Lifeline — Destiny Don't Give Up
40 Amor Épico - parte I
Notas iniciais
• NATALIE COOPER •
Um ano depois...
— "O tempo cura tudo", é o que dizem... Não sei se acredito nisso. — Falei, movendo a cabeça lentamente para encarar todas as pessoas na roda. — Tempo por tempo não significa nada, é o que fazemos com ele que importa...
Todos os olhos estavam em mim, respirei fundo e umedeci os lábios, me preparando para continuar:
— Situações traumáticas abrem no nosso emocional e na nossa mente feridas profundas, assim como acidentes abrem cortes na nossa pele. Dependendo da gravidade desse corte o tempo não vai fechá-lo, na verdade vai piorar a situação, um simples corte pode infeccionar, um corte muito fundo pode levar a morte... — Dei alguns passos em volta da minha cadeira enquanto discursava. — Feridas emocionais e mentais precisam de tratamento tanto quanto as físicas, até mais talvez... Um machucado na nossa pele é um lembrete constante, porque podemos vê-lo. Mas um trauma emocional não pode ser visto, isso causa a falsa sensação que de que está tudo bem, de que apenas o tempo vai resolver. Isso não acontece, é apenas uma oportunidade para que o trauma se enraíze em nós de tal forma que não saberemos onde ele termina e nossas emoções verdadeiras começam...
Voltei a me sentar, observando cada uma das minhas acompanhantes com um sorriso pacato.
— Mas podemos usar esse tempo de forma proveitosa, podemos procurar a cura e trabalhar por ela. É por isso que estamos aqui, conversamos sobre o problema, compartilhamos nossa dor, nos apoiamos mutuamente e aos poucos vamos tirando tudo isso dentro de nós. O tempo cura afinal, se e quando fazemos algo de proveitoso com esse tempo.
Elas aplaudiram. Havia onze mulheres comigo ali naquela manhã. Eu tinha dois grupos diferentes no Reino, um para mulheres é um para homens. Uma espécie de roda de apoio, como os alcoólicos anônimos ou grupos para veteranos de guerra.
A ideia havia surgido há mais ou menos um ano. Era uma forma de ajudar a mim mesma no começo, mas depois cresceu de uma maneira que eu não tinha previsto.
Eu não devia ter ficado tão surpresa que as pessoas quisessem falar de seus problemas, contar seus medos, serem ouvidas...
No começo eram grupos mistos, mas eu os separei quando notei que as mulheres não falavam tudo que precisavam perto dos homens, algumas delas tinham muito problema com isso. Viver no apocalipse tinha um preço alto para nós, mas mesmo antes sempre pagávamos um preço maior de toda a forma.
Algumas passavam semanas indo sem dizer nada e então eu respeitava o tempo de cada uma, elas apenas ouviam, outras gostavam de falar sobre tudo, e outras preferiam fazer isso em particular.
Quando a coisa começou a crescer eu achei que não daria conta, achei que os problemas das outras pessoas me afetariam demais e o meu processo de cura seria prejudicado. Foi o contrário...
Eu me senti muito mais eu mesma ajudando, como se fosse parte de quem eu era. E aos poucos o progresso de todos os envolvidos era visível.
Alguns paravam de vir, outros chegavam, alguns vinham, mas logo partiam, para voltar depois.
Era uma experiência muito bonita e me ajudou a entender muito mais sobre mim mesma.
Falávamos de tudo, de coisas sérias a banais. Naquela manhã Nabila falou sobre sua gravidez e do medo de construir algo no mundo em que vivíamos, então alguém lembrou a ela que Jerry era um ótimo homem, e que eles ficariam bem...
Eu também compartilhava às vezes, quando sentia necessidade. E de alguma forma a cada reunião eu ficava mais leve, era uma experiência catártica para todos os envolvidos.
E assim os dias passavam. As comunidades cresciam. A paz reinava de um jeito que eu nunca tinha pensado ser possível.
Gostaria de dizer que criei raízes, mas isso seria mentira, eu até queria, mas no fundo sentia que estava apenas de passagem por toda a parte...
Então com o passar dos meses minha rotina se estabeleceu de forma pouco usual, às vezes no Reino, às vezes em Hilltop, até por Oceanside eu passava com frequência. Eu montava os grupos de apoio em todos os lugares e com o tempo as pessoas passaram a me esperar pra isso. Comecei a viajar entre as comunidades três vezes por semana. As coisas foram se ajeitando como tinham que ser.
Petter preferiu ficar com o pai, Daryl e eu concordamos que uma residência fixa seria o melhor. Claro que o meu filho estava comigo praticamente todo o tempo, porque andar de comunidade em comunidade tinha se tornado normal para todos, mas a casa dele era Alexandria.
No fim era uma experiência importante para ele e Daryl, uma forma de estreitar os laços.
E as coisas estavam bem, quer dizer, o melhor que podiam estar...
