Limiar

15 Acho que eu estou mudando


Primeiro uma cobra, depois um gorila e agora um dinossauro. O que vem depois? Eu não faço ideia. O que seria pior que um dinossauro? Acho que não tem muita coisa. Bem, então acho que pelo menos eu posso ficar calma quanto a aparecer alguma coisa ainda pior.

Certo, e tem o fato de que eu acabei de ser salva pela aranha. E depois ela brigou com a Lavínia e com o Daniel e foi embora como se tivesse acabado de sair do shopping. Céus. Acho que eu acabei de perder o que me restava de coerência mental…

Apenas fique calma, Emile.

É fácil para você falar, Emile.

Vamos lá. Adiante.

Depois de todo o caos no galpão, eu, Daniel e Lavínia voltamos para o antiquário do mesmo modo que um grupo em algum JRPG voltaria para uma inn após enfrentar um chefe particularmente difícil. Na verdade, agora que paro para pensar, minha situação realmente lembra bastante o roteiro de algum jogo estranho.

Seria pedir muito para ser da Namco-Bandai?

Não era sobre isso que você devia estar pensando, Emile.

Desculpe, Emile.

No antiquário, para a minha não-surpresa completa, Marcos já estava no balcão lendo alguma coisa. Ou ele nunca saía dali ou ele tinha algum tipo de visão do futuro. Ambas seriam explicações que eu estava bastante disposta a aceitar. Sendo sincera, eu acho que aceitaria praticamente qualquer explicação àquela altura. Minha suspensão de descrença estava no máximo.

— Como foi? – Marcos perguntou.

— Ninguém morreu – Lavínia disse. – O que é uma pena.

Ela se jogou no primeiro banco que viu, de pernas abertas e cara fechada. Daniel foi até o balcão e parou em frente ao pai dele.

— A Luciana – ele disse – uma amiga da Emile, a que chamou ela, era da Fragarach. Quando a gente entrou ela tinha se transformado em um tipo de monstro.

— Monstro? – Marcos perguntou.

— Ela tinha escamas, guelras e garras. Parecia um pouco com um peixe. Faz ideia do que era?

— É um pouco difícil dizer. Existem muitas criaturas assim, parte humano, parte peixe. Sem mais informações não tem como ter nenhum tipo de precisão.

— Esquece a piranha – Lavínia disse. – O problema é a cadela. Eu não consegui cortar ela e ela parava os socos do Daniel como se eles fossem um sopro. E depois ainda batia de volta com mais força.

— Parecia alguma habilidade do tipo Counter.

— Isso faz dela um Wobbuffet? – eu disse.

— Acho que ela é um pouco mais perigosa que isso – Daniel falou.

Marcos ajeitou os óculos e ficou pensativo por um momento.

— Como ela parava os golpes? – ele perguntou.

— Ela sempre usava a mão esquerda – Lavínia disse. – Fazia um movimento assim com a palma. E depois devolvia com a direita.

— Entendo. A mão esquerda capta a energia e a guia para o braço direito que então a usa num ataque.

Marcos movia as mãos reproduzindo movimentos de algum tipo de dança ou luta chinesa. E então ele parou e ajeitou os óculos.

Então ele também pode agir como um nerd.

— A teoria é bastante simples, mas a execução nem tanto – ele disse. – Soa como Qigon, talvez Taichi. Definitivamente é um dos dois. Uma mescla de artes marciais e magia. Deve ser bonito de ser ver.

— É lindo quando te acerta na cara, com certeza – Lavínia falou.

— Tenho certeza de que é. Mas vocês descobriram algo além disso?

Acho que essa é minha deixa.

— A Lu… – eu falei. – Droga. Não consigo acreditar que ela era um monstro.

— Ei, garota cobra – Lavínia disse. – Foco.

Fechei a cara para Lavínia e ela abriu um sorrisinho entojado.

— Ela falou alguma coisa sobre um massacre – eu disse. – Que eu tinha feito um. Eu não entendi.

— Um massacre? – Marcos repetiu. – Mais nada?

— A Aalto disse de novo que eu devia ir procurar o meu passado.

Minhas mãos estavam tremendo um pouco.

— Acho que é o que eu vou fazer – eu disse. – Não. É o que eu vou fazer. Eu vou visitar a cidade onde eu morei antes.

Uma mão no meu ombro.

Daniel estava ao meu lado, me olhando confiante como alguém que tenta te passar apoio sem falar nada.

— Então vamos viajar? – Lavínia disse. – Ótimo. Ao menos uma coisa boa disso tudo.

