Lifeline — Destiny Don't Give Up
39 O Que Você Escolhe?
Notas iniciais

Nós devíamos deixar nossos amores
e assim poderíamos escolher um ao o outro...
Leave Your Lover — Echos
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• NATALIE COOPER •
Tudo na vida é uma questão de perspectiva. Uma situação terrível pode não ser terrível se observada do ângulo certo, e uma boa situação pode se transformar uma tragédia da mesma forma...
Eu costumava saber disso muito bem e usar essa abordagem no trabalho, perspectiva era a diferença entre uma boa matéria e uma ótima matéria.
Eu costumava ser boa em ver pela perspectiva de outras pessoas e entender vários lados de uma mesma situação...
E então o mundo acabou e com o tempo tive que parar de entender os outros, a dor abateu meu corpo e tudo que havia era eu e minhas necessidades. A perda me fez recuar um passo e me fechar dentro de mim mesma, limitou minha visão.
Alguém sem visão é alguém sem perspectiva e empatia
Naquele instante só havia uma perspectiva para mim: eu estava perdendo alguém. Eu não conseguia ver por nenhum outro ângulo que não fosse esse.
Os Salvadores estavam mortos, Negan estava morto, eu tinha visto os corpos com meus próprios olhos e então tinha visto o vídeo...
Kane havia planejado uma vingança poética, mas eu não me dei tempo para pensar nisso, porque no instante que eu soube eu percebi que era o fim de alguma coisa.
Era hora de fazer uma escolha e então perder alguém. Era inevitável.
E eu sabia disso mesmo antes de pegar a carta das mãos de Petter. Não havia mais tempo, eu não poderia mais empurrar a situação com a barriga, eu tinha que abrir mão de alguém...
Minhas mãos estavam firmes no volante e o pé fundo no acelerador cortando a estrada. No banco do passageiro a cara de Kane repousava, um lembrete constante de que eu estava correndo contra o tempo.
Eu estava tensa, parte de mim sabia o que aconteceria e parte de mim ainda lutava contra, procurava modos alternativos de resolver aquela situação.
Foquei os olhos na estrada e tentei não pensar, isso só tornava tudo mais dramático e complicado.
O cheiro de maresia invadiu minhas narinas algum tempo depois e meu coração começou a bater acelerado. O sol sumiria no horizonte em menos de uma hora e eu sabia que o tempo estava acabando.
Virei na marina cantando pneus e suspirei aliviada quando vi o iate ainda ancorado. Era como se eu não respirasse desde que deixei Hilltop.
Saltei do carro e atravessei o deck velho de madeira em passos ansiosos, por algum motivo meu coração estava aos saltos. Talvez porque, por mais que eu quisesse não pensar sobre nada daquilo, no fundo meu coração sabia o que estava por vir...
O barco estava silencioso, o som do mar e o vendo gelado de fim de tarde tornavam o ambiente calmo e melancólico. Kane estava no convés, o cotovelo apoiando nas grades de proteção e os olhos na nas ondas que iam e vinham. Eu podia ver seu perfil de onde estava e ele emanava um ar tão melancólico quanto o que eu sentia me envolver.
— Você veio... — Declarou, sem tirar os olhos da água. Havia uma quantidade palpável de emoção em sua voz, assim como conformismo e amargura.
Ele voltou os olhos para mim e eu soube que ele sabia exatamente o que estava prestes acontecer. Talvez ele soubesse até melhor que eu mesma, afinal eu ainda tentava lutar contra a verdade dentro de mim....
— Você não devia ter feito isso... — Me aproximei alguns passos sem saber exatamente o que dizer, ou como começar aquela conversa.
Kane sorriu de canto, o ar melancólico em seus olhos dando a ele uma beleza ainda mais marcante.
— É tarde demais pra falar sobre coisas que eu não devia ter feito. — Moveu os ombros e também caminhou na minha direção. — Acabou, Natalie. Seu coração não bate mais leve ao saber disso?
Ele parou a alguns passos de mim e eu finalmente me dei permissão para pensar no que tinha acontecido com os Salvadores. Visualizei a realidade sem a sombra de Negan e seus homens e pela primeira vez vi algo bonito, algo pelo qual valia a pena lutar e viver.
Por todo aquele mês eu tinha tentado convencer a mim mesma que Negan preso para sempre era o bastante pra mim, mas não era, nunca seria. Eu o queria morto e Kane tinha me dado isso.
— É como se você tivesse tirado o peso do mundo dos meus ombros. — Fui honesta. Era assim que eu me sentia, mais leve, mais livre. — Obrigada.
Eu ainda estava quebrada, perdida em mim mesma, mas saber que Negan estava morto era como ver um dia nublado de chuva se abrir em Sol. Tudo ainda estava molhado, mas havia um arco-íris sobre a minha cabeça como um símbolo de esperança.
— Então valeu a pena cada segundo, cada decisão. — Kane afirmou convicto e eu podia ver o amor nos olhos dele assim como se pode ver estrelas em um céu limpo.
Eu não queria perder aquilo... Mas sentia como se estivesse diante de uma linda escultura de gelo derretendo aos poucos. O fim era inevitável e eu soube disso desde o instante que vi Negan morto.
E Kane sabia também, a certeza estava lá em seus olhos escuros, mas nem isso diminuía o brilho da devoção dele por mim.
Era cruel e triste... e de alguma forma também era lindo.
— Eu sei que... — Ele deu mais um passo para frente e eu soube que estávamos prestes a mergulhar na realidade escura.
Mas eu não queria aquilo, eu queria viver dentro daquela bolha de devoção e amor por mais um tempo, mesmo sabendo que ela desaparecia em breve.
— Agora não. — Pedi, cortando os últimos três passos que nos separavam e alcançando os lábios dele com os dedos, pedindo que se calasse. — Eu não quero falar agora...
