Limiar
7 Um truque é só um truque
Um velho ditado diz que “não há nada tão ruim que não possa piorar”. Talvez esse seja o melhor jeito de descrever a minha situação naqueles dias. Em menos de quarenta e oito horas, tudo que eu entendia como “realidade” e “segurança” havia sido trocado por alguma fantasia estranha. Eu fora atirada de situação perigosa para situação perigosa, culminando em como estava naquele momento.
Meus pais haviam sido sequestrados e se eu não me entregasse aos sequestradores em cinco dias, eles iam morrer.
— A gente tem que chamar a polícia! – eu disse.
Era de manhã. Estávamos eu, Daniel, o pai dele e a garota reunidos de novo no quarto dos fundos da loja que estava servindo como minha casa. Eles já sabiam do que tinha acontecido e acho que estavam pensando em como agir. Não sei. Minha cabeça não parecia estar no lugar correto.
— A polícia não vai resolver isso – o pai de Daniel disse. – Mesmo que eles tentassem, não é o tipo de problema que está no alcance deles.
— Do que você está falando? – eu disse. – A polícia tem armas e mais gente! É claro que ela tem o que fazer!
— Há uma razão pela qual a Aalto desistiu de entrar quando viu que eu morava aqui. Um mago lutando em seu estúdio tem uma vantagem extrema. Derrota-lo nessa situação sem preparativos é virtualmente impossível. E a polícia não tem como se preparar. Eles nem sabem que Magia existe.
— Por quê? Por que diabos não? Por que ninguém conta? Essa situação toda não faz sentido!
— Como você é barulhenta – a garota reclamou.
— Meus pais foram sequestrados, droga! Você faz ideia do que é isso?
Daniel segurou minha mão.
Tentando me acalmar?
— Eu sei como você se sente – ele disse. – Minha mãe já foi sequestrada também. Usaram ela para me atrair para uma armadilha. Eu dei sorte de ter saído vivo.
— “Sorte”? – o pai de Daniel comentou.
Eles se entreolharam de um jeito estranho e então Daniel se voltou novamente para mim.
— Magia é algo complicado – ele disse. – Quanto mais pessoas sabem que ela existe, mais perigosa ela fica. Se o mundo inteiro soubesse … as coisas não seriam nada fáceis. É melhor assim.
Isso não faz sentido!
Aquilo não entrava na minha cabeça. Mas isso era o que menos me importava na situação inteira, por mais impossível de aceitar que fosse.
— E o que a gente faz então? – eu disse. – Senta e espera? Não! Meus pais estão nas mãos daquela droga daquela mulher! Eu não sei o que ela está fazendo com eles! Não posso ficar aqui sem fazer nada!
Não que houvesse algo que eu pudesse fazer. Eu não tinha superpoderes ou uma organização secreta sob meu comando. Eu era uma jovem normal tentando viver uma vida normal. Só isso. O que eu podia fazer contra eles? Mesmo que não tivesse magia envolvida, eles tinham armas. Dinheiro não resolveria.
Droga…
— Tem que ter algum jeito… – eu disse.
— E tem – a garota falou.
Ela me olhava como se estivesse prestes a falar algo muito sério e importante.
— Encontramos eles e libertamos seus pais em cinco dias – foi o que ela falou.
Honestamente, não sabia se deveria acreditar naquilo ou rir.
— Isso é sério! – eu disse.
— E eu estou falando sério – ela disse. – Não tem outro jeito tem? Ou resgatamos eles ou você se entrega.
— Mesmo que você esteja certa, achar eles não vai ser algo simples – Daniel disse. – Eles devem ter estabelecido um estúdio. O único jeito de achar é fisicamente.
— Você tem seus informantes, não tem? Podíamos usar esses.
— Isso não garante que vamos achar. E mesmo se acharmos isso não quer dizer que vai ser fácil tirar os pais dela de lá. Eles provavelmente vão estar sendo bem vigiados. E, além disso, depois que pegarmos eles fazemos o quê? Não dá para eles ficarem escondidos aqui para sempre.
