Lilium
3 Dúvida/ Segredos
Notas iniciais
Pov. Lyinn
O dia seguiu tranquilo, ou seja, o mesmo tédio de sempre. O sinal tocou anunciando nossa liberdade, bem, pelo menos por hoje.
Christyn agarrou meu braço e disse que ela e Macaon iriam fazer o trabalho nessa tarde, na casa dele. Olhei-a com preocupação, não era a primeira vez que Chris se iludia com um garoto.
Eu disse:
– Chrissy, você sabe o tipo de cara que o Macaon é, não crie falsas esperanças.
Ela me olhou com aqueles olhos verdes penetrantes e disse:
– Eu sei me cuidar, Lyinn. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes.
– Só digo isso porque você é minha amiga pra vida, te adoro e não quero que um babaca qualquer machuque você- eu disse.
Ela me encarou por uns instantes, mas depois me abraçou de lado e disse:
– Não se preocupe, amiga. Se qualquer um tentar me machucar, eu dou um chute no traseiro do infeliz.
Ambas rimos e continuamos andando, até que paramos na escada e eu me lembrei de algo.
– Esqueci uma coisa lá em cima, pode ir na frente- eu disse.
– Mas você vai perder o metrô!- Christyn disse.
– Não tem problema, eu vou com Erik depois- eu disse tentando tranquilizá-la.
Erik tinha mais uma aula antes de poder ir embora. Era uma espécie de curso, ele nunca me disse de quê.
Subi as escadas até chegar à sala, onde peguei meu caderno de anotações. Eu adorava escrever todo tipo de histórias naquele caderninho. Eu o havia ganhado de minha mãe, que era uma amante da literatura.
Guardei o caderno e saí da sala, pronta para esperar por Erik, quando uma mão me segura no corredor. Era Zander.
Olhei para ele com um misto de confusão e raiva. Ele disse:
– Me desculpe se eu te assustei. Eh... Lyinn, não é?- será possível que mesmo estudando comigo há três anos ele ainda não saiba meu nome?- Você já tem um par para o trabalho?
A pergunta dele me faz gelar. Ele está mesmo me pedindo para ser seu par? Ah, com certeza ele só deve querer que eu faça o trabalho todo sozinha e coloque o nome dele no final.
– Se está achando que eu sou mais uma nerd idiota para você usar, é melhor continuar andando!- eu digo, com raiva.
Ele segura meus braços e me olha nos olhos. Maldito olhar penetrante. Ele disse:
– Não vou te pedir para fazer tudo sozinha, nem pra ser seu par no trabalho. Aliás, eu sou ótimo com folclore!
O tom arrogante de sua voz me deu vontade de socá-lo. Eu levantei uma sobrancelha e disse:
– Então cite alguma lenda, por favor! Já que você é um expert no assunto!
Ele cerrou os olhos por um momento, buscando algo em sua mente, mas então deu de ombros e disse:
– Tá, você me pegou. Não sei de nada, por isso vim pedir sua ajuda.
Estreitei os olhos por um segundo, pensando se deveria aceitar ajudá-lo ou não.
– Não precisa decidir agora. Sei que não gosta de mim, por causa daquele lance de “Careta” e tudo mais, só... Pense um pouco- ele disse.
Assenti e continuei andando. Erik já devia estar saindo do curso, então não teria que ficar nem mais um minuto nessa escola.
Eu já havia sido passada pra trás muitas vezes, não iria deixar isso acontecer de novo. Mas algo na maneira como Zander falou me deixava em dúvida sobre minhas decisões.
Assim que encontrei com Zander no jardim, ambos fomos para o metrô mais próximo e seguimos cada um para sua casa. O dia havia sido longo, e eu precisava pensar.
Pov. Erik
Desde que o sinal bateu, eu observava Lyinn à distância. Esse era meu “curso”.
Quando Zander a parou no corredor, eu me preparei para espancá-lo se fosse necessário, mas ele apenas pediu ajuda no trabalho.
O único motivo para eu ter aceitado fazer trabalho com o aluno novo era porque ele era um colega de “curso”.
Para quem ainda não entendeu, eu sou um Guardião. Meu dever é proteger uma pessoa em especial, Lyinn. O garoto novo é um guardião em treinamento, por isso preciso ficar de olho nele.
Novatos geralmente fazem muitas besteiras, eu sei disso porque já fui um deles.
Meu dever como Guardião começou assim que os pais de Lyinn morreram. Eu não a encontrei por acaso naquele dia. Eu e minha amiga de infância, Christyn (que não faz ideia de que eu sou Guardião) estávamos dando uma volta no bairro, quando eu a encontrei.
Lyinn era a criatura mais bela que eu já havia conhecido. Ela era pequena, delicada, lágrimas manchavam seu rosto de anjo.
Ela era honesta, gentil e, por mais que ela negue, corajosa. Era bonita por dentro e por fora.
Bem, depois daquelas curtas palavras naquele dia, não só me tornei seu Guardião, como também passei a amá-la de todo o coração.
Mas se ela soubesse de meu trabalho como Guardião, iria me odiar. Eu não iria deixar isso acontecer.
Depois de ela sair do corredor e ir para fora, eu a encontrei e pude perceber a dúvida em seu rosto. Ela estava decidindo se confiaria em Zander ou não. Eu esperava que não.
E assim, em silêncio, continuamos o trajeto até o metrô, e do metrô até nossas casas.
Era hora de descansar.
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