Lilly — Seth Clearwater
2 ፠ Capítulo I ፠
Notas iniciais
"Still I'd give the world to see your face,
And be right here next to you
But it's like you're gone too soon
And the hardest thing to do is say
Bye bye"
▬ Bye bye, Mariah Carey. ▬
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A dor era a única coisa que eu conseguia sentir naquele momento. Foram longos cinco anos desde o diagnóstico, o pior dia de minha vida até então. Eu sempre optei por ser positiva e sempre estar sorrindo para minha mãe, mas naquele dia eu não conseguira, não sabia se era devido as palavras desmotivantes do Dr. Callahan ou se já sabia, que minha mãe morreria, naquele dia 1 de novembro chuvoso em New Haven, Connecticut.
Na verdade, antes desses cinco anos difíceis, a vida da minha família não era tão ruim. Sempre foi eu, minha supermãe e meu irmão contra o mundo. Apesar de termos apenas três anos de diferença de idade e pais distintos, John e eu éramos melhores amigos. Graças a ele eu nunca fui o tipo de menina que gosta de bonecas e diz que sua cor favorita é rosa. Meu irmão expandiu meu universo.
Ele me apresentou a Tolkien e seus elfos de cabelos louros, aos bruxos de Harry Potter, ao Dark Side de Star Wars. Em suma, meu irmão me transformou em uma geek convicta e eu não poderia agradecê-lo mais. Líamos os livros juntos, sempre nos fantasiávamos iguais para o Halloween e sempre dividíamos o mesmo sorvete de oreo e coco do senhor Bertolazo, o melhor gelato italiano da região.
Bem, foi por um tempo, até que quando ele tinha doze anos, seu pai, que era um antigo namorado de ensino médio de nossa mãe, pediu sua custódia, por ter mais recursos financeiros ele conseguiu com facilidade e John foi morar em Chicago. Eu me lembro do dia em que o menino de cabelos loiros quase brancos entrou no sedan prateado, ele segurava seu sabre de luz, usava sua blusa desbotada do batman e tinha os olhos inundados de lágrimas. Quando o carro partiu eu corri atrás dele, John chorava e dizia adeus silenciosamente, olhando pelo vidro traseiro, só parei de correr quando um policial conseguiu me segurar e me levou de volta para minha mãe.
Um fato sobre mim, eu não gosto de despedidas, um fato sobre minha mãe, ela também não.
Ele me prometeu que nunca se afastaria de mim, mas com o tempo as coisas foram mudando, as conversas sobre feitiços e lançamentos de HQs foram ficando mais espaçadas até que foram substituídas para seus jogos de futebol americano, namoradas e até que se tornaram apenas uma mera formalidade dos aniversários e feriados. Eu percebi que a cada piora do estado clínico de nossa mãe, John sumia por meses. Eu nunca soube exatamente o porque dele agir assim.
Apesar de não saber bem sobre o meu pai, na verdade a única coisa que consegui saber por minha mãe, é que ele foi um hóspede que ficou no hotel em que ela trabalhava como camareira e que eles se apaixonaram, profundamente no verão de 1995. Ela disse, certa vez, que ele mandava todos os dias belos lírios para ela e que no final, decidiu colocar meu nome de Lilian porque eu sempre seria o mais belo lírio que ele a havia deixado.
Ela disse que nunca mais conseguiu esquecê-lo, por isso saiu de Forks e não conseguia ter relacionamentos longos, apenas pequenos namoricos. Naquele dia eu sorri para ela e em silencio desejei que ela pudesse vê-lo, mais uma vez, mas infelizmente ela não conseguiu. O dia primeiro de novembro veio antes que meu pai desconhecido viesse do passado para trazer a ela um último lírio.
Eu só conseguia pensar o quanto ela estava serena quando se foi, o quanto ela foi feliz e amada.
Naquele momento de dificuldade, muitas pessoas da família apareceram, alguns primos distantes da família do meu avó, vários colegas de trabalho e um senhor, de cadeira de rodas, que apareceu em um domingo em seu leito, quando eu estudava para minha prova de química. Ele se aproximou dela enquanto dormia, chorou um pouco e depois de se sentir observado, ele levantou a cabeça e sorriu para mim.
“Olá, Lillian” Ele disse em uma voz calma e rouca, por um mísero de segundos eu sonhei que fosse meu pai, mas não fazia sentido, já que eu não tinha nada de parecido com ele. Eu lhe dirigi um sorriso quando ele se aproximou de onde eu me acomodava, uma pequena poltrona reclinável para acompanhantes. ‘Eu sou Billy Black, não sei se lembra de mim.” Na hora eu lembrei e sorri.
“ É claro que me lembro, você é o esposo da Sarah, melhor amiga da minha mãe. ” Eu disse e sorri, apesar de ter morrido ainda jovem em um acidente, Sarah era uma memória forte para mim. “É também pai das gêmeas e do Jacob, lembro dele e John brincando”
“Exatamente.” Ele sorriu de volta.