Kane assentiu devagar e eu deixei minha mão escorregar de volta, pousando-a em seu peitoral. O meu toque o fez segurar o ar por um breve segundo, o bastante para que nossos olhos se prendessem uns nos outros.
Eu não precisei pensar sobre fazer ou não aquilo... Tudo que nos cercava, toda a situação definitiva que estávamos prestes a enfrentar, aquilo sim exigia que eu pensasse, analisasse cada pequeno detalhe, tomasse a decisão certa... Mas aquilo que eu estava prestes a fazer era simples, eu não precisava pensar sobre, eu só tinha que fazer.
Impulsionei meus calcanhares para frente e fiz meus lábios encontrarem os de Kane, sentindo seu beijo frio pelo vento de fim de tarde.
Me afastei em seguida, meus olhos procurando os dele, esperando por uma reação. Kane sorriu de canto, o tipo de sorriso que faria qualquer mulher suspirar de antecipação.
Sua mão direita seguiu para a minha nuca, por baixo do meu cabelo, me puxou para ele em um gesto firme de dominador, fazendo nossos lábios se encontrarem de novo para um beijo que era entrega e um tanto de desespero.
Minhas mãos subiram pelo corpo de Kane; peitoral, braços, ombros; eu podia sentir os músculos reagindo ao meu toque. Infiltrei meus dedos nos fios negros e os envolvi com fervor.
Kane moveu os pés de modo que girou meu corpo, me fazendo andar de costas sem deixar de me beijar. Caminhamos pelo convés até a parte coberta do barco. Uma área de refeições aberta, com vista para o mar. Kane envolveu minha cintura e puxou meu corpo para cima, me colocando sentada na grande mesa retangular que tinha ali no meio.
Não havia nada na minha mente a não ser euforia, desespero e desejo. As mãos de Kane no meu corpo escorregando por minhas coxas, apertando minha cintura não me deixavam pensar em mais nada...
Nosso beijo seguia intenso, nossas línguas se movendo em um ritmo conjunto que deixava explicito nosso desejo. Eu deslizei a jaqueta pelos outros de Kane e ele a lançou em qualquer lugar do chão, voltando desesperadamente as mãos para o meu corpo, me puxando para mais perto, me fazendo escorregar pela madeira da mesa até que nossos corpos se chocassem e eu envolvesse os quadris dele com as pernas.
Arrancei meus sapatos com um movimento ágil dos meus pés, sentindo as mãos de Kane se infiltrarem por baixo da minha blusa e alcançarem minha pele, fazendo com que os arrepios quentes se espalhassem por meu corpo.
Nossas bocas ávidas tiveram que se separar quando ele puxou a peça de roupa pela minha cabeça. Nos encaramos por um longo momento naquele instante, ofegantes e agitados, os olhos de Kane faiscavam de um desejo tão puro que beirava a adoração, ele observava cada parte de mim com atenção, como se estivesse decorando cada traço, mantendo aquela imagem perfeitamente segura em sua memória.
Kane deu um passo para trás e arrancou a própria camiseta, fazendo todos os músculos de seu abdômen se flexionarem com aquele movimento.
Então ele se aproximou de mim de novo, lentamente, me deixando ansiar sua presença antes de enfim me tocar, puxando os fios do meu cabelo para trás gentilmente e assim conseguindo acesso ao meu pescoço.
Senti os beijos e chupões leves descerem pela minha pele ao mesmo tempo em que Kane se livrava do meu sutiã com a mão livre. Me ouvi ofegar quando os dedos tocaram meus seios, pouco antes dos lábios quentes fazerem o mesmo.
Kane me fez deitar na mesa, descendo os beijos por meu abdômen e barriga, enquanto desabotoava meu shorts. A peça se foi junto com a calcinha em um puxão firme.
Os lábios de Kane desceram para as minhas coxas, e começaram a subir lentamente enquanto eu me contorcia de antecipação. Quando ele escorregou a língua quente por meu sexo eu me agarrei a borda da mesa enquanto meu gemido cortava o ar.
Fechei os olhos sentindo cada movimento me levar mais perto do abismo, o primeiro orgasmo veio rápido e intenso, fazendo meu corpo pulsar enquanto eu me perdia em gemidos e segurava os cabelos de Kane com força.
Ele me puxou de volta enquanto minhas pernas ainda estavam bambas e eu pude enfim colocar minhas mãos nele. Escorregando os dedos por seu peitoral antes de me inclinar e beijar a pele de seu pescoço. Ouvi seu gemido rouco quando meus lábios tocaram ali.
Meus dedos seguiram para o cós do jeans dele, lidando com os botões e o zíper com destreza, antes de rodear as duas mãos por seu quadril, tirando a calça e a boxer, aproveitando para escorregar as palmas pelo traseiro macio de Kane.
Ele riu contra o meu pescoço e me puxou para mais perto bruscamente, me fazendo sentir sua ereção entre as minhas pernas.
Me ajeitei melhor na mesa e o puxei para dentro de mim, sentindo cada centímetro me penetrar lentamente e ouvindo os sons de puro prazer que Kane emitia.
O ritmo das estocadas começou lento, quase torturante, mas progrediu depressa em uma loucura que era uma expressão clara do nosso desespero no momento.
Meus lábios sugaram o pescoço de Kane de uma forma que eu sabia que deixaria uma marca, porque eu queria isso, queria ficar marcada nele, mesmo quando acabasse, mesmo quando a bolha explodisse e só houvessem lembranças e distância.
Ele me segurava e apertava como se estivesse segurando todo o mundo nas mãos, me penetrando mais rápido e forte, nos deixávamos levar pelo presente, esquecendo de toda a realidade ao nosso redor.
Um segundo clímax começou a se formar no meu baixo ventre a cada estocada, deixei que a sensação crescesse dentro de mim e explodisse junto com o êxtase de Kane.
E então ficamos abraçados por mais um tempo, minhas pernas cruzadas no quadril dele e seu rosto no meu ombro. Nossas respirações iam e vinham em conjunto se acalmando no sentindo inverso do meu coração que começava a temer o próximo momento.