— Se a gente não salvar eles essa não vai ser uma preocupação, não é?
— Parem – eu disse. – Por favor.
Minhas mãos tremiam. Eu me sentia enjoada. Saí dali. Precisava respirar um pouco ou ia cair dura no chão. Subi para a varanda, fechei os olhos, engoli todo o ar morno que meus pulmões aguentavam. Bater minha cabeça na grade sinceramente pareceu uma boa ideia naquele momento. Eu não fazia a mínima ideia do que fazer.
Me entregar e ser morta ou deixar meus pais nas mãos de terroristas.
Eu não consigo lembrar.
Daquela varanda eu podia ver o centro da cidade, bem longe, como se fosse um oceano lotado de águas-vivas. Eles estavam ali, no meio daquilo tudo, em algum lugar, sofrendo sabe-se lá o quê. Aquela mulher, eu sabia que seja lá onde ela estivesse, estava rindo de mim do mesmo jeito que estava rindo quando foi embora. Rindo porque sabia que eu não podia fazer nada contra ela.
Covarde!
Uma mão tocou meu ombro. Virando para o lado, vi que era Daniel, como sempre parecendo preocupado. Deitei a cabeça na grade.
— Por que isso está acontecendo comigo? – eu disse. – O que eu fiz de errado?
— Você não fez errado – ele disse. – Esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer pessoa. Aconteceu comigo também e eu era só uma pessoa normal.
— Pessoas normais não lutam contra monstros.
— Eu nem sempre fui assim. Meu pai mesmo disse que não tinha talento nenhum para magia. Era para eu ter vivido minha vida como qualquer outra pessoa. Estudar, trabalhar, casar, isso tudo. Mas as coisas saíram desse caminho dois anos atrás.
— O que aconteceu dois anos atrás?
Recostando-se nas grades, ele sorriu fitando o mar de águas-vivas.
— Eu morri – ele disse.
Parecia alguma piada idiota, o tipo de coisa que alguém conta para te fazer rir num momento tenso. Se as coisas fossem como eram antes eu ia achar que era só mais uma das tentativas horríveis de Daniel em ser engraçado. Mas não eram. Eu já tinha visto uma pessoa morrer na minha frente e depois se levantar como se só tivesse tropeçado. Esse era o tipo de coisa absurda que parecia ocorrer dia-após-dia, bem embaixo do meu nariz, enquanto eu vivia minha vida normalmente. Ainda assim, imaginar que algo desse tipo tinha acontecido com Daniel… não parecia certo.
Só acreditei quando ele abriu a camisa, revelando uma cicatriz enorme no peito. Um corte na altura do coração e uma queimadura funda ao redor dela. A pele estava destruída, escura, e os ossos pareciam ter afundado. Não era o tipo de ferida que acontecia com acidentes de carro ou queimaduras normais. Aquele tom profundamente escuro… tinha algo nele que gritava num tom que não deveria poder se alcançado.
— Eu estava no lugar errado na hora errada – Daniel disse. – Acabei morrendo no corredor de um prédio abandonado. Achei que fosse acabar ali. E então, de manhã, acordo e descubro que estou vivo e fui salvo por uma garota que se dizia uma maga.
— Isso parece algo tirado de Fate/Stay Night.
— É. Acho que sim. Mas eu não tinha passado por nada desse tipo antes. Meu pai tinha saído de casa dizendo que era um mago, mas eu nem acreditei nisso quando ele falou. Pensei que fosse alguma desculpa estúpida para não me contar o que aconteceu de verdade. Eu não acreditava em nada disso. Monstros, magia, essas coisas. E então, do nada, eu fui jogado no meio de uma briga entre uma bruxa imortal, um caçador de magos e uma maga lendária. Há muitas coisas absurdas por aí. Um amigo meu até lutou contra um dragão uma vez. Então não fique se culpando pelo que aconteceu. O mundo continua girando mesmo que você não perceba isso.
Meu rosto estava quente, meus olhos ardiam. Senti algo escorrer pelo meu rosto. Eu estava chorando. Quando foi que isso começou? Eu não notei.