Eu e Daryl tínhamos um limite invisível que respeitávamos, algo que nos mantinha distantes de uma forma física e emocional, mas que nos permitia sermos bons pais. E não era como se não nos víssemos nunca, na verdade já havíamos saído em missão diversas vezes, sempre com outras pessoas no grupo é claro.
Acho que aquele era o limite, não ficávamos sozinhos. Nunca. Principalmente em lugares fechados... Quando se tratava de Petter podíamos ter longas conversas, mas esse era o máximo de proximidade e intimidade que tínhamos e de alguma forma estava funcionando...
As coisas estavam bem... Eu estava bem.
Me despedi do grupo quando a reunião acabou e então fiquei ali ajeitando as cadeiras, aquele cômodo amplo do Reino não era usado apenas para minhas reuniões, então mantê-lo organizado era o mínimo.
— Natalie? — A voz conhecida me chamou e eu me virei a tempo de ver o sorriso de Carol Peletier.
— Minha rainha. — Fiz uma meia reverência cordial e ela riu.
— Ah, pelo amor de Deus, guarda o teatro para o Ezekiel. — Moveu a mão no ar se aproximando alguns passos.
Mas não era mentira, Carol era mesmo considerada a rainha do Reino, principalmente porque tinha assumido um relacionamento com Ezekiel, e eles eram bons nisso, lideres justos que tinham uma visão única das coisas, faziam uma boa dupla.
De certa forma cada comunidade tinha seus traços únicos, por isso a aliança funcionava tão bem, cada grupo tinha algo com que contribuir, graças a visão distinta de seus líderes.
Eram bons tempos, eram tempos de paz e prosperidade. E frequentemente eu pensava se teríamos essa mesma calmaria e segurança se os Salvadores estivessem vivos... Que tipo de conflito estaríamos enfrentando se Negan ainda estivesse preso em Alexandria?
Com certeza Petter não estaria morando lá, pra começo de conversa, por mais que ele considerasse os Grimes parte da família...
— Como foi em Hilltop? — Carol questionou interessada.
Eu tinha voltado da comunidade liderada por Maggie Rhee na noite anterior, e desde então ainda não tinha falado com Carol.
— Bem, eu trouxe algumas coisas de lá e o Petter me pediu para entregar isso para o Henry. — Peguei um pacote que eu havia deixado em uma mesa ali no canto.
— O que é? — Carol examinou o embrulho com curiosidade.
— Não faço ideia, alguma coisa deles aposto. — Ri, dando de ombros.
Petter e Henry eram muito amigos, sempre estavam juntos quando meu filho vinha passas uns dias comigo no Reino, embora claro, não fosse segredo pra ninguém que Petter preferisse mesmo o Carl.
Pelo visto a amizade de Daryl e Rick era coisa de sangue e tinha passado para a próxima geração.
— E como está o Hershel? — Carol continuou a conversa e eu sorri.
Era impossível não sorrir quando pensávamos em Hershel Rhee, não só por ele ser o próprio símbolo de esperança, mas porque era um bebê adorável.
Maggie tivera um parto tranquilo, assistida de perto por Enid e Siddiq que tinha feito questão de se instalar em Hilltop nos últimos meses de gestação, mesmo que Alexandria fosse seu lar oficial.
O médico era um recurso importante, e frequentemente recebia aprendizes de todas as comunidades, pra que assim todos tivessem seu próprio doutor ou doutora.
O nascimento bem-sucedido de Hershel tinha sido como um sopro de renovação, tinha deixado as pessoas mais confiantes para seguirem em frente e aumentarem a própria família.
Era um novo mundo afinal e as coisas progrediam em seu próprio ritmo.
— Adorável. — Respondi em meio ao meu sorriso. — Ele está engatinhando por toda parte. Maggie fica louca.
Carol sorriu, da forma que as pessoas sempre sorriam quando o assunto era o pequeno Hershel.
— Eu estou devendo uma visita. Mas sabe como é, tem sempre muita coisa pra fazer por aqui. — Ela suspirou, mas não de cansaço e sim de realização. Carol amava ver a comunidade prosperando. — E Alexandria, tem ido lá ultimamente?
— Mais ou menos. — Dei de ombros como se não fosse nada. — É território do Daryl.
Carol estreitou os olhos minimamente. Claro que ela sabia de tudo aquilo, afinal ela e o caçador eram amigos próximos e Daryl estava no Reino de vez em quando, seja para trazer ou buscar Petter, seja pra qualquer outro assunto da aliança de comunidades.
— Eu não acho que ele impôs limites. — Ela comentou em um tom neutro.
— Não, não impôs. — Fui honesta. Daryl apenas respeitava os meus limites e escolhas, ele não era mais o mesmo cara cheio de barreiras de anos antes, pelo menos não comigo. — Acho que fui eu... Mas vai passar com o tempo.
— Porque você está fazendo algo de produtivo com o seu tempo, não é? — Ela disse em um tom divertido e levemente acusatório.
