Capítulo 18: Koishiteru.

– Precisamos ir embora. – Mel me acordou na manhã do dia seguinte.

– Não quero. – eu disse virando na cama.

– Mas precisamos. – ela me puxou da cama.

– Está cedo ainda. – a puxei pra cama comigo outra vez. – Fica aqui um pouquinho.

– Tudo bem, mas só um pouco. – ela voltou a se deitar comigo. – Você não me deu um beijo de bom dia ainda.

– Você que me acordou na maior brutalidade.

– Nem foi assim. Você que é um urso que gosta de dormir. – ela riu.

– É uma cama muito boa pra ser desperdiçada. – eu ri.

– Tem razão. Mas existem muitas possibilidades além de dormir.

–Não tinha pensado nisso... acho que deveríamos testar ela, pra ver se essas possibilidades são realmente boas. – sorri e ela entendeu a onde eu queria chegar.

Foi um bom jeito de nos despedirmos daquele lugar e daquela semana.

Ao voltarmos pra casa, foi um caminho longo, ficamos em silencio por um tempo, depois falamos bastante, mas o silencio sempre voltava a aparecer. Eu me calava toda vez que me lembrava do que estava me esperando quando voltasse pra casa, e de que por um tempo, ela não estaria ali comigo.

Ela se ofereceu para poder dirigir metade do caminho pra casa.

– Você dirigindo um carro é um perigo. – eu ri. – Ainda bem que tem uma moto.

– Eu sei dirigir carros, apenas não gosto. E até assim eu dirijo muito melhor que você.

– Sei. Mas da seta antes de trocar de faixa. Não estou querendo morrer jovem numa batida de carro. – falei.

– Eu ia me lembrar. Juro que ia. – ela riu.

– Ia, sei. Eu inda te ensino a dirigir melhor baby.

Ela me levou até em casa, pois de lá ela teria que ir até o aeroporto comprar as passagens para o Rio, e depois voltaria para me entregar meu carro.

– Vai ficar bem até eu voltar? – estávamos chegando à rua da minha casa quando ela perguntou.

– Vou sobreviver. – sorri pra ela.

– Ótimo, mas melhor você olhar quem está ali. – ela parou o carro do outro lado da rua da minha casa.

Josh estava sentado na calçada da minha casa. Estava sozinho e com uma aparência horrível.

– Quer que eu vá com você? – Mel perguntou.

– Não precisa. Eu cuido disso, vai lá no aeroporto e quando voltar conversamos. – dei um beijo no rosto dela e desci do carro.

Criei coragem e fui até o Josh, querendo passar reto por ele, mas lógico, não foi assim.

– Estou te esperando aqui faz quatro horas. – ele disse se levantando.

– Então você perdeu seu tempo. Porque não vou falar com você. – tentei entrar em casa, mas ele ficou na minha frente.

– Mas eu tenho que falar com você!

– Josh vai embora. Por favor. – tentei mais uma vez, ele me segurou pelos braços com força.

– Não vou embora! – ele gritou – Se eu for você vai comigo.

– Me solta! Você está bêbado, e está me machucando. – tentei me soltar mas ele era muito forte.

– Não! Você vai vir comigo! Eu estou mandando. – ele ergueu a mão pra me bater.

Mel desceu do carro pouco antes disso, e antes que ele pudesse me bater ela chegou empurrando ele pra longe de mim.

– Vai embora cara. Ela não quer falar com você. – ela ficou entre mim e ele.

– Não se mete! – ele tentou empurrar ela pro lado. Mas ela deu um soco na cara dele, o que fez ele ficar tonto e quase cair.

Sam abriu a porta e foi pra cima do Josh empurrando ele na porta da casa e o prendendo pelo pescoço, mas não impediu a Mel de dar mais um chute na barriga dele.

– Sam para! Deixa ele ir embora ele tá bêbado. – eu gritei.

– Vai embora cara, se eu ver você aqui de novo, eu mato você . – Sam jogou ele na calçada.