Apertei Kane um pouco mais, sentindo o seu corpo nu de encontro ao meu, enquanto ele me acolhia em seu abraço como se fosse um porto seguro.
Ele beijou meu ombro, clavícula e continuou beijando todo meu rosto antes de se afastar minimamente.
Seus olhos escuros focaram nos meus e eu soube que era o momento...
— Já podemos falar agora? — Kane perguntou acariciando minha bochecha.
Eu queria, mas sabia que não podia ficar dentro daquela bolha para sempre. Tínhamos assuntos sérios a tratar, principalmente porque eu sabia que talvez Rick em breve descobrisse o nosso paradeiro.
E ele não estava nada feliz com Kane naquele momento.
Suspirei, o encarnado por alguns segundos e então me levantando da mesa, vestindo minha lingerie e a blusa, e caminhando pelo convés até me apoiar nas grades de proteção do barco. Kane fez o mesmo em seguida, parando ao meu lado, vestindo nada mais que a boxer vinho.
Virei meu rosto e o observei por mais alguns momentos, como se precisasse decorar cada parte dele.
— Eu sempre quis ser amada por alguém da maneira que você me amou... — Declarei, olhando nos olhos escuros e não sabendo como prosseguir.
Kane sorriu, um mover de lábios sutil que era a expressão pura da melancolia e aceitação
— Mas você jamais poderia ir comigo. — Ele completou de um jeito claro, não havia decepção em sua voz, apenas conformismo.
— Eu... — Tentei procurar algo para dizer, mas aquela era a pura verdade.
— Eu entendo Natalie, mesmo que você me amasse o bastante, você tem um filho, você nunca o colocaria em um barco e o levaria para longe do pai dele. — Kane acariciou meu rosto e não havia qualquer amargura em sua voz. — Daryl é um bom pai, e um homem descente, seria crueldade fazer isso.
Assenti, ele estava certo novamente. Quando peguei a carta em mãos eu cogitei a possibilidade por dois segundos, mas separar Petter e Daryl nunca foi uma opção, eu jamais faria isso.
Por esse motivo Petter sequer estava ali, ele tinha ficado em Hilltop com Maggie. Eu não estava naquele barco para analisar minhas opções, eu já havia feito isso e partir não era uma possibilidade viável.
— Parte de mim queria isso. Eu você, Petter e o Bolt. Exatamente como eu disse na carta... — Kane sorriu de uma forma que deixou clara sua adoração por aquela ideia, quase como se aquilo fosse sua utopia particular. — Mas a outra parte sempre soube que não era real. Vocês não são meus, Natalie. Vocês nunca foram.
Pela primeira vez ele pareceu realmente triste e partiu meu coração ver aquilo. Era injusto machucar alguém que me amava tanto...
— Acho que eu estava errado... — Kane riu sem humor, soando um tanto amargurado. — Ser apaixonado por uma pessoa morta, não é horrível... Horrível é amar alguém pertence a outra pessoa.
— Kane... — Tentei não derramar as lágrimas que estavam presas nos meus olhos. — Eu sinto muito.
— Não sinta. — Ele segurou meu rosto com ambas as mãos. — Nunca peça desculpas por ser a mulher extraordinária que você é.
Limpou minhas lágrimas e aquela cena me pareceu a personificação da injustiça. Kane não queria que eu chorasse, mas ele próprio tinha lágrimas escorrendo por seu rosto naquele momento.
— Você merece o mundo todo Natalie Cooper. — Enfatizou, como se aquela fosse a única verdade no universo que realmente importava. — Mas você não quer o mundo tudo. Você não quer aventura e caos, você não quer correr o oceano em um iate de luxo. Você quer um terreno firme sob os seus pés, você quer uma vida tranquila. Uma casa. Uma família. Um amor... Você quer rotina e calmaria. E não tem nada errado nisso. Não tem nada errado com você.
Era como se Kane pudesse ver dentro da minha alma, tudo que eu era, bom e ruim, defeitos e qualidades, ele via e ele amava. Era impossível não ser tocada por um amor como aquele, impossível não desejar aquilo, mas...
"Mas" esse era exatamente o problema, sempre haveria um "mas". Sempre haveria uma parte do meu coração que nunca pertenceria ao Kane.
Porque amar não é uma escolha, nunca foi, afinal, amar é um evento transformador que não pode ser vencido pela distância ou pelo tempo. Não há lógica nisso...
Claro que se pode amar muitas pessoas durante a vida, mas sempre existe aquele amor que se infiltra fundo em você. Ele habita em partes que ninguém mais poderia alcançar. Não pode ser arrancado ou destruído. Ele apenas é o que é, e cabe a cada um de nós conviver com isso.
— No fim eu apenas não sou o homem na casa, e você não é a mulher no iate. — Kane declarou com um sorriso melancólico, que era nublado por minha visão marejada. — Isso porque, nessa história sempre teve "você e eu", mas nunca foi uma história sobre "nós"...
A voz de Kane travou na garganta e meu coração se apertou de dor. Eu não podia perder um homem como aquele...
Kane era o meu porto seguro, o lugar para onde eu sabia que podia correr em qualquer tempestade, sem medo de que isso me ferisse mais. Ele estava lá por mim e eu simplesmente não conseguia abrir mão.
Ninguém em sã consciência deixaria um amor assim escapar por entre os dedos como areia ao vento.
— Você podia ficar, podemos resolver isso. — Sugeri, sem de fato ter um plano. Eu era apenas alguém tentando se agarrar a uma realidade frágil que parecia estar de esvaindo dos meus dedos.
Eu só queria ganhar tempo, só queria manter todos os cacos juntos. Eu só queria... queria saber o que de fato eu queria.
Kane sorriu para mim, como quem sorri para uma criança que fala sobre o Papai Noel. Eu estava me agarrando a fantasias e sabia disso.