— Você estava ouvindo. — Afirmei, sabendo que ela tinha acabado de citar parte do meu discurso.
— Eu gosto de ouvir os seus discursos. — Carol confessou dando de ombros. — Eu fico na abertura e depois vou embora para dar privacidade para as pessoas.
Ela deu alguns passos pelo cômodo e eu notei que "a rainha" não estava ali apenas para perguntar sobre as comunidades, havia algo mais...
Eu tinha ficado muita boa em ler pessoas naquele último ano.
— Podia vir se sentar conosco. — Convidei casualmente, sondando o terreno para ver se descobria o real motivo de Carol estar ali.
— Por aqui eu sou a rainha, as pessoas ficariam constrangidas de falar na minha frente. — Ela comentou como quem não quer nada, mas notei uma mudança em sua voz.
Não era atípico eu ser procurada daquela forma, por pessoas que não queriam se sentar em grupo, mas ainda assim queriam ser ouvidas. Pensei que esse fosse o caso ali.
— E você ficaria constrangida de falar na frente delas? — Perguntei, ainda mantendo o tom casal.
— Talvez... — Carol moveu a cabeça de um lado para o outro.
Puxei duas das cadeiras que eu tinha acabado de guardar as coloquei no centro do cômodo, de costas uma para a outra.
— Aqui. — Apontei para que Carol se sentasse.
— O que é isso? — Ela estreitou os olhos para a posição das cadeiras.
— Algumas pessoas preferem não falar olho no olho, pelo menos no começo. — Me sentei de costas para Carol. — É quase como se confessar com um padre, eu acho. A diferença é que não vou te passar penitencia...
Senti quando Carol se sentou. A coisa com a posição das cadeiras era algo que eu tinha desenvolvido com o tempo, coisas que a gente aprende e adapta quando lida com pessoas.
Para alguns, falar sem ser encarado parecia mais fácil...
— Acho que o Gabriel não é tão popular quanto você. — Ela riu, e senti o movimento quando se ajeitou na cadeira.
— Gabriel não anda tanto por aí como eu. — Devolvi bem-humorada.
Realmente, Gabriel mantinha uma paroquia em Alexandria, mas raramente deixava a comunidade, então eu certamente tinha uma vantagem ali.
— Deve ser... — Carol suspirou e senti que ela estava procurando uma forma de começar o que queria me dizer. — Eu costumava ser católica sabe? Eu rezava o terço, fazia novenas... Que besteira.
— Por que acha besteira? — Questionei em um tom neutro, procurando perguntas que a fizessem se abrir um pouco mais.
— Porque Deus não ajudou quando a minha Sophia fugiu. — Ela respondeu e senti sua voz mais fria.
Foi visceral demais para que eu não me identificasse.
— Eu conheço esse sentimento. — Admiti, contemplando o passado cruel. — Ainda amarga a sua boca?
— Às vezes... — Carol respondeu e sua voz assumiu um tom mais neutro. — Mas hoje em dia as coisas mudaram, eu sou mais forte, eu segui em frente, acho que era isso que a Sophia gostaria de mim. Eu tenho orgulho de quem eu sou hoje.
Por um segundo senti que podíamos estar falando de mim também. Talvez essa fosse a mágica dos grupos de apoio, nos identificávamos nas situações de outras pessoas e vê-las superando, ou mesmo ver como elas encaravam essa dor nos dava muita perspectiva sobre nossos próprios problemas.
Ao encarar a superação de outra pessoa podíamos achar formas para encontrar nossa própria e ao ver um comportamento autodestrutivo identificávamos nossos próprios defeitos, encontrando uma forma melhor de lidar com eles, afinal mesmo maus exemplos podiam ser usados para o bem.
O próprio Daryl era uma prova viva disso, havia crescido em um ambiente tóxico com um pai horrível, isso o fez ter medo por muito tempo, enraizou traumas nele, mas quando chegou o momento ele percebeu que não era, e não queria ser, como o pai dele. O exemplo ruim o impulsionou a ser um pai melhor.
Ah, e Daryl Dixon era um ótimo pai... Ele tinha se encontrado nisso, vê-lo com Petter era sempre um espetáculo à parte que colocava um sorriso no meu rosto. Claro que às vezes ele era um pouco mole, mimava demais, fazia todas as vontades, mas esse lado doce e protetor era encantador demais para ser considerado um defeito.
— Devia ter orgulho mesmo, você é admirável Carol. — Voltei minha mente para o tempo presente, tirando Daryl Dixon dos meus pensamentos.
Carol ficou em silêncio por um tempo, como se estivesse pensando no que dizer ou decidindo o que diria.
— Algo aconteceu esse mês... — Ela começou em um tom quase casual. — Eu esqueci de cortar o cabelo.
Não fiquei surpresa ou estranhei o fato dela ter começado com um evento aparentemente aleatório, eu vinha ouvindo pessoas há tempo o bastante para saber que, mesmo as mínimas coisas, podiam ter grandes impactos quando se tratava de traumas e problemas emocionais.
