Like a Vampire 4: Endgame Volume 2
9 Capítulo 8- Noite dos apaixonados
Estava numa casa escura.
Dava pra saber que era uma casa, porque a pouca luz que vinha pelas janelas exibia a silhueta de sofás, mesas e cadeiras.
Tinha quase certeza que havia até uma TV.
Daayene apoiou numa das paredes, tentando se localizar. Não sabia direito onde estava.
Andando apoiada, conseguiu encostar em quadros nas paredes. Mas estava escuro demais pra que conseguisse ver o que estava nas molduras.
Basicamente pulou quando ouviu um barulho de algo batendo fortemente contra a porta.
Daayene hesitou pra olhar pra trás, na direção da modesta porta de madeira. O fez devagar, segurando o fôlego.
Nada estava lá. Nem ninguém.
Daayene andou o suficiente pra ver uma outra porta que levava a cozinha, e outra a um pequeno lavabo. Depois, quase tropeçou no primeiro degrau de uma escada.
Espreitou os olhos pra poder ver melhor, percebendo que a série de degraus levava a um aparente segundo andar. Cada um deles tinha um grande espaço um do outro, o que fez Daayene revirar os olhos internamente.
Se segurando bem no corrimão, ela se esforçou pra subir devagar um degrau de cada vez, sentindo uma incerteza imensa. Parecia que quanto mais subia, menos ela via.
Quando havia subido uns 7 degraus, mais um barulho veio da porta. Dessa vez a Hudison não pulou, mas não ia mentir, sentiu um arrepio horroroso no seu corpo.
Deu uma pequena trupicada quando a escada acabou, e se viu finalmente num corredor levemente iluminado por apenas uma luminária de parede bem fraca. As paredes eram um tom bonito de azul claro, o que combinava com as plantas decorativas.
Também tinham várias portas de madeira branca, espalhadas pelo corredor todo.
Mais um barulho foi ouvido, dessa vez mais distante, já que vinha do primeiro andar. Mas foi acompanhado por um gemido de uma mulher.
Daayene estava prestes a procurar cegamente quem estava lá, antes da porta de um dos quartos se abrir bruscamente.
Uma figura saiu de forma inesperadamente lenta de um dos quartos, e um momento tenso de silêncio se passou antes dela tocar no interruptor, iluminando o corredor.
A luz piscou algumas vezes, e mesmo quando se ligou foi numa claridade extremamente fraca.
A mulher em sua frente pareceu igualmente frustrada por isso.
Tinha os cabelos castanhos presos num rabo de cavalo bem pequeno, segurado por uma fita branca meio encardida.
Usava uma blusa branca, junto com uma jardineira aparentemente bem antiga e boca-de-sino. Estava com sapatilhas bem velhas também.
Seu rosto me parecia um pouco familiar. Não parecia ter muito mais do que 40 anos, apesar de linhas de expressão e olheiras profundas no rosto. Os olhos eram bem castanhos estarem basicamente fechados de tão semicerrados.
Daayene estava prestes a tentar contato quando ela ergueu a mão até as costas e puxou uma faca de cozinha extremamente afiada.
A mulher olhava na direção da Hudison, o que a fez engolir em seco.
—Eu sei que está aí!- Ela falou alto, mas sem chegar ao ponto de gritar- Apareça, se for corajoso de verdade!
Daayene se sentiu meio patética em achar que, depois de tudo que já viu, essa mulher com uma faca de cozinha ainda a assustava.
Daayene tentou estender uma mão, pra encostar no braço da mulher, e se assustou ao ver que sua pele basicamente atravessou a dela.
A mulher deu alguns passos pra frente, basicamente atravessando a profeta.
Ah, era esse tipo de visão, Daayene pensou.
—Eu não tenho medo de você!- Dessa vez ela meio que gritou, mas tampou a boca logo em seguida, como se tivesse feito algo errado.
A vi colocar a mão por baixo da blusa pela gola, tirando do seu pescoço o pingente de uma corrente.
Uma borboleta prateada.
A mulher envolveu os dedos pelas asas da joia, fechando depois o punho ao redor da prata.
A porta da qual ela havia saído se entreabriu com um vento que passou, e eu pude ver o mais puro escuro daquele lado.
Chegando mais perto, conseguiu ouvir o som de respirações conjuntas fortes, e até um leve ronco.
Não pôde ver direito, mas tinha pelo menos duas pessoas naquela cama que eu enxergava de longe.
Fez um pequeno gesto da mão, e a porta se fechou de forma silenciosa.
Tudo ficou mais escuro, e Daayene só viu um lampejo de luz antes de ouvir o barulho do que parecia um corpo caindo.
—...Daay?- Uma voz masculina a chamou detrás de ci.
Ela olhou na direção da voz, e de repente todas as luzes pareceram se acender.
Kou a encarava, suas roupas rosadas de sempre tão limpas e arrumadas quanto ela se lembrava, o cabelo loiro perfeitamente penteado e cobrindo seu olho de vidro.
A orbe azul que exibia se arregalou.
Daayene olhou pra si mesma, sendo recebida com a visão de todo seu corpo e roupas manchado de sangue.
Encarou suas mãos, meio paralisada, onde o sangue parecia formar listras pelo seu dedo.
—O que você fez?- Kou perguntou, parecendo esbaforido.
—Eu não…- Conseguiu falar- Eu nunca… eu nunca quis machucar ninguém! Eu juro!
—E você ainda fala que os vampiros são monstros?- Kou pareceu mais assustado ainda.
Ele aos poucos foi recuando, aterrorizado.
—Não, Kou! Espera! Eu…
Dayane foi interrompida pela sensação de algo apertando sua garganta.
Parecia uma garra fechando sua traquéia, até ela mal conseguir respirar.
Fechou os olhos, sentindo pura agonia em suas veias e seus ossos começaram a fraquejar.
—Abra-os.- Uma voz que ela não conhecia falou.
Assim que ela obedeceu, se sentiu quase desmaiar quando viu uma pilha de corpos mortos num quarto escuro.
Assim ela acordou num salto, conseguindo finalmente berrar.
Ajoelhada na neve, seu peito subia e descia rapidamente, e seu coração batia feito louco.
Ficou uns dois minutos parada, totalmente paralisada e com o rosto molhado.
Quando conseguiu olhar pro céu, se assustou mais uma vez:
—Quê? Puta merda, já tá de manhã?!
O sol estava nascendo, mas Daayene sabia que se tem uma coisa que ela não tinha naquele momento, era tempo.
Daayene tentou mexer seus dedos, conseguindo de novo voar baixo enquanto ainda recuperava suas energias.
Enquanto isso, tentou prestar atenção em qualquer coisa que não fosse seu sonho.
Porque se fizesse isso, talvez a obscuridade que preencheu sua mente naquele momento exato fosse embora.
Ela só queria prevenir mais mortes.
De inocentes, principalmente.
Mas se ela seria a pessoa certa pra fazer isso… isso não era uma certeza muito grande. E essa, para Daayene, era a pior parte.
***
Narração Sofie
—Esse vai pra caixa dos guardados, de doação ou pra jogar fora?- Questionei, estendendo um longo vestido esverdeado com alguns detalhes dourados.
Brunna fez uma careta:
—Lixo. A não ser que você queira dar essa feiura pra alguém.