— Você nunca seria verdadeiramente feliz se eu ficasse, Natalie. — Ele deslizou os dedos por meu rosto com carinho. — Você sempre se perguntaria se fez a escolha certa, não importa quem você escolhesse. Você olharia para mim ou para Daryl todas as manhãs e pensaria o que estaria acontecendo se você tivesse ficado com o outro. A cada problema ou briga você faria essa pergunta e isso seria como mofo dominando as paredes de uma casa lentamente... Isso arruinaria você.
Ele estava certo, eu sabia que estava. Eu sempre soube, na verdade. Exatamente por esse motivo que eu não queria escolher...
— Eu queria poder escolher os dois. — Admiti em voz alta, dando de ombros e Kane sorriu de canto.
— Apenas peça e eu sequestro o Daryl e o jogo nesse barco. No meio do mar a gente se resolve. — Ele brincou limpando o meu rosto uma vez mais, como se quisesse amenizar todo o clima melancólico.
Eu ri, sentindo meu coração pesado e uma tristeza tão grande que não podia ser medida.
— Negan tinha um harém, eu podia ter um também. — Entrei na brincadeira, tentando fazer com que as coisas fossem mais fáceis.
Kane riu também e eu não saberia dizer se era uma risada honesta ou se era apenas uma forma de disfarçar o que ele também sentia.
— Não sei... — Moveu um dos ombros e comprimi os lábios. — Não me parece que o Daryl é alguém que gosta de dividir.
Meu sorriso foi verdadeiro daquela vez, pensar na cena foi engraçado. Daryl com certeza não saberia como reagir a uma proposta daquelas.
E mesmo sendo uma piada soou muito convidativa pra mim.
— E você? Gosta de dividir? — Perguntei quase como uma acusação.
Kane sorriu de canto e me encarou por alguns segundos, todo cheio de charme como apenas Kane Bennet podia ser.
— Eu não veria isso como uma divisão, veria como uma adição. — Ele ponderou piscando pra mim. — Tem uma porção de coisas interessantes que um trio pode fazer...
Por um segundo eu não soube se ele falava sério ou se era algum tipo de brincadeira... Apenas sorri de canto e neguei algumas vezes, não era real afinal, nunca aconteceria realmente. Aquilo era o tipo de coisa que podia acontecer apenas na minha mente.
O Sol tinha acabado de morrer no horizonte, derramando seus tons sobre o céu, um espetáculo à parte, como se fossemos uma obra de arte nas mãos de um artista melancólico e muito cruel...
Não era justo.
Kane deu um passo para frente e tocou meu queixo suavemente, me beijou devagar, apenas nossos lábios se encontrando, deixando um gosto agridoce em nossas bocas.
Ele olhou em meus olhos por um longo momento, quase como se precisasse decorar cada detalhe das minhas íris.
— Se você pedir, eu vou ficar, porque eu nunca diria "não" pra você, Natalie. — Declarou e senti que suas palavras eram tão agridoces quanto o nosso beijo. — E eu respeitaria você ficar com o Daryl, mas isso não significa que eu seria capaz de te ver apenas como amiga. Eu nunca poderia fazer isso...
Kane estava sendo brutalmente honesto, e isso me fazia ter um vislumbre do quanto eu vinha sendo egoísta roubando cada gota de amor dele pra mim, sem me preocupar em retribuir. Sem me preocupar se isso o magoava de algum modo.
— Eu te amo Natalie Cooper e isso nunca vai mudar. E é por isso que eu tenho que partir. — As palavras vieram devagar, quase como um pedido. — Você e o Daryl estão destinados, isso também nunca vai mudar, você ama a forma como eu te amo, mas você ama a pessoa que ele é. Você não pode explicar ou mudar isso. Ele é o homem da sua vida e tudo bem.
Respirei pesado, a sensação de perda pesava em meu corpo, doía na minha alma. Eu não queria nada daquilo, aquela sensação de vazio. Senti que se Kane partisse seria ainda pior. E eu não podia deixar que acontecesse.
— Eu posso escolher você. — Declarei com um tom calmo, embora fosse um ato de desespero egoísta.
Eu sabia, desde o dia que voltei daquele mesmo barco que escolher Daryl me faria perder o Kane, era claro como a água límpida de um mar calmo. Por isso eu não quis fazer uma escolha.
Mas se eu escolhesse o Kane... Bom, Daryl e eu sempre teríamos um vínculo. Era egoísta, injusto, era tudo que eu não era, mas...
— Você pode. — Kane assentiu devagar e seus olhos brilharam como se eu tivesse acabado de lhe oferecer o mundo todo. — E eu seria o homem mais feliz e realizado de todo o universo, e dedicaria cada segundo da minha vida a te fazer feliz. — E então o brilho se foi, como alguém que encontra algo que quer muito, mas está totalmente fora do alcance. — Mas você seria feliz, Natalie? Você seria verdadeiramente feliz se me escolhesse agora?
Suspirei. Eu não seria. Não havia como ser feliz escolhendo alguém pelos motivos errados. Não havia como ser feliz acordando todos os dias e sabendo o quão egoísta minha escolha seria.
Não havia como ser feliz, agindo como alguém que eu não era.
E foi quando notei que esse era o grande problema, eu não era mais eu mesma... Porque eu não era egoísta e mesquinha; eu costumava ser compreensiva e empática; eu respeitava os limites das pessoas; eu entendia a dor delas.
Eu era boa. Eu sempre fui boa. Pedir que Kane ficasse seria um ato de puro egoísmo, afinal, se eu não podia amá-lo com a mesma intensidade que ele me amava, como isso seria justo?
— Por favor... — Ele pediu com os olhos cheios de lágrimas. — É hora de me deixar ir.
Eu não queria que Kane fosse. Ele não queria ir sozinho. Mas eu não podia ir com ele e Kane não podia ficar comigo...
Era o fim da linha para nós dois.
