Limiar
8 É só questão de costume
Logo após, enquanto Daniel seguiu numa direção, eu e a garota fomos pela outra. Fiquei seguindo ela um pouco de longe, apenas observando e tentando não me afastar demais. Ela tinha um jeito estranho de andar. Não parecia uma garota. Também não era como se andasse feito um homem. Era outra coisa, meio inclinada para frente, com as mãos meio rígidas. Não sei. Era diferente.
Ela andava estranho.
Acabamos indo até o ponto de ônibus e ficamos esperando ali. Não tinha muito mais gente além de mim e dela ali. Era estranho ver um bairro tão vazio. O subúrbio era muito diferente do centro. Não parecia nem a mesma cidade. Ou talvez eu só estivesse vendo as coisas diferente. Não dava mais para saber.
Quando o ônibus chegou, subimos. Estava quase vazio. Ela sentou no fundo. Eu também, mas um pouco longe dela. Depois de uma meia-hora, ela apertou o botão de parada. Aquela altura, o ônibus estava passando por um lugar estranho. Subúrbio também, mas não igual ao de antes. A loja ficava num bairro que parecia estar começando a crescer, cheio de prédios novos sendo construídos. Esse, pelo contrário, parecia um lugar que estava morrendo, cheio de casas abandonadas e prédios largados às moscas, cheio de viadutos, cantos escuros e pessoas observando quem passava.
— Por que você veio para cá? – eu perguntei. – Essa região é perigosa.
— Relaxa – a garota respondeu. – Está de dia. Além disso, se alguém tentar bancar o esperto vai acabar mal.
Ela levantou o casaco e a camisa para mostrar o cabo da faca dentro da calça. Talvez eu tivesse errado em pensar que Daniel era a pessoa mais perigosa dos dois. Não falei mais nada e só fui seguindo. Acabamos indo parar numa rua estreita que dava para uma avenida grande, um lugar cheio de barzinhos e carros baratos. A garota foi para a calçada e de lá direto para a porta do que parecia ser um clube, bar ou qualquer coisa assim.
Não era o tipo de lugar que alguém poderia descrever dizendo que “parece seguro”. Dizer o contrário, porém, até que parecia bem aplicável. Uma fachada velha, uns vidros arranhados, só um letreiro de madeira antigo dizendo que aquilo não era uma casa abandonada e sim um bar. Fiquei encarando aquele lugar esquisito.
— Vem – a garota falou. – Tem um cara aqui dentro que pode saber de alguma coisa.
A rua estava quase deserta, tirando por uns dois sujeitos que não paravam de ficar me olhando. Ficar sozinha era burrice. Só podia mesmo era aceitar e ir com a garota para dentro daquela coisa cujo letreiro insistia em chamar de bar. Assim que entrei, a garota fechou a porta atrás de mim.
Estranho.
Acontece que não tinha um bar propriamente dito logo ali atrás da porta. Na verdade, não tinha bar nenhum. Só uma escada que descia. A garota seguiu por ela. Como era o único caminho e eu realmente não estava a fim de ficar sozinha num lugar daqueles, acabei indo atrás dela. Depois de uns quinze degraus, tinha outra porta, dessas sem trinco que se usa em shows, bem mal iluminada. Devia ser ali. A garota entrou e eu segui.
Vermelho.
Quente.
Tapetes, estofados de veludo, um balcão e um bar de madeira de mogno, centenas de garrafas de bebidas que eu nunca nem pensei que pudessem existir, e uma música de B. B. King tocando num rádio. Não era uma birosca de esquina, nem um boteco de algum Zé. Parecia mais um bar de jazz, bem no estilo dos anos 1920. Com um piano e Frank Sinatra eu poderia jurar que tinha entrado em alguma estranha porta dimensional e sido enviada para um filme da Era do Jazz. O que, àquela altura, não me surpreenderia muito, acho. Não tanto quanto encontrar aquele lugar no meio de um bairro como o em que eu estava.
É o mesmo que achar uma carta de tarô no meio de um baralho de Uno. Se é que isso faz algum sentido.
O diabo.
Mas o bar não parecia estar aberto. Na verdade, era certeza de que não estava. Só tinha duas pessoas nele, um velho branco, meio gordo, de suspensórios, chapéu panamá e cara de vendedor de camisa que estava no balcão e um rapaz novo, não muito mais velho que eu, moreno, careca, vestido de bartender com as mangas arregaçadas revelando uma tatuagem de Shiva no seu braço direito, passando rodo no chão. Lavínia cumprimentou o velho com um aceno e foi andando direto para o bartender. O problema é que o bartender parecia tão feliz de vê-la quanto o Patolino ao encontrar o Pernalonga num dia ruim.
— Yo, Shiva – a garota cumprimentou-o.
O bartender ergueu o rodo e apontou o cabo para a garota.
— Lavínia – ele disse. – Não sei o que aconteceu, mas eu não tenho nada a ver com isso. Nada, entendeu?
