Like I'm Gonna Lose You

19 Capítulo 17 - Truth . Part 2


Notas iniciais
Não, Mermaid, você não está vendo coisas. Sim, eu estou adiantada! É por isso que tá chovendo (pelo menos aqui tá chovendo). Ia ser muita maldade da minha parte demorar com esse capítulo. E eu espero muito que vocês gostem. BOM CAPÍTULO!

P.O.V Jace

A medida que eu caminhava para fora da água, eu sentia a correnteza ficar ainda mais forte e me puxar para dentro d’água. Isabelle e Simon estavam parados próximos às margens do Mar, ambos descalços. Minha irmã abraçava o próprio corpo, aparentemente com frio, enquanto o Lewis tinha as mãos nos bolsos. Assim que ele percebeu como a Izzy tremia ele a entregou o próprio casaco, e se não fosse pela falta de luz, eu poderia jurar que a vi corar.

— Jace… Cadê a Clary? — Encarei o Simon quando parei ao lado deles. Eu estava encharcado, e começando a ficar com frio.

— Boa pergunta. — Encarei a Isabelle. — Pode começar a falar. — Naquele momento eu não me preocupei com o tom que estava usando com ela, se fosse preciso pediria desculpa depois, mas não naquele momento, não com a cabeça explodindo da maneira que estava.

— Eu não sei de nada! — Rebateu irritada.

— Okay. — Antes que ela pudesse protestar eu a peguei no colo e comecei a voltar para dentro d’água com ela em meus braços. Não ligava para o fato dela estar se debatendo e pedindo para que eu a colocasse no chão. — Ou você me diz o que está acontecendo, ou eu vou te jogar na água. — As ondas já estavam batendo na minha cintura novamente, e eu continuava andando.

— Tá bom! — Concordou ao ver que eu não estava brincando, já que a água estava quase a tocando. Respirou profundamente e então disse: — A Clary é uma Sereia. — A encarei por alguns segundos e então a joguei dentro d’água. — JACE! — Ela emergiu consertando os cabelos e me encarando mortalmente. — Mas que droga!

— É o que ganha por mentir e mexer nas minhas coisas!

— O que? Eu não mexi em nada, do que você está falando? — Aquela altura ela já tinha jogado os longos cabelos para trás, e conseguia me olhar normalmente.

— Agora, eu quero a verdade, porque que isso não faz o menor sentido! — Ignorei a sua pergunta e a expressão confusa que ela tinha no rosto.

— Eu já falei a Clary é… AH! — Em um segundo a Isabelle estava na minha frente, no seguinte ela tinha sumido dentro d’água.

— ISABELLE! — Olhei a minha volta a procura dela, entrando cada vez mais dentro do Mar. Em questão de segundos o Simon havia aparecido do meu lado, e juntos procurávamos pela minha irmã. Mas estava muito escuro, não conseguiríamos ver nada, mesmo que mergulhássemos.

— CLARY! — Ouvi a voz dela e olhei em volta. Cerca de vinte metros ha nossa frente a Izzy surgiu completamente encharca e reclamando com alguém dentro d’água. — Isso não teve graça! — Uma cabeça surgiu a frente dela, e mesmo com a falta de luz eu pude ver os cabelos avermelhados.

— Pode apostar que teve sim! — Ambas se olharam por alguns segundos, como se de alguma forma estivessem tendo uma conversa silenciosa.

— IZZY! — O Lewis a chamou, atraindo a atenção delas. A Clary falou algo com a Izzy, que eu não consegui ouvir, e as duas mergulharam, e em questão de segundos a minha irmã surgiu ao nosso lado. — O que aconteceu?

— Você queria a verdade, irmãozinho. — Ela acenou com a cabeça para algo atrás de mim, e quando eu me virei quase escorreguei dentro da água com o susto que eu levei.

Atrás de mim estava a Clary, bom, algo que se parecia com a Clary. Seus olhos estavam brilhando, não em um sentido figurativo da palavra, no sentido literal, realmente brilhando, como luz. E suas íris tinham um formato diferente das normais, ao mesmo tempo que lembravam a de um felino, não tinham nada a ver. Havia escamas contornando o seu rosto, descendo pelo seu pescoço e clavícula, chegando até o busto. Seus cabelos estavam molhados, mas, ainda assim, era possível perceber que estavam maiores, pois cobriam os seus seios.

