Limiar

16 Eu só quero acordar


Você volta para uma cidade onde morou e encontra parte dela, incluindo sua antiga casa, destruída. Ao entrar na sua casa, você se lembra de coisas que simplesmente não estavam na sua cabeça antes. E então, para completar o quadro um velho aparece e diz que é o seu “criador”. Como você reagiria a essa situação? Como é que alguém deveria reagir a uma situação como essa? Eu só conseguia me segurar, porque se eu não fizesse isso ia começar a gritar bem ali.

— Do que você está falando? – eu disse. – “Criador”? Que tipo de brincadeira idiota é essa?

A cara do velho não mudava não importava o que eu dissesse. Era quase como se ele esperasse aquilo.

— Se quer saber, venha comigo – ele disse. – Vocês dois podem vir também, se quiserem.

Ele deu as costas e foi caminhando para a saída.

Droga!

— Espera! – eu gritei. – Fala agora!

— Esquece – Lavínia falou. – Esses tipos não abrem a boca se você não faz o que eles querem. Essa pose toda de vilão é um pé-no-saco.

— Ela está certa – Daniel disse. – Melhor a gente ir com ele.

Não…

— Vocês não estão levando isso a sério, né? – eu disse. – Essa coisa toda de que eu fui criada não faz sentido, né? Né?

Nenhum dos dois disse nada. Minha mão buscou o colar e o apertou com força.

Eu não consigo entender mais nada.

Daniel parou à minha frente, me olhando com uma seriedade que doía.

Por favor, só dessa vez, não fala nada.

— A gente tem que ir – ele falou.

Eu sorri quase chorando.

— Você é cruel – falei.

— Eu sinto muito.

— Não diz isso, por favor.

Esfreguei meus olhos e tentei respirar. Era difícil. O ar não passava direito pela garganta, nem mais nada. Só então eu entendia o peso do que eu tinha dito antes.

— Vamos lá – eu falei.

Segui junto com Daniel e Lavínia para fora da casa, atrás do homem velho. Seguindo ele, acabamos entrando pela mata que cercava a cidade por um projeto de trilha que parecia não ser usado há anos. Perto de uma cortina de cipós, ele encostou a bengala numa árvore e disse alguma coisa. Uma brisa passou ao redor, chacoalhando as copas das árvores. De cima, junto à luz que passava pelos galhos, caíram folhas e o grunhido de algum animal estranho.

— Podemos entrar agora – o velho disse.

Ele atravessou a cortina de cipós, desaparecendo do outro lado. Eu, Daniel e Lavínia nos entreolhamos antes de acompanhar o homem. Acho que até para eles era uma situação estranha. Daniel foi andando na frente, eu segui de perto e Lavínia veio por último.

E do outro lado, não tinha nada do que eu esperava.

Como?

O que tinha era uma clareira e no meio da clareira uma cabana de madeira muito grande para estar ali antes. Não tinha como não ver aquilo pelo outro lado, mas, ainda assim, estava ali e eu nem tinha notado. Ouvi o guinchado outra vez.

Olhos grandes.

Um animal estava em cima do telhado da casa. Era como um mico, mas grande demais para ser um, quase do tamanho de uma pessoa, com garras longas demais e um corpo curvado demais.

— Ele não vai atacar – o velho disse. – Não se preocupem.

O velho foi até a entrada da cabana e a abriu a porta, porém não entrou, apenas indicou o caminho com a bengala. Enquanto eu caminhava para dentro, via os olhos daquele animal me acompanhando.

Por dentro, a cabana também parecia abandonada, largada por muito tempo. Os móveis estavam completamente cobertos de pó, as luzes pareciam queimadas, os vidros estavam quebrados. Tudo parecia tão diferente, tão… mudado.

Minha cabeça…

Daniel se aproximou rápido, preocupado.

— Não foi nada – eu disse. – Já passou.

O homem velho abriu uma porta e puxou uma lanterna do bolso, jogando a luz no escuro para revelar uma escada que descia. No fim da escada, outra porta, de ferro, pesada. O homem a abriu com uma chave velha e anormal. A porta rangeu ao ser aberta, como se tentasse se recusar a mostrar o que tinha atrás de si. Mas ninguém ali ia aceitar essa recusa. Tudo aquilo já tinha ido tão longe, não fazia sentido parar.

Não é?

