Lifetime

6 I can tell you had bad dreams last night


Notas iniciais
(Golden — Travie McCoy ft. Sia)

A aula de Inglês foi um distúrbio para a garota. Em nenhum momento ela conseguiu remover seus olhos da garota dos cabelos pretos, a mesma que, há momentos antes, estava com a língua na goela de Nathan. Apenas removia os olhos de sua pele clara quando notava que a garota se viraria. Mas seu olhar não era de raiva, ou ódio, ou inveja, era de tristeza. Ela sentiu-se trocada mesmo quando nunca fora escolhida. Não que ela quisesse ter algo real com Nathan, mas ainda assim, odiava a sensação de rejeição. Supôs que fosse o fim do “relacionamento” deles, e ao mesmo tempo que sentiu um vazio instantâneo, sentiu um alívio. Seu professor de Arte, o Sr. Boris, tagarelava sobre os melhores livros que ele havia lido e Max só queria sair daquele local o mais rápido possível. Era sua última aula do dia, então ela teria o resto da tarde para sair de seus pensamentos.

O sinal salvou sua vida no mesmo instante em que tocou. Max pegou sua bolsa rapidamente e deixou a sala com tanta pressa que chegou a tropeçar no próprio pé, e, por pouco, não caiu. Ajeitou a alça da bolsa e seguiu o corredor. Seu estômago roncava como um monstro que havia acabado de acordar de um sono profundo. Blackwell não fornecia comida além de chips gordurosas e doces cheios de açúcar, então se algum aluno precisasse comer, teria de ir à algum restaurante nos arredores. O mais próximo era o Two Whales, onde atendia a mãe de Chloe, Joyce. Max sentiu a fome passar com o embrulho de seu estômago só de pensar nas duas. Nenhuma delas perdoaria a “fuga” de Max para Seattle. E mais cinco anos sem contato algum. Mas a garota morria para comer alguma coisa. Antes tarde do que nunca, pensou e saiu da escola, em direção ao ponto de ônibus.

— Caulfield! — Ouviu seu nome sendo exclamado logo atrás e virou-se de impulso.

Quando viu quem era, virou-se novamente e encostou-se à mureta, esperando o ônibus distante parar. Ela sabia que não iria despistá-lo a tempo de o ônibus chegar, então apenas fechou seus olhos e pediu mentalmente para que ele não viesse até ela. Mas, infelizmente, seu pensamento não foi mais forte que o dele. O garoto aproximou-se no mesmo instante em que ela havia aberto seus olhos, que log se fixaram aos dele, com certo repulso.

— O que foi, Prescott — cruzou seus braços.

— Não fale assim comigo, vadia.

— O que você quer — removeu seus olhos da íris azul-depressiva dele.

— Meu pai me ligou hoje — quando disse a palavra “pai”, uma ruga se formou entre as sobrancelhas, com o mesmo repulso que Max estava dele agora. — De alguma maneira, ele ficou sabendo que você está saindo comigo, talvez tenha sido o Diretor Wells, ou a Victoria...

— Direto ao ponto, Nathan — disse Max, tentando ver a proximidade do ônibus.

— Ele te convidou para jantar em casa, na sexta-feira — disse, sem olhar para ela.

Talvez você devesse convidar essas garotas com quem anda dormindo de verdade, e não a menina de seu caso falso, pensou a garota, formando uma expressão de incômodo.

— Achei que isso fosse apenas para a Victoria, e não para pessoas de fora do campus.

— Eu vou te enviar algo para vestir — disse ele, ignorando-a, logo pegando a direção contrária da jovem.

— Quem disse que eu vou? — Quando Max soltou essas palavras, um Nathan furioso voltou-se para ela.

— Como assim você não vai?

— Tenho planos para sexta-feira — mentiu.

— Esqueça-os, Maxine.

— É Max.

— Tanto faz. Você vai.

— Você não é meu dono, Nathan. Sinto lhe informar isto — o ônibus parou em frente à escola, e a garota o olhou pela última vez antes de subir. — Passar bem.

— Max, por favor — disse ele, mudando totalmente seu tom de voz, de raiva para tristeza.

Ela se arrependeu de tê-lo ignorado naquele momento, subindo no ônibus. Sentiu-se muito mal por ter deixado o garoto desolado ali, encostado à mureta. Algo em seu olhar lhe dizia que ele precisava de sua companhia naquela sexta-feira. Mas Max estava cansada daquilo, e não era apenas por aquele motivo.