—Não fala assim da sua roupa. Você já vestiu ela… algum dia.
—Sim. Provavelmente quando eu tinha 15 anos.
Eu dei uma risada baixa, antes de colocar o vestido na caixa de doação.
—Eu não sabia que você gostava tanto de vestidos longos.- Opinei.- Esse é tipo, o décimo do seu armário.
—Eu não gosto.- Ela respondeu- Meus pais gostavam, especialmente minha mãe. Alguns hábitos são difíceis de se largar.
Ela parou pra pensar um pouco.
—Especialmente quando eu ainda uso o mesmo tamanho desde os catorze.
Eu ri baixo.
—Sério.- Ela continuou, meio risonha- Não é todo mundo que consegue crescer o peito depois da puberdade, Sofie. Você é sortuda.
—Eu tinha dezessete anos!- Falsamente briguei, ainda deixando meu sorriso escapar- Não é como se eu fosse muito velha, te acalma.
Brunna suspirou, se jogando na sua cama:
—Lembra quando a gente era adolescente e achava que teria essa idade pra sempre?
—Er, não. Só você teve essa fase de Síndrome de Peter Pan.
Ela jogou uma jaqueta na minha cara.
—Não, tipo.- Ela parou pra pensar um pouco- A gente se sentia imortal. E aí do nada…
Ela fez um gesto das duas palmas se abaixando:
—Acabou. Só foi embora. Agora eu vou virar uma dona de casa.
A olhei de forma confusa.
—Dona de casa? Você?
—Eu não preciso de muito pra me fazer feliz. Um PC pra escrever, internet e comida boa são bem mais que suficientes.
—E o Ruki.- Completei.
Brunna revirou os olhos com um sorriso.
—É claro. Meu marido faz parte dos meus planos, fique tranquila.
—Olha, eu sei que eu já te falei isso, mas eu realmente fico feliz por você.- Respirei fundo- Você merece, depois de tudo.
Ela suspirou profundamente:
—Eu só quero que as coisas voltem ao normal, de uma forma bizarra. Ou o mais próximo de normal possível, considerando que eu ainda vou morar com quatro vampiros.
—Acho que viver com pessoas mágicas já é parte da nossa rotina a essa altura do campeonato.- Dei de ombros- Presta atenção. 14 vampiros, um lobisomem, três demônias renegadas e dois Primeiro-Sangue. Tudo na mesma casa.
—E seis meio-feiticeiras.- Brunna comentou, dobrando mais uma roupa.
—Não conta.
—Claro que conta. Vocês sobrevivem ao fogo, controlam drakons, tem espada de fogo, um colarzinho que brilha e querem falar que não são mágicas?
Pensei por alguns segundos.
—Ok. Talvez a gente seja mágica, de uma forma estranha.- Eu comentei.- Mas só por causa do Griffin e do Ykhar.
Brunna me encarou.
—E por causa do fogo também.
—Só aceita o raio do elogio, Sofie.- Brunna revirou os olhos.
—Aff. Ok, muito obrigada, Senhora Mukami. Muito gentil da sua parte falar isso.
—Ah, por favor. Sem Senhora Mukami.
—Tá bom, senhora. Como vai o Senhor Hudison.
—Você é impossível.- Brunna riu, jogando mais uma roupa em mim.- Anda logo, me ajuda a terminar de arrumar.
Eu soltei um grunhido, antes de conseguir ter coragem de me levantar da cama e voltar a pegar uma pilha de roupas da Hudison do armário, as redobrando em cima de uma mesa.
—Você vai chamar só sua tia pro casamento?- Perguntei sem pensar muito.
Senti os olhos de Brunna me encarando, confusa.
—Da sua família humana.- Completei.
—Ah, sim.- Brunna deu de ombros.- Então, sim. Acho que meus pais não gostariam de me ver nem pintade de ouro.
Concordei com a cabeça, compreensiva.
Eu estava prestes a falar mais alguma coisa, mas alguém bateu na porta do quarto levemente, nos interrompendo.
—Da última vez que isso rolou eu recebi uma carta sobre os Rosemary.- Notei.- Quer que eu atenda?
—Você se incomoda?- Brunna então voltou sua atenção pra caixa- Acho que vou pensar de mais umas duas… Ou três.
Concordei com a cabeça, indo até a porta do quarto e a abrindo com extrema facilidade.
—Jackson!- Me assustei ao ver meu irmão na frente da porta- Que… surpresa!
Brunna apareceu detrás de mim:
—Ah, oi Jackson. Aqui, eu tô indo no sótão pegar mais caixas. Pode cuidar da Sofie enquanto isso, e não se incomoda com a bagunça.
Ela foi embora antes que eu ou meu irmão pudesse dizer alguma coisa.
Ficamos num silêncio meio desconfortável por alguns segundos.
—Quer dar uma volta?- Jackson perguntou- Esse quarto tá…
Ele fungou o ar
—Empoeirado, eu sei.- Confirmei.- Vamos.
Ele começou a andar pelo corredor, bem mais devagar do que realmente necessário para eu conseguir acompanhar com ele.
—Eu só vim me despedir de você.- Jackson avisou, sem nenhuma hesitação.
—Quê?- Arregalei os olhos na direção dele.
—Acho que meu lugar não é aqui. Vou voltar pros lobisomens hoje ainda.- Ele parou e encontrou meu olhar.
—Sério?
—Eu já passei tempo demais fora de lá. E sem o Igor, só Deus sabe o quão caóticas as coisas devem estar por lá.
—Eu…- Queria retrucar, mas não sabia exatamente o que falar- Entendo.
—Não é nada pessoal com a patrulha, calma.- Jackson sorriu- Mas vocês vão precisar de olhos em outros reinos. Eu quero ajudar, mas não sei se aqui é o melhor lugar pra fazer isso.
—Vai levar a Yui com você?- Perguntei sem pensar duas vezes.
—Bem, certamente. Eu não quero correr o risco de mandar ela pros Humanos de novo.- Jackson informou- Isso é trabalho pro Mao. A família dele está… um caos.
Fiz uma expressão confusa:
—Como assim?
—Problemas políticos.- Jackson soltou um suspiro cansado- E a Sol vai pras ruas daqui dos Vampiros. Alguém precisa cuidar de quem não tem nem o que comer.
Eu sorri.
—Fico feliz que estejam se preocupando mesmo com tudo o que aconteceu.
—Uma causa é uma causa, não importa quem esteja nela. Não posso falar que a patrulha é perfeita, mas não preciso de muito pra entender quem é o vilão daqui.
Enfiei as mãos nos bolsos dos moletons:
—Sabe, por mais estranho que pareça falar isso agora… Eu vou sentir sua falta aqui.
—Eu também vou.- Jackson me olhou, quase envergonhado- Então… abraço?
Ele abriu os braços, e eu segurei uma risada antes de abraçá-lo pela cintura.
Foi aproximadamente naquele momento que eu percebi que, Jesus, o meu irmão era muito mais alto que eu. Especialmente considerando que ele estava para fazer 18 anos e eu tinha vinte e um.
De forma desajeitada, ele envolveu os braços nos meus ombros e deu um tapinha fraco.
—Nos vemos mais tarde?- Perguntei.
—É. Eu acho que sim.- Ele se afastou de mim- Er… se eu achar papel, eu mando uma carta pra vocês.