Ela saltou do banco em que estava, agarrou o braço de Daniel e o puxou para perto de si.

— Faz tempo que você não me leva para fora da cidade – ela disse. – Infelizmente meu namorado é ocupado demais para sair comigo, não é? Embora eu não tenha nada contra bater em algumas pessoas junto com você, às vezes não é ruim fazer algo menos agitado.

— Você tem a personalidade de uma gata, sabia disso? – Daniel disse.

Um soco.

Ai.

— Babaca – Lavínia disse.

Meu coração batia rápido, meu olhar fugiu para o lado e acabou encontrando Marcos. Ele me olhou de volta, sério, e fechou o livro que estava lendo.

Jung.

No quarto em que eu estava dormindo, troquei de roupas e me preparei psicologicamente para a viagem. Mesmo que fosse, ou devesse ser, algo que eu já esperava fazer, ainda assim eu não conseguia tirar aquela sensação esquisita de dentro de mim.

Medo?

Enquanto me trocava, acabei parando na frente do espelho vestindo só o colar. Apertei ele com força na minha mão, não sei por quê. Só senti que precisava fazer isso.

Acho que eu estou mudando.

Mas o que isso significa?

Encostei a mão no espelho, parecia que eu estava tocando algo tão diferente, e fechei os olhos. Tentei formar uma imagem na minha cabeça ou qualquer coisa assim. Eu não fazia ideia do que estava fazendo. E mesmo assim eu sentia… sentia que devia fazer.

Escuro. Uma forma. O quê? Verde. Grande. A serpente. O gorila. O dinossauro.

“Qual é o meu nome?”.

Abri os olhos.

Uma garota.

— Quem é você?

Umas duas horas mais tarde, Daniel chegou de carro à frente da loja e buzinou. Desci até a frente do antiquário, onde Marcos esperava, de pé, solene e sério como sempre fazia questão de parecer.

— Eu estou indo – eu disse. – Obrigada por toda a ajuda.

— Isso não vai acabar só porque você pode ter descoberto algo sobre você mesma – Marcos disse. – Essa é só a primeira parte. Uma vez que você descobre, vai ter que lidar com isso e com todos os problemas que cercam sua situação atual. E não vai acabar aí. É um processo contínuo que vai tomar todo o resto da sua vida.

— Você soa como aqueles mestres de filmes. Eu sei que não acaba aqui, mas eu não te agradeci ainda. Então estou fazendo isso agora. Bastante simples.

— Entendo. Mas não precisa me agradecer.

Ele olhou para o lado de fora, para onde o carro me esperava.

— Eu sei como é estar perdido num mundo estranho – Marcos falou. – Eu já estive nessa posição e fiz coisas de que me arrependo. Se possível, queria evitar que vocês passassem pelo mesmo.

Eu sorri.

— Se você fosse mais novo eu estaria apaixonada por você – eu disse.

Marcos sorriu.

Ele consegue fazer isso de verdade?

— Tenho certeza de que estaria – ele falou. – Agora vai. E eu espero que você encontre o que vai procurar.

Saí da loja e fui para o carro. Lavínia estava no banco do carona e Daniel dirigindo, então eu tive que ir no banco de trás.

— Eu dei uma olhada na internet sobre a cidade antes de vir para cá – Daniel falou. – Não tem muito sobre ela, mas parece que aconteceu alguma coisa no lugar dois ou três anos atrás. Um incêndio e depois um deslizamento de terra. Muitas pessoas morreram. Só que isso era tudo que dizia.

— Tudo bem – eu falei. – Quando eu chegar lá talvez eu lembre de algo. E se eu não lembrar, posso perguntar para alguém.

— Certo então – Lavínia disse. – Pisa no acelerador, mago.

Pelo retrovisor, dava para ver que Lavínia estava olhando para mim.

— Vamos ver o que o passado esconde – ela disse.

O que foi isso?

E assim, a viagem começou.

Agora, uma interrupção. Se isso fosse um livro de fantasia épica, eu descreveria o tipo de lugares pelo qual o carro passou, toda a viagem e essas coisas. Mas ninguém ali estava levando um anel para a montanha da perdição então acho que não vou fazer isso. Sinto muito para aqueles que esperavam por esse momento, se é que tem alguém assim, mas eu vou pular direto para o próximo evento importante.