Aproximei meu rosto e o beijei uma última vez, o gosto salgado de nossas lágrimas tornando aquela despedida amarga e injusta. Kane me apertou contra seu corpo como se segurasse com desespero um mundo que desmorona.
Algumas pessoas não foram feitas para ficarem juntas, seus caminhos se cruzam em algum ponto e então se afastam para direções opostas...
Em minha mente, por um breve momento, eu desejei ter conhecido Kane primeiro, então talvez pudéssemos cruzar o mundo em um carro de fuga e quem sabe o que aconteceria depois?
Me afastei um passo e abri os olhos, Kane ainda mantinha os dele fechados, como se precisasse guardar aquele momento um pouco mais.
Suspirei, virando as costas e recolhendo meu shorts e meus sapatos, descendo do barco em seguida, sem sequer pensar em vesti-los.
Já no cais, eu olhei para trás e Kane me encarava da grade de proteção. Nossos olhos ficaram presos por uma infinidade de segundos, até que o ultimo vestígio de luz do dia se foi e só havia a penumbra da lua.
— Talvez em uma outra vida? — Perguntei, sentindo que jamais seria capaz de dizer adeus.
— Com certeza em uma outra vida. — Kane assentiu com um sorriso que ficaria preso na minha lembrança para todo o sempre.
E então ele se foi, e eu fiquei ali parada no cais vendo o barco sumir no horizonte. Foi triste, porque parte de mim achava que o apoio de Kane era tudo que me mantinha de pé, mas assim que eu o perdi de vista e continuei olhando o mar calmo eu entendi algo muito importante...
Eu ainda era a mesma, Kane não me fazia mais ou menos completa, porque eu estava quebrada de todo o jeito, com ou sem ele, não era algo que ele podia consertar. Não era algo que ninguém podia consertar.
Caminhei pelo cais e ganhei a praia, jogando meus sapatos e shorts no chão e seguindo para perto do mar, eu não pretendia entrar na água, apenas fiquei ali... afundei os pés na areia molhada, sentindo as ondas irem e virem...
Eu entendi algo catártico sobre mim mesma naquela noite silenciosa: eu queria os dois porque achava que só eles podiam preencher os buracos que toda a história com Negan tinha me feito. Eu queria todos a minha volta para não me sentir vazia e incompleta.
Achei mesmo que com todas aquelas partes quebradas juntas podiam formar algo inteiro...
E então, quando eu abri mão de Kane eu percebi que não era nada disso... não ser egoísta, não pedir que ele ficasse, foi o que realmente me fez sentir mais como eu mesma.
Era tudo sobre mim no fim das contas...
E então eu soube quem eu tinha que escolher.
"Mas não, você nunca deixaria o seu amor
Você nunca deixaria seu amor..."
Leave Your Lover — Echos
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Não sei quanto tempo passei ali no mesmo lugar, na verdade não importava. Eu precisava de um tempo sozinha, por isso não me apressei, apenas mergulhei em minha analise mental e encaixei todas as coisas em seus devidos lugares.
Mudar de perspectiva era como respirar depois de muito tempo submersa. Ver as coisas por outro ângulo era libertador.
Faltava pouco mais de um palmo para a areia chegar no meu joelho quando eu ouvi o som característico de uma moto se aproximando.
Reconheci a figura que pilotava o veículo tão logo coloquei meus olhos nela... Um milhão de borboletas alçaram voo no meu estômago, porque era sempre assim quando eu o via, nunca mudaria.
Daryl praticamente jogou a moto de canto e correu para o cais, parecendo perdido quando não viu mais nenhum barco ali.
Eu não podia ver seus olhos daquela distância, mas sua postura corporal me dizia tudo que eu precisava saber...
Apenas observei por alguns segundos, ele parecia muito transtornado para sequer olhar ao redor e eu sorri por um reflexo estúpido de algo que meu coração sentiu.
— Daryl... — Chamei em um tom calmo e baixo, sabendo que minha voz ecoaria pela praia e seria ouvida.
Ele se virou na minha direção imediatamente e eu pude ver seu peito subir e descer em um suspiro longo
O vi caminhar na minha direção, começou com passos apressados, mas foi diminuindo o ritmo junto com a distância, como se a minha inercia o fizesse pensar melhor em sua impulsividade.
— Como me encontrou? — Perguntei neutra, quando ele se aproximou o bastante.
— Petter explicou onde esse lugar ficava. — Daryl respondeu e notei que seu tom tinha um pouco de euforia, quase como se me ver ali fosse algum tipo de milagre.
Voltei a encarar o mar, mexendo os dedos na areia molhada e sentindo meu corpo afundar pouco a pouco.
Obviamente tínhamos coisas para falar, mas eu resolvi desfrutar do silêncio daquele momento um pouco mais.
— Kane se foi? — Daryl questionou, depois de me encarar por um longo tempo. Eu assenti minimamente e não tirei os olhos do mar.
Notei que ele parecia impaciente com a minha falta de palavras.
— E você não foi com ele... — A constatação óbvia tinha um certo misto de surpresa e alivio.
— Você realmente pensou que eu entraria em um barco e cruzaria o oceano sem meu filho? — Virei a cabeça na direção de Daryl e franzi as sobrancelhas.
— Eu não sabia o que pensar... — Ele baixou a cabeça ao mover os ombros.
Deu dois passos para longe de mim e então voltou os mesmos dois passos, era óbvio que estava inquieto.
— Onde estão Rick e os outros? — Questionei neutra, olhando novamente para o mar.
— Eu não vim com eles. Eu não vim pra levar o Kane de volta. — Daryl mordeu a lateral do polegar por alguns segundos, como se estivesse pensando se jogava as palavras pra fora ou não. — Kane fez a coisa certa, não acho que deve ser punido por isso.
Ele usou um tom levemente contrariado e eu sorri de canto, porque era quase engraçado ver Daryl elogiando alguém que ele obviamente não gostava.