“Eu sei que muitas pessoas já disseram isso, mas sinto muito sobre a senhora Sarah” Ele sorriu ainda mais.
“Obrigada, querida.” Ele suspirou e entrelaçou os dedos, Billy Black nunca conseguiu esquecê-la, senti naquele momento. “Sinto muito por sua mãe, Karen é forte e você também.” Eu assenti. “Onde está seu irmão?”
“Eu não sei, ele sumiu há alguns meses. Quando ela piorou.” Eu disse e meus olhos encheram de lágrimas, John era um idiota, mas ainda era meu irmão e sempre seria. “Ele não sabe lidar.”
Depois desse dia, Billy Black, se tornou muito presente em minha vida, ele visitava minha mãe, conversava com ela quando estava acordada, a fazia sorrir sem muito esforço e me ajudou em tudo o que eu precisei. Houve até semanas onde sua filha Rachel veio para visita-la e cuidar de mim quando ele não pode sair de La Push.
Rachel se tornou o mais próximo de um amiga, apesar da nossa diferença de idade, nós nos demos muito bem. Na verdade, eu senti que ela era mais parecida comigo do que eu admitiria em voz alta. Ela era contagiante, engraçada, gostava de músicas bregas e chorava com elas, mas só quando eu não estava olhando. Ela me fazia ser positiva novamente e em vários momentos fizemos spa day, noite de cinema com um tablet e até dançamos com algumas enfermeiras, tudo isso no quarto da minha mãe e em todos esses momentos, minha mãe sorriu. E se ela sorrisse, eu sorria também.
Apesar de todo apoio que recebi da família Black, mais do que de qualquer pessoa da família, eu não estava pronta para o dia 1 de novembro. Eu nunca havia me sentido tão sozinha em toda a minha vida.
Estávamos apenas nós três, Billy, Rachel e eu, em volta de sua cama, quando ela suspirou uma última vez.
Eu havia tentado ligar para John, mas ele nunca atendeu, quando liguei para seu pai, ele disse que John estava ocupado com a faculdade. Eu não esperava muita diferença, mas eu sei que ela o queria ali.
Dr. Callahan me segurou quando os joelhos falharam e me emprestou seu ombro com jaleco branco para que chorasse. Ele cuidou de minha mãe desde o momento em que foi diagnosticada com linfoma agudo aos 43 anos de idade, nos deu apoio e foi amigo dela, quando ela não sabia mais sorrir. Ele era parte da minha minúscula família. Não sei por quanto tempo fiquei, mas vi uma enorme poça sob o branco que ele não pareceu se importar.
Não me lembro muito mais daquele dia, apenas de estar no carro com Rachel indo para casa, enquanto Billy resolvia as questões burocráticas do enterro e uma chuva torrencial caia, parecia que o clima estava de acordo com meu estado de espírito. Rachel ficou calada por todo o caminho, mas vez ou outra, eu a ouvia soluçar.
Naquele mesmo dia, Billy conversou comigo, disse que minha mãe estava com medo de que eu não tivesse lugar para morar ou que ficasse em custódia do Estado , já que sou menor de idade, e pediu para que Billy cuidasse de mim, caso pudesse.
“Billy, eu não posso pedir para que cuide de mim, você já cuidou de três filhos, não é justo que cuide de mim agora, eu sei me virar.”
“Lilly, eu sei que sabe se virar, senão não teria aguentado 4 anos sozinha cuidando de sua mãe. Você não precisa pedir, eu me ofereci e ofereci a minha casa. Sua mãe me passou legalmente a sua guarda. Nos conhecemos desde crianças, Karen, Sarah e eu, não poderia deixa-la sozinha nesse momento. “
“Mas, eu-“ Tentei dizer, mas ele me interrompeu com um aceno.
“Não se preocupe, Rachel está morando com Paul, Rebecca mora no Havaí e moramos apenas Jacob, que quase nunca está em casa, e eu” ele suspirou “você, pequeno lírio, será um sopro de alegria e juventude naquela casa masculina” ele disse com uma voz engraçada que me fez sorrir por pouco tempo.
“Obrigada” Suspirei.
“Não precisa me agradecer.” Ele sorriu e me deixou em meu quarto sozinha. E então, eu chorei copiosamente, de alívio, tristeza, medo, mas principalmente solidão.
Eu pensei que provavelmente deveria começar a desmontar meu quarto para a mudança, mas não consegui me mover. Eu estava sentada na minha cama há horas, ouvindo a chuva batendo no vidro da pequena janela, olhando a tabela periódica pendurada na parede e segurando uma foto da minha mãe.
Eu podia ouvir Billy com sua cadeira de rodas pelo pequeno apartamento, Rachel mexendo em algumas panelas na cozinha, provavelmente fazendo algo para o jantar.
Apesar da enorme tristeza e vazio dentro do meu peito, o meu rosto estava seco, apesar de inchado. Parecia que eu não tinha mais lágrimas, eu estava seca, vazia.
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