Notas iniciais
mais um pra quem está acompanhando :B

Capítulo 6: Alice

Os dias passaram e agora só faltavam duas semanas para acabar o mês. Eu estava na detenção com o Joshua e nos últimos dias ele estava bem comportado. Estávamos sozinhos como sempre, quando o celular dele começou a tocar, ele atendeu e começou a falar em inglês com alguém.

– Aonde ela esta? – ele falou e esperou pela resposta – Não importa o que ele disse! Trás ela pra cá agora e eu dou um jeito de a deixarem ficar comigo.

Ele parou para escutar mais uma vez.

– Se ela não estiver aqui em 20 minutos eu juro que quebro a cara dele e de quem mais for preciso! – ele desligou o celular e o jogou em cima da mesa

– Desculpa me intrometer, mas esta tudo bem? – eu disse indo me sentar ao lado dele

– Você entendeu o que eu estava falando? – ele pareceu meio surpreso

– É uma das vantagens de eu ter saído dos Estados Unidos pra vir para um país duas vezes mais quente, saber o que os outros estão falando em inglês, não que eu estivesse querendo ouvir, mas eu sempre sei quando a professora de inglês fala mal de mim... Mas dessa vez foi sem querer.

– Tudo bem, não precisa ficar se explicando.

– Mas aconteceu alguma coisa?

– É minha irmã, ela não esta muito bem e pelo jeito não tem ninguém para cuidar dela.

– E você pretende trazer ela para cá? É isso?

– É essa a idéia, e se você pudesse me dar uma dica de como fazer isso, seria bem legal. – ele disse

– Bom, a diretora não está na escola hoje, e por sorte a vice-diretora é bem mais legal. Se você explicar o que esta acontecendo é bem provável que ela deixe sua irmã entrar.

– É, não custa nada tentar. – ele se levantou e saiu da sala para provavelmente ir à diretoria, ele parecia realmente preocupado.

Depois de uns 15 minutos ele voltou, e estava com uma garotinha loirinha o seguindo, ela devia ter uns quatro ou cinco anos de idade, era mais ou menos do tamanho do Thomas. E eu que estava esperando ele chegar com uma patricinha toda vestida de rosa que teria uns 20 anos, e parecida com a Barbie Princesa. Mas ao contrario do que eu imaginava, era só uma garotinha com o pijama do Bob Esponja e que parecia estar doente. A garotinha se sentou ao meu lado.

– O que ela tem? – perguntei para ele

– Não sei, já faz alguns dias que ela está com febre e eu estou preocupado. Assim que sairmos daqui vou levá-la ao médico.

– Sua mãe ou seu pai não poderiam levá-la?

– Nós não temos mãe, e algumas vezes, parece que também não temos pai.

– Assunto complicado?

– Um pouco.

– Tudo bem então.

A garotinha disse alguma coisa no ouvido dele.

– É ela mesma. – ele disse pra ela

– O que ela perguntou? – eu quis saber

– Ela perguntou se você era a garota bonita de quem eu tinha falado. Quer dizer, só não é mais bonita que eu! – ele disse mexendo no cabelo, o que fez a garotinha rir e confesso que também ri.

– Ela fala português? – perguntei a ele

– Fala sim, já faz alguns anos que estamos aqui. – ele respondeu

– Como é seu nome? – perguntei para ela

– Alice. – ela respondeu um pouco tímida, o que me lembrava o Kevin.

– Então Alice, me diz como você aguenta ter um irmão tão convencido assim?

– Ele não é tão ruim assim.

– Não?

– Não, algumas vezes é bem pior, mas eu amo ele mesmo assim. – ela sorriu e deu um abraço nele

– Agora estou me sentindo meio carente, será que eu ganho um abraço também? – eu disse fingindo que chorava

Alice me deu um abraço e eu a sentei no meu colo.

– Agora eu estou ficando com ciúmes. – Joshua disse

– Eu nem ligo. – eu disse e mostrei a língua, ele sorriu pra mim

Fiquei brincando com a Alice até a hora de ir embora. Ela parecia um pouco melhor, mas mesmo assim teria que ir ao médico. Ela era uma garotinha legal e simpática, e pelo o que eu pude perceber, Joshua como irmão não era a pior pessoa do mundo. Eles se davam muito bem. Brincavam e se abraçavam o tempo todo, e isso era muito fofo. Algumas vezes parecia que ele era o pai dela e não o irmão.

No dia seguinte, enquanto estava esperando o pessoal da escola chegar, fui falar com o Kevin sobre esse assunto.

– Então, sua irmã já está melhor? – eu perguntei enquanto andávamos pela escola

– Está sim, o médico passou alguns remédios e acho que daqui a alguns dias ela volta a bagunçar pela casa. – ele respondeu

– Isso é bom. Seu irmão estava muito preocupado com ela ontem.

– Isso é normal, quando o assunto é a Alice, ele é sempre assim.

– Tipo irmão super-protetor?

– Na verdade é isso mesmo, o Josh se vê mais como pai da Alice. Mas até que faz sentido, já que meu pai não liga muito para nós, principalmente para a Alice.

– Como assim?

– Bom, acho que você é uma pessoa confiável, então posso te contar. Nós não temos mãe, quero dizer, temos. Mas ela nos deixou quando a Alice nasceu e veio embora para o Brasil com outro cara. Depois disso meu pai, que já não era muito carinhoso, nunca mais foi o mesmo. Ele acha que a culpada por minha mãe ter isso embora é a Alice. O que é idiotice, mas ele não gosta nem de olhar para ela, porque ela é muito parecida com a nossa mãe. Eu realmente acho que meu pai está com sérios problemas psicológicos. Mas o Josh não quer nem saber, eu até apoio algumas coisas que o Josh faz. Mas algumas coisas geram problemas.