— Você deve achar que é algo estúpido, e talvez seja... — Percebi ela mover os ombros nas minhas gostas. — Mas eu não sinto assim.
— E como você sente? — Perguntei neutra, abrindo o caminho para que ela colocasse tudo pra fora.
— Eu sinto alivio e liberdade pela primeira vez. — Pude notar o sorriso em seu tom de voz.
— Quer contar porquê? — Continuei no meu papel de ouvinte. — Não precisa se não quiser.
— Não, eu quero. — Carol respondeu firme. — Eu quero dizer isso em voz alta.
Então eu esperei que ela continuasse, foram alguns segundos, como se ela estivesse buscando uma forma de me contar, ou pensado se realmente o faria.
Muitas pessoas iam embora naquele momento, se abrir sobre um evento traumático era muito complicado, eu demorei meses para falar sobre os meus. Mas quando finalmente falei foi como me libertar de um peso que oprimia meus pulmões.
Falar sobre Negan foi mais difícil do que pensei, falar sobre Luka foi doloroso e incrivelmente triste, como imaginei que seria, mas falar sobre Daryl, coisa que eu só tinha feito bem recentemente em uma reunião de Oceanside, tinha sido interessante...
Era a primeira vez que eu contava toda a nossa história em voz alta pra alguém e foi transformador olhar para tudo de fora, não mais como uma adolescente dramática e envolvida, mas como uma mulher adulta que podia analisar cada evento isolado.
Muito da mágoa se foi quando assumi minha parcela de culpa na nossa tragédia romântica, além disso eu entendia Daryl Dixon melhor, depois de carregar e conviver com meus próprios traumas.
Achei que a empatia de antes fosse o bastante para ver as coisas pelos olhos dele, mas honestamente não era, só entendemos plenamente a dor e todas as restrições que ela causa, quando passamos pela dor. E eu, da minha posição de garota branca privilegiada, jamais seria capaz de entender Daryl e as decisões dele da forma como eu entendia naquele momento.
Só então eu fui plenamente capaz de encerrar aquele capitulo da nossa vida, perdoar os adolescentes tolos que éramos e aceitar que poderíamos ser adultos melhores. A maturidade muda toda nossa perspectiva.
— Eu tinha um péssimo marido. Ed. Nem sei como me apaixonei por ele... — Carol começou e puxou meu pensamento que tinha voado sem permissão para Daryl Dixon outra vez. — Suponho que no começo não fosse tão ruim, mas sempre esteve lá sabe? Aquela agressividade, a falta de respeito, o jeito de me tratar como se eu fosse inferior... Depois de um tempo ele começou a me bater. Primeiro eram nas brigas, depois quando ele estava bêbado, depois virou rotina. Quando eu tentava escapar ele me puxava pelo cabelo. Era horrível. Um pesadelo.
Senti a história dela doer em meu peito e agradeci estarmos de costas para que minhas emoções não fossem percebidas, parte do trabalho de escutar era não deixar que a outra pessoa fosse inibida pelo que sentíamos a respeito da história dela.
— E então eu passei a cortar os cabelos bem curtos, isso o deixava bravo, ele me bateu da primeira vez, mas quando eu consegui escapar e me esconder no quarto eu soube que tinha feito a coisa certa. — Ela soou mais firme e então riu sem humor. — Claro que isso não me livrou todas as vezes, mas me livrou algumas e de alguma forma acho que me manteve viva.
A deixei continuar sem interrupções, cortar a narrativa dela não era algo aconselhável, aquilo não era sobre minhas opiniões pessoais, era sobre o desabafo dela.
— Então eu acostumei, eu continuei fazendo mês após mês, mesmo quando os mortos chegaram. Acho que é o que você falou sobre não saber mais onde termina o trauma e começam minhas reais emoções... — Ela parou pensativa por um momento — Mas então esse mês eu não cortei... Não foi planejado, eu só esqueci. Ezekiel me trata tão bem e é tão educado o tempo todo, eu estou tão atarefada com as coisas... eu esqueci.
Ela riu e senti quando negou várias vezes.
— E agora eu decidi que não quero mais cortar, não quero cortar nunca mais. Não porque alguém pediu ou porque alguém prefere cabelo comprido, mas porque eu não quero mais cortar. — Soou forte e decidida, leve. — Eu estou livre, nada mais pode me ameaçar.
A ouvi suspirar, senti quando encostou o corpo na cadeira e encarou o teto.
— É bem estúpido, não é? É só um corte de cabelo afinal... — Terminou rindo sem humor.
— Não tem nada de estúpido nisso Carol, é bem longe disso. — Respondi firme. — Você venceu um ciclo vicioso do trauma, isso não é estúpido isso é lindo. Eu estou orgulhosa de você, você devia estar também.
Era uma opinião honesta, encontrar redenção para algo que nos feria era sempre um grande evento, não importava o quanto parecia insignificante.