—Acho bom. Marie não te perdoaria se não fizesse isso.
Jackson riu.
—SOFIE!- Ouvi a voz levemente escandalosa do meu namorado me chamando- VOCÊ NÃO SABE O QUE EU CONSEGUI FAZER!
Nós dois nos entreolhamos, meio segurando a risada.
—Bem, eu espero que tenha uma viagem segura.- Finalmente eu me separei dele.
—E eu espero que você tenha… uma estadia segura?- Jackson perguntou- Boa sorte, Sofie. Não deixe nossas irmãs fazerem algo estúpido enquanto eu estiver longe.
—Como?- Eu ri.- Você já tá levando toda a estupidez com você mesmo.
Ele sorriu:
—Bem. Eu deveria ir indo. Nos vemos logo, eu espero?
—Com toda a certeza.- Eu concordei com a cabeça.
Ele colocou as mãos nos bolsos e foi andando na direção oposta do quarto de Brunna. Antes de sumir de vista, virou-se pre me ver mais uma vez e acenou.
E assim, Jackson sumiu de vista.
Fui deixada parada no corredor, com um sentimento meio estranho no coração. Uma nostalgia bizarra.
—FINALMENTE TE ACHEI!- Ayato me agarrou pelos ombros- EU FUI NA COZINHA E… Nossa, que cara de morta. Quem faleceu?
—Você me encanta, Ayato.- Me virei pra ele.- Nada demais, só o Jackson, a Yui, o Mao e a Sol foram embora.
Parando pra pensar, não era algo tão "nada demais" assim.
—Bem, talvez seja uma coisa boa. Talvez sem a Sol aqui todo mundo possa alinhar os chakras e viver em paz.
—...Quem te ensinou sobre chakras? Quer saber, não me responde, acho que prefiro não saber. Você queria me contar alguma coisa?
—Ah, sim!- Ayato pareceu se lembrar- Eu consegui fazer um bolo sozinho! Tá certo que a Sarah me ajudou… E ela também ficou fazendo sozinha enquanto eu brigava com o Ruki porque ele disse que ia ficar uma bosta… Mas eu fiz!
—Deve ter ficado uma delícia.- Sorri.
—E ficou. Eu só precisei tirar uma parte do fundo porque ficou queimada, aí a Sarah me xingou e o Ruki teve que fazer uma calda pra melhorar o gosto de farinha, mas ficou!
Segurei a risada:
—Que maravilhoso!
—Da próxima, vou fazer um de chocolate pra você, vai ser o melhor bolo de todos os tempos!
Eu tinha minhas dúvidas sobre isso, já que eu sabia muito bem que Ayato era tão bom na cozinha quanto eu era no volante.
—Aposto que vai, Ayato.
Não tive coragem de falar uma coisa dessas pra ele, principalmente quando ele tinha um sorriso tão genuíno no rosto e os olhos brilhantes.
—É impressão minha ou a cada dia que passa você fica mais gata?- Ayato perguntou, me encarando.
Eu ri.
—Ayato!
—O que foi? Tô falando sério, normalmente você esperaria que o estresse e a luta fizesse você ficar enrugada e estranha, mas está maravilhosa!
—Então você não vai me achar gata quando eu estiver enrugada e estranha?- Ironizei- Quanto papo de amor eterno.
—Veremos no futuro- Ayato disse meio debochado.
Eu segurei seu rosto nas minhas palmas, dando um selinho. Claro, Ayato não se conteve só com isso e me puxou pela cintura pra me beijar com mais força.
Os segundos que passei lá pareceram uma eternidade. Como se o tempo parasse só para nós dois.
Ele me empurrou de leve contra a parede, suas mãos no meu cabelo. Eu passei meus braços ao redor do seu pescoço, o puxando até o limite que a física o permitia de estar perto de mim.
Ouvi um barulho de algo pesado se movendo, e me afastei bruscamente de Ayato.
Eu, por motivos bem óbvios, estava sem ar e com o rosto totalmente quente, mas consegui ignorar tudo isso pra prestar atenção no que estava rolando.
O barulho parecia vir do lado de fora.
—Que porra é essa?- Ayato questionou.
—Não sei, mas acho melhor irmos conferir.- Aconselhei, mais pra mim mesma do que pra ele.
Ayato me olhou incrédulo:
—Não pode estar falando sério.
—Ayato, pelo amor de Deus. Se todo mundo for, menos a gente, vão desconfiar.
—E daí? Eles vão estar certos mesm…AI!
Eu dei um pisão no pé dele.
—Você pode, por favor, pegar o resto de sanidade que te sobrou e agir de forma racional?- Retruquei- E se for alguém importante?
—E se não for?
—E se for?
—Mas pode não ser.
—E pode ser, também.
—Mas…
—Se você continuar me obrigando a fazer uma discussão com 2 argumentos fajutos desses, eu vou embora.- Ameacei.
—Ai, tá. Mas não me obrigue a ficar de mimimi atrás deles lambendo o chão que pisam.- Ayato bufou- Principalmente se for alguém importante.
Revirei os olhos, mas ele não falou mais nada enquanto me seguia.
Enquanto descíamos todas as escadas e atravessávamos todos os corredores, eu podia ver mordomos e empregadas sussurrando entre si. Alguns até me olhavam.
—O que será que aconteceu?- Murmurei pro Ayato.
—Se for os Rosemary, eu juro que…- Ayato começou.
—Mata eles, eu sei. Mas o Tyrosh já apareceu por aqui, não seria motivo de tanto caos aparecer de novo, seria?
Ayato bufou, dando de ombros.
Quando chegamos á entrada do castelo, vi que geral já estava reunida.
Cheguei perto de Sarah e Kanato. A menina estava suja de farinha.
—O que aconteceu?- Perguntei, preocupada.
—Estão abrindo os portões.- Sarah explicou, baixo- Parece que chegou um grupo de pessoas.
—Grupo? E eu achando ruim de ser só uma pessoa.- Ayato chegou perto de nós.
—Você acha tudo ruim, Ayato.- Kanato resmungou.
—Ah, esqueci que eu tô falando com o anjo agradado por tudo e todos.
—Meninos.- Sarah os encarou de forma repreendedora, depois voltou a me olhar- Você viu o resto das meninas?
—Não.- Fui sincera- Hoje fiquei o dia todo no quarto lendo, depois fui ajudar a Brunna na mudança e depois… vim pra cá. O Jackson te avisou?
—Dele indo embora? Avisou. Nem culpo ele, eu faria o mesmo se pudesse.
Concordei com a cabeça.
—Depois eu que sou fofoqueiro.- Ayato reclamou.
Nós duas reviramos os olhos juntas pra ele.
Dei uma olhada pelo grupo, percebendo que haviam alguns soldados e funcionários da patrulha misturados na multidão. Eu conseguia ver as Hudison e os Mukami juntos, e minhas irmãs meio soltas pela multidão. As Creedley estavam num canto mais isolado, com Eliza bem distante das outras duas. Carla e Shin estavam no meio das irmãs.
Kino e Mun estavam em outro canto mais isolado, parte do prórpio mundinho.
Eu pude ver na distância o portão terminando de se abrir, de forma lenta e barulhenta.
Enquanto eu esperava cavalos e cavaleiros, recebi algo bem mais inusitado.
Um grupo de pessoas. Bem pequeno, sozinhos. A pé.