Ao descer os meus olhos pelo seu corpo eu percebi que não haviam pernas, e sim uma longa calda negra, que parecia ter luz própria. Havia guelras entre os dedos de suas mãos, e suas unhas haviam crescido o suficiente para se comparar com garras. Isabelle não estava mentindo, e eu não estava louco. A Clary era uma Sereia.

Não apenas qualquer Sereia. Ela não simplesmente poderia ser a Sereia sobre a qual os meus antepassados escreveram naqueles diários, ela era aquela Sereia.

— Sebastian, você disse que tinha concordado. — Ela murmurou para alguém dentro d’água. Um movimento na água fez com que nós nos afastássemos alguns centímetros, e quando o Sebastian surgiu, eu precisei controlar as minhas próprias pernas para não começar a nadar para o mais longe possível dali. Se as pessoas tinham pavor de tubarões, era porque elas nunca haviam visto uma Sereia, ou um Tritão.

Sebastian era a própria personificação de um pesadelo aquático. E eu tinha certeza que aquela voz em meu sonho não era nada comparada a ele. Seus olhos com aquele puro negro me fariam ter pesadelos pelo resto da minha vida.

Por um momento, dentro da minha cabeça, tudo começou a se encaixar como peças de um quebra-cabeça. Desde o dia em que eu a vi pela primeira vez, saindo da água nua; o cheiro de maresia que ela sempre exalava; as coisas estranhas que aconteciam com ela; os diários; os sonhos… Meu Deus! Aqueles sonhos. Aqueles sonhos eram reais? Um tipo de aviso? O que diabos estava acontecendo com ela e o que eu tinha a ver com aquilo?

— Lembre-me de nunca pisar no calo do Sebastian. — O Simon murmurou para a Isabelle, mas todos escutamos e o próprio Sebastian abriu um sorriso que fez um arrepio atravessar a minha espinha.

— Menos, Sebastian. — A Clary pediu colocando a mão no ombro dele. — Você perguntou o que estava acontecendo. — Ela disse olhando para mim. — Essa é a verdade.

— Eu… — Eu vou matá-los antes que isso aconteça. — Aquela voz dos meus pesadelos veio como um soco em minhas memórias, e aquilo me aterrorizou. — Eu preciso ir.

Eu não me importei quando a Isabelle gritou o meu nome. Não me importei com o olhar magoado que atravessou o rosto da Clary quando eu virei as minhas costas. Não me importei com absolutamente nada. E, mais rápido do que nunca, eu cheguei à praia, e ainda mais rápido peguei as minhas coisas na areia, inclusive a chave do carro, e em questão de segundos eu estava dentro do carro dando partida o mais rápido possível. E só havia um lugar que eu poderia ir agora. Eu precisava ir para casa.

P.O.V Clary

Depois que o carro sumiu do nosso campo de visão, eu demorei alguns segundos para voltar a olhar para os demais. O Sebastian provavelmente sabia como aquilo tinha me afetado, e a Isabelle poderia fazer uma ideia. Mas foi o olhar que o Simon me lançou que realmente acabou comigo; seu olhar transmitia tudo aquilo que eu não vi nos olhos do Jace, carinho, entendimento e aceitação. Sem dizer uma única palavra, ele deixou claro que aquele fato não mudaria em nada a relação que tínhamos.

— Pedimos desculpas a vocês, mas simplesmente nãos podíamos contar. — Eu comecei, quebrando o silêncio.

— Não podemos, na verdade. — Meu irmão comentou.

— Shiii… — Se os seus olhos não fossem completamente negros, eu poderia jurar que ele revirou os olhos. — Mas essa é a verdade, não somos humanos. — Olhei para o Simon. — E eu sei que isso é muito para pedir, mas, por favor, Simon, não conte isso para ninguém. — Ele assentiu.

— Por que você não está surtando? — Ele perguntou em um sussurro para a Isabelle.

— Porque a Clary é minha melhor amiga, oras! — Respondeu como se fosse óbvio. — Vai me contar agora o que está acontecendo?

— Clary, nós precisamos ir. — Olhei para O Sebastian. — Mamãe está chamando. — Ao longe eu ouvi que a minha mãe estava cantando para nos chamar.

— Eu te conto tudo amanhã, eu prometo. Mas agora eu preciso ir. — Isabelle balançou a cabeça em afirmação. — Leve-a para casa em segurança, Lewis. — Ele assentiu. O Sebastian mergulhou primeiro, e quando senti que ele estava longe o suficiente eu olhei para os meus amigos. — Diga ao Jace que eu sinto muito, mas ele continua um babaca pelo que fez.