Nossos olhos se encontraram na penumbra da noite e ele parecia tão aliviado quanto eu. A maioria de nós queria Negan morto, mas apenas Kane não tinha qualquer amarra que o impedisse de fazer isso...
— Então, por que você veio, Daryl? — Perguntei calmamente, sem desviar os olhos dos dele.
Foi o próprio Daryl quem não sustentou meu olhar, virando o rosto em outra direção, enquanto andava de um lado para o outro.
— Você sabe porque eu vim... — Sua voz não foi mais que um murmúrio.
Claro que eu sabia. Ele estava ali pelo mesmo motivo que eu, ele tinha medo de perder alguém que amava.
No meu caso era o Kane, mas no caso do Daryl era eu...
Mas medo nunca foi um motivo bom o bastante para fazer ninguém ficar.
Nossa situação chegava a ser triste de tão irônica; da última vez, quando Daryl me mandou partir de Dawsonville, tudo que eu queria era que ele tivesse corrido atrás de mim, como uma cena clichê que se repete diversas vezes em filmes de romance.
E então, dez anos depois, lá estava ele correndo atrás de mim, tentando me impedir de partir, quando na verdade eu estava ancorada em terra firme assim como meus pés estavam presos na areia molhada...
— O que você está fazendo? — Meu silêncio o fez observar minhas pernas atentamente, com um vinco entre as sobrancelhas.
— Eu estou afundando. — Respondi apenas.
O rosto de Daryl era a expressão perfeita de confusão e eu ri de canto, quase triste, era óbvio que Daryl Dixon nunca tinha feito algo tão simples como afundar na areia molhada... Era tudo sobre sobrevivência pra ele, mesmo antes do fim. E isso era triste e trágico.
— Você enfia seus pés na areia molhada e toda vez que a onda vem você afunda um pouco. — Expliquei, apontando a água que ia e vinha. — Quando você se mexe um pouco você afunda mais rápido.
Movi sutilmente as pernas para ilustrar. Daryl não entendeu, ficou claro em seu rosto, então eu resolvi compartilhar com ele o significado real de um gesto aparentemente tão bobo.
— Luka fez isso da primeira vez que eu a trouxe na praia e depois meio que se tornou uma coisa que fazíamos juntas. — Contei, sentindo a melancolia se espalhar em mim como vinho tinto em um carpete claro.
Daryl assentiu devagar, havia toda uma compreensão em seu olhar azul, quase como se ele próprio se apagasse a pequenos momentos bobos que no fundo tinham um grande significado.
Me perguntei se Daryl costumava lembrar daqueles pequenos detalhes sobre nós depois que eu parti e, considerando que ele ainda usava aquele colete de asas, eu soube que sim.
Analisei a peça de couro por um momento e desejei saber se ele usava como uma lembrança dos bons momentos, ou como um fardo por nossas más decisões. Conhecendo Daryl Dixon como eu conhecia, provavelmente era pelos dois motivos.
A mesma mão que te fere é a mão que te cura... quão doentio é isso?
Observei Daryl tirar os sapatos e dobrar a barra da calça, para também enterrar os pés na areia junto comigo.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, sentindo as ondas cada vez mais frias em nossas peles e o vento bater em nosso rosto, como um lembrete constante de que ainda estávamos vivos.
Ainda estávamos vivos. Nossos pulmões estavam cansados; nossas mentes estavam marcadas pela tragédia; nossos corpos levavam as cicatrizes como uma armadura; e nossos corações estavam partidos. Estávamos quebrados de todas as formas... Mas ainda estávamos vivos.
E onde há vida, há esperança, não é?
Onde ainda há vida, há também a possibilidade de fazer melhor, de recomeçar, de não cometer os mesmos erros outra vez como dois adolescentes estúpidos e cabeçudos que acham que tudo que existe é o agora.
Podíamos fazer melhor. Podíamos ser melhores... Mas pra isso tínhamos que fazer as escolhas certas. Talvez fosse hora de admitir para nós mesmos que não se pode construir algo novo e sólido em cima de alicerces velhos e rachados.
Ás vezes a melhor escolha é destruir o antigo, para que o novo nasça mais forte...
— Por que você não foi com o Kane? — As palavras saíram incertas da boca de Daryl. Ele não olhava para mim, quase como se tivesse medo de perguntar.
— Eu nunca iria sem meu filho, Daryl. — Falei a verdade. — E eu nunca tiraria o Petter de você. Ele precisa do pai e você precisa dele. Colocar o oceano entre vocês dois não seria justo.
Eu tinha sido afastada do meu pai, e por mais que com o tempo tivesse compreendido melhor a minha mãe, a dor de não ter dois pais maduros o bastante para lidar com aquilo, sem me deixar no fogo cruzado, era algo que eu sempre carregaria. Jamais faria o mesmo com o meu filho.
Daryl ficou calado, como se digerisse cada palavra minha como alguém que degusta um veneno amargo.
Ele começou a roer a lateral do polegar e eu percebi que estar ali afundando na areia molhada era como uma tortura pra ele.
Daryl Dixon era como um animal selvagem, sempre em movimento para nunca ser encurralado, estar parado era algo atípico pra ele. No entanto ele não se moveu, percebi que queria, mas não o fez.
— Isso significa que se não tivéssemos o Petter você teria ido? — Seu tom era amargo, quase irritado, algo bruto muito natural de Daryl, então não me surpreendia em nada.
Virei meu rosto na direção dele e fiz aquela pergunta a mim mesma, visualizar minha vida sem meu filho foi algo que não gostei de fazer. Não se pode amar alguém e então imaginar que essa pessoa não existe, nosso coração não é capaz de entender essa realidade.
— Não sei... — As palavras saíram com um suspiro pesado. — Talvez se eu não tivesse o Petter eu provavelmente estaria morta bem antes do apocalipse.
Daryl finalmente colocou os olhos em mim, assustados olhos azuis, todo um mar agitado, límpidos o bastante para que eu visse a dor da perda neles. Ele sabia que tinha parte de culpa naquele pensamento meu, afinal Petter salvou minha vida depois que Daryl destruiu meu coração. Fazia tanto tempo que talvez qualquer outra pessoa tivesse esquecido...
