Like I'm Gonna Lose You
20 Capítulo 18 - Mother
Notas iniciais
P.O.V Clary
Eu havia lutado com todas as forças que ainda me restavam para que aquele momento não chegasse. Pelo menos, não tão cedo, e não da forma que estava acontecendo. Se eu pudesse, teria planejado tudo aquilo, teria pensado nas diversas formas que poderia dar errado, e faria o impossível para que desse certo. Mas o destino resolveu fazer o jeito dele. E aquele encontro tinha tudo para ser catastrófico.
— Que história é essa de mãe? — Isabelle perguntou com um sorriso nervoso aberto no rosto, enquanto Maryse ao meu lado estava sem cor e parecia prestes a cair no chão a qualquer momento.
Doze horas atrás…
— Bom dia. — Abri os meus olhos lentamente ao ouvir a voz da Isabelle. Ela estava agachada a minha frente; tinha os cabelos soltos e um pequeno sorriso aberto.
— Bom dia. — Desejei enquanto coçava os meus olhos. — Que horas são? — Perguntei em meio a um bocejo.
— São 10:00 am. Você perdeu o café da manhã, fiquei preocupada, está dormindo desde a hora que chegamos ontem. — Soltei um suspiro e me sentei na cama. Felizmente era sábado, ou eu me amaldiçoaria por tê-la feito perder aula. — Se você estiver com fome, eu posso…
— Obrigada, mas eu não posso comer nada. — Murmurei e fiz uma careta ao lembrar das vitaminas que a Maryse fazia para mim como café da manhã e colação. — Comidas, em geral, estão me enjoando. Estou fraca, lembra? — Ela baixou o olhar. — Vocês por acaso não trouxeram a minha mochila ontem, trouxeram?
— E iríamos deixar na praia? — Abri um sorriso ao vê-la caminhar até a poltrona e jogar a mochila em minha direção. Abri a mesma e retirei a garrafa térmica que tinha dentro; eu sabia que estaria quente, o que pioraria o gosto, mas eu estava com fome. Ao engolir o primeiro gole, tive vontade de colocar tudo para fora novamente. Era muito ruim. — O que é isso?
— Não faço ideia. — Respondi antes de beber outro gole fazendo uma careta em seguida.
— Tem gosto de quê?
— De morte. — Respondi com o líquido ainda em minha boca a fazendo rir. — Eu tenho até medo de perguntar a Maryse o que ela coloca aqui dentro.
— Quem é Maryse? — Arregalei os meus olhos. Abre mesmo o bico, Fray!
— Uma amiga da minha mãe. — Respondi dando outro gole. Até mesmo aquela coisa era melhor do que o rumo que aquela conversa poderia levar. Meu celular despertou me tirando dos meus próprios pensamentos, e me salvando de vez da conversa com a Isabelle.
Na tela do aparelho havia a frase “Dia de chutar a bunda do Sebastian” escrita. Nosso treino havia começado durante a semana, mas eu descobri que chutar a bunda do meu irmão não era tão fácil assim; na verdade, era quase impossível! Resumidamente, eu levei uma surra. Então, decidimos treinar apenas aos sábados, quando eu teria o domingo para me recuperar e não aparentar que sofria algum tipo de violência doméstica na segunda-feira.
— Alô. — A voz do Sebastian do outro lado da linha estava sonolenta, provavelmente eu havia o acordado.
— Bom dia, Sebs! Lembra-se de que dia é hoje? — Ele soltou uma risada do outro lado da linha.
— Se veio me pedir para não treinarmos hoje, a resposta é não! Você sabe que precisa disso. — Era verdade. Mas o fato de eu precisar, e do Sebastian ser meu irmão, não o impedia de chutar a minha bunda.
— Na verdade, eu ia pedir para levar a gororoba que a Maryse preparou para o meu almoço, seja ela qual for. — Ele voltou a rir. O único motivo para o Sebastian estar rindo depois de eu tê-lo acordado tinha nome, sobrenome, título nobre, e cabelos ruivos. — Diga a Seelie que eu mandei um “oi”.
— Não se atrase, Fray!
— Não esqueça o meu almoço! — Falei rapidamente antes que ele encerrasse a ligação. Encarei a Isabelle, que fazia o mesmo comigo. — O que vai fazer hoje a tarde? — Ela ergueu uma das sobrancelhas.
