O som estridente de maquinas cardíaca me lembrava de onde eu estava. Abri meus olhos lentamente me acostumando com o brilho do local. Tudo era muito claro, branco e brilhante. Meu pulso estava enfaixado e uma espécie de cano estava conectando a ele, levando soro a minhas veias. Minhas roupas haviam sido substituídas por uma camisola branca e um avental azul, coisas típicas de um hospital.

Ao meu lado, um homem brincava com o forro de cama de sua maca, estava machucado, seu rosto completamente roxo e seus braços e pernas fraturados. Seus cabelos eram ondulados e de um castanho claro raro aos meus olhos, seus olhos encontraram os meus, eram de um azul gelo familiar, mas nenhum nome me veio à cabeça.

— Devia ter feito na vertical – ele murmurou, sua voz forte e marcante me deixou ainda mais intrigada, mas me concentrei no que ele tinha dito.

— O quê? – me esforcei para encontrar a voz, e ela soou falha quando balbuciei tais.

— O corte – explicou – Se quisesse morrer, deveria ter feito na vertical, eles não conseguem reconstituir as veias assim. Ou na jugular.

Olhei para a vidraça que dava para o corredor, uma enfermeira nos observava, anotando algo em uma prancheta vez ou outra.

— Claro sabichão! – debochei – Por que não fez isso, então?

Era obvio que ele também tinha tentado tirar a própria vida, caso contrario não estaria nessa área do hospital. Na minha cidade, o hospital era dividido não só por funções, mas também por tipos de paciente, dessa forma, existia uma só para suicidas.

— Porque é um engano! Eu caí acidentalmente do segundo andar do meu prédio – falou abrindo um sorriso torto e amarelado. Ele não perdera um único dente. – E não é a primeira vez, pergunte para Janet ali, ela sabe que isso sempre acontece comigo.

— Então você é um homem azarado? – palpitei – Ou essa não foi sua primeira tentativa de suicídio?

— É, tudo bem, a segunda alternativa está correta. Já tentei três vezes.

— Esse ano?

— Não, Regina, nos últimos três anos, uma vez a cada 365 dias.

— Ah – exclamei me sentando e finalmente reconhecendo ele; O Sr. William, meu professor de artes visuais. Eu sempre faltava às aulas dele.

Rapidamente arranquei os sensores cardíacos de meus dedos e o tubo de soro. As maquina apitaram, avisando a perda de meus batimentos e uma morte inexistente. A enfermeira, Janet, entrou no quarto e me segurou pelos ombros, me fazendo ficar na cama. A olhei com as sobrancelhas erguidas e ela retribuiu meu olhar, logo em seguida um medico entrou, segurando uma seringa com um liquido esbranquiçado.

— Ora, ora, senhorita Lancaster, é pedir muito que você permaneça deitada nessa maca? – o medico perguntou, exibindo com orgulho o seu crachá de estagiário chefe, seu nome estava em negrito: Oliver Weyvaller.

— Qual é? Não vejo necessidade em me drogar – falei ao sentir a agulha em meu braço, uma sensação de moleza atingiu meu corpo instantaneamente.

Minha visão logo ficou turva e tudo ao meu redor virou murmúrios. Eles reconectaram os fios e tubos em mim e me deitaram na maca, Doutor Oliver falava algo enquanto eu adormecia em meu leito.

***

Quando eu acordei, o quarto estava escuro, o que me fez acreditar que já era de noite. Sr. William estava dormindo, mas ele não era o único. No canto do quarto, em uma poltrona velha, minha mãe estava lá, com sua boca aberta, o que a fazia roncar. Vê-la me deixava contente e ao mesmo tempo nervosa. Não tinha certeza se seria bom ver ela depois de tentar me matar, afinal, para ela e meu pai eu era a garotinha feliz da minha infância, o que não era nem de longe verdade. Meu estomago se embrulhou e eu fechei os olhos para não vomitar. Sempre fui essa frouxa que vomita por qualquer coisa. Eu queria me levantar, caminhar um pouco pelo hospital, comer alguma coisa ou simplesmente fumar um cigarro, a falta de nicotina já estava causando seus efeitos em meu corpo. Sentei-me meio grogue.

— Sabe garota, acho que você deveria ficar deitada – a voz do Professor William preencheu o silencio. Olhei para ele e suspirei, revirando os olhos e me deitei novamente, eu não teria forças para andar mesmo.

— Você não para de se sentir o professor nem em um hospital? – perguntei, a ironia escorria em minha voz. Ele assentiu.

— Claro que não, eu até te ensinei como se matar – ele jogou em minha cara.

— Talvez eu não quisesse me matar de verdade. – sussurrei e ele se calou, como se entendesse. Talvez ele de fato entendesse, afinal, já estava tentando se matar a três anos. Acho que aquelas frases prontas estavam certas, os suicidas não querem se matar e, sim, matar a própria dor.

Notas finais
Deixe sua humilde opinião e me ajude a melhorar a estoria. Obrigada.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.