Quando passamos pelo limiar da porta de ferro, o homem velho apertou um interruptor e as luzes se acenderam. E então, como uma máscara que é tirada para revelar o rosto do grande vilão, a escuridão se dissipou e ao meu redor apareceu o que eu só conseguiria descrever como um tipo de observatório de prisão. Havia mesas, um computador, instrumentos que eu nem sabia dizer o que eram, monitores e um grande vidro.

Escuro.

Tudo ao meu redor estava escuro.

Meu corpo se aproximou do vidro, minhas mãos o tocaram com medo e incredulidade. Do outro lado daquele vidro, havia um quarto completamente vazio, com paredes cobertas por isolamento acústico e câmeras espalhadas nos quatro cantos.

Só existia eu. Apenas eu, nada mais.

Minhas mãos tocaram meu rosto. Lágrimas estavam escorrendo.

Uma garota isolada num mundo escuro e mudo.

— Você reconhece, não é? – o homem velho disse. — Esse foi o lugar em que você foi criada.

— Eu… eu não entendo – alguém falou com minha voz.

O homem estava parado no meio da sala, sua figura gigante tomando todo o lugar.

— O que é “eu”? – ele falou. – Já parou para pensar nisso? Por que você é capaz de dizer “eu não entendo”? Por que você compreende que existe algo que é você e não outra pessoa? Essa era a minha pergunta. Eu sempre tive curiosidade sobre isso que chamamos de “eu”. Qual é, exatamente, o limiar da individualidade? E alguém que perdeu essa barreira, o que seria dessa pessoa? Ele seria a perfeita máquina de guerra, sem remorso, sem medo, sem piedade, apenas atacando e cumprindo objetivos para os quais seria programada? Era nisso que a Fragarach acreditava. Era isso que eles queriam que eu produzisse. Então, eles investiram no meu projeto.

Ele ergueu um braço apontando para mim.

— Você – falou. – Uma criança concebida no completo isolamento. Criada desde o início da sua vida sem contato algum com outros seres vivos. Foi um projeto difícil de realizar. Mesmo para a magia moderna construir um corpo humano plenamente funcional e capaz de crescer é um desafio gigantesco. Por sorte, há muitos interessados no assunto. Fragarach reuniu todos eles, criou as condições necessárias e me deixou na direção do projeto. Assim, eventualmente, conseguimos cumprir nosso objetivo. A obra-prima da magia, criada a partir dos esforços de algumas das maiores mentes disponíveis. Uma tábula-rasa para o próximo estágio. Foi construído então o ambiente que está atrás desse vidro e dentro dele colocaram a criança. Por anos, ela ficou isolada naquele quarto, sem nenhum estímulo externo, sem nenhum contato com nada. Apenas ela. Dia após dia, eu via ela crescer, se transformar, até que chegou o dia de ver os resultados. A criança foi retirada do isolamento e fizemos as primeiras análises. No começo, todos os resultados estavam de acordo com o que era esperado. Uma criança vazia que podia ser facilmente programada para ser qualquer coisa. Mas os resultados negativos não demoraram. O que deveria ser alguém que recebia o mundo dentro de si se tornou alguém cujo interior vazava para fora. Sem uma barreira para separar o seu eu do mundo, os conteúdos da mente dela começaram a vazar para fora e o seu inesperado potencial para magia deu a esses vazamentos forma. Aos olhos da Fragarach, o projeto era um fracasso, mas um fracasso que poderia ser aproveitado. Então, foi decidido que a criança seria criada por agentes da Fragarach que a observariam e a manteriam em constante vigilância até o dia em que decidissem pegá-la de volta. Esses agentes, Emile, eram seus pais adotivos. Conforme você se desenvolvia, porém, as aparições vindas de você se tornavam mais fortes, maiores, alimentadas pelos seus sentimentos e pelo seu ego em crescimento. Às vezes elas saíam de controle e causavam problemas demais. Nessas horas, as forças locais limpavam a confusão e só restava à Fragarach te tirar da cena e apagar qualquer lembrança inconveniente da sua cabeça. Era o mais pleno interesse que você se desenvolvesse da maneira mais normal possível: um protótipo a servir de base para versões melhores, mais completas. Enfim, chegou o dia em que foi decido o seu retorno para as mãos da Fragarach. Seus vigias foram chamados de volta e a que mantinha um olho sobre você na sua faculdade te enviou para uma localização onde você poderia ser encontrada e capturada sem problemas. O que não era esperado era que suas aparições tivessem se tornado tão poderosas nem que fosse haver a intromissão de terceiros. Não conseguiram te capturar e assim tudo chegou à situação atual. Essa é a verdade sobre você. Toda sua vida foi uma mentira. Emile Kato não passa de uma farsa.