P.O.V Jace

O dia já amanhecia do lado de fora e eu continuava a encarar os diários espalhados pelo chão. Não havia lido detalhadamente cada uma das histórias, mas havia lido o suficiente, e pior, viso o suficiente. Se o que eu presenciará na praia não fosse prova o suficiente, os desenhos e a foto que eu havia encontrado eram o suficiente. Um dos desenhos era o rosto da Clary pintado, exatamente como eu a havia visto na noite anterior, uma Sereia, embora parecesse mais nova. A foto era a prova que eu precisava, pois o Sebastian também estava lá, e até mesmo eu. Não eu, mas um antepassado absurda e bizarramente parecido comigo. Na foto estávamos eu, a Clary e o Sebastian, e algumas outras pessoas que eu não fazia ideia de quem eram. Mas a Clary parecia tão feliz naquela foto que…

Aquilo tudo era uma loucura, e eu não conseguia acreditar que aquilo tudo era real, que tudo aquilo era verdade. Se aqueles ditados estivessem datados corretamente, a Clary tinha séculos de idade. SÉCULOS! E era um ser sobrenatural. E tinha algo a ver comigo, algo forte o suficiente para fazer alguém entrar nos meus sonhos e me ameaçar de morte.

Cada vez que eu tentava pensar sobre aquilo, mais nó a minha cabeça dava. Eu precisava de respostas, e sabia que só havia uma única pessoa no mundo que poderia me dá-las: a própria Clary. Eu só não sabia se tinha condições de encontrá-la tão cedo. Se tinha estômago para enfrentar tudo aquilo.

— Alô. — Atendi o celular que tocava pela milésima vez.

— Onde você está? Eu preciso de ajuda. — Era a voz do Alec. A urgência de sua voz foi o suficiente para fazer com que eu acordasse do meu transe e drama pessoal.

— O que aconteceu? — Perguntei enquanto me levantava.

— Você tem que ver por si mesmo.

…

— O que aconteceu? — Perguntei ao vê-lo parado na porta do próprio quarto. — Alec, você está bem?

— Eu estou ótimo. Não! Eu não estou bem! Deus! — Ele afundou o rosto nas próprias mãos.

— Calma! Me diz o que aconteceu! — Pedi novamente. Ele suspirou e abriu a porta do quarto me dando passagem para entrar. Estranhei aquilo, mas entrei assim mesmo.

Eu já havia ido até aquele quarto milhares de vezes, mas nunca o tinha visto tão bagunçado. E principalmente, nunca havia visto outra pessoa que não fosse eu, a Isabelle e o próprio Alec ocupando aquela cama. Então, ver o Magnus deitado nela, com certeza, me fez entender o desespero do meu irmão.

— Eu não consigo lembrar como isso aconteceu. — O meu irmão apareceu ao meu lado. Seus rosto estava tão vermelho que beirava o rosado. Se eu não soubesse exatamente o tipo de tutor que tinha, e como o Alec tinha medo da reação dele ao descobrir sobre a sua sexualidade, eu começaria a rir. Porque, o que poderia ser uma situação cômica, tornou-se quase trágica.

— Isso não é importante agora. — Ele me olhou. — Conversem sobre isso depois. Precisa acordá-lo agora.

— Agora?

— Sim. — O empurrei em direção a cama. — Eu vou esperar do lado de fora. — Ele não me deu atenção.

Eu conhecia bem o Alec, e sabia como a carne dele era fraca quando se tratava do Magnus. E eu sabia quanto tempo eles não ficavam juntos; por isso tinha certeza que o meu irmão estava prestes a descobrir as maravilhas do sexo matinal, além de aturar um dia inteiro na escola pós sexo. Isso sim, era uma das maravilhas do mundo mundano.

Talvez até eu mesmo precisava encontrar uma forma de sobreviver aquele dia, sem surtar completamente.

P.O.V Clary

Quando o sinal que anunciava o fim de todas as aulas tocou eu quase suspirei de alívio. Havia combinado com a Isabelle de ir para a casa dela depois da aula para poder contar a ela sobre, literalmente, tudo. Qualquer coisa que ela quisesse saber, eu a responderia verdadeiramente. Sem mais esconder nada, eu não tinha mais tempo para aquilo.