Como se tivesse de repente notado que havia mais alguém ali, ele me olhou, um pouco surpreso, um pouco desconcertado, todo estranhado.
— E quem é essa aí? – ele perguntou.
— É uma amiga do Daniel – a garota respondeu.
— E por que diabos você trouxe ela aqui?
— Ela está com uns problemas aí.
— “Problemas”? O tipo de problemas com que você se mete ou o tipo de problema em que gente normal se mete?
— Eu estou aqui, não estou? Isso devia dizer algo.
O bartender abaixou o rodo e ficou me encarando por uns momentos do mesmo jeito que alguém encararia uma peça de art déco em uma coleção medieval.
— Você não parece do tipo que se envolve com coisas estranhas – ele disse. – Bom, não que isso seja novidade. Azar é foda, não é?
Você não tem ideia.
— De qualquer jeito – Lavínia disse – o seu chefe está?
— O que você quer com o velho? – o sujeito do balcão falou.
— Informação.
— É isso? Ele está na sala dele. Mas vê se bate antes de entrar.
A garota fez um gesto displicente e foi andando para os fundos da loja. Cumprimentei o bartender e o homem do balcão e a segui. Entrei atrás dela por uma porta, dando num corredor estreito, no fim do qual havia outra porta. Ela bateu nessa uma, duas e na terceira vez uma voz velha, rouca, veio de dentro mandando entrar. A garota entrou e com a cabeça fez sinal para que eu seguisse.
…?
Existem momentos na sua vida em que você se depara com algo e sua sanidade simplesmente se nega a aceitar que aquilo possa ser mais que uma piada de mau gosto, um tipo de brincadeira esquisita de alguém com um senso de humor extremamente diferente, mas que, por alguma razão estranha, são reais.
Esse foi um caso assim.
Se você misturasse o escritório de um produtor de discos, uma sex shop, um quarto de motel e uma locadora de vídeos, você conseguiria algo mais ou menos próximo do que era aquela sala. Os móveis eram uma mistura de um monte de coisas que só Deus sabe como acabaram no mesmo lugar. Atrás da mesa, sentado numa cadeira de veludo, estava um sujeito muito velho, negro, vestido num terno branco de três peças, um chapéu panamá e óculos escuros estilo aviador. Quando viu quem estava entrando, ele sorriu, empurrou a cadeira para trás e colocou os pés em cima da mesa.
— Lavínia, Lavínia – ele disse. – Fecha a porta, senta aqui. E quem é essa belezinha que você trouxe contigo? Sua amiga?
A garota empurrou a porta com o cotovelo, puxou uma cadeira mais para trás e se sentou na frente da mesa. Acabei sentando também, embora mais por falta de do que por escolha. Quando sentei, o sujeito se ajeitou na cadeira e se inclinou na minha direção. Recuei por instinto e ele riu de leve.
— Não se preocupa – ele disse. – Eu não mordo se você não quiser.
O velho fez um rugido que, suponho, em sua cabeça deveria ser sexy.
O que eu estou fazendo aqui?
— Escuta, velho – a garota falou. – Sem gracinhas. Ela é amiga do Daniel então esqueça qualquer coisa que esteja passando nessa sua cabeça idiota, entendeu? Ele não ia gostar nada de saber que você assustou a garota.
— Certo, certo – ele disse. – Desculpe, senhora. Não queremos trazer o seu marido para isso, queremos?
Tinha uma faca cravada na mesa entre os dedos do velho. E no cabo da faca estava a mão da garota.
Rápida.
O velho mudou de postura e começou a olhar frustrado e triste para o lugar em que a mesa tinha sido furada.
— Droga! – ele disse. – Essa mesa foi cara, sabia? Tem ideia de como foi difícil encontrar uma dessas? É original dos anos 1920!
— Você devia estar feliz de eu não ter cortado fora o seu dedo – a garota disse.
Ela tirou a faca da madeira e a guardou de volta dentro da calça. O velho suspirou, ainda olhando para o buraco na mesa, antes de balançar a cabeça negativamente.
— O que você quer, garota? – ele falou. – Fala logo antes que você destrua mais alguma coisa.
— Que tal você explicar? – a garota disse olhando para mim.
Que tal “não”?
— Meus pais – eu comecei – eles foram sequestrados por um grupo. Fragarach. Eles vieram atrás de mim também. Você… você sabe alguma coisa sobre eles? Se sabe, por favor, me diga.
— Olha só – ele disse. – Mas não é uma moreninha fofa?
Eu deveria estar lisonjeada?
O velho empurrou a cadeira, colocando os pés em cima da mesa de novo. Ele puxou um charuto do bolso e pretendeu acendê-lo. Uma troca de olhares com a garota ao meu lado o fez mudar de ideia.
— Fragarach é? – ele falou. – Talvez eu saiba, sim. Depende.