Mel deu mais um chute no nariz dele, o que provavelmente quebrou porque sangrou muito, mas ele conseguiu se levantar e ir embora.

– Como vocês o deixaram entrar no condomínio? Já disse que não o quero aqui perto de casa! – Ash discutia com alguém no telefone, provavelmente o porteiro.

– Ash, deixa. Depois nos preocupamos com isso. – eu estava sentada no sofá com a Mel do meu lado e o Thomas no meu colo.

– Esse cara já está ficando perigoso, melhor ficar longe dele. – Mel disse pra mim.

– Agora ele vai ficar bravo com você também.

– Não importa. Valeu a pena, ele já estava merecendo levar uma surra faz tempo. – ela sorriu de lado pra mim.

– É mandou bem garota. Lindo soco. – Sam disse pra ela.

– Obrigado. – ela olhou pra mim. – Apresentações?

– Ah, sim. Esse é meu primo Sam, aquela, minha irmã Ash. E esse é meu sobrinho Thomas. – apresentei todos. – E essa é a Mel.

– Olá, todo mundo. – ela sorriu.

– Olá. – todos disseram juntos.

– Eu acho que tenho que ir ao aeroporto. – Mel disse pra mim. – Você vai ficar bem?

– Vou ficar bem. Mas volta mais tarde tá? – falei.

– Volto sim. – ela beijou meu rosto e saiu.

– Então, como foi lá na praia? – Ash perguntou quando ela saiu.

– Foi bom. Normal, você sabe. – eu disse.

– Eu sei que você não quer se preocupar com isso agora. Mas toma cuidado. Se o Josh ver você com ela, ele pode tentar algo contra você como hoje.

– Eu realmente não quero pensar nisso. – eu me deitei no sofá. – Onde está a Liz?

– Saiu com o pessoal da escola. Já faz um tempo, mas acho que logo ela volta. – Sam disse.

– Tudo bem. Depois falo com ela. – eu disse quase dormindo no sofá.

– Vai dormir baixinha. Descansa um pouco que você merece. – Ash disse me ajudando a me levantar e ir pro quarto.

Cai na minha cama e acho que dormi na primeira tentativa. Não sei por quanto tempo eu dormi, mas pareceu uma eternidade. Me levantei e olhei na minha mesa. Tinha uma foto minha dormindo do lado da Mel e ela estava me abraçando e dando um beijo na minha testa. Virei a foto e estava escrito “Koishiteru”. Não sabia o que significava, mas achei a foto linda, e a colei no meu espelho.

Resolvi descer até a sala pra ver quem estava por lá.

Pelo jeito Sam, Ash e o Thomas já tinham ido embora.

– Você dorme demais senhorita Isabella. – Mel estava sentada no sofá com o Liz jogando videogame.

– Devia ter acordado ela. Dormiu demais. – Liz disse sem tirar os olhos da tela.

– Também senti sua falta irmã. – eu disse passando por ela e bagunçando o cabelo dela.

– Gostou da foto? – Mel me puxou pra sentar do lado dela.

– Amei. Só não entendi o que está escrito.

– Koishiteru, é o que se diz em japonês para a pessoa com quem você deseja passar o resto da sua vida. – ela me disse deixando o jogo de lado.

– Uau. Acho que vou vomitar com essa melação. – Liz disse ainda concentrada no jogo.

– Cala a boca Liz, eu gostei. – eu abracei a Mel.

– Viu, eu disse que eu sabia me declarar com apenas uma palavra. – ela me abraçou também e beijou meu rosto. – Vai me levar no aeroporto amanhã?

– Vou sim. E você vai ficar aqui essa noite?

– Se você não me jogar pra fora, eu fico aqui.

– Fica sim. Ainda quero aproveitar mais essa noite com você. – beijei o rosto dela perto da boca.

– Serio, é muito bizarro ver minha amiga com minha irmã. Muito. – Liz disse.

– Fecha os olhos então. – Mel me deu um beijo na frente dela.