…
— Quando você perguntou o que eu tinha para fazer, eu imaginei que me chamaria para ir à praia, ao shopping, qualquer coisa normal, e não fazer trilha! — Gargalhei de seu comentário. — Clary, eu sou líder de torcida, não um atleta de alto rendimento ou uma Sereia, então pegue leve comigo!
Isabelle parou por alguns segundos apoiando-se em seus joelhos e me lançando um olhar mortal. Abri um sorriso e me aproximei dela. Seus cabelos já estavam presos no alto de sua cabeça em um rabo de cavalo, e o top cinza que ela usava tinha alguns lugares mais úmidos pois ela estava bastante suada, e naquele momento, deveria estar amaldiçoando a si mesma por ter colocado aquela calça preta. Seu rosto estava avermelhado tanto por causa da subida, quanto por causa do sol que batia sobre nossas cabeças.
Diferente da Isabelle, eu havia optado por usar shorts confortáveis para aquilo, sabia que a subida seria cansativa e o calor estava escaldante aquele sábado. Eu e o Sebastian precisávamos treinar em um lugar mais deserto, afinal, uma garotinha como eu jogando um homem do tamanho do meu irmão longe, não era algo normal de se ver.
— Estamos chegando. — Afirmei ao avistar o carro do meu irmão parado ha alguns metros.
— Assim espero. — Reclamou ofegante. — Espero que aquela promessa de um hambúrguer seja verdadeira!
— Não lembro de nada disso!
— Clarissa!! — Gargalhei novamente.
De longe eu consegui avistar a cabeleira platinada do Sebastian, e o seu corpo pálido dentro de uma camisa preta sem mangas e com capuz, uma calça cinza de moletom e tênis pretos. Ele bebia algo comprado no Starkbucks, se fosse chá de morando eu o mataria. Não avistei a Seelie em lugar algum, imaginei que não tivesse vindo, ou estaria dando uma volta aproveitando o local deserto.
— Achei que tinha desistido. — Revirei os olhos. — Chá de morango? — Ofereceu. A minha expressão deveria dizer o suficiente sobre quer matá-lo, mas ele apenas levou o canudo a boca e sugou o líquido. — Sua gororoba está no carro. E tem um lanche para você, Lightwood, imaginei que a Clary iria querer plateia enquanto apanha. — Passei por ele e dei um tapa embaixo de seu copo, fazendo o líquido voar em seu rosto, molhando sua camisa também.
Depois que eu almocei, pelo menos não estava tão ruim, eu comecei a me preparar para levar uma surra. Primeiro o Sebastian fez uma sessão de alongamento comigo, e em seguida uma pequena corria de trinta minutos ao redor da área. No fim da mesma, ambos estávamos suados devido ao sol que queimava nossas cabeças.
— Você vai querer filmar isso, Isabelle.
— Ela não é nem maluca! — Minha amiga riu enquanto sentava-se no banco de trás do carro deixando a porta aberta.
Depois que ele me fez repetir várias sequências de golpes no ar, corrigindo a minha postura ou a minha guarda vez ou outra, nós finalmente começamos a brigar. Ou melhor, quando eu comecei a apanhar. O meu irmão defendia os meus golpes com tanta facilidade que chegava a ser irritante. E me derrubava no chão com mais facilidade ainda. Meu cabelo estava cheio de terra e grama seca, e possivelmente já tinha alguns hematomas pelo corpo, enquanto aquele infeliz mal tinha um fio de cabelo fora do lugar.
— Você não está se esforçando. — Ele disse enquanto me ajudava a levantar. — O que aconteceu?
— Nada. — Murmurei. Aproveitei a sua distração e finalmente consegui derrubá-lo no chão, o Sebastian girou no chão e me derrubou em seguida, soltei um gemido de dor quando minhas costas bateram no chão.
A verdade era que desde que eu havia encerrado a ligação e tido uma breve conversa com a Isabelle depois, a minha cabeça só pensava no ocorrido no dia anterior. Eu não conseguia esquecer o que havia visto nos olhos do Jace, em quanto as suas palavras me feriram, em como eu estava magoada com tudo aquilo. Eu não esperava que ele me amasse, não era ingênua a esse ponto. Mas a forma como ele havia proferido aquelas palavras que teimavam em reverberar em minha cabeça: Eu não amo você. Foi como se ele tivesse dito que não sentia absolutamente nada.
