Limites
2 Mantenha-se
Notas iniciais
“Eu não me acho bonita. Me apego fácil, mas custo a sentir. Sou educada só com quem acho que devo ser. Sou sentimental, mas poucos conhecem essa parte de mim. Descobri cedo que as coisas não são sempre como desejamos. Tranco-me em meu quarto por gostar da solidão que ele me proporciona. Vivo no meu mundo fechado, onde poucos têm lugar. Amo alguém que não sente o mesmo por mim, mas posso viver com isso. Nem sempre gosto do mesmo tipo de musica, tudo depende de como me sinto. Odeio lugares fechados. Tenho medo de não ser boa o bastante. Preciso agradar. Sou menina e não gosto de rosa. Fiz dos livros meu refúgio. Criei um mundo imaginário em que as coisas dão certo e passo maior parte do meu tempo a ampliá-lo. Impressiono-me fácil. Não sei mentir, mas sei muito bem como disfarçar o que sinto. Não me importo com todos os temas banais. Brinco o tempo todo, mas quando é pra falar sério me destaco. Importo-me com o que as pessoas falam de mim e faço o possível para transmitir exatamente quem eu sou. Iludo-me com besteiras. Não há uma só pessoa em todo o mundo que me conheça por completo, em essência. Sou paz. Calmaria. Incerteza. Extremos. Poesia. Antítese. Tristeza e alegria. Distraída, até dispersa. Tenho muitos amigos, mas sei muito bem quais são os verdadeiros. Meus erros, eu os admito, os admiro, aprendi e continuo aprendendo com eles. Sou perfeccionista. Impulsiva. Indecisa. Fechada. Tímida. Me solto com poucos. Não gosto de quem eu sou em alguns dias. Não sei ser como essas pessoas que amam, pronto, tchau e acabou. Nunca sei o que eu quero no começo. Gosto de romances, em particular os que deixam uma história para lembrar. Faço o que posso para ver quem eu gosto feliz, nem que isso custe a minha própria felicidade. Não costumo pensar no que vai acontecer no fim, apenas vou lá e faço. Quero coisas que nunca vou ter, mas posso viver com isso. Já provei do amor próprio para conhecer a paz que ele pode trazer. Fico vermelha quando olham por muito tempo pra mim. Acredito nos opostos e, que para todo bem, existe um mal igualmente compatível. Acredito em um único Deus, que salva, perdoa e liberta, um Deus que nunca me deixou só. Sou péssima em inglês. Defendo os que conheço, mas não ponho a mão no fogo por muitos. Antes dia do que noite. Versos antes de poesia. O que sei ninguém nunca precisou me contar. Sou explosiva ao conhecer pessoas, falo muito, desprezo a vergonha. Não sou boa em fazer amigos, mas me considero ótima em mantê-los. Já perdi pessoas que nunca havia me imaginado sem, e poxa, olha aqui, eu sobrevivi. Sei muito bem guardar segredo. Procuro não me importar com o que já passou, o que é muito difícil as vezes. Mudei bastante nos últimos anos e aprecio isso. Não quero parecer certa em tudo, mas uso de persuasão, dizem que é algo em que sou boa. Existem assuntos dos quais nunca entendi, opiniões que não construí, temas que busco me instruir. Não espero que me entendam, eu não quero que me entendam, assim como uma antiga lenda sobre o universo, quando desvendamos todos os mistérios sobre algo é hora de substituir. Tenho ciúme do que é meu, e do que considero também, mas nunca demonstro isso. Não suporto que duvidem de mim. Quando amo, amo de verdade e é eterno enquanto existe. Sonho com justiça. Aliás, sonho com muitas coisas e, uma delas é que me conheça o suficiente para que permita que eu entre e me encaixe ai, na sua própria bagunça.”
— Não repara a bagunça, é pra combinar com a vida. (via: theperkofyou)
#theperkofyou#autorias #Aria
51,949 notes
Hoje fui até a biblioteca e peguei alguns livros como referência para o trabalho de história. As coisas estão indo bem na escola. Procuro não entrar em detalhe sobre nada do que está acontecendo entre mim e o Felipe com ninguém, mas todo mundo parece ter cuidado ao falar o nome dele quando estou ouvindo. Não quero dar a entender que tudo isso me machuca, ainda que isso aconteça de fato. O que mais dói, é saber que todo esse grande erro, acabou custando também a nossa amizade. Eu sei que amizade entre homem e mulher é algo complicado, isso quando existe, mas sabe, a gente fazia dar certo. Era uma relação bonita, que eu gostaria de preservar. Mas confundimos as coisas e não separamos quando chegou o fim.
O assunto que ficou foi que sou alguém fria e fechada demais. Na realidade, penso nos sentimentos, o amor e a decepção, principalmente, como coisas de que não devemos nos exibir. As maiores histórias de amor nunca se tornaram bem público. Nunca foram contadas. O amor é um segredo. E dos grandes. Já a mágoa, quem precisa de pena para superar a dor de uma perda?
E eu não sou capaz de me acostumar com as ausências e partidas, ainda que eu tenha visto e sentido muitas delas por ai. É difícil se despedir. Deixar o adeus subtendido. Partir. É difícil deixar ir.
Desde o ano passado a gente não tem se falado. Alguns dos amigos dele estavam dizendo que ele poderia voltar a estudar com a gente. Por Deus, que não seja verdade. Já é difícil esquecer, vendo aquele sorriso todos os dias não sei o que se tornaria.