Eu queria vomitar todos os meus órgãos. Eu queria chorar todo o meu sangue. Eu queria gritar até minha garganta se partir. Eu queria morrer, não importava como. Eu queria morrer, desde que isso fizesse tudo aquilo sumir. Eu queria que tudo desaparecesse, eu queria que o mundo inteiro desabasse. Eu queria que Terra fosse engolida por fogo ou que algum monstro devastasse toda a humanidade até não sobrar nenhum rastro de que um dia havia existido alguma coisa ali. Eu queria que tudo aquilo fosse só uma mentira.

Mas não é. Não. Não é. Não é. Não. É. É. Não. Eu não sei. Eu sei. Não. Não sei. Não. Sei não. Sei. Sei. Não. Não! Não!

Meu coração queimava junto a meu sangue. Eu sentia algo escapar de mim a cada vez que eu gritava.

Essa luz… Ela não é de verdade. É só mais uma mentira. A verdade é só a escuridão e o silêncio.

É só uma mentira.

Então não tem nada disso acontecendo. Não tem nada caindo. É só um pesadelo.

Ah… tão óbvio.

Isso tudo é só um pesadelo.

Eu ainda estou dormindo. Quando eu acordar, eu vou estar na minha cama e não vão ter monstros, nem magia, nem nada como isso. Eu vou acordar e vou estar na minha casa. Eu vou comer e pegar o metrô para a faculdade. Eu vou cruzar com a minha veterana e eu vou me encontrar com o Daniel no segundo período e depois vou almoçar com ele, com a Paula, com o Dênis e com o Coiote. Vamos falar de coisas idiotas e sem sentido e vamos todos rir. Depois disso eu vou voltar para casa. Eu vou estudar, talvez assistir alguma coisa e vou dormir.

Assim que esse pesadelo acabar, tudo vai voltar ao normal.

Haha…

Como eu consegui acreditar nessa história toda? Magia, monstros. Nada disso existe.

É só um pesadelo. Tudo isso é só um pesadelo.

Agora, está na hora de acordar.

Eu fechei os olhos.

Apenas pisque e vai estar acabado, não é? Num piscar de olhos.

Tudo vai acabar.

Por favor…

Eu só quero acordar.

“Emile!”

Eu conheço essa voz.

“Emile!”

O que ele está fazendo aqui?

“Emile!”

Daniel…?

Tudo bem. Não precisa se preocupar. Eu já vou para aí. Vamos nos ver daqui a pouco, tudo bem? Só espera mais um pouco.

Dor.

Dor?

Meu rosto estava doendo. Lavínia estava parada na minha frente, o punho cerrado, os olhos me encarando, ferozes.

— Ninguém tem tempo para isso – ela disse.

Ela tinha me batido…?

— Tempo? – eu perguntei.

Fogo.

Tinha fogo ao me redor.

Um incêndio.

Pouco á minha frente, Daniel estava segurando o teto que tinha caído, as linhas negras descendo por seus braços e subindo pelo pescoço.

— Rápido! – ele gritou.

Lavínia me agarrou pela mão e me arrastou para as escadas. A cabana inteira estava ardendo. Enquanto eu era arrastada, uma perna gigante atravessou o teto e esmagou a sala. Eu gritei. Do lado de fora, eu vi a clareira em chamas e o monstro gigante, o mesmo que aparecera no galpão, mas tão, tão maior, destroçando o macaco que guardava a cabana. Eu despenquei no chão, cansada demais para continuar. O monstro rugiu para o céu, envolto nas chamas que engoliam tudo, enquanto a cabana desabava completamente. Do meio do fogo, Daniel saltou carregando o homem velho, pouco antes de o teto cair e tudo enfim desabar por terra.

— Vamos sair daqui – ele disse.

Eu fui levada para longe, através da cortina de cipós, vendo a clareira desaparecer enquanto o monstro rugia e eu sentia, no fundo de mim, que naquele rugido, mais que fogo, havia lágrimas.