Nossos olhos ficaram presos por um longo momento, como se um mundo de coisas não ditas fluíssem de nossas mentes.
— Você o ama? — A pergunta saiu da garganta de Daryl como duas laminas afiadas, cortando por dentro dele de uma forma tão dolorosa que ficou clara em cada silaba.
Eu podia mentir, ou omitir a verdade com uma versão mais amena dela, no entanto não era tarefa minha esconder meus sentimentos e pensamentos para fazer Daryl Dixon se sentir melhor. Não mais.
— Amo. Ele é tudo que um dia eu já quis. — Declarei neutra e então voltei a encarar o mar, fugindo dos olhos de tempestade por um momento. — Mas ele não é quem eu sempre quis. Ele não é o homem da minha vida, Daryl. Você é. Eu e você temos esse vínculo insano e inquebrável. E eu acho que isso não depende exclusivamente do Petter.
Voltei a encará-lo, Daryl estava estático, sem reação. Talvez fosse hora de colocar todas as cartas na mesa, dizer o que precisava ser dito. Seguir em frente.
— Kane estava certo, eu não sou a mulher que quer um iate. — Repeti a frase de Kane, voltando meus olhos para o mar e é claro que Daryl não entendeu muito bem. — Eu nunca quis. Eu sempre quis a casa no subúrbio com o gramado verde e o tapete de boas-vindas. Eu sempre quis o lar com o batente onde eu marcaria o crescimento do Petter... E um cachorro com o qual eu tivesse que brigar toda vez que subisse com as patas sujas no meu sofá. Eu sempre quis a parede cheia de fotos e as noites de filmes. Eu queria a rotina e a calmaria; acordar todo dia do lado da mesma pessoa, em uma cama estupidamente grande e cheia de almofadas que eu jogaria no chão durante a noite. Eu queria o cheio de panquecas de manhã e o som das risadas do Petter e da Luka me deixando louca enquanto discutem por algo bobo... Uma casa, um amor, meus filhos e um cachorro. Sempre foi isso que eu quis.
Respirei profundamente, sentido aquela verdade fundo no meu peito e toda a dor que vinha com ela. Voltei meus olhos para Daryl e ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas eu ainda não tinha terminado.
— Mas eu não posso mais ter isso. Não inteiramente. — As palavras tinham gosto de veneno na minha boca, eram amargas de uma forma injusta e devastadora. — Porque agora eu não tenho mais a Luka e não sei como lidar com isso, eu estou quebrada e eu ainda estou tentando descobrir como colar todos os cacos...
Tentei encarar a verdade de frente, sem me abalar com ela e cair em lágrimas. Os olhos de Daryl entristeceram, como se minha dor causasse a dor dele. O vi se mover na minha direção, espalhando alguns blocos de areia molhada quando puxou os pés para se aproximar de mim.
— Podemos fazer isso juntos. — Ele tocou meu rosto com ambas as mãos. — Eu te amo, Natalie. Eu nunca...
Não o deixei terminar, pousei a mão no peito dele e tirei meus pés da areia também, para que ficássemos na mesma altura. Dei um sorriso que era apenas um mover de lábios melancólico.
— Eu amo você, Daryl. Eu amo mesmo, eu sempre vou amar e eu sei que você me ama com todo o seu coração... — Declarei, sendo profundamente honesta. Eu sempre amaria Daryl Dixon, nada tinha o poder de mudar isso, mas... — Eu fiquei por sua causa, mas isso não significa que eu vou ficar com você. Eu não posso te escolher, Daryl. Não agora.
Sua expressão se tornou confusão e desapontamento. Eu vi nos olhos azuis que ele não conseguia entender totalmente.
— Somos ótimos pais, Daryl. Melhor que a maioria e temos algo precioso e importante... — Expliquei, me afastando dele um passo, enquanto ele se mantinha no mesmo lugar, como se fosse incapaz de se mover. — Mas quando somos mais que pais, quando somos um casal, as coisas ficam complicadas.
Ele desviou os olhos, sabia que era verdade. Não podíamos fingir que éramos uma calmaria que nunca tínhamos sido. Éramos intensos, com todas as emoções ampliadas, com a magoa enraizada, com os traumas expostos, com as feridas abertas. Nosso amor era latente como fogo, queimava, ardia, doía.
Mas não podíamos ser tudo isso naquele momento, não era saudável, não era certo criar um filho naquele ambiente. Se eu tinha aberto mão de Kane, porque colocar meu filho em um barco e navegar o oceano não era o certo, então como eu poderia sujeitar Petter a viver dentro de um ambiente que seria como tempestade de verão? Os sentimentos que Daryl e eu tínhamos um pelo outro eram intensos e devastadores, ampliados mil vezes por causa dos traumas não superados...
— Você estava quebrado em Dawsonville e eu achei que podia colar todos os seus cacos, achei que podia me doar inteira e isso bastava. Eu cometi um erro e isso destruiu a gente. — Joguei a verdade entalada na minha garganta, demorei anos para admitir para mim mesma que me doar daquela forma para Daryl não tinha sido certo. Ele não estava pronto e eu devia ter recuado quando notei isso e não forçado os limites sutilmente. — Eu não podia consertar você antes e você não pode me consertar agora. Isso é algo que temos que fazer sozinhos.
Suspirei e Daryl fez o mesmo, passou a mão pelo rosto e se moveu pela areia de um lado para o outro, como se procurasse algo para dizer.
Partia meu coração vê-lo daquela forma, mas no fundo da minha alma eu sabia que era a coisa certa, que era o que precisávamos, que era a única forma, de quem sabe, conseguir construir algo novo e saudável no futuro. Algo que jamais magoaria nosso filho ou a nós mesmos.