Ao sair da sala eu comecei a caminhar pelos corredores quase desertos, encontrando uma ou outra pessoa pelos corredores paradas na frente de seus respectivos armários, ou acompanhando seus amigos ou namorados, mas quando fiz a curva em um corredor vazio o meu coração falhou uma batida ao vê-lo parado encostado a um armário com os braços cruzados, como se tivesse me esperando.

— Nós precisamos conversar, não acha? — Engoli em seco e balancei a cabeça em afirmação.

— Eu vou encontrar com a Isabelle, se quiser…

— Nós dois sabemos que temos que conversar a sós. — Olhei em seus olhos. Ele sabia.

— Tudo bem. Vamos conversar. — Ele assentiu e começou a caminhar tranquilamente pelo corredor.

Eu sabia que ele estava nos levando ao telhado. O lugar onde tudo havia começado a ir por água abaixo. O lugar que eu o beijei pela primeira vez, e o lugar que provavelmente colocaria um ponto final naquilo tudo.

Deixei a minha mochila sobre o sofá e encarei o quadro que havia pintado com nós dois. Ainda estava ali da mesma maneira que eu havia deixado, como um lembrete que mesmo que eu tentasse evitar, nós estávamos ligados. E eu ainda não sabia como quebrar aquele elo.

— E então? — Perguntou. Permiti que um suspiro escapasse pelos meus lábios enquanto passava as mãos pelos menus cabelos.

— Olha, Jace… O que você quer que eu diga? — Perguntei colocando as minhas mãos nos bolsos traseiros do meu jeans. — Eu sou uma Sereia. O que…

— Você mentiu para mim. — Eu congelei por um segundo com a sua acusação. — E continua mentindo.

— Tecnicamente, foi uma omissão. — Respondi abrindo um sorriso sem graça. — Jace, eu não podia simplesmente contar a você o que eu sou… Eu…

— Você não me precisava contar o que é, mas agora que contou… Por que não me disse quem era? — Sua pergunta me fez engolir em seco. Ele não podia saber… Não tinha como ele saber… Ele…

— O que quer dizer com isso? — Perguntei em um tom de voz baixo. A minha pergunta o fez rir. Rir não. Gargalhar; mas não havia um pingo de humor ali. — Jace…

— Eu sei de tudo. — Aquelas palavras foram como uma facada no meu estômago. Ele sabia de tudo, de tudo o que? Como ele sabia?

— Jace…

— Você por acaso veio atrás de mim? Isso é uma perseguição ou algo do tipo? — Engoli em seco. — Há séculos que uma Sereia aparece na minha família. E essa Sereia é você! — Senti a minha garganta fechar a cada palavra que saia pelos seus lábios; automaticamente os meus olhos ficaram marejados.

— Eu… Eu não estou perseguindo você, Jace! Você simplesmente aparece! Não é algo que eu queira! — Falei; minha voz estava tão raivosa quanto eu realmente me sentia. — E você não tem o direito de fazer acusações ou me cobrar isso! Como você reagiria se alguém te contasse algo do tipo?

— Eu não sei! E, com certeza, jamais saberei! — Ele passou a mão pelos cabelos e ficou de costas para mim. — Você sabe por que isso acontece? — Perguntou sem me olhar.

— Você não sabe de tudo? — Perguntei ironicamente. O Jace voltou a me olhar. Ele estava com os braços cruzados e com uma expressão séria no rosto, parecia estar no meio de um interrogatório. Não era nada parecido com o Jace que eu havia beijado e decido arriscar tudo há pouquíssimos dias. — Você acha que ia ser simples? Como você reagiria se eu fosse até você e dissesse que eu sou uma maldita Sereia amaldiçoada!

— Amaldiçoada? — Foi naquele momento que eu percebi que ele não sabia da minha maldição. E foi naquele momento que eu também percebi que não era justo que apenas eu ficasse com aquele peso sobre os meus ombros se aquela maldição não dizia respeito apenas a mim.

— O que você pensa que sabe, Jace? — Abri um sorriso amargo. — Você sabia que eu sou uma Sereia; e o que mais? Hum?

— Sei que aparece para um Jonathan da minha família a cada 50 anos, mas… Não sabia o motivo.

— O motivo é: eu sou amaldiçoada! Nós somos amaldiçoados! E você não tem o direito de exigir nada de mim! Você não sabe um terço dessa história, então não tente bancar a vítima; sou eu quem sempre morro nessa história! — O encarei.