Como se não houvesse um único sentimento positivo que ele se permitisse sentir por mim. Tudo que eu senti naquele momento, foi raiva, mágoa e desprezo em suas palavras; foi isso o que me quebrou. Não era o fato dele não me amar que me doía, mas sim a possibilidade de ele nunca vir a me amar. E se o Jace nunca me amasse… Não sobraria muito de mim para contar o fim da história. Ou melhor, só sobraria a casca, pois o interior sumiria completamente.
— Clary! — Encarei o Sebastian. Ele tinha um arranhão profundo no rosto, e o sangue manchava sua pele. Seu estava sobre ele, e tinha uma das mãos em seu pescoço, enquanto a outra estava erguida pronta para atacá-lo com as minhas garras. — Respira. — Saí de cima dele rapidamente.
— Me desculpe. — Sussurrei encarando o sangue que manchava a minha mão enquanto as minhas garras sumiam. — Eu…
— Hey, não foi nada. — Ele garantiu. — Estou bem.
— Eu não percebi o que estava fazendo. — Passei as minhas mãos pelos meus cabelos úmidos por conta do suor.
— Isso é bom. — O encarei confusa. — Suas garras apareceram… Não está tão fraca quanto pensa, Clarissa. — Abri um pequeno sorriso. — O que está te incomodando? — Deixei um suspiro escapar pelos meus lábios enquanto passava a mão pelos meus cabelos presos.
— Eu briguei com o Jace. — Disse por fim. Esconder aquilo do Sebastian seria em vão. — Ele… Ele sabia sobre mim, Sebastian! De alguma forma ele sabia! Mas… Como? Isso não faz sentido! — Meu irmão tinha uma expressão confusa no rosto. — Ele disse que sabia que tinha uma Sereia que aparecia para a família dele a cada 50 anos, mas não sabia o porquê! Como ele sabia disso?!
— Eu não sei, mas você não pode ficar se preocupando com isso, Clary. — Ele suspirou e passou as mãos pelos cabelos. — Esqueça o Herondale, foque-se em você. — Eu ri.
— Como se isso fosse fácil! — Admiti. — Eu estou com tanta raiva dele! — Murmurei o fazendo sorrir.
— Ótimo! — Desviei por pouco do golpe dele.
— Sebastian!
— O que foi? Está se preocupando atoa, nós sabemos que ele não está nem aí para você. — Ele deu de ombros com as mãos na cintura.
Ele defendeu o meu primeiro golpe, mas não viu o meu joelho que já estava erguido acertando o seu estômago. Ergui a cabeça dele e o acertei um soco, em seguida girei e o chutei com força o suficiente para jogá-lo longe. O Sebastian caiu com as costas no chão rindo, e me olhou com o corpo apoiado nos cotovelos.
— Ficou nervosa? — Rosnei para ele que ficou de pé ao ver a minha aproximação. — Aí está a Sereia que todos querem ver.
…
— Agora eu sei o motivo de você ter me chamado para vir até aqui. — Isabelle nos encarou pelo retrovisor. — Eu queria ver o que vocês fariam se eu não estivesse lá. — O Sebastian riu ao meu lado, mas fez uma careta de dor no final.
Nós havíamos levado o treino a sério demais, e terminamos os dois doloridos e fraturados, ou seja, nenhum de nós poderia dirigir. Eu tinha um belo corte nos lábios inchados, o supercílio cortado, um lado do rosto arroxeado, o tornozelo direito torcido e, estava começando a acreditar que o meu braço esquerdo estava quebrado. Felizmente eu consegui fazer tanto estrago no Sebastian quanto ele em mim; havia tirado aquele sorriso convencido do rosto dele com os meus punhos, e nada conseguiu me deixar mais feliz.
Pela posição que o meu irmão estava, ele parecia ter fraturado uma costela, pelo menos era o que parecia. Eu consegui quebrar o nariz dele, e deixado alguns bons hematomas nele. Ganhei um “parabéns” no fim do dia quando nos arrastamos de volta para o carro e caímos no banco. Isabelle nos olhou horrorizada, mas nós a tranquilizamos. Um mergulho resolveria aquilo.