— Eu não posso te amar inteiramente, se eu mesma não estou inteira. Não podemos construir um relacionamento saudável em cima de alicerces quebrados. Se fizermos isso agora, cedo ou tarde tudo vai desmoronar outra vez, e agora temos uma terceira pessoa que não pode se ferir no meio disso tudo, e ele vai, se não fizermos a escolha certa. — Tentei colocar todos os meus pensamentos em palavras e me aproximei de Daryl novamente, tocando o braço dele de leve. — Eu não posso te escolher agora, Daryl. Eu tenho que escolher a mim mesma. Eu tenho que redescobrir como me amar e ser feliz de novo. Tenho que aprender a conviver com as minhas rachaduras sem que elas cortem outras pessoas. Eu achei que só podia ser completa com você e o Kane juntos. Mas a verdade é que vocês não podem me ajudar. Ninguém pode.
Ele entendia, podia ver isso em seus olhos azuis marejados, mas entender e aceitar eram duas coisas muito diferentes daquele momento...
— Nosso amor não pode ser uma muleta, Daryl. Não seria justo com nós mesmos. — Continuei e dei um passo para trás, passando a mão no rosto e sentindo aquela necessidade empírica de andar de um lado para o outro que Daryl tinha. — Eu não quero que você me ame como um vaso antigo e quebrado que você colou com glitter só pra manter em casa, e eu não quero te amar como um salvador. Eu preciso me salvar primeiro.
Nossos olhos se encontraram novamente e Daryl desviou os dele, impedindo uma lágrima de rolar com um movimento brusco da mão direita.
— Um dia talvez a gente esteja pronto para construir algo sobre as bases certas, algo bom, lindo e que vai crescer forte e saudável. Mas esse dia não é hoje. — Declarei com um longo suspiro. — Hoje nós precisamos ser pais e podemos ser amigos, mas não devemos ser um casal.
Não era fácil tomar aquela decisão, era como perder o Daryl também... Era como perder tudo que eu amava. Mas era a escolha certa, eu sabia que era, eu tinha que parar de usar as pessoas ao meu redor como um bote salva-vidas. Eu precisava me erguer sobre meus próprios pés, com meu próprio esforço, eu precisava ser meu próprio alicerce.
Ter apoio era bom, claro, talvez fosse essencial, mas me envolver romanticamente com Daryl naquele momento era mais que apoio, era como um vício, uma necessidade de afogar minhas dores naquele sentimento, não era tratar a ferida, era tampar, esconder o ferimento aberto para não ver a feiura dele.
À primeira vista parecia bom e certo, mas eu sabia bem que a longo prazo seria pior, o primeiro problema seria como arrancar a bandagem toda de uma vez, revelando uma dor aguda, um trauma em carne viva, que tornaria qualquer mínimo problema dez vezes mais intensos.
Nosso amor não sobreviveria daquela forma, ele se desgastaria, se consumiria na mágoa.
Eu e Daryl nos amávamos, sem dúvida, mas o amor nem sempre é o bastante...
Assim como um ferimento precisa de tempo para cicatrizar, assim como levamos tempo para nos recuperarmos de uma doença, eu precisava de tempo para lidar com os meus traumas, pra tratar as rachaduras que Negan e a vida tinham aberto em mim.
Eu precisava me encontrar novamente, e não podia fazer isso de mãos dadas com Daryl Dixon.
Ele deu um longo suspiro e negou algumas vezes, se virando para o mar e me dando as costas por um momento. Deixei que ele processasse tudo que eu havia dito, eu sabia que era muita coisa.
O vi colocar as mãos nos bolsos depois de um tempo, chutando um tanto de areia com os pés descalços.
— Eu entendo. — Ele assentiu ainda de costas para mim e sua voz era um amontoado de rouquidão e tristeza. — Você está certa...
Virou na minha direção e seus olhos eram todo um mar de emoções
— Se você precisa disso pra ser feliz, então vá em frente. — Concordou novamente, com uma voz calma e carinhosa. — Ninguém merece ser feliz mais que você.
Eu sorri fraco, melancólica, mas conformada, e ele copiou meu movimento, dando alguns passos na minha direção, até que praticamente não houvesse espaço entre nós.
Meu coração disparou com a proximidade, como sempre dispararia em se tratando de Daryl Dixon. Seus olhos de tempestade focaram em mim, intensos e cheios de uma determinação que fazia o azul das íris ficarem ainda mais vivos.
— Mas... Eu fiz uma promessa, e eu pretendo cumpri-la. — Declarou com firmeza, seu tom baixo, mas totalmente audível por causa da nossa proximidade. — Eu vou te esperar por toda a vida.
Eu não esperava ouvir aquilo, não daquela forma, não naquele momento, mas aquelas palavras me deram paz e conforto de alguma forma, mesmo que também me trouxessem desalento, quase como se eu estivesse presenciando uma injustiça.
Daryl se inclinou na minha direção e depositou um beijo na minha bochecha esquerda, então deu um passo para trás, olhou fundo nos meus olhos, como se isso selasse sua promessa e por fim se afastou, seguiu em direção a moto.
— Precisa de uma carona? — Questionou sem olhar para trás e seu tom de voz embargado me dizia tudo que eu precisava saber. Ele estava chorando.
— Não... Obrigada. — Respondi, ainda parada no mesmo lugar.
Daryl se foi depois disso, não me lançou outro olhar, como se temesse mudar de ideia caso fizesse isso.
E novamente eu fiquei ali na praia... sozinha. Era irônico que eu tivesse tanta certeza de querer os dois e no fim não tivesse escolhido nenhum...
Apenas quando Kane se foi é que eu percebi que eu tinha tanto medo de abrir mão de um deles porque tinha medo da jornada que me esperava depois. No fundo eu sempre soube que teria que teria que abrir mão dos dois para encontrar a mim mesma.
Admitir isso foi o que mudou toda a minha perspectiva.
Eu escolhi a mim mesma, afinal não havia qualquer outra escolha possível. Era a escolha certa.
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