— Morre? — Respirei fundo tentando acalmar os meus nervos, mas não conseguia. Eu queria colocar aquilo para fora. Eu sabia que era a maldição agindo, mas não me importava. Não era justo que apenas eu sofresse.

— Há 700 malditos anos fomos amaldiçoados. Tudo porque eu me apaixonei por você, e o sentimento foi recíproco, mas você me matou e, então, nós fomos amaldiçoado. Eu sempre te vejo morrer, e você é sempre o motivo da minha morte. A cada 50 anos, uma versão diferente de você aparece, e em questão de dias um de nós morre. Quero dizer, eu morro! Há malditos 700 anos eu luto contra tudo isso, tento impedir, mas… Eu não consigo, porque simplesmente não sei quem ou o que fez isso conosco, e não sei como pôr um fim a isso. Então, agradeça por ainda estar vivo, porque eu sinceramente eu não sei o que nós ainda estamos fazendo aqui.

— Eu… Eu não pedi por isso! — A incredulidade devia estar aparente em minhas feições.

— E você acha que eu pedi?! Não pedi para me apaixonar por você, Jonathan! — Cuspi o seu nome e ele pareceu afetado com isso. — Se eu pudesse, eu voltaria no tempo e impediria a mim mesma de olhar para você, mas eu não posso! E, por mais que eu tente, não consigo deixar de amar você...

— Me desculpe, mas eu não o meu ancestral pelo qual você se apaixonou há séculos atrás! — Olhei em seus olhos, sentindo como se a fúria do Mar estivesse dentro de mim. Era como uma tempestade em alto-mar. — Eu não amo você. — Suas palavras fizeram o meu coração se quebrar em milhões de pedaços. Ele não era o Jonathan; não era o meu Jonathan, ele simplesmente era o Jace. E o Jace não em amava.

— Você tem razão! — Admiti depois de alguns segundos com os olhos fechados, tentando, em vão, controlar a tempestade que se formava dentro de mim. — Você só se veste como ele. — Cuspi as palavras, vendo os seus olhos ficarem opacos por alguns segundos. — Você jamais será ele. Você não passa de um covarde.— Balancei a cabeça em negação me afastando dele. — Não sei como alguém poderia se apaixonar por você, Jace Herondale.

Girei os meus calcanhares pegando a minha mochila e descendo as escadas correndo. Daquela vez eu não o ouvi me chamar. A cada passo que eu dava em função de nosso distanciamento era como se uma nova rachadura aparecesse em meu coração já tão ferido. Eu sentia como se pudesse desmoronar à qualquer segundo, mas me recusava a chorar na frente dele. Só havia um lugar em todo o mundo que eu me sentiria bem de verdade... O Mar.

E naquele momento, minha alma chamava por ele.

— Clary… — Acabei esbarrando na Isabelle enquanto corria para fora da escola. — Clary. — Ela puxou o meu braço. — O que aconteceu?

— Agora não, Isabelle. — Disparei ríspida. — Me solta. — Puxei o meu braço com força o suficiente para fazê-la me soltar. — Me deixem sozinha, por favor. — O Simon que estava ao lado dela me lançou um olhar magoado. Ambos pareciam confusos com o que estava acontecendo, mas eu não tinha tempo ou condições para explicar-lhes nada.

Ergui os meus olhos para o telhado da escola, onde o Jace estava nos encarando lá de cima. Mesmo que a distância fosse enorme, o olhar que ele me lançou foi como uma faca acertando o meu coração. Foi como se aquela espada de 700 anos atrás tivesse sido novamente cravada em meu peito, pelo mesmo homem. E como da última vez, o seu olhar de pena foi a última coisa que eu vi. Mas não por simplesmente morrer, mas sim por sair correndo o mais rápido que eu conseguia para o mais longe possível de tudo aquilo. Eu precisava ir para casa.

…

Havia chovido naquele dia, por isso, consequentemente, a areia estava úmida. Meus dedos começaram a cavar um buraco na areia gelada, deixando os meus pés cobertos com a mesma. O Mar parecia calmo, mas eu sabia que uma tempestade se aproximava e aquele cenário mudaria completamente.