— Eu só quero minha vida de volta…
Fiquei ali por mais alguns minutos ainda, respirando, pensando, me acalmando. Só quando estava mais ou menos de volta sob meus pés, deixei que Daniel me levasse de volta ao quartinho. O pai dele e a garota ainda estavam ali. Sentei no mesmo lugar de antes, assim como Daniel.
— Decidiu? – a garota falou.
— O quê? – eu perguntei.
— Como vamos resolver essa situação. Considerando que temos cinco dias, acho que se você decidisse agora ia facilitar bastante as coisas.
Ninguém disse nada. Não precisavam. Eu sabia que ela estava certa. E eu tinha uma resposta. Não sabia se era a resposta certa, se era isso mesmo que eu deveria fazer, mas eu não tinha escolha.
Não tem outro jeito, não é?
— Eu – eu disse. – Por favor… por favor, me ajudem.
Aquela mulher estava mentindo. Se eu me entregasse, o que garantia que ela ia soltar meus pais? Era óbvio que isso era só um truque. Assim que eu me entregasse, eles iriam ser inúteis. Mais que isso, eles seriam pessoas capazes de identificar quem era os terroristas que os haviam sequestrado. Então, se eu me entregasse, meus pais iam ser mortos. Era óbvio que era isso que ia acontecer. O único jeito de salva-los era derrotando a mulher e resgata-los antes dos cinco dias.
Não é?
— Você realmente pretende ir adiante com isso? – o pai de Daniel perguntou a ele. – Se tentar se envolver com a Fragarach eles não vão hesitar em contra-atacar. Dessa vez não se trata de um único inimigo. É uma organização grande e poderosa com quem você pretende se envolver.
— Eu sei disso – Daniel falou. – Mas eu não posso deixar a Emile na mão. São os pais dela. Além disso, é minha obrigação proteger essa cidade. Não posso simplesmente deixar eles entrarem aqui e saírem fazendo o que bem entenderem.
— Ele está certo – a garota disse. – Deixa um deles entrar e não demora muito até ter mais um bando de gente pensando que essa cidade é um puteiro. E isso seria um pé no saco. Além disso, tecnicamente é um trabalho, então espero um pagamento pela dor de cabeça.
— Lavínia! – Daniel exclamou.
— É verdade. Essa não é um caso de um monstro atacando uma pessoa normal. Isso é um caso de anomalia contra anomalia em que pessoas foram pegas no meio da troca de tiros. Além disso, ela pediu ajuda. E não é a regra que Magos têm que cobrar? Manter o valor do trabalho ou qualquer merda do tipo?
Daniel parecia irritado com ela. Ele até chegou a abrir a boca para falar alguma coisa, mas foi cortado pelo seu pai.
— Ela tem razão – ele disse. – Não posso deixar que meu estúdio se torne um lugar de favores. Daniel é meu assistente, então manter Emile aqui é algo que faço em troca da ajuda que ele me dá, mas se envolver com a Fragarach é outra história.
— Ela é minha amiga, droga! – Daniel disse. – E se um amigo está com problemas você tem que ajudar!
Não é isso…
— Está tudo bem – eu disse. – Eu não sei como essas coisas funcionam. Nem tenho dinheiro nenhum comigo. Não. Nem todo o dinheiro que eu tenho poderia pagar o risco, acho. Mas, por favor, Daniel, salve os meus pais. Eu estou disposta a te dar qualquer coisa se você me ajudar.
A garota apertou as sobrancelhas um instante, mas logo o que apareceu foi um sorriso sabichão. Daniel parecia surpreso com o que eu disse.
— Eu fiz algo de errado? – eu disse.
— Não – ele falou. – Nada de errado. Eu aceito suas condições. Então não se preocupe. Nós vamos salvar os seus pais. Eu prometo.
Saímos da sala dos fundos e voltamos para a entrada da loja. Daniel botou o casaco e a garota pegou sua mochila. Estavam para sair. Provavelmente iam começar logo a investigar.
— Fica aqui – Daniel me disse. – Esse é provavelmente o lugar mais seguro na cidade inteira. Nós vamos atrás deles.