— Eu estou. — Seu tom de voz acompanhava a certeza de sua resposta — Por isso eu queria compartilhar com alguém.
— Obrigada por compartilhar isso comigo, foi inspirador. — Admiti, afinal eu também tinha meus próprios bloqueios para trabalhar.
— Talvez isso ajude alguém a sair do ciclo vicioso dos traumas também. — Ela se levantou e me encarou por alguns momentos de um jeito estranho que me fez repensar o motivo de nossa conversa. — Boa sorte, Natalie.
Então ela se foi, assim do nada, nada parecida com a mulher que tinha entrado ali, senti que Carol não tinha sentado naquela cadeira para ser ouvida, ela tinha sentado para falar comigo especificamente. Ela não estava ali porque precisava de ajuda, estava ali para me ajudar.
Isso era possível? Ou era apenas uma impressão da minha mente culpada.
Afinal eu reproduzia alguns ciclos viciosos toda vez que colocava os pés para fora do Reino...
Isso tem que parar, Natalie, disse a mim mesma, terminando de arrumar as cadeiras do grupo e pegando minha jaqueta antes de seguir para os estábulos.
Aos poucos estávamos deixando de usar veículos movidos a gasolina, por isso a criação de cavalos era tão importante. Eu tinha um garanhão branco que Petter batizara de Pegasus.
Eu tinha salvado o animal de uma pequena horda meses atrás e então de alguma forma ele tinha pegado confiança em mim.
Era um bom cavalo, rápido, forte e, quando se tratava de mim, dócil. Em uma de minhas idas a Hilltop Maggie dissera que eu tinha um dom para domar coisas selvagens... Na ocasião eu preferi me fazer de desentendida e fingir que não sabia que ela estava falando do Daryl.
Preferi não pensar nele quando montei, eu tinha que lidar com outro tipo de ciclo vicioso do trauma, Daryl Dixon ficaria para outro dia...
Geralmente Pegasus tinha uma carroça acoplada a cela, algo que me permitia levar coisas não tão pesadas de uma comunidade para outra. Eu não gostava muito de cansar meu companheiro de viagem, por isso deixava as coisas maiores para as carroças com mais cavalos. Mas naquele início de tarde eu montei na cela e parti do Reino sem qualquer bagagem extra, apenas eu e Pegasus cavalgando pela estrada deserta.
Meu ciclo vicioso terminaria naquele dia...
Eu geralmente fazia o caminho mais longo para alcançar a estrada que ligava o Reino a outras comunidades, havia um lugar no caminho mais curto que ainda me causava arrepios e pesadelos.
Respirei bem fundo quando cheguei ao cruzamento, minhas mãos tremeram nas rédeas e Pegasus parou na estrada. Eu queria voltar, queria fugir dali como uma criança foge do bicho papão. Mas já fazia um ano que eu vinha evitando aquele caminho. Eu sabia que era hora de seguir em frente, de enfrentar minhas dores de frente para que elas enfim pudessem cicatrizar.
— Okay... — Assenti para mim mesma, segurando as rédeas com firmeza. — Somos só você e eu agora Pegasus.
Fiz o cavalo voltar a galopar lentamente. Eu não sabia se seguir aquele ritmo era a melhor coisa, ou se era apenas tortura, mas a cada quilometro eu sentia meu coração mais gelado e as minhas mãos mais suadas.
Engoli em seco assim que vi a curva na estrada, eu sabia que depois dali eu já seria capaz de ver o lugar que eu vinha tentando evitar. Mais alguns metros apenas e eu veria os destroços do antigo posto dos Salvadores.
O lugar onde Luka havia morrido.
O lugar onde o corpo dela ainda estava debaixo dos destroços, sujeira e cinzas. Sem um enterro adequado. Sem a paz que ela merecia.
As lágrimas já estavam rolando pelo meu rosto antes mesmo que eu me desse conta, minhas mãos começaram a tremer incontrolavelmente.
Eu posso fazer isso, eu posso fazer isso... repeti para mim mesma, no entanto fechei os olhos com força quando Pegasus continuou em seu ritmo lento.
Eu sabia que precisava abrir os olhos, sabia que apenas passar por ali de olhos fechados não era superar nenhum ciclo vicioso do trauma. Mas eu não conseguia.
Senti que estava tendo um ataque de pânico. Eu tinha aprendido a identificá-los com a ajuda de Siddiq, eu entendia que a sensação de areia nos pulmões e de que não havia oxigênio o bastante ao meu redor não eram reais. Mas isso não significava que era fácil passar por isso.
Fazia muito tempo que eu não tinha um desses, meses talvez, mas naquele momento eu soube que não podia fazer aquilo, eu tinha que voltar, eu não podia ficar ali, eu não estava pronta.
Mantive meus olhos fechados e puxei as rédeas, para que Pegasus desse a volta, assim que ele começou a virar respirei fundo, sabendo que respirar era essencial em um ataque de pânico.