Uma das pessoas foi á frente, sua cabeça girando por baixo do capuz que cobria seu rosto.
Pela fresta do seu rosto, consegui identificar quem era.
Lilith abaixou seu capuz, olhando meio ao redor.
—Lilith?- Uma voz ressoou primeiro.
A Sakamaki mais velha olhou pro lado, assustada.
Mun deu alguns passos á frente, parecendo nervosa.
Lilith abriu um grande sorriso, antes de abrir os braços e se abaixar, deixando que Mun corresse até ela.
As duas compartilharam de um grande abraço, antes de serem (claro) interrompidas por Ayato:
—Sabe, Lilith, se você em algum momento quiser cumprimentar seus primos de verdade…
—Como assim "de verdade"?- Mun pareceu ofendida.
Lilith revirou os olhos.
—Vinte anos sendo taxada como a chata da família pra depois me cobrarem de cumprimentar vocês?
—Você não é a chata da família.- Laito respondeu- Todo mundo sabe que esse título é do Reijii.
Segurei a risada.
—Maravilhoso.- Reijii murmurou- Enfim, Lilith, fico feliz de te ter de volta.
—Também fico feliz de estar de volta. Mas eu não sou a única aqui.- Lilith sorriu.
Logo atrás dela, pudemos ver Igor, os cabelos mais longos do que eu me lembrava, e um rosto ainda exausto. No seu colo, uma criança de cabelos castanhos meio longos e olhos vermelhos estava quase adormecida.
—Igor! Oliver!- Marie foi a primeira a falar- Então vocês conseguiram se reencontrar, no fim das contas!
Igor hesitou um pouco.
—É, acredito eu que demos nosso jeito de sair dos rebeldes.
—Os rebeldes?- Foi a minha vez de falar- Os rebeldes estavam mantendo vocês de refém?
Encontrei o olhar de Brunna do outro lado do campo aberto, e claramente nós duas estávamos preocupadas.
—Os últimos da resistência, pelo que eu sei.- Igor respondeu.
Eu bufei de frustração, e Ayato colocou a mão no meu ombro.
—É uma pena não terem chegado antes.- Lua comentou- Jackson, Yui, Mao e Sol acabaram de ir embora.
Lilith franziu o cenho:
—Eu quero saber o motivo?
—Acredito eu que não.- Subaru retrucou.
—Muita coisa mudou desde quando vocês sumiram.- Shu respondeu- Muita coisa.
Me senti até estremecer.
—Bem, então acho melhor se prepararem pra algumas explicações, porque não viemos sozinhos.- Lilith instruiu.
Os outros 3 que estavam no fundo começaram a andar, e eu senti meu coração disparar ao ver quem era.
—Pai?- Me assustei.
Eu troquei um olhar com Sarah, meio sem saber o que fazer. Correr e abraçar ele seria a melhor opção? Fugir pras colinas e nunca mais voltar.
—Sarah!- Ele se assustou- Você… mudou. Resolveu cortar o cabelo?
Sarah ficou automaticamente corada:
—Er. Alguma coisa assim. Digamos que eu senti… vontade de mudar.
—Bem, você ficou ainda mais linda!- Meu pai continuou.- Sofie, linda como sempre.
—Valeu, pai.- Fiquei com vergonha.
—É até engraçado, vocês duas estão me lembrando alguém que eu conheço…
Se meu próprio pai falar que eu pareço a Molly, eu vou entrar numa crise que nem Freud explica.
—Ah, sim! A mãe de vocês. Principalmente você, Sarah.- Ele falou sorrindo.
—...Quê? Eu?- Sarah se assustou- Você tem certeza disso?
—Absoluta.- Ian comentou.
Sarah estava meio sem saber o que falar.
Ouvi alguém pigarreando atrás de mim.
—Sr. Herbert, eu queria dizer que é uma honra…- Ayato começou.
—Esse nem é o nome dele.- Kanato murmurou.
—Agora não, Ayato.- Falei entredentes.
—Ele não sabe que a gente tá namorando.- Ayato respondeu da mesma forma.
—Vocês… querem me falar alguma coisa?- Ian encarou nós 4. Tive uma vontade súbita de me enterrar na neve.
Se meu pai soubesse o que eu estava fazendo com Ayato a menos de uma hora atrás…
—Nada não, pai!- Sarah deu uma leve empurrada em Kanato, que resmungou- Tudo sob controle por aqui!
O olhar que meu pai me deu era o suficiente pra eu saber que Sarah mentia muito, muito mal.
Meu pai continuou do nosso lado, o que me deu uma desculpa pra prestar atenção em Stephan e Chronos, que com os olhos buscavam o resto das garotas.
—Pai!- Lua basicamente se jogou em Chronos, fazendo Nikki dar um salto.
—Ah, cuidado pra não me fazer cair!- Chronos riu. Quando Lua saiu de seu abraço, ele abraçou Nikki de forma bem mais normal.
Ele franziu o cenho encarando uma das mãos dela:
—Isso é um anel?
Nikki ficou automaticamente vermelha e escondeu a mão atrás das costas, como se fosse adiantar de alguma coisa:
—...Não?
—É um anel bem bonito.- Chronos comentou- Eu só fico me perguntando se você sabe o que anel nessa mão significa, porque…
—Ah, ela sabe.- Shu comentou.
—Cala a boca, Shu!- Nikki brigou- Enfim, pai. Uma longa história, que tal eu te explicar… mais tarde?
—...Claro, se você acha melhor. E você, Lua?
—Eu… tô bem?- Lua sugeriu, bem incerta.
—Nada mudou?- Chronos perguntou, claramente não acreditando na própria filha.
—Eu não diria isso, exatamente.- Lua murmurou- Mas nada que você deva se preocupar, eu acho.
Para o terror de Shu e Subaru, as duas garotas ficaram bem perto do seu pai, comentando baixo algo ao pé do ouvido dele.
Eu obviamente quase congelei quando vi Stephan caminhando até suas filhas.
A primeira reação de Marie foi se esconder atrás de Victoria, que claramente soltou um xingamento pra irmã mais velha.
—O que aconteceu?- Stephan pareceu preocupado.
—Nada. Só tivemos… alguns probleminhas estéticos.- Victoria tentou explicar.
Stephan pareceu ainda mais preocupado e confuso.
Marie lentamente saiu detrás de Victoria, exibindo seu cabelo branco e seu olho vermelho.
Ele arregalou os olhos:
—O que diabos aconteceu com você?
—Olha, é uma história BEM longa.- Marie suspirou- Mas era ou isso ou minha morte, então pareceu uma escolha razoável.
Stephan pareceu não saber o que falar.
—A gente tentou tomar conta uma da outra, eu juro.- Victoria retrucou.- Mas de vez em quando o drama escolhe a gente, papai.
—Eu imagino.- Stephan comentou e então se virou pra Reijii- Tudo tranquilo com você, imagino?
Reijii pareceu meio chocado com o homem o dirigindo a palavra.
—Em relação a isso…- Victoria pigarreou.- Ai, é melhor rasgar o band-aid logo. Reijii e eu não estamos mais juntos.
Os olhos de Stephan conseguiram se arregalar ainda mais:
—Oi?
Victoria pareceu não saber como explicar. Notando isso, Reijii entrou em cena.