Colocou seus fones de ouvido, deixando uma melodia soar pelas pequenas caixinhas de som, sem prestar atenção alguma à música. Seus pensamentos agora estavam em Chloe. Sua cabeça encostada à janela do ônibus quase vazio, pensando em como a outra garota poderia estar. Cinco anos era tempo demais para alguém continuar da mesma maneira. Ainda mais Chloe, que sempre viveu em mudança constante. Seu pai havia morrido e tempo depois, Max mudou-se para Seattle sem um “adeus” sequer. Não fora sua intenção, mas ela apenas não conseguia se despedir de alguém que lhe fora tão importante durante tanto tempo. E quando chegou na cidade grande, não conseguiu também manter contato. Teve o número de Chloe esse tempo todo, mas era difícil mandar qualquer mensagem para a jovem. Ainda mais depois de tê-la abandonado.

O ônibus parou em frente ao velho restaurante. Max desceu assim que as portas se abriram, mas ficou um tempo parada em frente ao local, apenas relembrando do passado, de sua infância, passada naquele lugar, junto de sua amiga, Chloe. Ela sentia falta da companhia da outra, mas se lembrava vagamente da mesma também. Decidiu que era hora de adentrar o local.

Assim que subiu os degraus e empurrou a velha porta azul, sentiu o cheiro de ovos com bacon e já deduziu que Joyce estava trabalhando naquele dia. Olhou ao seu redor, tendo em vista o balcão onde já se sentara diversas vezes, a jukebox, onde soava um velho rock bem ambiente, agradável. Olhou para a televisão ao canto, onde passava o canal de notícias. Mais para a frente, estava o velho banheiro, e ao lado, os souvenires à venda. Max sempre comprava algo quando era menor, e às vezes, Chloe comprava também. Faziam coleção de chaveiros juntas. Olhou para todas aquelas mesas de metal, junto dos bancos acolchoados vermelhos e sentiu a nostalgia bater. Pegou a quarta mesa, jogando sua bolsa em cima da mesa e sentando-se sobre os confortáveis bancos.

Alguns minutos depois de ter sentado, passou a olhar para a janela, na esperança de ver algo novo na cidade. Só o que conseguia ver, era o posto de gasolina do outro lado da rua e os carros passando correndo pela estrada, fazendo o cabelo dos andarilhos das ruas voarem. Max avistou Alyssa, aquela garota de cabelos roxos que estava em suas aulas de Fotografia. Nunca haviam conversado muito, mas ela parecia ser legal.

— Max Caulfield! — Soou uma voz familiar logo atrás dela. — Não esperava vê-la tão cedo.

— Joyce — sorriu Max da mesa. — Não direi que não esperava vê-la por aqui.

— Sim, eu sei, após todos esses anos eu continuo trabalhando de garçonete — sorriu ao colocar café na xícara da garota. — E creio que também não mudou seu apetite, certo?

— Ovos com bacon ainda — sorriu a morena, cruzando seus braços acima da mesa. — Como está Chloe?

A expressão de felicidade da mulher tornou-se algo mais sombrio, algo que Max não havia visto anteriormente. Algo em Joyce dizia que havia algo de errado.

— Ela está... bem. Irreconhecível — disse a mulher, forçando o melhor sorriso. — Só está um pouco distante de tudo, mas continua a mesma por dentro.

Max sentiu como se a mulher estivesse tentando convencer a si mesma, e não a ela. A garota sorriu e assentiu, logo fixando o olhar na porta do restaurante, o mesmo lugar para onde Joyce começou a olhar também, após um longo suspiro. De lá, saiu uma garota alta e magra, de pele bem clara e cabelos azuis, cobertos por uma touca preta. Max estreitou os olhos, tentando enxergar melhor, ver suas feições, mas estava longe demais. A garota vestia uma jaqueta marrom e uma regata branca com a estampa de uma caveira. Seu estilo era bem punk, e seu ar era superior, como se ela não estivesse seguindo um rumo exato, ou como se não se importasse com nada e ninguém.

— Falando no diabo — Joyce sorriu de verdade agora.

A morena sentiu seu coração palpitar. Aquela não podia ser Chloe, ela estava tão diferente… Cinco anos fazem diferença, mas em Chloe fizeram diferença demais. Max estava chocada, e sentiu seu peito sendo prensado pela culpa a cada passo que a outra dava. Quando a moça dos cabelos azuis chegou mais perto, não olhou para a mesa, apenas para sua mãe.

— Waffle belga — disse a garota, com a voz mais madura que a mesma da época em que Max a deixou. — Vou estar sentada ali.

— Não é educado deixar de cumprimentar velhas amigas, Chloe — disse Joyce, fazendo com que a garota olhasse para a mesa abaixo de si, onde estava Max, com as bochechas ardendo em nervoso.

— Max?!

A garota sorriu e Joyce saiu do local, voltando para detrás do balcão. Chloe sentou-se em sua frente, olhando-a com surpresa. Ambas estavam curiosas pelas supostas mudanças de cada, e não viam a hora de trocar experiências de todos os cinco anos.