Foi quando o cheiro entrou por minhas narinas e perturbou todos os meus outros sentidos, me causando confusão imediata. Com certeza não era daquela forma que aquele lugar deveria cheirar...
O perfume floral, leve e adocicado me fez abrir os olhos por puro instinto, quando me dei conta já tinha feito. A surpresa foi tão grande a arrebatadora que senti minhas sobrancelhas se erguerem enquanto meu queixo caia, tive que piscar algumas vezes e olhar ao redor para me certificar que estava no local certo antes de realmente acreditar no que estava vendo.
Isso não pode ser possível...
Com os olhos pregados na visão a minha frente eu saltei do Pegasus e dei alguns passos incertos. Eu estava olhando para a área de um dos antigos postos dos Salvadores, eu estava olhando para o mesmo local onde Luka havia morrido nos meus braços, mas não havia nada do que eu esperava ali.
Eu temia ver o mato cobrindo tudo, temia a destruição, os entulhos e o caos, os fragmentos da desgraça. Mas nada disso estava lá, muito pelo contrário... Todo o terreno estava bem cuidado, não havia qualquer vestígio das estruturas destruídas pela explosão, não havia as cinzas negras das chamas e os entulhos de concreto, ferro e madeira...
Havia apenas paz e calmaria em um lindo e enorme campo de girassóis.
Deixei Pegasus em baixo de uma árvore na beira da estrada, mas sequer pensei em prendê-lo, então caminhei para o milagre de amarelos e verdes que se estendia por toda a parte. Minhas pernas estavam bambas, meus olhos cheios de lágrimas. Eu não conseguia pensar com clareza ou acreditar no que via.
Caminhei por entre os girassóis, a textura das pétalas acariciando meus dedos por onde eu passava, eu podia ouvir algumas abelhas e até pensei ter visto um beija-flor passar pelo meu lado direito.
Eu não fazia ideia de como tudo aquilo tinha aparecido ali, não fazia ideia de como toda a destruição tinha sumido... mas eu notei que tinha acontecido há um tempo, tempo o bastante para que as abelhas e os pássaros tenham se sentido seguros para se aproximar e fazer do local seu novo habitat.
Minha mente era um misto de confusão e jubilo, o terror de estar ali tinha sumido totalmente...
Prossegui por entre as grandes flores amarelas, procurando por qualquer vestígio da destruição. Mas não havia nada, apenas beleza e paz, algo feito obviamente por mãos humanas, não era um acaso da natureza.
Meus passos seguiam incertos por ali, a emoção transbordando de mim sem controle, até que vi algo que fez meus joelhos falharem por um momento.
Mal sei como consegui me aproximar, acredito que o fiz cambaleante. No fim do campo de girassóis, rodeado de verde e flores pequeninas e rasteiras havia um túmulo improvisado.
Caí de joelhos em frente a cruz de madeira, mal sendo capaz de enxergar por causa de todas as lágrimas que nublavam a minha visão.
Deixei meu corpo encontrar o chão e apenas chorei tudo que eu precisava, de raiva, de dor e naquele momento, enfim, de alivio, tudo aquilo era uma grande conclusão, como o encerramento que eu precisava e que, até aquele dia, eu tinha absoluta certeza que não teria.
Apenas coloquei tudo pra fora sem pensar em mais nada, apenas deixei a dor se esvair de mim, deixei que as lágrimas lavassem tudo por quanto tempo precisei.
Não sei dizer quanto tempo ao certo passou, horas talvez, mas sei que quando coloquei os pés no campo ainda era fim de manhã e naquele momento, quando eu finalmente consegui respirar aliviada e as lágrimas secaram, o Sol já havia passado e muito de seu ápice.
Fiquei deitada ali por mais alguns minutos, sentindo a calmaria do lugar me envolver e me trazer uma certa paz.
Luka estava morta, eu nunca seria capaz de mudar isso, nunca seria capaz de esquecer, nunca deixaria de doer, sempre seria amargo... Mas naquele momento, deitada ali entre as flores, com todos os girassóis ao meu redor, ouvindo os pássaros cantando, eu permiti que a culpa se fosse, eu me perdoei.
Senti que ela podia descansar em paz ali e isso foi bastante para que eu ficasse em paz também.
Finalmente me levantei, sentando na gama verde enquanto tirava as folhas do cabelo.
— Agora preciso descobrir quem fez isso... — Falei em voz alta, procurando Pegasus com o olhar o encontrando em uma sombra a minha direita, bebendo água de um tipo de valeta que parecia ter sido cavada ali, quase como se alguém quisesse formar um riacho.
Eu ainda estava com isso em mente quando meus olhos pousaram na cruz de madeira, fincada na terra. Só então eu pude analisá-la com atenção, afinal antes disso eu mal conseguia ver direito por causa da minha vista nublada.
Luka Cooper
Amiga Corajosa
Amada Filha e Irmã
As palavras gravadas na madeira fizeram as lágrimas brotarem nos meus olhos outra vez, junto com um sorriso nos meus lábios.