— Pode ficar tranquila – a garota disse. – Ele pode ser um babaca, mas não é um mentiroso.
E assim, eles dois saíram juntos pela porta em direção ao mar de águas-vivas, me deixando para trás, escondida.
Eu me sentia estranha. Minhas pernas estavam agitadas. Eu sentia vontade de correr, de gritar. A loja de repente parecia tão pequena e apertada, como a boca de um monstro prestes a me engolir. Minha garganta estava apertada, meu pulso acelerado.
Qual é a palavra?
O pai de Daniel me encarava com olhos cheios de sabetudice. Detestava aquele olhar. Ele me fazia sentir nua, mesmo agora com as minhas roupas todas. E ele não parava de olhar, quase como se estivesse esperando alguma coisa de mim.
— Isso não é uma boa ideia – ele disse. – Aqui dentro eles não vão te tocar, mas assim que você cruzar o limiar da porta o que vai estar te esperando não é o mundo que você conhecia.
— Só existe um mundo. O que está acontecendo agora é só um pesadelo. Quando meus pais voltarem eu vou acordar e tudo isso vai desaparecer.
— O mundo não é um lugar tão conveniente. Por mais bem feito que seja, um truque é só um truque. Mesmo que o mundo inteiro acredite nele e esqueça a sua natureza, ele ainda será um truque. Tudo que você pode fazer é controla-lo em vez de ser controlado por ele.
— O que isso quer dizer?
— Quem sabe. É só algo que um velho conhecido costumava dizer. Não pense demais nisso. No fim das contas, você decide o que faz da sua vida.
Depois de dizer isso, ele voltou para o balcão como se nada tivesse acontecido.
Sujeito estranho.
Daniel e a garota já iam longe. Podia vê-los quase na esquina. Mais um pouco e eles desapareceriam atrás dos meus pais. Não era difícil, era? Tudo que eu tinha que fazer era esperar e juntos eles iriam acha-los. Estaria segura enquanto isso, sem me preocupar em nada. Ia ficar bem se só ficasse parada ali.
Não ia?
Droga…
Eu sabia que era um erro. Eu sabia que era besteira. Eu sabia que não precisava. Eu sabia disso tudo e mesmo assim não consegui me impedir de correr para fora da loja atrás daqueles dois, de alcançá-los antes da curva e para-los com um grito.
— O que você está fazendo aqui? – Daniel disse.
— Eu…
Eu não consigo lembrar.
— Está na cara – a garota falou. – Ela quer vir com a gente.
— O quê? Emile, isso é verdade? Não é seguro. Não dá para garantir que eles não vão atacar. Você devia ficar na loja.
As palavras não vinham, as coisas giravam sem forma ao meu redor. Sem forma, sem face, no escuro, me olhando e me perguntando alguma coisa que eu não sabia responder.
Concentre-se! Dizer algo! Dizer algo!
— São meus pais! – eu gritei.
É isso, não é?
Daniel estava me encarando cheio de alguma coisa que eu não sabia exatamente dizer o que era, mas que por alguma razão se parecia muito com… compreensão? Acho que era isso.
— Eu sei como é, mas não é seguro – ele disse. – Eu vou para um lugar perigoso, não posso garantir que você ficaria bem.
— Mas… eu não posso simplesmente ficar sentada esperando.
— Seria um problema se eles te pegassem, então, por favor, você vai ter que acreditar em mim. Eu sei que você está preocupada, mas é melhor assim.
Não é isso…
— Ela vai comigo então – a garota disse de repente.
Ela veio até mim, esticou um sorriso de lado a lado e fez um sinal de positivo para Daniel.
— Eu posso cuidar dela se algo der errado – ela falou. – E não é certo deixar uma filha preocupada com seus pais. Se ela quer ir lutar por eles, ela tem que fazer isso. E é isso que você quer, não é?
Eu não sabia o que queria dizer. Eu não sabia nem porque tinha me colocado naquela situação. Mas ela estava certa. Tinha que estar. Então tudo que eu podia fazer era dizer o que eu deveria dizer:
— Obrigada.
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