Ao me sentar na areia percebi que poucos carros passavam por ali, e não havia mais de três pessoas, contando comigo, na localidade. Deixei que a brisa me relaxasse ao trazer o já conhecido e único cheiro de maresia, assim como o cheiro de chuva, me fazendo acreditar que aquela seria uma tempestade das grandes.

Assim que os primeiros pingos fracos começaram a tocar a minha pele eu abri um sorriso. Mesmo que fosse perigoso, eu e o Sebastian amávamos nadar durante uma tempestade. Mas naquele dia, além de eu não ter comunicado a ninguém, o meu irmão tinha os próprios problemas para resolver. E eu tinha um turbilhão de coisas para pôr em ordem dentro da minha própria cabeça.

À medida que a chuva tornava-se mais forte, as outras pessoas trataram de sair da praia, me lançando olhares curiosos e preocupados por não me verem mover um músculo sequer. Eu não tinha medo da tempestade, muito menos do Mar; e tudo o que eu precisava naquele momento era que ambos me abraçassem e me acolhessem.

Quando eu me levantei o meu cabelo já pingava, e as minhas roupas já estavam encharcadas. Caminhei a passos curtos até a água, ficando perto da espuma que quase não se formava. Fitei o horizonte, o mar estava se agitando, e as nuvens escuras se aproximavam com velocidade.

— Por quê?! — Questionei irritada. — O que foi que eu fiz?! O QUE FOI QUE EU FIZ?! — Gritei a minha angustia para o Mar. — QUANTO TEMPO MAIS EU VOU TER QUE PASSAR POR ISSO?! POR MAIS QUANTOS SÉCULOS EU VOU PRECISAR SOFRER POR ALGUÉM QUE NÃO ME AMA?! POR QUANTO TEMPO?! — Minhas lágrimas eram quentes em meio à fria chuva que caia, e pareciam queimar a pele à medida que escorriam pelo meu rosto. — O QUE EU FIZ PARA MERECER ESSA MALDIÇÃO?! — O Mar se agitou e a chuva ficou ainda mais forte. — VOCÊ NÃO ME ASSUSTA, POSEIDON! — Um trovão reverberou no céu. — AMALÇOE-ME COMO CALIPSO! PRENDA-ME PELO RESTO DA MINHA ETERNIDADE EM FORMA HUMANA! ME DEIXEI LONGE DO MAR! EU NÃO TENHO MEDO DE NENHUM DE VOCÊS! — Um raio caiu no Mar, há vários quilômetros de distância, mas eu não me importei, apenas sorri e continuei a minha afronta. — VAMOS! MATE-ME! ACABE LOGO COM ISSO! EU TE DESAFIO! DESAFIO À TODOS VOCÊS! — Um raio riscou o céu e em seguida outro trovão pode ser ouvido. — É SÓ ISSO O QUE TEM?!

— CLARY! — Olhei para trás e vi o Simon. Havia um carro parado na estrada, e eu sabia que era o carro da Isabelle. — CLARY...

— SAI DAQUI SIMON! — Voltei a olhar para o Mar. — MORREI EM TERRA PARA QUE O MEU ESPÍRITO JAMAIS SIRVA COMO FONTE DO SEU PODER! JAMAIS VOLTAREI AO MAR, JAMAIS VOLTAREI ATÉ QUE ESSA MALDIÇÃO SE ACABE OU A MINHA VIDA ACABE PRIMEIRO! — Minha garganta doía, mas o meu coração doía ainda mais... Eu queria colocar toda aquela dor para fora. Eu precisava pô-la para fora, antes que ela me consumisse. — EU NÃO AGUENTO MAIS! EU NÃO PEDI PARA ME APAIXONAR POR ELE! EU NÃO PEDI POR NADA DISSO! SE FOR PARA EU MORRER QUE VOCÊ ME LEVE AGORA!

— CLARY! — Senti o meu braço ser puxado e encarei o Simon.

— Me solta! — Puxei o meu braço correndo até o Mar. — VAMOS... SE FOR PARA EU MORRER, QUE ME MATE AGORA! — Novamente um trovão ecoou no céu, e então... O céu ficou claro. Como se há um instante atrás não houvesse uma tempestade caindo. O céu estava claro e limpo, e o sol estava se pondo no horizonte. Ergui os meus olhos, voltando a chorar. — Então, por favor, me diga o que fazer. — Funguei. Novamente o Simon estava ao meu lado, e ele parecia extremamente preocupado. Assim que ele se colocou ao meu lado eu agarrei o seu pescoço sentindo que, assim como eu, ele estava encharcado. — Ele não me ama. Ele não me ama, Simon. — Ele me agarrou e deixou que eu chorasse em seu ombro. — Ele não me ama.