—Problemas conjugais. Percebemos que temos mais diferenças do que semelhanças.- Ele claramente estava inventando isso na hora- Mas sem ressentimentos… eu acho.
Os dois rapazes se viraram pra encarar Victoria.
—Claro.- Victoria parecia envergonhada- Nenhum ressentimento.
Bem, aquilo era vergonhoso.
Do canto do meu olho, eu vi Kino se aproximando de Lilith, que ainda conversava com Mun.
—Boa tarde!- Kino arregalou os olhos- Mano, você é alta mesmo. Enfim, eu sou o Kino. O irmão da Mun.
—Ah sim, dá pra ver a semelhança.- Lilith sorriu, olhando pra criança perto de si- Mun me falou muito sobre você!
—É. Espero que tenham sido coisas boas, pelo menos.- Kino comentou.
Lilith estava prestes a responder quando Carla pigarreou:
—Se não for incômodo, gostaria de convidar todos para entrarem na fortaleza. Acredito eu que o jantar esteja quase pronto, e será mais confortável para todos conversar longe do frio.
—Incômodo nenhum!- Meu pai respondeu- Devemos ir?
Uma voz de criança nos chamou a atenção.
—Onde você estava?- Ouvi Lilith brigando no fundo.
—Rosas!- Foi a resposta da criança, claramente muito agitada.
Na distância, eu consegui ver que Igor estava com Oliver no seu colo ainda, e Lilith tentava arrumar algum jeito de trazer uma outra figura pequena pra perto.
—Não me diga que é…- Sussurrei pra Sarah.
—Pois te digo sim.- Sarah sussurrou de volta- Isso é que eu chamo de dia cheio de reviravoltas.
—Ah, sim.- Stephan deu uma risadinha sem graça- Vic, Reijii, imagino eu que queiram rever o filho de vocês.
Victoria faltou engasgar na própria saliva:
—Oi?
—Por favor, Vic, não me diga que esqueceu do próprio filho.- Sarah resmungou.
—Acho que esquecer não é bem a palavra.- Comentei baixo- Acho que ela só… não esperava que pudesse rever o Heisuke.
Reijii se levantou prontamente, apesar de parecer nervoso.
—Papai!- Heisuke se enrolou feito um bicho-preguiça na perna de Reijii- Você não vai acreditar em tudo que os vovôs, o titio e a titia me falaram!
Reijii se abaixou o suficiente pra pegar o menino no colo, o sentando em seu braço.
—Vovôs?- Questionei pra Sarah- Plural?
—Depois de quase 2 anos sendo criado pelos três, eu não duvido nada que ele acabou achando que os três são pais da Vic.
—Eu sei tudo sobre ma...gi...a!- Heisuke mexeu as mãos de forma meio drástica.- Vampilos, bruxas!
—Imagino que saiba tudo mesmo.- Reijii riu.- Muito inteligente.
—Dá pra vocês duas pararem de serem futiqueiras e deixar eles terem o momento dos dois?- Marie veio nos puxar.
—Ah, mas…- Sarah já ia reclamar.- Ninguém vai xingar eles?
Os outros 5 Sakamaki estavam casualmente apoiados numa parede, fingindo nem prestar atenção no que estava acontecendo.
Marie grunhiu:
—Não é possível que todo o senso das duas famílias veio pra mim. Eu vou lá xingar eles. Vocês, andando!
Sarah resmungou baixo.
Um pouco mais longe, eu pude ver Victoria olhando Reijii com Heisuke. Estava meio de braços cruzados, mas claramente não queria chamar atenção pra si.
Ela respirou profundamente.
—Pega o filho, Victoria.- Sarah sussurrou- É teu.
—Você me jura que a gente vai comentar tudo como se fosse final de novela?- Perguntei.
—Me dá uma folga, não tem Netflix aqui.- Sarah riu de leve.
Reijii olhou pra trás, finalmente notando que Victoria estava o encarando.
A minha irmã fingiu que nada tinha rolado, obviamente, e desviou o olhar.
Ou seja, ela ficou encarando de forma constrangedora a parede como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
Reijii a observou por alguns segundos, enquanto Heisuke tentava tirar os óculos da cara do pai da forma mais difícil possível.
—Victoria.- Reijii a chamou.
Victoria pareceu levemente assustada, mas o olhou de volta.
—Oi?
—Desculpa, quer segurar ele?- Reijii apontou com a cabeça pra Heisuke.
Victoria franziu a testa:
—Eu acho que melhor não. Ele nem deve…
Heisuke olhou pra Victoria e estendeu os bracinhos gordos pra ela:
—Mamãe!
Victoria pareceu realmente em choque por alguns segundos.
—Bem, se você ia falar que ele não te reconhecia… acho que ele acabou de te refutar.- Reijii comentou, um mínimo sorriso no rosto.
Victoria conseguiu sorrir um pouco:
—Essa vontade de refutar todo mundo veio de você, não de mim.
—Ah, eu tenho algumas dúvidas sobre isso.
Victoria se aproximou um pouco, e com a ajuda de Reijii conseguiu pegar Heisuke com as duas mãos.
Victoria o balançou um pouco, parecendo meio desacostumada com o sentimento.
Heisuke encostou as mãos no rosto de Victoria, antes de pegar uma das suas madeixas e tentar colar nos seus olhos.
—Que simpático, ele.- Murmurei.
Sarah concordou.
Eu quase gritei quando senti uma pessoa me puxando pelo braço, mas demorei segundos pra me segurar o suficiente depois de perceber que era Marie.
—Ai! Que isso!- Sarah brigou, prontamente se desviando da nossa irmã mais velha.
—Por mais que eu admire as habilidades de fofoca de vocês duas, eu gosto de acreditar que seja um bom momento pros dois terem. A sós.- Marie finalmente me soltou.
—Isso faz sentido.- Admiti- Mas você não acha que fofocar sobre a vida da nossa irmã é um bilhão de vezes mais divertido do que um jantar de família?
Marie franziu o cenho pra mim, e então eu me toquei que aquela era uma batalha perdida.
—Acho que vocês precisam de comida na boca pra parar de falar, isso sim.- Ela voltou a nos pegar nos braços, nos arrastando até pra dentro da fortaleza.
Quando chegamos, 90% das pessoas já estavam se servindo de comida. Percebi que Eliza, Lilith e Carla eram os únicos de prato vazio.
—Você aceita alguma coisa pra comer, Lilith?- Shu ofereceu, enquanto sua prima.
Lilith negou com a cabeça.
—Eu não… não poderia?
A expressão confusa do rosto dos Sakamaki fez Igor começar a falar:
—Ela não consegue comer a dias.
—É. Devo ter pegado alguma doenca ou algo assim na prisão rebelde.- Lilith comentou.
—Você tem certeza?- Mun pareceu precoupada.
—Ah, absoluta. Melhor não desperdiçarem comida comigo.
—Bem, você é mestiça. Precisa de mais comida do que nós. Cousie, tem algum problema guardar comida pra Lilith?
—De forma alguma.- Cousie parecia meio cansada com a breve caminhada,- Vou ordenar que guardem o suficiente do jantar para você comer quando puder.
—Eu…- Lilith parou no meio do que parecia ser uma tentativa de reclamação- Agradeço. Mesmo.
Cousie deu de ombros, quase como se quisesse responder um "imagina".