— Do quê? – eu perguntei.
— Do que você tem para me dar em troca da informação. Negócios, garota. Negócios. Você quer uma coisa, eu quero outra, a gente conversa e todo mundo sai feliz. E então, o que me diz? Tem alguma coisa para me dar?
Por alguma razão, aquilo não me deixou surpresa. Não. Talvez fosse mais correto dizer que isso era o que eu esperava. Só que “esperar” não quer dizer “estar preparada para”. Não necessariamente pelo menos, considerando que eu não estava preparada para pagar.
Suponho que ele não aceite HQs velhas como pagamento…
Assumindo que eu tivesse HQs velhas, isso é.
— Ei, velho – a garota ao meu lado falou. – Preciso te lembrar de que você deve uma ao Daniel?
— Eu não estou vendo o rapaz aqui – o velho disse.
— Não. Mas eu estou aqui, não estou? Então que tal você começar a falar e em troca eu faço ele esquecer que salvou a sua pele? Parece um bom negócio, não parece?
O velho tirou os óculos escuros.
Preto.
Os olhos dele eram completamente pretos. Sem esclera, sem íris, só uma massa preta. Ele sorriu para mim e começou a girar os óculos pelas hastes.
— Assustada? – ele disse. – Deve ser nova nisso então.
O sujeito colocou os óculos de volta e se ajeitou na cadeira.
— E pensar que um dia uma menina ia me cobrar favores. O tempo fode com a gente mesmo – ele falou. – Muito bem, Lavínia, vamos fazer do seu jeito, certo?
— Você fala como se tivesse escolha.
— Olha, eu não sei se isso é o que você quer, garota, mas aconteceu uma coisa estranha esses dias – o velho falou.
Bem-vindo à minha vida.
— Estranha como? – a garota falou.
— Sabe a gangue que costumava morar naquele hospital abandonado? O povo da Gerth? Parece que alguém expulsou eles de lá uns dias atrás. Um deles veio aqui atrás de ajuda. Parece que massacraram todos os desgraçados. Nem a Gerth aguentou o tranco.
— Quem era essa Gerth? – eu perguntei.
— Uma bruxa – a garota disse. – O Daniel e eu já tínhamos tentado expulsar ela daqui, mas a vadia sempre dava um jeito de escapar.
— Só que dessa vez não teve jeito – o velho falou. – Acabaram com ela. Os familiares dela desbandaram todos. Os que sobreviveram, quer dizer.
— E te disseram quem fez isso? – a garota perguntou.
— Só o que o moleque sabia era que estavam armados e a chefe era uma loira que não falava português.
A aranha.
— Eles ainda estão nesse hospital? – eu perguntei.
— Não sei – o velho respondeu. – Mas vocês podem ir lá checar. Se bem que… não deve ser seguro. Eles acabaram com a Gerth.
A garota se levantou, tirou uma moeda do bolso e a jogou para o velho, que a pegou com o chapéu.
Chifres.
Talvez tenha sido só impressão, mas quando ele tirou o chapéu, achei ter visto chifres na cabeça dele.
— Foi mal pela mesa – a garota falou.
— Relaxa – o sujeito disse. – É falsa.
Assim que saímos da sala daquele sujeito estranho, não consegui me conter.
— Aquele homem… – eu comecei a falar.
— É um demônio – a garota respondeu. – Surpresa?
Por alguma razão, não estava. Era estranho. Um demônio não é o tipo de coisa que alguém diga “ei, eu sei que existe”. Mas simplesmente não me sentia mais incomodada ou mesmo surpresa. Talvez eu estivesse ficando acostumada.
Enjoo.
Empurrei a garota para o lado de corri para fora daquele lugar. Assim que bati a porta atrás de mim, minha cabeça começou a girar.
Não está certo.
Eu tentei vomitar, porém não saía nada. Eu fiquei feito uma idiota respirando forçado na frente de um bar, como se fosse um desses bêbados sem autocontrole. Mas eu precisava daquilo, me livrar daquela sensação ruim no meu estômago, aquela náusea. Nada saída.
A porta atrás de mim abriu. Senti uma mão no meu peito e fui colocada de pé de novo. Era o bartender. A garota estava do lado dele, me olhando e parecendo…
Irritada? Era isso?
— Você está bem? – o bartender perguntou. – O chefe fez alguma coisa com você?
— Relaxa – a garota disse. – Ela está bem. É só questão de costume.
Ela empurrou o bartender um pouco para trás e me forçou a ficar de pé sozinha. Minhas pernas ainda tremiam. Achei que fosse cair, mas consegui me sustentar de pé. A garota só sorria e me encarava.
Qual seu problema comigo?
— A gente já vai – ela falou para o bartender. – Vamos, Emile. Acho que é uma boa ideia passarmos no hospital.
Qual a palavra?
Vamos, Emile, qual é palavra?
Acedi.
— Vamos – eu falei. – Para o hospital.
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