— Você são malucos. — Eu ri, mas fiz uma careta no fim.
Assim que o carro parou na frente da minha casa nós saltamos, mas tanto eu quanto o outro fraturado nos arrastamos até em casa. Eu me joguei no sofá, sem me importar em sujá-lo de sangue, enquanto o Sebastian conseguiu chegar ao quarto dele e se trancar lá. Isabelle sentou-se a minha frente e começou a rir.
— O que é engraçado?
— Você está horrível. — A lancei um olhar mortal, mas ela apenas riu ainda mais. — Eu vou ligar para o Alec vir me buscar, acho que você precisa descansar.
— Pode pedir um carro pelo aplicativo, eu pago.
— Eu vou recusar, quero que o Alec venha me buscar, assim ele paga o meu lanche. — Falou convencida pegando o celular. Enquanto Isabelle conversava com o irmão eu consegui me arrastar até a cozinha.
Meu pé reclamava, mas as reclamações do meu estômago eram mais fortes. Ainda que fosse aquela comida terrível, era melhor do que passar fome. Eu prometi a mim mesma que quando pudesse comer comida normal outra vez, eu comeria todos os salmões da Califórnia.
— Meu Deus, o que aconteceu com você? — Encarei a Maryse, ela estava sentada na mesa da cozinha, uma xícara de chá fumegante estava na sua frente.
— Sebastian. — Respondi antes me sentar na cadeira a sua frente. — Tem aquela gororoba aí? Eu estou com fome.
— Tem sim. — Ela se levantou e pegou uma vasilha dentro da geladeira. — É salada.
— Salada de gororoba, especialidade de Maryse Lightwood. — Murmurei antes de começar a comer. — O que tem aqui, afinal?
— Você não vai querer saber. — Fiz uma careta e continuei a comer.
Parei de ouvir a voz da Isabelle depois de alguns segundos, e rezei para que a minha amiga não viesse atrás de mim. E a mulher a minha frente parecia fazer o mesmo pois encarava o corredor com apreensão visível, mas segundos depois eu ouvi a voz da Isabelle informando que me esperaria na sala.
— Nunca pensou em contar a eles? — Perguntei quando terminei de comer a salada, estava melhor do que qualquer outra coisa que ela tenha feito. — Alec e Izzy já são bem grandinhos, Maryse, eles vão entender. — Ela sorriu e apoiou a xícara na mesa novamente.
— Isabelle nunca vai entender. — Disse com os olhos baixos. — Alec talvez, mas ela nunca.
— Tem certeza? — Eu conhecia o gênio da Izzy, e sabia que poderia ser difícil para ela compreender no início, mas acredito que depois de um tempo ela entenderia os motivos da Maryse, como eu passei a entender. — Izzy… — Parei ao ouvir o som do motor do carro, provavelmente o Alec havia chego para buscá-la. Fiquei alguns instantes em silêncio ouvindo a Isabelle conversar com o irmão, precisaria ir até lá me despedir dela. — Maryse, Isabelle e Alec são seus filhos, uma hora vai precisar contar a eles. — Falei com a voz baixa.
— Justamente por eu ser mãe deles que não posso contar a eles, é muito perigoso. — Franzi o cenho. Perigoso? — Você não tem ideia do que uma mãe é capaz de fazer pelos seus filhos.
— Mãe?! — Arregalei os meus olhos e virei-me para encontrar tanto a Isabelle quanto o Alec parados atrás de mim.
Eu havia lutado com todas as forças que ainda me restavam para que aquele momento não chegasse. Pelo menos, não tão cedo, e não da forma que estava acontecendo. Se eu pudesse, teria planejado tudo aquilo, teria pensado nas diversas formas que poderia dar errado, e faria o impossível para que desse certo. Mas o destino resolveu fazer o jeito dele. E aquele encontro tinha tudo para ser catastrófico.
— Que história é essa de mãe? — Isabelle perguntou com um sorriso nervoso aberto no rosto, enquanto Maryse ao meu lado estava sem cor e parecia prestes a cair no chão a qualquer momento.
O que eu havia feito?
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