Me aproximei e deslizei o dedo por cada letra, eu não precisava mais procurar quem tinha feito aquilo, eu reconheci o autor pela caligrafia irregular, caída para a esquerda...
Claro que eu não o tinha visto escrever tantas coisas na vida, mas era uma caligrafia que eu havia guardado na memória, principalmente porque o autor costumava aranhar a caçamba de uma velha caminhonete azul daquele mesmo jeito...
Daryl Dixon.
Um sorriso involuntário brotou no meu rosto e eu logo me coloquei de pé. Olhei ao redor uma última vez e então segui para Pegasus. Eu tinha algumas perguntas sobre aquilo, "como" e "por que" principalmente, mas eu sabia onde conseguir respostas. E acima disso: eu sabia onde e a quem agradecer...
Montei Pegasus e deixei a paz dos girassóis para trás, ganhando a estrada mais rápido daquela vez, prometendo a mim mesma que eu não mais evitaria aquele lugar, na verdade talvez eu começasse a gostar de passar por ali em todas as oportunidades...
Aos poucos o céu vespertino escurecia, por conta das nuvens carregadas pairando acima de nós, provavelmente choveria no início da noite, mas eu não me preocupei realmente com isso, apenas fiz Pegasus galopar um pouco mais rápido. Cerca de duas horas depois eu já podia avistar os portões de Alexandria.
A comunidade de Rick Grimes tinha prosperado a seu próprio modo, assim como todas as outras, as quatro comunidades plantavam, cada uma focando em uma variedade diferente, era algo que todos tinham combinado, dessa forma as trocas podiam ser proveitosas para todos, mas é claro que também havia certas coisas que cada comunidade tinha de diferente da outra: como os peixes vindos de Oceanside, graças ao mar que elas tinham tão perto; as ferramentas e armas brancas vindas de Hilltop, afinal eles tinham o melhor ferreiro; as munições vindas de Alexandria, vantagens de ter Eugene por perto; e as armaduras e outras confecções do Reino, que possuía o melhor time de costureiras e artesões sobreviventes.
Assim as comunidades conseguiam o que não produziam na base da troca, era um modo que vida que vinha funcionando bem naquele último ano.
Os portões se abriram antes mesmo que eu acenasse, isso porque havia uma pessoa saindo naquele exato instante.
— Natalie... — Jesus me saudou educadamente.
Acenei quando nos cruzamos e ele seguiu seu próprio rumo, do ponto de vigia no muro Aaron via o homem se afastando.
Não era exatamente um segredo que os dois tinham se aproximado bastante neles últimos meses. Suponho que as pessoas tendiam a procurar vínculos, era assim que a vida seguia em frente.
No caso de Aaron e Jesus uma hora ou outra algum deles teria que ceder, e eu me perguntava qual deles o faria. Jesus era o braço direito de Maggie em Hilltop, mas Aaron fazia parte do conselho de Alexandria, era quase impossível saber qual dos dois se mudaria. Especialmente porque Aaron tinha Grace, uma bebê que ele adotara durante a guerra, eu não o imaginava abrindo mão de certas mordomias que apenas Alexandria tinha por ser uma comunidade autossustentável, a única com energia elétrica, mas que era usada com muita moderação.
Era interessante analisar as particularidades e peculiaridades de cada comunidade, que não se limitavam apenas a questões de produções. As prioridades também eram diferentes, no Reino era tudo sobre qualidade de vida, com preservação da arte, noites de cinema... Oceanside era a mais reservada de todas, não aceitava homens em seu território e definitivamente não recebia novos membros. Hilltop focava em produção e crescimento como nenhuma outra comunidade e Alexandria tinha todo um esquema de segurança bem montado.
Se vivêssemos na história dos três porquinhos, Alexandria certamente seria a casa de tijolos. Por isso eu ficava bastante tranquila que Petter vivesse ali. Quer dizer, o mais tranquila que um apocalipse permitia. Foi difícil no começo, ter meu filho morando em outro lugar, não estar com ele a todo minuto, mas com o passar do tempo eu percebi que foi a melhor decisão pra ele...
Voltando as comunidades, seu estilo de governo também era muito distinto. O Reino era obviamente uma monarquia. Oceanside era uma cooperativa onde todas decidiam, não ter tantos membros possibilitava algo assim. Hilltop era uma democracia completa, com votação e tudo, uma que Maggie tinha ganhado praticamente com unanimidade. E Alexandria tinha seu próprio estilo, um tipo de conselho, algo que parecia ter funcionado para o grupo de Rick antes, claro que ele ainda era o líder, o mais ouvido e respeitado ali dentro, mas devido aos erros de julgamento e planejamento, cometidos durante a guerra, ele se cercou de pessoas que o ajudariam a comandar melhor. Era esperto.
Aaron me cumprimentou quando passei pelos portões e logo uma figura bem conhecida veio correndo me saudar, com seu rabo balançando e sua respiração ofegante.
