Prólogo

— Vai à casa dos Mísero, de novo? — perguntou meu pai, que estava sentado no sofá lendo seu jornal como todos os dias.

— Sim. Prometi a Lúcia que passaria por lá hoje antes do jantar. — respondi enquanto ninava Simon em meus braços.

Depois da inesperada surpresa de encontrar os irmãos Pevensie na casa dos parentes da minha madrasta na última semana, vinhamos passando a maior parte do tempo juntos.

Aproveitávamos a oportunidade que tínhamos de estar juntos enquanto podíamos, pois logo seus pais voltariam de viajem e não conseguiríamos nos ver como agora.

— Não acha que tem passado muito tempo com aquelas crianças não? — indagou ele com um tom enciumado na voz, enquanto me olhava por cima do jornal.

— Somos amigos agora, papai. — falei tentando conter uma risada, era raro ele demonstrar esse lado ciumento dele.

— Vocês se tornaram amigos muito rápido em minha opinião. — disse ele, logo abaixando a voz antes de continuar — Principalmente com aquele garoto Pevensie.

Senti no mesmo instante meu rosto queimar de vergonha.

Sabia que o modo com que tratava o moreno e como ele me tratava era diferente de como era com a Lúcia ou qualquer outra pessoa, mas não sabia que era tão perceptível ao ponto de meu pai, que é sempre meio desligado, conseguiria perceber.

E eu não podia culpá-lo por achar que minha amizade com eles havia acontecido tão rapidamente. Não é como se eu pudesse dizer a verdade, que nós já nos conhecíamos, pois lutamos lado a lado em uma batalha que ocorreu em um mundo totalmente diferente desde.
Isso é algo que nunca poderia contar.

— Robert! Não comece com esse ciúme bobo. — ralhou Elizabeth que acabava de entrar na sala, e que deve ter visto o quão desconfortável eu fiquei — Sua filha acaba de encontrar amigos que tem praticamente a mesma idade dela. Você deveria ficar contente por ela não ficar mais sozinha.

Com um suspiro e uma expressão de quem não parecia muito contente, ele se levantou de onde estava e tomou o bebê dos meus braços.

— Vai. — disse ele — E divirta-se.

Beijei seu rosto e lancei um olhar de agradecimento a Elizabeth, logo correndo porta a fora antes que meu pai mudasse de ideia.

Se me falassem a algumas semanas que eu ficaria ansiosa em ir à casa dos Mísero, provavelmente chamaria a pessoa de maluca. E aqui estou eu, caminhando exatamente para lá.

Saber que poderia conversar sobre meu assunto preferido, com pessoas que não me achariam maluca, é maravilhoso.

Nárnia está em cada uma das nossas conversas.

Desde as histórias que compartilhávamos até o quão apertado estava o nosso coração de saudade.

Enquanto seguia em direção de onde os Pevensie se encontravam, não pude deixar de me inundar com a sensação nostálgica que sempre me atinge quando penso naquele belíssimo lugar.

Na primeira vez, conheci um mundo no qual nem a mente mais sonhadora conseguiria criar.

Onde os animais mais belos, fantásticos e o mais incrível, falantes habitam.

Onde árvores tem vida própria, assim como os rios possuem seu próprio rei.

Lugar em que a magia habita em cada pedacinho de terra que há.

O lugar em que me tornei uma rainha.

Aprendi o verdadeiro valor de uma amizade através dos meus companheiros.

Aprendi a ultrapassar meus limites.

Senti na pela a dor de perder aqueles que são importantes.

Tive a oportunidade de fazer parte de algo maravilhoso.

Pude descobrir quem realmente era e do que sou capaz.

Na segunda vez, o mundo pelo qual me apaixonei estava diferente.

Não possuía aquele brilho especial que confortava o meu coração.

Os animais que sempre me alegravam, se tornaram selvagens.

Minhas belas amigas árvores, que antes bailavam ao simples soprar do vento, se aprisionaram no mais fundo de suas almas.

O medo se fazia presente naquele lugar ao qual eu já não reconhecia mais.

Mas foi nesse lugar que encontrei aqueles que se tornaram importantes em minha vida.

Os quatro irmãos que salvaram meu doce e amado mundo quando eu nada pude fazer.

Foi onde o passado, o presente e o futuro se juntaram para criar uma nova história naquele lugar.

Aprendemos a simplesmente confiar, mesmo se a situação não está ao nosso favor.

Espero que, quando a terceira vez chegar, possa ser tão grandiosa quanto às outras duas.

Que eu possa aproveitar cada momento porque, eu tenho certeza, está será a última vez.