– Que tipo de problemas? – perguntei

– Problema do tipo briga. Meu pai e ele sempre estão brigando, porque meu pai não quer saber da Alice e o Josh fica agindo como o pai dela. Algumas vezes ela até o chamaele de pai mesmo. Meu pai não gosta disso, mas também não da atenção pra ela. Vai entender. Eu não tenho do que reclamar, já que o Josh praticamente criou a Alicy, mas eu realmente fico triste de ver minha irmã perguntar porque nosso pai não gosta dela, porque nossa mãe foi embora, se a culpa foi dela, e pior ainda ter que separar briga do meu irmão e do meu pai, porque os dois nunca conseguem conversar sem se baterem no final.

– Nossa, e eu achando que minha família tinha problemas...

– É, mas na maioria do tempo, nós nos damos bem. O problema maior é sempre com meu pai. Mas eu tento ignorar tudo, às vezes é melhor ver só os lados bons.

Percebi que ele não queria mais falar sobre aquilo, então mudei de assunto. Ficamos falando sobre series de TV e filmes até irmos para a aula.

Quando entrei na sala de aula, vi Pierre falando no celular com alguém. Mas assim que me viu ele desligou.

– Oi. – ele disse me abraçando

– Oi, com quem você estava falando? – perguntei antes que ele mudasse de assunto

– Com um amigo meu. – ele disse, mas não era o que parecia.

As aulas passaram normais, mas o Pierre estava estranho. Sempre que eu falava com ele, ele não prestava atenção. Eu tinha que ficar o chamando pelo menos três vezes, até ele perceber que era com ele que eu estava falando.

Estávamos apenas nós dois matando aula no pátio, eu não estava muito animada para assistir a ultima aula e por sorte ninguém apareceu para nos mandar entrar. Mas mesmo eu estando com ele, parecia que eu estava sozinha. Ele não parava de mexer no celular.

– Será que você vai me dizer pra quem você esta mandando mensagem o dia todo, ou eu vou ter que descobrir sozinha? – eu disse pegando o celular da mão dele

– Não é ninguém, agora me devolve. – ele disse tentando pegar o celular da minha mão, mas não conseguiu.

– Não me parece ser ninguém. – eu disse lendo as mensagens e não gostei nada, principalmente da pessoa que ele estava mandando: Mariana – Quem é essa?

– Ninguém. – ele respondeu pegando o celular da minha mão

– Ninguém? Ninguém que pelo jeito, você gostou muito de encontrar e me parece que não foi só uma vez.

– Calma. Eu vou dizer a verdade, eu estava me encontrando com ela, mas não aconteceu nada de mais.

– Como nada de mais Pierre? Não mente. – eu já gritando com ele

– Eu não estou mentindo, eu me encontrei com ela umas três vezes, mas não passou de alguns beijos. Por favor, acredita em mim.

– Quer saber, eu acredito. Mas não me interessa. Você sabe que é livre para ficar com quem você quiser. Mas você tem que me avisar, não é justo você ficar com duas pessoas ao mesmo tempo, não é justo comigo e nem com essa garota. Isso é traição.

– Eu sei... – ele disse suspirando

– Então porque você fez isso?

Ele ficou calado, mas sinceramente eu tinha medo do que eu poderia ouvir. Deixei ele sozinho no pátio e fui pra sala da detenção, mesmo faltando uns 10 minutos para começar.

Fiquei escrevendo coisas sobre mim para depois passar para o Joshua, como se fosse ele que tivesse escrito. Depois de algum tempo ele chegou e se sentou ao meu lado.

– Oi. – ele disse, mas eu não respondi.

Pierre começou a mandar mensagens no meu celular. Desliguei o celular sem ao menos ler.

– Está tudo bem? – Joshua perguntou

– Está. – eu respondi

– É, mas não parece.

– Mas está.

– Eu sei que você está mentindo pra mim. Deixa-me adivinhar, brigou com o namoradinho?

– Ele não é meu namorado.

– Mas você brigou com ele, não é?

– É. – eu admiti

– Eu sabia! Mas porque vocês brigaram? – ele quis saber

– Será que podemos falar sobre outra coisa? Por favor? – pela primeira vez eu fui educada com ele

– Tudo bem. Sobre o que você quer falar?

– Sua irmã, como ela está?

– Está melhor. E ela gostou muito de você.

– Isso é bom, porque eu também gostei muito dela.

– Que bom que se deram bem. Porque ela disse que ficaria muito feliz se você fosse cunhada dela.

– Tava demorando pra você começar com as cantadas.

– Eu só estou repetindo o que ela disse.

– É muito feio você usar sua irmãzinha para tentar me ganhar.

– Eu não sou esse tipo de cara que você pensa. E eu posso te provar isso, se você me desse uma chance e querer realmente me conhecer melhor.

– Mas como eu posso te conhecer melhor? – não sei por que, mas eu estava mesmo interessada.

– Poderíamos sair hoje à noite, ir ao cinema ou aonde você quiser. É só você passar lá em casa, já que você já sabe onde moro.

– Que horas?

– As 20:00. Combinado? – ele sorriu

– Combinado. – e pela primeira vez eu também sorri para ele.