…

Depois do meu surto na praia, o Simon me levou até o carro da Isabelle e a mesma me trouxe para a sua casa. A agradeci mentalmente por aquilo, pois, sinceramente, não sabia se queria correr o risco da minha mãe me visse naquele estado, não mesmo. E pior, eu sabia que aquele horário a Maryse estaria em casa, e esse era um risco que eu jamais correria.

Quando chegamos a casa dela, Isabelle me deu uma muda de roupa e uma caneca de chocolate quente para que eu me aquecesse. E depois de uns minutos se uniu a mim em sua cama, onde eu tinha uma toalha sobre os ombros e para impedir que os meus cabelos molhassem o moletom que ela havia me emprestado, mas não adiantaria por muito mais tempo, pois eu simplesmente me recurava a fazer qualquer coisa que fosse diferente de bebericar o café e encarar o casal a minha frente.

— Quem não ama você, Clary? — Respirei fundo olhando para a caneca quase vazia em meu colo. Talvez estivesse na hora de contar à Isabelle o perigo que o irmão dela corria... Mesmo que eu sentisse que a cada dia que passava a minha morte se aproximava.

— Seu irmão. — A respondi. — Jace não me ama. — Abri um sorriso sem graça para ela.

— Oh, Clary... Meu irmão é complicado, mas...

— Não é coisa de adolescente, Izzy. — Respirei fundo segurando as suas mãos entre as minhas. — Eu sou uma Sereia, e nós podemos viver eternamente, mas só nos apaixonamos uma vez. — Desviei os meus olhos para as nossas mãos juntas. — Eu sou uma Sereia amaldiçoada.

— Amaldiçoada? Amaldiçoada, como? — Ela puxou as mãos. Provavelmente estava com receio do que eu poderia falar, e eu não a culpava nem um pouco.

— Há 700 anos eu fui amaldiçoada. — Levantei-me da cama e comecei a andar de um lado para o outro no quarto. — Em uma noite, eu vi um homem... — Abri um sorriso ao lembrar da primeira vez que havia visto o Jonathan. — Ele era lindo, Isabelle, o homem mais lindo que eu já havia visto. — Balancei a cabeça em negação. — Sereias são facilmente atraídas pela beleza humana... Assim como os humanos tendem a ser vítimas mais fáceis para nós. Mas... Quando eu vi aquele homem eu sabia que o meu coração havia sido marcado para sempre. Que o meu coração pertenceria a ele pelo resto da minha eternidade. — Ela abriu um sorriso. — Na mesma noite, a espada dele atravessou o meu peito.

— Oh! — Colocou uma das mãos sobre o peito como se sentisse a mesma dor que eu sentia.

— Aquele homem era o seu irmão. Jonathan, foi como eu o conheci há 700 anos. — Respirei fundo.

— O que?

— Eu conheci doze versões diferentes dele. Um marujo de primeira viagem, um Capitão de navio, um Padre...

— Um Padre? — Abri um sorriso.

— Havia uma pequena capela próxima ao Mar. Ele costumava ir até lá procurando a paz. — Abri um sorriso amargo. — Foi a primeira vez que eu o vi morrer. E... Ele só estava tentando me proteger. — Eu fechei os meus olhos por alguns segundos tentando esquecer a dolorosa memória, e voltando a contar a história. — Enfim... A cada 50 anos, ele aparece em minha vida. E em dias, um de nós morre.

— Por quê?

— Eu não sei. E tento lutar para não encontrá-lo, para que ele consiga viver sem jamais me encontrar. Eu tentei uma vez, fiquei longe da terra por 100 anos, mas o encontrei em meio a um naufrágio... Apenas para vê-lo morrer.

— Mas o Jace...

— Sereias possuem um Dom individual; algumas conseguem entrar na sua cabeça e ver através de seus olhos, outras penetram em seus sonhos, e bom... Eu consigo sentir quando alguém está mentindo, ou escondendo algo de mim, e por conta disso posso ser bastante persuasiva. E por isso, eu sei que quando o seu irmão disse que não me amava... Ele dizia a verdade.

— Oh, Clary. — Ela se levantou e segurou as minhas mãos, tentando por meio daquele ato me passar um pouco de confiança.

