Limiar entre intrigas, desejo e o amor
39 Capítulo 39
Notas iniciais
POV SAMUEL
Vou para casa e me jogo no sofá. Dói. Dói tanto. Sinto as lágrimas descerem. Eles são felizes. Edu encontrou seu caminho, sua família. Minha mãe vive encarcerada em sua dor. E eu? Estou indo no mesmo caminho.
O som insistente da campainha me tira dos devaneios. Vou até a porta sem vontade. Abro-o ainda mais sem vontade. Pisco atordoado com a presença.
__ Você? – É a única palavra que consigo pronunciar.
Um par de olhos verdes esmeraldas me encaram. E como está olhando para meu irmão Eduard, mas não. Estou diante de minha mãe.
Ela me puxa para um abraço forte. __ Esqueceu-se de que tem mãe?
Eu queria poder dizer que sim, mas como se devo tudo a essa mulher?
__ Jamais! –digo controlando minha vontade de desabar no choro.
Puxo-a para dentro do apartamento, pego sua bolsa e fecho a porta.
__ Fico feliz de vê-la aqui. –digo com meio sorriso.
__ Você não está bem meu pequeno.
Suas palavras me doem mais. Meu pai a chamava de pequena, depois que se separaram ela passou a me chamar de pequeno. Sempre nas sombras dele.
__ Sente-se mãe. Está com fome? Sede?
__ Não. Quero que me diga por que está chateado.
__ Nada importante. Podemos falar disso depois. Por que não me ligou para ir te buscar no aeroporto? Veio ver a Ella e o Edu?
__ Não tinha necessidade. Eu vim ver você, estive me sentindo muito angustiada por esses dias e sentir que tinha relação com você.
Olho para ela como se enxergasse dez cabeças. Quando ela não esteve angustiada? Como Edu está passando por um momento delicado e ela nem estar aqui por ele?
__ Sabia que a Ella quase perdeu o bebê não é?
__ Sim. O seu irmão me ligou. -sua voz é passiva.
__ E não está aqui por ele? -eu não consigo acreditar nisso.
__ Não. Ele sempre foi forte, nunca precisou de ninguém. Além disso, ele sempre pode recorrer ao pai, já que ficou a vida todo do lado dele e daquela família.
As palavras de Edu vêm a minha cabeça: “Acha que só você sofre? Que só você teve um pai ausente?”
__ Sam? Pequeno?
__ PARE DE ME CHAMAR DE PEQUENO! Pare de viver a vida em volta de Theodore. –grito exasperado.
Ela arregala os olhos. São tão verdes. Tão expressivos. Há dor, mas sempre houve dor lá.
__ O que está acontecendo aqui? O que fizeram a você para que fique assim? –sua voz é assustada.
Lembro-me de vó Anna me explicando uma vez a relação dos meus pais: “Samuel seu pai acreditou um dia amar sua mãe, ele ficou transtornado quando olhou nos olhos dela, ele viu medo, dor e ele a quis proteger. E até certo modo ele fez, devolveu a vida a ela. Mas amor real, intenso só sentimos uma vez na vida, não sabemos quando ele vai bater na nossa porta. Ele teve carinho por sua mãe, ele ama você e o Edu. Ele não só saber lidar com isso. Ele precisa da ajuda de vocês, principalmente você que entende melhor as coisas. Não afaste seu pai, seus irmãos. Dê a eles a chance de chegar a seu coração”
Por que de repente lembranças povoam a minha mente? Olho de novo para minha mãe, ainda uma mulher bonita, apesar de esta tão magra, cabelos curtos e pretos, e seus olhos ainda com a mesma dor.
__ Mãe você já foi feliz alguma vez?
__ Por que está perguntando isso?
__ Quando estava casada com meu pai era feliz? Fez ele feliz?
__ Claro que sim. Fomos muito felizes. Se não fosse aparecer aquela vadia da Alexa, ele teria voltado para casa, ele teria voltado para nós...
__ Não. Ele não teria.
__ Sim ele teria. Ele me amava, ele só estava confuso. Ele sempre foi meio perdido, eu era o caminho dele...
__ Mãe estou saindo da Grey Enterprises Holdings Inc.
__ O QUE? Como assim?
__ Eu preciso de um pouco de distancia. –digo me jogando no sofá. __ Preciso deixar Jesse em paz. Preciso cuidar de mim mesmo. Preciso conquistar meu lugar nesse mundo.
