Limões

3 Capítulo 2


Notas iniciais
Desculpem a demora ;( Segunda parte de 3 pra vocês.
Espero que continuem gostando ;D

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II – Domínio

Aconteceu numa noite que Trudy viera pro jantar e acabara ficando pra dormir no numero 33 da Rua Himmel.

Liesel sonhava. Não um pesadelo, como antes, mas um sonho mesmo. Naquele mesmo dia, quando a roubadora de livros parou pra analisar, concluiu que o sonho era bem perturbador. Mas um perturbador bom.

• O SONHO QUE DESENCADEARA O ACONTECIMENTO DA NOITE •

Uma Liesel mais velha cozinhava num fogão de uma cozinha desconhecida. O cheiro de batatas inundava o cômodo.

-Mamãe, mamãe! – Uma vozinha chamava do corredor, o som de passos de mais de uma pessoa ecoou. – Mamãe, o que vamos almoçar?

Ao virar-se, estavam lá: duas crianças pequenas com cabelos da cor de limões. E um Rudy mais velho encostado à porta, sorrindo pra ela.

Inquietante, não é mesmo?

Liesel também achou. Tanto, que tornou o sono da garota turbulento e bagunçado e Liesel se viu desperta novamente por seu papai, chacoalhando-a de leve.

-Liesel? – Ela piscou algumas vezes pra acostumar com a luz. – O trem?

Levou alguns segundos pra entender do que ele estava falando e, quando a compreensão veio à tona, Liesel apenas balançou a cabeça negando.

-O que, então?

Ainda confusa, a pequena ladra tentou encontrar sua voz. Sentia-se estranha e não queria contar a ninguém sobre o sonho. Não agora.

-Nada de mais. – Falou baixinho, sentando-se. Buscou com os olhos Trudy deitada na cama ao lado, mas ela não estava lá. – Cadê...

Sua frase foi interrompida por uma descoberta inesperada, um molhado estranho entre as pernas de Liesel. Ela sentiu o molhado, sim. Mas não acreditou nele, já estava grandinha pra fazer xixi na cama.

Hans, como um pai sensitivo, percebeu a hesitação de Liesel esse apressou em transmitir-lhe segurança. Pediu com os olhos permissão para afastar a coberta e, quando esta foi removida, lá estava a prova.

Liesel olhou assustada a mancha de sangue entre suas pernas. Sabia que mais cedo ou mais tarde ela iria aparecer ali, mas não sabia se estava preparada. Buscou apoio no pai, mas Hans se levantava, já saindo do quarto. Sem entender a reação, Liesel tocou a mancha no lençol e ficou com os dedos manchados de vermelho.

O rosto sorridente de Trudy apareceu à porta. Ela terminava de fazer uma trança enquanto visualizava a discussão interna da roubadora de livros.

-Até que enfim, não é mesmo?

• • •

O caminho pra escola fora, como sempre, a tagarelice de Rudy. Ele falou desde que Liesel saiu portão afora até pararem enfrente a loja de Alex Steiner. Os vidros das janelas estavam sujos. A lembrança de uma véspera de natal entre manequins e araras passou ao mesmo tempo na mente dos dois.

Eles não haviam se beijado novamente depois daquela vez sob a árvore. Como prometido, nada mudara. Mas hoje Liesel estava diferente, mais dispersa. O motivo você e eu sabemos, mas Rudy não sabia. E só quando ele parou de falar para observar sua linda vizinha tentando enxergar através da crosta de poeira foi que ele percebeu essa quietude.

Distraidamente, Liesel escreveu seu nome com o dedo em uma vidraça empoeirada. Rudy escreveu o dele bem abaixo do nome dela, sem dizer uma palavra. Como quem não quer nada, ele pegou uma madeixa do cabelo de Liesel e afastou do rosto da garota, fazendo-a olhá-lo. Foi mais ou menos aí que ele resolveu tentar de novo.

Rudy se inclinou para Liesel, deslizando os dedos na bochecha dela com delicadeza. Estava quase lá, muito perto. Ia beijá-la novamente.

Mas Liesel não estava no clima. Rudy suspirou decepcionado quando a garota baixou a cabeça novamente, tirando a mão dele de seu rosto. Não, hoje não.