– É, cansei de ficar de vela. Vou ligar para o Otávio. – Liz levantou e foi para o quarto.

Enquanto a Mel me beijava consegui roubar o controle do vídeo game da mão dela.

– Pronta para perder de novo? – ela ergueu a sobrancelha para mim.

– É você quem vai lavar a louça essa noite. – tentei imitar ela, mas não deu certo, o que só a fez rir da minha cara.

O Otávio chegou em casa e trouxe pizza, e eu dei graças a Deus, porque eu perdi para Mel no vídeo game, e não teria que lavar a louça.

Liz e Otávio foram para o quarto mais cedo, então ficamos no meu quarto. Estávamos olhando pela janela, estava uma noite legal para fazer isso.

– Olha aquela estrela ali. – Mel disse apontando para o céu.

– O que tem ela? – perguntei olhando para onde ela apontava.

– É a estrela de Jesse.

– Jesse? – perguntei.

– Sim, Jesse. Existe uma lenda. Jesse era uma princesa de um reino muito conhecido, um dia ela se apaixonou pelo príncipe do reino vizinho. Mas seus reinos viviam em guerra. Então Jesse que tinha o sangue dos deuses usava seus conhecimentos todas as noites, para se transformar em estrela e poder observar seu amado. E todas as noites ela ainda está lá.

– Uau. Como você sabe dessa história? – pergunte para ela.

– Eu sei, porque eu acabei de inventar. – ela riu.

– Idiota. – bati no braço dela e ela colocou os braços em volta da minha cintura.

– Eu vou ser sua Jesse todas as noites que forem possíveis e irei te ver. Mas de maneira mais moderna logico, pelo Skype.

– Sabe, você é realmente uma bobona, mas eu gosto de você né. – me fiz de difícil.

– Cala a boca, você não vive mais sem mim. – ela riu.

– Koishiteru, chata. – eu sussurrei no ouvido dela e a beijei.

Tivemos que ir dormir cedo naquela noite. O voo dela era cedo, então nós duas acordamos cedo no outro dia.

Liz ficou na duvida se ia, ela queria se despedir da amiga e estava preocupada em me deixar voltar sozinha pra casa. Mas também ela sabia que nós queríamos ir sozinhas. Então ela concordou em ficar em casa, contanto que eu tomasse cuidado com o Josh que estava igual um louco solto por ai.

Estávamos morrendo de sono no caminho, então não conversamos muitos assuntos. Também aquele clima de despedida, não nos agradava.

– Acha que se ficarmos, sei lá, juntas. Vai ser sempre assim? Tudo perfeito? – perguntei enquanto dirigia.

– Não. Não vai, mas nada do que é verdadeiro é totalmente perfeito. Nós vamos brigar, e muito, mas o importante é o depois da briga, quando você vir me abraçar e disser que vai ficar tudo bem. – ela segurou minha mão.

– Então acho que não é tão ruim. – sorri pra ela.

– Não, na verdade é muito bom. – ela sorriu de volta.

Fiquei esperando com ela no aeroporto até a hora do embarque. Quando chegou a hora de ela ir, ela pegou minha mão e beijou onde estava o anel que tinha me dado, meu deu um abraço bem forte e sussurrou no meu ouvido:

– Não esquece... Logo eu estou de volta.

– E eu estou te esperando. – dei um selinho discreto nela, e ela se foi.

Voltei pra casa me sentindo incompleta. Já tinha me acostumado em ter ela ali, e agora, ficaria um tempo sem vê-la. Essa ideia me deixava cada vez pior.

Abri a porta de casa e meu cachorro veio pulando em cima de mim.

– Agora não diabinho. – fiz carinho nele e ele foi pra fora.

– Bells, é você? – Liz gritou do quarto dela enquanto eu subia as escadas.

– Sou eu, e estou viva... E inteira. – gritei de volta.

Fui para o meu quarto e tranquei a porta. Liguei o som em qualquer musica, não prestei muita atenção em qual. Olhei para meu espelho fiquei admirando a foto.

Já estava sentindo falta dela.