Tudo fica muito mais fácil quando você aceita as coisas. Certo, ta bom. Não tem mais volta, não tem jeito, é, eu aceitei, mas e agora? Onde aperta? Como para de pensar? Quem vai dizer pro meu coração, que é loucura acreditar que ele pode voltar? Me apaixonei por um olhar. Durou um instante, mas isso é tão pouco para amar.
Fui até o computador na mesa de frente a cama, e escrevi. Esse tem sido um bom refúgio. Eu meio que, posso me sentir alguém. Pelo menos ali, onde o que eu tenho a dizer, se corresponde com o que uma pessoa sente, isso me torna importante. Para um estranho. Isso ajuda, de verdade. A gente pensa que tá dizendo besteira e está sendo útil. É algo bom. Mutualmente. Exceto que, os trabalhos fazem pilha na mesa de centro, para combinar com a louça. Morar sozinha é complicado, de certa forma. Meus pais dizem que isso vai me ajudar com a adaptação da faculdade, que começa ano que vem. Embora a ideia tenha assustado de início, aceitei, não sorrindo, mas aceitei. As coisas na nossa família são um pouco, pesadas demais, na melhor das opções.
Há alguns anos, descobri algo e meu pai me disse o que eu não estava preparada pra ouvir, isso se existir uma forma de o fazer. Desde então, não voltamos a nos falar. E todos os dias repetia: — Hoje vai ser diferente, ele vai pedir perdão e simplesmente mudar. Mas essa gloriosa data nunca chegou. Ele me paga o que for necessário, minha mãe passa as principais informações e tudo vai se ajeitando. Talvez isso de adaptação venha a calhar. Foi uma maneira de me tirar de casa de um jeito nobre. Eu vou ser alguém um dia, e espero que ele não seja parte disso, mas que veja acontecer. Veja que estava enganado, e, talvez, se arrependa de pôr ódio no coração de quem tanto o amava.
*
A fila da cantina não anda. Ta parada. Há séculos. Tem um garoto na minha frente que eu nunca tinha visto por aqui. Deve ser novato em alguma das outras turmas. A Julia bateu nas costas dele e ele virou pra mim.
— Não fui eu! — Respondi enquanto eles dois riam de mim. Ri junto. O que mais eu poderia fazer?
— Ta bom, tudo bem. Meu nome é Lucas, prazer.
— Aria.
Quando peguei minha comida, sai com a Bruna. Não tinha muito mais o que fazer lá. As principais matérias já tinham fechado o horário e as próximas eram apenas para os times.
— E você, tudo bem? — Ela me entregou um café e pensei um pouco.
— Tudo indo.
— Indo bom ou ruim?
— Depois eu decido. — Sorri. — Não quero entrar em detalhes, pensar muito, mas houve dias péssimos.
— Se qualquer coisa estiver acontecendo eu estou aqui pra te ouvir, sabe disso, certo?
Não existem muitas pessoas a quem eu teria confirmado. Mas a Bruna é uma outra história. Nos conhecemos a uns quatro anos, quando a cachorrinha dela morreu e senti a dor de uma estranha enquanto implorava pra ela ficar bem. Sempre contamos tudo uma a outra. Acho que confiança é isso. Não ter seus segredos cobrados, mas dividir com alguém, pois ainda que tudo aconteça, a pessoa vai guardar aquilo.
— É só raiva, sabe?
— De quem?
— De mim mesma.
— Por quê?
— Sei lá, de ser idiota.
— Ah, por favor. Todo mundo tem sua cota de ilusões. Ele vai voltar atrás e você vai ver que a dor nem era no coração. Isso é ego ferido. Porque ele terminou e não você. E pessoas incríveis são feitas de superações. Logo você vai perceber que deixou pra trás e o quanto cresceu com isso. Você não tem sequer obrigação de se fechar. Todo mundo sabe que você não é assim e não precisa fingir que não aconteceu nada. Principalmente fingir estar bem. Ele te machucou e vai acontecer de novo, com outros garotos, outras épocas. É meio involuntário. Mas a gente quebra a cara e ainda insiste nessa coisa de amor.
— Você ajuda.
— Você precisa de realidade, meu bem. Não de alguém que diga só que tudo vai ficar bem.
— Ele partiu meu coração, e ainda assim, eu sinto saudade. — Eu disse enquanto enxugava a primeira lágrima em dias. A volta das aulas contribuíram, trazendo memórias que deveriam ter ficado esquecidas. Se a gente pudesse esquecer as coisas uma vez ou outra, muita gente estaria um pouco melhor.
— Ei, vem cá. — Ela parou e me abraçou.
— Sou uma pessoa tão ruim assim?
— Ele só é novo demais pra se dar conta do quanto perdeu.
— A gente nem se fala mais, nem se vê, nem se conhece. Nem amizade. Nada!
— Olha aqui. — Ela me faz olhar no olho dela enquanto eu me envergonhava da minha própria imagem. — Sem mais ele, tá bem? Se esforça um pouco, tenta não escrever, não pensar, nem se quer pulicar nada sobre ele. Por um tempo, até sarar, pode ser assim?
— Eu vou tentar.
— Você vai fazer. Por si mesma.
E fiquei quieta naquele abraço por alguns pequenos infinitos. A gente descobre a importância de um amigo quando precisa de um ombro e umas palavras de verdade.
Daqui pra frente é assim que vai ser.
Se não acrescenta mais, não irá diminuir.
Eu estou me limitando, e ele não vai fazer isso comigo.
Fale com o autor