Para Max, Chloe parecia mais confiante. Não que ela não fosse antes, mas agora parecia melhor. Como se pudesse dominar o mundo com apenas suas mãos. Ela sabia que não havia mudado tanto quanto a outra, ainda continuava insegura e tímida, por mais que tentasse mudar os dois aspectos. Por um instante, sendo observada pelos faiscantes olhos azuis da garota, sentiu certa inveja de tanta segurança presente nela.

— Há quanto tempo você está aqui?

— Hm... Há quase um mês — disse Max com o sentimento de culpa dentro de si.

— E há quase um mês você não pensou em ligar para mim — Chloe tornou sua expressão em tristeza durante alguns segundos. — Ou melhor, em cinco anos.

— Eu queria, mas...

— Por que voltou, Max?

Ela sabia que Chloe queria ouvir sobre sua volta, mas queria ouvir ainda mais sobre sua volta ter sido por causa dela. O que, infelizmente, não fora. Max voltou para Arcadia Bay para entrar em Blackwell, e ter aulas com Mark Jefferson, um de seus fotógrafos favoritos de todos os tempos. E ela não poderia mentir para sua melhor amiga de infância.

— Por Blackwell.

— E em nenhum momento pensou em mim, certo? — Disse Chloe, mas desta vez, com tristeza.

Antes de Max responder, os pratos haviam sido colocados sobre a mesa. Max agradeceu a Joyce, que saiu para atender os outros clientes. Chloe não disse mais nada, e seguiu comendo seus waffles. Sua expressão ao comer cada pedaço daquela massa era como se ela estivesse nadando nos mares do paraíso.

— Isso aqui é como um orgasmo! — Disse Chloe num tom alto, fazendo algumas pessoas olharem na direção das duas.

Max sentiu suas bochechas esquentando novamente e soltou uma risada. Afinal, Chloe não havia mudado tanto assim mesmo. Continuava com o mesmo senso de humor que fazia Max gargalhar.

— O que você está comendo, Max? — Disse a garota, sem um pingo de raiva em sua voz. Como se fosse bipolar.

— Ovos com bacon — disse a garota, cortando um pedaço do bacon e colocando na boca, sentindo uma sensação ótima. — A comida da Joyce nunca perde a graça.

— Mamãe sabe o que faz — disse Chloe, piscando um olho. — Deixe-me provar seu bacon.

— Você tem seus waffles!

— Mas eu amo bacon, Max!

— Tá, eu deixo — Max afastou seus braços do prato, vendo a garota dos cabelos azuis pegando uma das fatias de bacon e mastigando com felicidade.

Era uma das coisas que Max sentia falta nela: seu sorriso. Mesmo que fosse um sorriso onde gordura estivesse escorrendo pelos seus lábios cobrindo uma boca cheia de comida. Ela riu enquanto a outra engolia vorazmente cada pedaço do bacon suculento.

— E aí, Max. Quem anda mexendo com seu coraçãozinho? — Chloe perguntou enquanto sua boca estava cheia.

— Quem anda mexendo com o seu coração? — Max arqueou uma sobrancelha.

— No momento, esta fatia de bacon — engoliu o último pedaço e soltou um arroto. — Uau, esse foi incrível. Sua vez.

— Não sinto vontade de arrotar no momento — Max sorriu.

— Não — Chloe arqueou a sobrancelha e revirou os olhos. — Sua vez de dizer quem mexe com seu coração.

— Ninguém.

— Sua expressão diz outra coisa, Maxine — cantarolou a outra.

Max corou e começou a encarar seus sapatos. Não sabia o que responder para Chloe, ainda porque não tinha uma resposta específica para isto. Cruzou seus braços em cima da mesa e torceu o lábio.

Nathan não era alguém que estava mexendo com seu coração. Era só um garoto, que nem chegava a ter o título de amigo, qual havia feito um trato com ela, sendo que não cumpria sua própria parte. Ele era bonito, e conseguia demonstrar sentimentos reais de vez em quando, mas ainda assim, não era nada que Max conseguisse imaginar em sua vida. Algumas noites, havia tentado ver Nathan como um namorado, mas tudo que conseguia ver era ele gritando com ela, com seus olhos fartos de raiva e ódio, então procurava afastar aqueles pensamentos.

— Eu estou, tecnicamente, saindo com alguém — Max disse, ainda com os olhos baixos.

— E quem é este alguém?

— Isso é informação demais — Max concluiu. — Não é ninguém interessante, Chloe.

— Eu ouvi corretamente? É um desafio?

— Desafio para que, Chloe?

— Descobrir o amante de Max Caulfield! Pode apostar que vou conseguir.