__ Explique que besteira é essa que está falando.
__ Hoje eu vi os quatro jantando. Theodore com a esposa e os filhos. A família que eu sempre imaginei em nós. Mas que nunca existiu...
__Sim existiu. –ela me interrompe. __ Éramos uma bonita família.
__ Não existiu. Não tenho uma recordação do meu pai completamente à vontade conosco. Ás vezes ele tentava, brincava com o Edu, conversava comigo. Mas a realidade era que estava sempre fechado em si mesmo. É como se sempre faltasse algo em sua vida. E de certa forma agora eu o entendo porque sinto também que falta algo em mim, sinto um vazio tão grande.
__ Não estou gostando dessa conversa. — Alice diz com um olhar penetrante.
__Edu me chamou para uma sociedade. Uma empresa nossa, onde eu comando e ele apenas investe e lucra, caso tenha lucro.
__ E isso significa deixar a empresa Grey para a nova família de seu pai? Vai desistir de ser presidente de um império porque o bondoso do seu irmão acha que você deve começar em outro lugar?
Eu olho pra ela e é como se eu não a estivesse vendo.
__ Por que quer tanto que fique na Grey?
__ Você tem seus direitos. Não é justo até nisso Theodore triunfar. Ele nunca quis te adotar, mas já que o fez devo dar o que lhe pertence.
Minha cabeça está dando voltas. A minha mãe esta aqui diante de mim, e eu não a reconheço.
__ Você me ama Alice?
Ela arregala os olhos.
__ Claro que sim. Desde o momento em que te vi na rua. Eu achava que nem poderia ter filhos. Você era tão frágil, vulnerável. Eu quis te proteger do mundo. Eu sempre me identifiquei mais com você do que meu próprio filho biológico.
As lembranças de quando eu era criança me vem à mente. Na rua, com fome, sendo maltratado. Aqueles olhos verdes, aquele encanto, aquela cama fofa. O olhar azul de Theodore me analisando, o primeiro sorriso que ele me dedicou. O nascimento de Edu, o sorriso de Julia. Os momentos que passei com ela. E então a saída de Theodore de casa, seu afastamento, depois a tentativa de reaproximação falha só para agradar a nova esposa. Os tabloides evidenciando os gêmeos Grey que conquistam o mundo, Soph com MBA e Jesse o cobiçado solteiro com um futuro brilhante. Julia se casando com um dos homens mais ricos do mundo. Emma se afastando de mim. Edu se casando com a devastadora Ella, e nem em seu casamento eu fui. Alice não veio também. Eu me tornei como ela? Tão amargurado e perdido?
Em uma de minhas conversas com John ele dizia que um homem é aquilo que acredita ser. Eu me vejo tão fraco que sou assim mesmo?
__Samuel? Esta me ouvindo?
A voz doce da minha mãe.
__ Sim.
__ Me explica o que acontece com você. Está estranho.
__Sabia que eu admiro o meu irmão? Na verdade os meus irmãos. – fico espantado com minha revelação em voz alta. Eu nunca parei para pensar nisso. Ela abre a boca para dizer algo, mas eu não deixo. __ Edu por te enfrentar, me questionar e ter convivido com a família do pai dele, que também é a dele, por ele ter aprendido a aceitar Theodore como ele é, com suas predileções pelos outros filhos, depois por ele fazer o que gosta e não o que esperam dele. Ate você ele ignorou, para não se tornar como eu manipulado. Sabia que Theodore enfrentou Daniel Cross por achar que ele estava diminuindo o partido que Edu era? Acho que ele de certa forma se orgulha do filho que tem e sua coragem.
Admiro Sophie também, lembro que ela me disse que queria me apresentar como seu irmão mais velho, que eu era bonito e que as amigas dela iriam puxar o saco dela para ficar perto de mim. Sabia que ela se formou em engenharia? Que desafiou a sociedade par ficar com o homem que sempre amou? Eu a invejei pela coragem de enfrentar o escândalo e por não ter medo de decepcionar o pai e a mãe dela. Eles ficaram orgulhosos dela. E Jesse? Ele eu admiro ainda mais, ele é nove anos mais novo que eu, mas tem muito mais coragem e personalidade. Ele quis a Emma e teve, e quando a perdeu ele se reergueu como uma rocha, ele não é do tipo de pessoa que se lamenta. Alem disso é mesmo um CEO brilhante, teríamos dado uma boa dupla. Eu tenho a inteligência e a experiência e ele a ousadia. Uma pena que fui tão fraco para perder tantas coisas.
