os conheciam pensavam apenas que a rivalidade era motivada pelo futebol. Cada um era líder de um time, e tanto os jogadores como os torcedores se odiavam mutuamente.

Gajeel largou o violão e correu para o meio da confusão no exato momento em que Natsu derrubava Gray sobre uma das mesas, arrancando gritos daqueles que estavam por perto. A primeira coisa que Gajeel fez foi encontrar Levy. Ela estava a uma distância segura, tentando segurar a amiga que gritava qualquer coisa ao namorado. A segunda coisa foi separar aqueles dois que estavam estragando seu momento com Levy.

Ele agarrou Natsu por um braço, puxando-o com tanta força que o amigo saiu cambaleando até bater contra o balcão do bar. Depois, pegou Gray pela gola da camisa e acertou-lhe um soco no rosto, derrubando-o estendido no chão. Nocauteado. Quando Natsu voltou para terminar a briga, pensando que, agora que Gajeel aparecera, seria fácil acabar com a raça de Gray, o amigo acertou-o também, fazendo-o cair com o nariz ensanguentado.

Agora estava, de fato, tudo terminado.

Natsu e Gray gemiam no chão, cada qual com sua dor, quando as namoradas enfim conseguiram alcançá-los. Como se o golpe recebido por Natsu não o tivesse deixado suficientemente atordoado, Lucy ainda acertou-lhe uma bofetada no rosto, lembrando-lhe, aos gritos, de que ele havia prometido nunca mais meter-se em brigas estúpidas. A namorada de Gray apenas arrastou-o dali com uma expressão irritada.

Gajeel abriu e fechou os dedos de uma mão, amaldiçoando aqueles dois por terem caras tão duras, quando viu o dono do pub aproximando-se com uma expressão nada boa. Os clientes haviam fugido para longe dali, muitos sem pagar as contas, e aquele que devia ter permanecido em seu lugar, fazendo o trabalho que lhe mandaram fazer, estava agora bem no meio da confusão. Gajeel percebeu que, embora a culpa não fosse sua, seria ele a pagar pelo prejuízo.

Mas então Levy apareceu, rápida como uma lufada de vento, e agarrou-o pela mão. Ela levou-o para longe dali, para longe do barulho do pub, para longe das vozes exaltadas, para longe do chefe transtornado, para longe de todos. Gajeel apenas deixou-se conduzir. O que mais ele poderia fazer? Quando chegaram à rua, o ar fresco da noite envolveu-o como um segundo fôlego, e Gajeel agradeceu mentalmente por aquilo.

Eles entraram na Chevy 1976 e deram o fora dali.

~

Gajeel parou a caminhonete no alto de uma rua escura e silenciosa, mais próxima da mata que se estendia para além da cidade do que da própria cidade. As juntas de seus dedos ainda latejavam e ele praguejou baixinho, desligando os faróis do carro. Levy havia permanecido quieta durante todo o caminho, e só então ele virou-se para olhá-la.

E se deu conta de que ela estava sorrindo.

Ele franziu o cenho.

— Essa não é a hora em que as garotas ficam assustadas? – Gajeel perguntou.

— Eu acho que sim.

— Então o que deu em você?

Mas ela desfez-se numa gargalhada que sacudiu-a por inteiro, como se Gajeel tivesse feito a piada mais ridícula e mais engraçada do mundo. Ainda com a mão dolorida sobre o volante, ele observou-a naquela explosão de riso sem entender, a meio caminho entre a surpresa e a vontade de rir também.

Quando Levy conseguiu recompor-se, recostou-se melhor no encosto do banco e respirou fundo. E fechou os olhos. Os de Gajeel, porém, permaneceram abertos, e escorregaram lentamente sobre aquela garota estranha que, tendo fugido de uma briga de bar, apenas gargalhara. Em silêncio, ele observou seu rosto contornado pelas sombras da noite, seus cabelos azuis roçando sobre os ombros, seus lábios entreabertos, a pele pálida de seu pescoço e o contorno suave dos seios sob a roupa, as mãos delicadas espalmadas sobre o estofado do banco, as pernas aparecendo até um pouco mais acima, porque o vestido escorregara.

Observou-a em todo o seu encanto, e sentiu-se irresistivelmente atraído por ela.

— Essa não é a hora em que os garotos beijam as garotas? – ela disse.

Gajeel pensou que sim, que aquela era a hora, e inclinou-se na direção dela. Quando ele e a beijou, passando uma das mãos por sua nuca e depois pelas costas da garota, ela simplesmente correspondeu, abraçando-o pelo pescoço. Entregando-se. Ele percebeu como a boca dela tinha aquele gosto doce e sentiu os pelos dos braços ficando de pé. Sentiu ainda mais vontade de tê-la, sobretudo quando Levy soltou o ar num gemido baixinho e deslizou para mais perto.

Ela era uma caixa de surpresas, ele pensou quando a puxou para o colo.

Gajeel apertou-a contra si e, talvez, tivesse ido adiante se pudesse ler os pensamentos dela naquele momento – os pensamentos de quem só queria ser beijada até ficar sem ar, de quem sentia aquele calor estranho subindo-lhe pelo corpo, de quem desejava, apenas uma vez, quebrar as regras. Mas então ele lembrou-se de quem ela era e se deu conta de que não podia simplesmente fazer parte daquele mundo em que Levy vivia.

A garota rica.

Que tipo de interesse ela podia ter em alguém como ele, além do de divertir-se?

Então ele afastou-a com cuidado e disse que a levaria de volta para casa. E quando Gajeel deixou-a, de fato, na calçada diante da mansão em que ela morava, e foi embora sem nem mesmo despedir-se direito, Levy ficou sem entender o que tinha sido aquilo tudo.