Mesmo assim, Rudy pegou a mão de Liesel e puxou-a pelo caminho sob um murmúrio de “Vamos, saumensch.” e foram pra escola.

No intervalo, depois de Liesel despistar o amigo com a desculpa do banheiro, foi que Rudy se deu conta de que algo estavam bem errado, alguma coisa estava acontecendo com Liesel. Metade do tempo do intervalo, Rudy ficou procurando a roubadora de livros. Encontrou-a no canto mais vazio do colégio, perto do estacionamento dos professores, sentada numa mureta. Ninguém nunca ficava ali.

-Hey saumensch! – Ele chamou, fazendo-a levantar os olhos. – Por que está aqui sozinha?

Enquanto se aproximava, Liesel se levantou, já buscando um meio de escapar.

-Eu quero ficar sozinha, pode ser?

Rudy havia percebido, mas não queria deixá-la sozinha. Por isso não chegou muito próximo – não o suficiente pra roubar um beijo -, ficando numa boa distancia para pegá-la se ela tentasse fugir.

-Não. – Respondeu. – Não vou deixá-la sozinha.

Liesel revirou os olhos.

-E o meu direito à privacidade, fica como?

Rudy riu, balançando a cabeça. Liesel levantou uma sobrancelha e pôs as mãos na cintura.

-Heim?

-Aconteceu alguma coisa, Liesel, e eu quero saber. Você nunca escondeu nada de mim, exceto quando escondia um judeu – Liesel fez “shiu” pra ele. – então trate de me contar. Eu não vou sair daqui, nem você.

Liesel bufou e soltou os braços, encarou Rudy por alguns segundos e tentou disparar pela direita dele, mas ele a pegou pelos ombros, segurando-a. Ela sabia que ele a pegaria, mas tentou do mesmo jeito. Talvez só pra que ele a abraçasse, mesmo.

-Eu quero ficar sozinha, seu saukerl! Dá pra me deixar passar? – Ela dizia, se debatendo nos braços dele.

Rudy empurrou-a pra onde ela estava antes e ela fez mais uma tentativa, sendo pega novamente. Dessa vez, voltou sozinha pra onde estava, grunhindo de raiva. Ele se divertiu com o desespero dela.

-Isso é muito injusto. – Liesel murmurou, passando os dedos no cabelo que lhe caía no rosto, afastando-o. Rudy folgado. Ele ia ver só. – Sai Rudy! Sai! – Ela protestou quando ele tentou beijá-la novamente, empurrando-o.

Mas Rudy era mais alto e mais forte que ela, conseguindo vencer os protestos da menina e abraçá-la, aconchegando-a em seu peito. Ficou passando a mão no cabelo dela até que, aos poucos, ela foi se acalmando, relaxando. Abraçou-o também, equalizando as batidas do próprio coração com o dele.

-Vou sempre estar aqui com você, Liesel. Nunca vou te deixar sozinha.

• A FALHA DE TODO SER HUMANO •

Quem dera pudessem cumprir todas as suas promessas.

-Eu sei. – Foram as palavras da menina.

Ficaram assim quase toda a ultima metade do intervalo. Liesel não falou o que acontecera, mas cogitara falar.

Eu menstruei, Rudy. Virei mulher, nas palavras do papai. Estou pronta pra ter filhos, de acordo com a Trudy.

Mas não falou. Manteve-se abraçada a Rudy por quase dez minutos corridos. Quando já se sentia tranqüila o suficiente, afastou a cabeça do peito do amigo, ainda sem olhá-lo. Ele estava uma cabeça mais alto que ela, reparou. Aos poucos, soltou os braços e deslizou as mãos pelo peito de Rudy até seu pescoço e cabelo, para finalmente olhá-lo.

Foi então que Rudy entendeu. Agora sim, pensou. Porque agora ela tinha o domínio, agora ela estava à vontade. Puxou-a pela cintura, se abaixando um pouco, e encaixou-a em seu corpo. Liesel era pequena, magra. E era absolutamente linda, ele sempre soube. Ainda mais ali, pendurada em seu pescoço, encostando os lábios nos dele e beijando-o cheia de convicção, certa do que fazia.

Liesel era assim: decidida. E Rudy amava isso.

Notas finais
Comentem, oks?
Obrigada todo mundo *_*
BL