Ela se demonstra horrorizada. Para não dizer espantada. Lágrimas descem por sua face.
__ E eu... O que você sente por mim?
__ Eu sempre achei que te devia tudo. Você fez muito por mim. Serei eternamente grato. Eu amo você. Mas não aguento mais ver essa dor em seus olhos. Imagino que isso que aproximou Theodore de você também o afastou. Esse olhar melancólico deixa as pessoas ao seu redor assim. Já percebeu que Edu te evita? Meu Deus ele quase perdeu o filho dele, e você nem está aqui por ele.
__ Estou aqui por você. Achei que precisava mais.
__ Não. Você está aqui para garantir que eu continue uma sombra na vida do seu ex-marido. Agora posso até entender o incomodo dele com minha presença. Eu o lembro o tempo todo que da mesma forma que um dia ele te salvou, também a destruiu por completo. Eu sou a lembrança que ele era fraco. Eu e Jesse diante dele, posso imaginar o que ele vê: Eu como a recordação da fragilidade, da demência, do triste. Jesse o exemplo de amor, de força. Vou reconhecer uma coisa pela primeira vez na minha vida, ele ama Alexa e ela faz dele forte e melhor. E você mãe me faz fraco, tão fraco... –digo liberando as lagrimas.
Estamos agora os dois no mesmo ambiente. Chorando cada um a sua dor. Mas o meu choro é de libertação. Amanhã eu serei de verdade um Grey. Eu usarei a força que esse sobrenome significa.
__ Você não pode me abandonar... Não pode perdoá-lo. Não pode desistir de tudo e finalmente lhe entregar a felicidade.
Como demorou eu perceber que ela sabia que meu jeito de agir de certa forma tira a paz de Theodore, ele carrega a culpa. Posso entender melhor agora aquele momento no jantar. Com eles ele tem paz. Aquela família lhe dar o equilíbrio. Quem pode julgá-lo por preferi-los? Eu não mais. Sou até capaz de dar razão a ele. Talvez eu faria o mesmo com toda essa loucura.
__ Filho. –ela se aproxima pegando meu rosto. __ Não me deixe sozinha em minha dor. –ela chora compulsivamente. __ Você é tudo que me restou.
Sinto-me culpado por sua debilidade, de alguma maneira eu incentivei a fraqueza dela, a obsessão, ao concordar em odiar meu próprio pai.
__Desculpa mãe, mas a partir desse momento eu não irei mais ficar em sua dor. Edu está certo isso é tão doentio. Foda-se se Theodore ama mais os outros filhos, foda-se se ele e você não deram certo. Eu quero ter a minha própria família, a minha empresa, os meus sonhos, as minhas ilusões e não a sua vida.
__ Vai me deixar sozinha?
__ O Antony te ama, só assim para ele ter suportado todos esses anos de surto seus. Vocês namoram há anos e há anos você continua estagnada em um amor que já acabou a muito tempo. Aproveite a chance que a vida ainda está lidando, e faça aquele homem feliz, e principalmente permita que ele te faça feliz, abra seu coração a ele. E me deixe em paz para seguir a minha vida. Acaba agora minha obsessão por meu pai e sua família.
__ Não faça, não desista...
__ A vida está me dando uma oportunidade. A vida não, na verdade Eduard e meu avô Christian de recomeçar, de reescrever minha existência. Sinto muito se não posso mais nessa doença com você.
Com essas palavras saio da sala e vou para meu quarto, me tranco ali e libero mais enxurradas de lagrimas. Minha noite é agitada, com lembranças, com arrependimentos. Mas acordei diferente. Com esperança.
Tomo um banho longo. Preciso de café. Quando entro na cozinha me deparo com o balcão devidamente organizado com café, pão, ovos mexidos e geléia. Alice aparece com uma xícara na mão. Por um momento esqueci que minha mãe estava aqui. Seu olhar é tranqüilo como há muito não via, seus olhos estão inchados provavelmente por chorar a noite toda.
__ Espero que tenha se acomodado bem. – minha voz sai fria.
__ Sim. Usei o outro quarto.
Ficamos em silencio por um tempo.
__ Preparei o café como você gosta.
Assinto com a cabeça e me sento para tomar café. De repente não sinto tanta vontade.