—Mas então, deve ter sido uma baita de uma aventura.- Eliza tentou puxar assunto- Vocês falaram que foram presos pelo rebeldes, né?
Os pais concordaram.
—É, parece um problema que temos que resolver.- Shin suspirou.
—Pelo menos temos a sorte de termos duas líderes respeitadas pelos rebeldes aqui.- Ayato comentou meio de deboche, passando a mão nas minhas costas. Senti um leve arrepio.
—Assim, se você considerar "ser vendida pros Rosemary" uma prova de respeito…- Bruna murmurou.
Os pais pareceram mais confusos ainda.
—A gente vai precisar de uma apresentação de slides se queremos que vocês saibam de tudo.- Suspirei- Por enquanto, apenas balançam as cabeças e finjam que está tudo sob controle.
—Eu não entendo.- Priya mordiscou uma rosquinha- O que diabos uma resistência rebelde poderia querer com a gente, depois de darmos a honra de matarmos 90% deles?
—Moeda de troca.- Carla respondeu- Provavelmente com os Sakamaki e as Herbert.
—E pelo quê?- Kino questionou.
Eu senti alguns breves olhares me encarando.
—Ah não. Nem fudendo.- Murmurei bem baixo.
—Robert está morto.- Marie foi a primeira a falar- Por que eles gostariam de ter a Sofie quando a única pessoa que pagaria uma fortuna por ela morreu?
Lilith pigarreou.
—Não a única.- Mun falou de repente.
—...Como é?- Eu perguntei.
—Ela disse que não era a única pessoa, filha.- Meu pai respondeu.- Ah. Foi retórica.
—Tyrosh pagaria pela Sofie?- Sarah se exaltou- Tyrosh?
—Bem, ele é o único Rosemary que restou.- Haruka comentou- Talvez ele procure ter herdeir… Quer saber? Não vou terminar esse pensamento? É nojento.
—Deixa eu ver se eu entendi.- Chronos pediu- Talvez nós tenhamos sido usados como moeda de troca por um alguém… Tyrosh, o nome. Pela Sofie.
—Ou talvez… não foi pela Sofie.- Anna falou em voz alta. Pelo jeito que tapou sua boca, não havia sido de propósito.- Desculpa, eu não…
—Por favor, prossiga.- Ruki pediu.
—Sei lá, talvez exista algo melhor. Sem ofensas, Sofie. Mas talvez tenha algo mais poderoso, mais forte. Uma arma de guerra.- Anna pensava, quase pra si mesma.
—Tipo um drakon?- Nikki questionou.
—Talvez. Mas ninguém seria louco o suficiente de tentar comprar um drakon que já tenha dona.- Brunna respondeu brevemente.
Passamos um tempo em silêncio.
—Eu só consigo pensar em uma possibilidade.- Igor comentou.
—Que é?- Shin se interessou.
—Titia bruxa!- A voz de Heisuke ressoou pela sala de jantar.
Foi aí que vimos que Victoria havia acabado de chegar com seu filho no colo. Oliver estava brevemente acordado nos braços de Reijii.
—Quê?- Yuma ficou confuso.
—Não sei, ele tá repetindo isso a uns dois minutos.- Victoria assumiu.
—O Oliver também começou, mas acho que ele tá cansado.- Reijii prontamente passou o sobrinho pro colo da mãe.
—Ah, ele deve estar com saudade da menina que conhecemos.- Stephan sorriu- O nome dela era Di...Da.. Como era mesmo?
—Daayene Hudison.- Lilith completou, e a sala toda se congelou em um segundo.- Se recusou a voltar pra patrulh, mas as crianças adoraram ela.
—Daayene? Daayene ajudou vocês?- Kou perguntou, mais pra ter certeza.
Os outros pareceram confusos com a euforia.
—Sim?- Igor questionou- Ela que nos soltou dos rebeldes.
—A quanto tempo isso?- Brunna estava quase sem ar, e a esperança em seus olhos era forte demais pra ser ignorada.
Eu também sentia meu coração bater forte.
—Umas três semanas, quatro no máximo?- Lilith respondeu.- Aconteceu alguma coisa que eu deveria saber?
Priya pareceu perder o fôlego por altuns segundos.
—Daayene sumiu da patrulha a meses.- Marie explicou- Uns seis, pra ser mais exata. Procuramos ela em todo lugar, mas ela nunca apareceu.
—Bem… então boas notícias. Se ela continuou no mesmo estado pelas semanas que nos despedimos, está viva e bem.- Chronos pareceu meio feliz de anunciar isso.
—Titia bruxa não vem?- Oliver reclamou.
—Então ela fugiu.- Cousie concluiu.- E se recusou a voltar por vontade própria?
—Algo assim.- Meu pai respondeu.
—Então talvez ela não precise da nossa ajuda assim.- Cousie pareceu levemente amarga.
—Isso vindo da pessoa que chamou ela de bomba atômica pra quem se mostrasse disposto a ouvir.- Eliza retrucou.
—Meu Deus, qual o seu problema? Parece que você defende mais a Hudison do que a própria família!- Cousie tentou controlar sua raiva.
—Eu defendo o que eu acho justo. E o tratamento que deram pra Daayene certamente não foi justo.
—Bem, até onde eu saiba não guardei esse segredo sozinha. Só porque vocês se arrependeram nas últimas 24 horas não signfica que sejam santos e justiceiros. Vocês souberam tudo que eu planejava pra Daayene e não falaram uma palavra, então não sei porque eu sou a única culpada daqui.
—Talvez seja porque todo mundo tem medo de você, vai saber.- Eliza murmurou.- Mas não faz diferença de qualquer jeito. Daayene está viva, mas se não voltou até agora é porque ela não quer ser achada.
—Nem pela própria família.- Brunna respirou fundo- Eliza está certa.
—Podemos tentar localizar ela, a chamar pra morar conosco.- Ruki pôs uma mão reconfortante no rosto da noiva- Talvez ela queira, é melhor do que passar o resto da vida na rua.
As Hudison soltaram um suspiro longo e profundo em conjunto.
Percebi Ayato me encarando do outro lado da mesa. O encarei de volta, confusa.
O Sakamaki sorriu pra mim antes de enfiar um bolinho frito na boca, o que me deixou cafonamente vermelha.
É isso. Eu virei uma protagonista de comédia romântica que se ruboriza com a menor das coisas.
O ciclo se completa da forma mais patética possível.
E foi durante o jantar todo que eu me senti completamente distraída. Eu mal consegui comer direito, quem dirá conversar com os outros.
Minha mente estava a mil por hora.
Acabamos o jantar, e assim que mostraram algum sinal de recolher a louça suja, eu me levantei:
—Tô meio cansada. Acho que vou pro quarto.
Não era totalmente verdade, mas também não era totalmente mentira.
Todos me desejaram um bom descanso e melhoras, antes de eu ir praticamente correndo pro andar de cima.
Me assustei quando ouvi passos atrás de mim.
—Você é um péssimo espião.- Me virei pra Ayato.
—E você uma péssima mentirosa. "Estou cansada" foi o melhor que conseguiu? Sério?
Revirei os olhos.
—Sabe, se não quer falar pro seu pai que estamos namorando, precisa ser mais discreta que isso.- Ayato começou a andar atrás de mim.
—Não fui eu que corri atrás da minha namorada minutos depois que ela saiu da mesa, né?