— Eu sou apaixonada pelo seu irmão. Eu o amo há 700 anos. Eu amo todas as formas dele. Eu o amei em todas as doze vezes que ele apareceu. E eu ainda o amo... Mas não posso forçá-lo a me amar. — Deixei algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto. — Ele não me ama, Isabelle. — Ela abriu um sorriso triste antes de me abraçar. — Ele não me ama.

— Por que não me disso isso antes?

— Eu queria, mas não sabia como você poderia reagir. — Funguei. — E além disso, eu não vou estar aqui por muito mais tempo de qualquer forma. — Ela me afastou com uma expressão confusa em seu rosto. — Eu estou morrendo. A maldição está me matando aos poucos. — Abri um sorriso amargo em meio as lágrimas. — E ninguém sabe o que fazer para impedir.

P.O.V Isabelle

Depois de muito tempo chorando em meus braços, a Clary finalmente dormiu. Com cuidado eu a coloquei com a cabeça apoiada na cama e não em meu colo, e acariciei os seus cabelos úmidos por alguns minutos a observando dormir. Serena da maneira que dormia, não parecia que tinha tanta coisa acontecendo com ela. Como eu pude ter sido tão cega quando a tudo aquilo?

Ela era a minha melhor amiga. Supostamente deveríamos compartilhar uma com a outra, e eu imagino como ela deve ter se sentindo nos últimos meses quando eu a empurrava para o meu irmão. Principalmente quando eu a tranquei no quarto dele junto com o loiro; sua reação estranha começou a fazer total sentido para mim.

O que me assustava mais naquilo tudo não era a maldição em si. Amar o meu irmão por 700 anos… Era muita coisa e só ela sabe pelo que precisou passar. Mas… Ela estava morrendo. Minha melhor amiga estava morrendo. A Clary estava morrendo. A minha Sereiazinha estava morrendo. E não havia nada que eu pudesse fazer para impedir aquilo, ou tentar ajudar em alguma coisa. E aquilo estava acabando comigo.

Senti um beijo casto em meu ombro e abri um pequeno sorriso. Virei-me para encarar os seus olhos castanhos e recebi um selinho em seguida. O Simon havia apenas se mantido em silêncio e nos observado durante todo aquele tempo. Ele sabia que eu precisaria dele, que ele era o único que me já havia me visto quebrar. Quebrar de verdade. E, provavelmente, sabia que eu estava prestes a quebrar novamente.

— Vai ficar tudo bem. — Ele garantiu acariciando os meus ombros e sentando-se ao meu lado.

— Como pode ter tanta certeza? — Ele riu e olhou para a ruiva.

— Há poucos dias, se alguém me dissesse que Sereias existiam, eu acreditaria, porque eu simplesmente acredito em tudo. Mas, provar para mim, são outros quinhentos. — Sorri. — A Clary é uma Sereia, e já passou por mais coisa que nós podemos imaginar, então, eu tenha certeza que vai ser mais uma coisa que ela vai conseguir passar por cima.

— De saltos 15cm, se depender de mim. — Ele riu. — E nós estaremos aqui para o que der e vier, certo? — Ele balançou a cabeça em afirmação. Lá no fundo eu sabia que a minha pergunta não se referia somente a Clary, mas também a nós dois. E o Simon também sabia disso.

— Prometo, Heartbreaker. — Abri um sorriso antes de unir os nossos lábios.

Notas finais
#ClaryAfrontosa E então? Gostaram? Odiaram? Mais ou menos? Atendeu a expectativa? Hein? Juro, quando eu escrevi a parte da Clary na praia eu chorei. Minha bichinha sofrendo de novo... Eu não aguento mais isso. Mermaids, do fundo do meu coração eu espero que vocês tenham gostado por que eu estava morrendo de ansiedade para postar esse capítulo, e espero muito que tenha atendido a expectativa de vocês. Não fiquem com raiva do Jace, por favor. Se coloquem no lugar de uma pessoa que acabou de descobrir uma maldição, está mais do que confuso, mais do que aterrorizado... Sério, se fosse eu eu teria surtado como louca. Dica de amiga: Preparem os coraçõezinhos, porque as coisas vão ficar ainda mais dramáticas (se é que é possível). Porque eu não sei se vocês lembram de uma Sereia que não sabe que é Sereia? Pois é... Eu lembro dela. Enfim, acho que hoje é isso.