__Você está certo Samuel sobre tudo. Passei a noite pensando em tudo, especialmente no que transformei minha vida e conseqüentemente você. Eu tive tantos sofrimentos nessa vida, que as vezes e mais fácil se refugiar neles do que recomeçar.
Abro a boca, mas não sai nenhum som.
__ Mas isso não dava o direito de destruir você, de colocá-lo no meu desequilíbrio. Parece que séculos não penso sobriamente. Precisei que você me esmagasse com seu desespero por felicidade para entender que ainda há tempo. Perdoa-me meu filho?
Aproximo-me dela e a abraço forte. __ Oh mãe a senhora foi tão boa comigo em tantos níveis, me aceitou em eu coração. Eu só não suporto mais vê-la assim vivendo a vida como um rascunho.
__ Eu sei filho. E eu quero que você recomece. Passe seu rascunho a limpo e faça diferente. – lagrimas brotam em seus olhos de novo. __ Eu falhei com você, mas ainda há tempo não é?
Assinto com a cabeça.
__ Eu sempre vou estar aqui para você.
__ E eu para você mamãe. Seja feliz para eu poder ser também.
Abraçamo-nos e nos entregamos às lagrimas. Pela primeira vez sinto uma paz.
Entro no escritório e vou direto falar com Theodore. Estou em expectativa. Bato na porta.
__ Entre. –seu tom é severo.
Quando entro nossos olhos duelam. Mas não vejo desprezo em seu olhar. Não há nada ali.
__Podemos falar um momento? –pergunto timidamente.
Ele aponta a cadeira.
Sento-me e vou direto ao assunto. Se aprendi algo com ele é ser objetivo.
__Eduard me disse que lhe ofereceu as ações dele.
Ele assente com a cabeça.
__ Eu também lhe ofereço as minhas.
Sua cara de espanto e tão grande que merecia ser registrada. Sorrio internamente com essa ideia. Daria uma boa manchete e foto de jornal.
__ O que? –sua voz é quase inaudível.
__Eu sei que ainda nem herdei meus 12,5%, mas não quero ter mais ligações com a Grey Enterprises. Eu preciso dar um novo rumo a minha vida. Desligando-me daqui é um começo.
Acho que ele está tão estupeficado que mal consegue me responder.
__Samuel sei que nossa relação é desastrosa, mas você não precisa fazer isso.
__ Só me diga uma coisa sinceramente. Sua intenção é fazer de Jesse seu sucessor não é?
__Sim. -Ele assente com a cabeça e parece um pouco envergonhado.
__Uma boa escolha. –digo sinceramente.
Nunca esperei chocá-lo, mas nesse momento sei que o fiz.
__ Você... O que...
Ele fecha a boca, parece perdido.
__Então deseja já comprar minhas ações, ou terei que esperar herdá-las?
__ Tem certeza disso? Não é necessário sair daqui a menos que realmente o queira.
__Eu quero. Mais eu preciso.
__Tudo bem. Eu compro-as. Mas quero entender porque disso.
__Eu finalmente te aceitei como você é.
Ele arqueia a sobrancelha.
__ E como eu sou? Mesquinho, péssimo pai?
__ Não. Apenas humano.
Ele abre a boca, arregala os olhos. Mas no fim fica só me encarando.
Acho que o choquei de novo. Duas vezes em um mesmo dia é um feito. Sorrio internamente. Um belo recomeço para mim.
__Quando se desliga da empresa?
__ Essa é a minha ultima semana. Vou cumprir com os contratos e serviços delegados a mim. Bom obrigado. Meu advogado entrará em contato para resolver a parte burocrática. –digo me levantando e indo em direção a porta.
__ Samuel?
__ Você é muito bom no que faz. Terá muito sucesso. Boa sorte.
Assinto com a cabeça e saio. Essa conversa foi melhor do que eu pensava. Trabalho ate tarde para deixar tudo em ordem. Essa será a semana mais difícil, mas também libertadora. Minha mãe ia passar para ver Edu e de lá voltar a Chicago. Parece que ela tem algo importante a confessar a Antony. Sorrio por isso. Será um recomeço para ela também.
Ligo para Edu e nosso avô marcando um novo encontro. Eles precisam saber da minha decisão.
Quem sabe agora o meu coração também se abra a conhecer um verdadeiro amor?
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