A viagem até a cidadezinha onde eu tinha morado antes foi até rápida. Ela ficava umas duas horas de carro longe da capital e não tinha lá muito trânsito fora da cidade. Então, em pouco mais de duas horas, o carro estava entrando numa cidade pequena, com um monte de casas antigas nos subúrbios, mas só casas novas no centro. E ruínas. Casas em ruínas. Ainda tinham vários esqueletos queimados de construções ali, além de uma ou outra que mais parecia ter sido derrubada por alguma força vinda de fora. A parte mais próxima do morro tinha mais casas assim, destruídas por impacto, e mais área queimada. Provavelmente a ajuda demorou a chegar ali. Depois de uns minutos rodando pelas ruas, o carro passou perto de uma que eu reconhecia muito bem.

— Minha casa era para lá – eu disse.

“Para lá” era a parte alta da cidade. Conforme o carro subia a ladeira, a destruição aumentava e um aperto no meu peito crescia. Minhas mãos tremiam muito e minha cabeça doía.

— Tudo bem? – Daniel perguntou.

— Continua – eu disse. – Não para.

O carro ia subindo ainda mais e as casas ficavam mais destruídas, o próprio chão, as árvores a terra, tudo ia ficando mais devastado a cada metro mais próximo do alto até culminar num cenário de guerra, como uma foto de algum campo de batalha da Segunda Guerra, bem na frente de um sobrado.

Minha cabeça estava explodindo, minha garganta inchada como se uma bola estivesse lá dentro. Assim que o carro parou, eu abri a porta e saltei para fora.

O que é isso?

A casa estava completamente em ruínas, desmoronada, quebrada, não só pelo fogo, mas também por alguma força descomunal.

Fogo. Gritos. Rugidos. Monstros.

A dor não parava de aumentar, minhas mãos tremiam mais e mais. Corri através da porta derrubada para dentro da casa.

Pessoas fugindo. Medo. O céu caindo em cima da minha cabeça.

Subi para onde ficava o meu quarto, saltando pelos degraus partidos da escada, ignorando as paredes que ameaçavam cair sobre a minha cabeça.

Olhos no escuro. Sibilar. A serpente.

Eu estava de frente para ela, cercada pelo fogo, minhas mãos tremendo, meu coração batendo rápido demais.

“Qual o meu nome?”

“Qual o meu…”

“Qual o…”

“Qual…”

“Qu…”

“Quem…”

“Quem é…”

“Quem é você?”

Eu não sabia.

Caí no chão. Segurei minhas mãos com toda a força que eu tinha, mas nada fazia elas pararem de tremer.

“Quem é você?”, aqueles olhos me perguntavam.

“Quem é você?”

Por que eu não respondi?

Por que eu não me lembrava disso?

— Emile? – alguém disse.

Me levantei num salto, me virei para a porta. Daniel estava ali, parecendo preocupado comigo. Corri e me segurei nele para não cair.

— Emile…? – ele murmurou.

Segurei a boca dele.

Não fala nada, por favor.

Só fica parado.

Me afastei de Daniel.

O que eu estou fazendo?

— Desculpe – eu disse. – Obviamente isso é culpa sua por entrar no quarto de alguém sem bater.

Não tinha porta no quarto.

O que eu estou fazendo?

A expressão que Daniel mostrou naquele momento…

Pena, empatia, preocupação…?

— Não precisa fingir – ele falou. – Eu sei como é difícil.

Abaixei a cabeça, tentei sorrir. Minhas mãos estavam segurando o colar que Marcos me dera.

O que eu estou fazendo?

Eu sorri, mas o sorriso me machucava.

— Eu… não posso mais voltar atrás, não é? – falei.

Daniel não disse nada. Ele não precisava dizer nada. Só precisava ficar parada, me olhando do jeito que estava olhando.

— Eu vou descer – eu falei.

Passei direto por ele, ainda apertando o colar, desci para a sala. Lavínia estava ali, apoiada na parede, e tinha mais uma pessoa parada na entrada. Um homem velho, assustador, sombrio, apoiado com as duas mãos sobre uma bengala como se tentasse sustentar o peso de alguma culpa imensa nas costas.

Esse rosto…

Lavínia olhou na minha direção e então para o homem, Daniel desceu e parou um pouco à minha frente. O homem velho olhou para eles dois e depois para mim.

O que esses olhos viram?

— Tuuli não mentiu – ele falou. – Você veio.

A teia da aranha.

— Quem… é você? – eu perguntei.

O homem fechou os olhos por um segundo. Minhas mãos tremiam. O homem abriu os olhos de novo, impossivelmente pesados, e com o mesmo peso em sua voz disse:

— Eu sou o seu criador.