—...Justo.- Ayato segurou meu braço, assim que eu parei na frente da porta do meu quarto- Mas eu queria te ver, fazer o que, né?
Abri a porta do meu quarto, hesitante.
Assim que chegamos no quarto, eu fui subitamente surpreendida por um beijo gigante que Ayato me deu.
—O que foi isso?- Eu me assustei, meio rindo de nervoso.
—Você me prometeu que íamos continuar da onde paramos, no corredor.- Ayato pegou um montão do meu cabelo entre os dedos, o tirando do meu pescoço.
—Não sei se foram exatamente essas palavras que eu usei.- Sorri de leve, pra esconder meu rubor.
—Está reclamando?
—Claro que não, Sakamaki.
Ayato me beijou novamente, dessa vez com mais cuidado. E eu, dessa vez, consegui responder ao beijo com igual intensidade.
As mãos do Sakamaki saíram do meu pescoço, fazendo o trajeto até meu quadril, onde ele me puxou pra si com delicadeza total.
—Ayato…- Eu tentei o chamar, mas ele me prensou contra a porta do quarto, usando uma das mãos pra trancá-la.
Ele se afastou de mim, olhando entre mim e a maçaneta da porta como se falasse "ainda dá tempo de fugir, se quiser.".
E eu não queria.
Peguei seu rosto entre minhas mãos, beijando-o por completo antes de parar na boca por alguns segundos.
Ele, com a paciência que eu conhecia muito da sua parte, me puxou mais bruscamente e nossos lábios se encontraram novamente. Dessa vez, senti suas presas raspando de leve no meu lábio, o suficiente pra arranhar, mas não pra extrair sangue.
Ayato se afastou mais alguns centímetros do meu rosto, dobrando um pouco os joelhos para suas mãos conseguirem me pegar pelas coxas.
Ele me levantou de uma vez só, me deixando na sua altura.
Ajeitei seu cabelo, tirando a franja dos olhos verdes. Sorri de leve na direção dele, e ele sorriu de volta meio sem graça.
Mais sem graça ainda foi o jeito que ele me jogou na cama. Senti o colchão tremer embaixo de mim, e até doeu um pouco. Claro, essa parte ele não precisa saber.
—Eu posso…?- Ele questionou, pegando a barra da minha blusa.
Concordei com a cabeça, mas ele continuou me encarando.
—...Quê foi?
—Eu preciso que você fale. Tipo, usando a boca. Se não isso aqui não vai funcionar.
Fiquei tão vermelha quanto o cabelo dele, provavelmente.
—Sofie?- Ele me chamou de novo.
—Pode.- Respondi, morrendo de vergonha.
Ele puxou minha blusa com delicadeza por cima da minha cabeça, deixando apenas meu sutiã e o colar de borboleta expostos.
Ayato me encarou com tanta doçura que eu achei que fosse derreter.
Ele se ajoelhou ao meu lado da cama, tirando a blusa tão rápido que sua cabeça quase ficou presa na gola.
Me senti tensionar, meu corpo todo meio quente e frio ao mesmo tempo.
Ayato notou minha tensão, e segurou meu antebraço.
—Sinceramente, eu tô meio preocupado também. Mas vai dar tudo certo, te prometo.
Eu concordei ligeiramente com a cabeça, e Ayato tirou alguns fios de cabelo do meu rosto.
—Ore-sama… te ama. Então não vou te machucar. Pelo menos não dessa vez.
Eu estava prestes a responder sua declaração, quando eu senti seus dedos na minha barriga, perto da cintura da minha calça.
—Você sabe o que significa se a gente fizer isso, né?- Perguntei, um pouco fraca.
Eu tinha total consciência dos meus atos. Fazer isso significaria que todo o peso do Plano Eve recairia sob Nikki, Lua ou Anna.
E isso podia até ser egoísta, mas eu não me importava muito com aquilo agora.
Éramos eu e Ayato. Nada mais importava, nem mesmo um plano idiota. Eu não ia resistir ao que meu coração queria por uma asneira que meu sogro inventou.
—Eu sei.- Ayato engoliu em seco- Eu topo se você topar.
Nós trocamos um olhar singelo, e eu sabia o que passava na cabeça dele.
Não ser Adam.
Ayato estava disposto a sacrificar isso por mim.
E eu amo tanto ele. Jesus, como dói o tanto que eu amo esse menino.
—Eu não sei…- Me sentei na cama, meio nervosa- Se eu quero fazer, sabe. Tudo. Se é que você me entende.
Ayato hesitou por alguns segundos:
—...Saquei. Ok, eu tenho outras coisas, posso ser criativo.
Fiquei ainda mais vermelha:
—Então… eu acho que tô pronta.
Ayato sorriu pra mim.
—Relaxa, eu vou cuidar de você.
Se deitou ao meu lado, seus olhos se encontrando nos meus.
—Vou ser o mais cuidadoso e carinhoso possível com você. Juro.- Ele pareceu meio envergonhado.- E se quiser parar, você só precisa me avisar.
Ele me prendeu em mais um beijo apaixonado. Dessa vez, eu senti que um pouco de sangue se misturou na minha saliva. Ayato passou a mão fria no meu corpo quente, me causando arrepios.
E eu sabia muito bem, naquele momento, que era um caminho sem volta.
Eu havia entregado todas as minhas certezas nas mãos de Ayato, e eu sabia que nunca me arrependeria disso.
***
Acordei com a luz do sol passando pela janela, diretamente no meu rosto.
Fiz uma careta, enfiando mais minha cara no travesseiro.
Quando nem isso se provou suficiente, me rendi e abri os olhos.
Demorei um pouco pra me acostumar com a luminosidade, mas assim que vi a paisagem nevosa e neblinada do lado de fora, senti um sentimento estranho de paz.
Não me lembro a última vez que acordei me sentindo tão… bem. Só bem, simples assim. Era como acordar em casa, finalmente.
Me sentei na cama, finalmente achando minha blusa jogada num canto do chão e conseguindo fechar ela sob meu torso.
Alonguei o pescoço, soltando um grunhido vendo que estava com um leve torcicolo.
—Bom dia!- Ouvi a voz de Ayato da porta- Se eu soubesse que você ia me dar uma visão dessas, viria mais cedo!
O encarei, percebendo que ele estava com uma xícara de café em uma das mãos e umas rosquinhas de chocolate na outra.
Ele me olhou de cima a baixo, mal coberta pelo lençol.
Revirei os olhos pra ele, que finalmente veio até a cama e me entregou o café da manhã.
—Você me paga ainda. Tive que aguentar suas irmãs me perguntando por que diabos você não queria descer.
—Eu não diria querer. Até onde eu saiba eu estava dormindo.- Tomei basicamente o café todo em dois goles.
—Sei lá, eu mal saberia se você conseguiria andar.- Ayato zombou, recebendo um mini chute da minha parte.
Enfiei uma rosquinha na minha boca, resmungando alguma coisa que nem eu entendi direito.
Ayato e eu ficamos em silêncio por um tempo, o único barulho sendo eu mordendo as rosquinhas.
—Você acordou bem?- Ayato perguntou.
Esperei um pouco pra eu poder engolir a comida:
—Surpreendentemente sim. Na verdade acho que devem fazer uns 4 anos que não acordo tão bem. Talvez a gente devesse dar uma volta de drakon pra aproveitar o dia lindo que está lá fora.
Ayato pareceu interessado no que eu tinha a dizer.
—Minha melhor amiga está feliz, salvamos a patrulha de alguém que machucava algumas pessoas, meu sobrinho e meus pais estão aqui… sua prima, também. E eu tenho você.
Dei um sorriso de leve pra ele:
—O que eu tenho pra reclamar?
Comi a última rosquinha da minha mão.
Ayato deu um beijo na minha testa, parecendo totalmente relaxado.
—Ah, isso sim é vida. Parece que não temos nada com o que se preocupar.
—Bem, pelo menos não por hoje. Considerando nossa sorte, não duvido que amanhã comece um apocalipse zumbi.
—E mesmo assim, estaremos preparados.- Ayato soltou um sorriso relaxado.- Essa é a coisa maravilhosa de estar com você. Preparar pra tudo e todos.
Soltei um sorrisinho.
—Você vai ser a rainha vampira mais maravilhosa que esse reino já viu.- Ayato beijou minha mão.
Franzi a testa levemente.
—Rainha vampira?
—É. Sabe, quando a Cousie precisar de representantes das raças. E nós dois vamos sentar naquele trono maldito que meu pai ocupou. Porque ele já vai estar morto, felizmente.
Ayato continuou falando por cima do meu silêncio.
—Então seremos Herbert e Sakamaki no topo. Ou no segundo lugar, pelo menos. Assim como deveria ser.
—Ayato…- Tentei falar o mais suavemente possível.
—Eu sei que eu posso ser muito emocionado de ficar falando esse tipo de coisa, mas você é… a mulher certa pra mim.- Ayato sorriu- É por isso que eu preciso de você, sabe, do meu lado pra tudo.
—Ayato.- Eu finalmente falei, e ele pareceu prestar atenção em mim.-… Eu não sabia que você queria ser rei.
—Tá brincando? Não tem glória maior que essa! O problema é que não temos bons exemplos: Meu pai, o Rosemary maldito, o pai do Carla…
Senti que eu estava dissassociando um pouco.
—Quer dizer, não sei se ser só representante dos vampiros me faria rei. Príncipe regente? Lorde? Sei lá, mas você vai ver quando eu te mostrar. O castelo é lindo, ainda mais do que o dos demônios ou dos feiticeiros, você vai amar. E as pinturas suas seriam tão maravilhosas…
—Eu não quero ser rainha.- Falei rapidamente. Depois notei o quão rude aquilo poderia soar- Quer dizer… realeza não é pra mim, eu odiaria cada segundo de… mandato, sei lá como fala.
Ayato me olhou confuso:
—Quê?
—Você consegue me imaginar sentada comandando pessoas pra lá e pra cá? Argh, seria um pesadelo. Eu nasci pra… sei lá, alugar um apartamento no centro da cidade e trabalhar em algum canto onde eu possa usar um terninho e fazer contas, sei lá.
—Você ficaria linda numa coroa. E acho que seria uma ótima governante.- Ayato opinou.
—Amor…- Eu respirei fundo- Eu de verdade não quero te magoar, mas… eu já estive perto o suficiente de ser rainha pra saber como é. E é um inferno. Eu não sei se aguentaria a pressão.
—…Você tá comparando ser rainha comigo a ser rainha com o filho da puta do Rosemary?- Ayato pareceu um pouco mais irritado.
—O que?- Me assustei- Claro que não, meu amor!
Ayato respirou fundo, claramente tentando não se levar por sentimentos:
—Se eu te perguntar uma coisa, você pode ser totalmente honesta comigo?
Engoli em seco.
—Claro. Sempre.
Ayato me olhou no fundo dos olhos.
—Sofie, você por acaso acha que de uma forma ou de outra eu seria um bom governante?
Fui tomada por total surpresa pela pergunta, e só então eu senti como minhas mãos começaram a suar e tremer.
Com alguns segundos de silêncio vindo de mim, o olhar de Ayato caiu.
—Ayato, não é assim.- Retruquei com bastante determinação- Você é um cara maravilhoso, com muito talento em tantas coisas! Mas você não acha que nossa vida só seria… bem mais tranquila fora da realeza?
Ele soltou um suspiro longo.
—Por favor, Ayato. Eu não quero brigar com você. Ainda mais por um motivo desses.
—Eu também não quero brigar com você.- Ele me olhou- Mas você também não pode ficar brava comigo por estar chateado, né? Foi… um balde de água fria.
Foi minha vez de suspirar.
—Claro. Eu não tenho controle sobre suas emoções. Mas eu acho de verdade que seria muito pior se eu mentisse pra você.
—É. Eu sei.- Ayato deu de ombros.
Ficamos em silêncio por mais alguns segundos. Ele se levantou da cama.
—Aonde você vai?- Me assustei.
—Eu só vou comer alguma coisa. E esfriar a cabeça.- Ayato pareceu meio nervoso- Se tem uma coisa que a gente sabe por experiência, é que quando a gente tá irritado acaba falando coisas que acabam machucando o outro. Então preferível evitar, por nós dois.
Eu quase abri a boca pra retrucar, mas ele foi embora mais rápido. E também, eu desisti assim que ele passou pela porta.
Me afundei na cama. Bem, pelo menos estava sendo um bom dia.
Mas Ayato estava certo. Era melhor a gente se afastar um pouco pelo menos por hoje.
Respirei fundo e pressionei minha cara contra o travesseiro.
De repente havia batido uma vontade imensa de dormir o dia todo.
Minha mente se perdeu um pouco, eu sentindo meus olhos se fecharem lentamente.
Só que claro, eu não posso ter paz por muito tempo. Por isso fui belamente acordada por uma sirene estridente.
Saltei da cama, completamente confusa quando eu comecei a ouvir o barulho de alguma coisa queimando na distância.
Me levantei e fui até a janela do meu quarto, a abrindo da forma mais silenciosa que eu consegui.
Olhei o muro nevado na distância, e achei levemente estranho quando observei uma leve faísca por cima da pedra.
Apoiei os dedos na janela, observando pra ver se havia mais qualquer outra coisa suspeita.
Ouvi um par de rugidos bem distantes que me congelaram até a coluna.
Griffin e Ykzhar. Meu coração pareceu se contrair dentro de mim.
Apertei o colar de borboleta no meu pescoço, me sentindo tensionar.
Ouvi um berro distante pra fecharem os portões. Minha primeira reação foi jogar um casaco grande por cima do corpo e correr pro corredor.
Lá, pude ver vários criados correndo para todos os lados, num estado de frenesi extremo.
Tentei chamar um, dois, uns três que estavam correndo pelo lugar. Foi inútil, pois todos pareciam ter decidido me ignorar em conjunto.
—Sofie!- Ouvi a voz de Brunna me chamando.
Olhei pro final do corredor, conseguindo ver a loira correndo até mim.
—Brunna, o que aconteceu?- Questionei- Eu ouvi os barulhos e…
—Os profetas estão atacando.
—...Oi?
—Eu não sei também! Eu só sei que eles resolveram atacar de surpresa e…
Ouvimos o barulho do que parecia ser uma parte do telhado quase desabando.
Pela janela, eu pude ver uma espécie de redemoinho vermelho chegando.
Engoli em seco:
—Deus nos salve.
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