— Bolt! — Me abaixei para acariciar o cachorro, enquanto um dos membros de Alexandria se oferecia para cuidar de Pegasus.
— Natalie? — Ergui os olhos para a voz que me chamava com surpresa.
— Rick! — Sorri ao ver o líder de Alexandria se aproximando.
Ele me deu um abraço amigável e sorriu, Rick era alguém mais leve naqueles tempos, não tinha um vinco constante entre as sobrancelhas e não andava como se o peso do mundo estivesse em suas costas.
Aqueles meses de paz tinham dado a ele a chance de refletir melhor, a calmaria lhe fizera bem.
Me lembrei de uma conversa que tivéramos dois ou três meses depois da morte de Negan, quando Rick me pediu desculpas por suas escolhas e admitiu que talvez as coisas fossem melhores sem a sombra dos Salvadores e seu líder. Ele também disse que os portões de Alexandria sempre estariam abertos para mim.
Rick era um homem decente, ele dava o braço a torcer, admitia erros, lutava pelo que era certo. Não me admirava que conquistasse a confiança das pessoas. Em situações de crise ele era um tanto instável, mas cada um lidava com as coisas do modo que podia e, depois de saber tudo que aquele grupo tinha passado antes de chegar em Washington, ficou mais claro pra mim porque cada um deles era como era.
— Faz muito tempo que você não vem aqui. — Rick comentou e me analisou por alguns segundos, talvez procurando traços de que havia algo errado.
Estávamos sempre preparados para uma crise, era comportamento padrão de todos em um apocalipse.
— Eu vim aqui mês passado. — Respondi casualmente, mas Rick não pareceu convencido.
— Aqui dentro. — Ele apontou.
Era verdade, eu geralmente não passava dos portões, esperava Petter do lado de fora, entregava qualquer coisa ali mesmo. Eu tinha um limite ali, se muito colocava os pés pra dentro para que Pegasus bebesse água, mas sequer tinha andado pela comunidade para ver as reformas.
Pensei em algo para responder, mas felizmente não precisei, Petter vinha andando por uma das ruas com Carl e Judith e assim que me viu sua voz ecoou por toda a comunidade.
— Mãe! — Ele correu na minha direção, assim como fazia todas as vezes.
— Oi, Pequeno Gafanhoto! — Eu o abracei apertado, notando que mesmo aqueles últimos dois dias o tinham feito crescer.
Cumprimentei Carl e a pequena Judith também, recebendo um sorriso infantil da menor, enquanto Carl parecia genuinamente feliz de me ver ali.
Ele usava um óculos, uma lente negra sobre o olho ferido e apenas a armação vazia sobre o olho bom, eu tinha quase certeza que havia alguns dedos de Petter na escolha daquele acessório.
— Está tudo bem? — Um filho pareceu preocupado, observando meu rosto com atenção.
Provavelmente eu estava com os olhos vermelhos, afinal tinha chorado por muito tempo, e claro que isso não passaria desapercebido por Petter.
— Está tudo ótimo. — Garanti com um sorrio, aproveitando para dar-lhe um beijo. — Então, onde está o seu pai? Eu preciso falar com ele.
Petter franziu as sobrancelhas, parecendo surpreso com a minha pergunta.
— Papai está em casa, ele chegou de uma caçada agora pouco. — Respondeu e ainda parecia estranhar minha visita.
Realmente não era típico que eu procurasse Daryl daquela forma, era sobre aquela minha regra de limites, mas pelo visto era o dia de quebrar limites, então...
— Certo. — Assenti me colocando de pé e olhando ao redor, notando que eu não fazia a menor ideia de qual das casas Petter e Daryl tinham escolhido. — É pra lá?
— Eu posso chamar ele pra você! — Petter pareceu repentinamente assustado, quase como se tivesse escondendo algum tipo de segredo.
Franzi as sobrancelhas tentando entender aquela reação estranha.
— Acho que sua mãe pode ir sozinha. — Rick pousou a mão direita no ombro de Petter e lhe lançou um olhar curioso, quase como se os dois soubessem de algo que eu não sabia.
Então ele me explicou qual das casas procurar, apontando a direção. Petter sorriu animado e disse que me via mais tarde, saindo dali com Carl e Judith.
Definitivamente estranho.
De toda forma, achei que fosse impressão minha e segui o caminho indicado. Logo encontrei a casa, ficava em uma parte mais remota da comunidade, perto do lado e do parquinho.
Eu não me lembrava de ter uma casa ali, na verdade, mas fazia muito tempo que não pisava em Alexandria, então podia estar enganada.
Analisei a fachada da casa por um momento e franzi as sobrancelhas; não parecia com as outras, era notavelmente menor, mesmo que tivessem dois andares e parecia muito nova...
Quer dizer, a maior parte das casas tinham algo novo, afinal Alexandria tinha sido reconstruída depois do ataque dos Salvadores, mas aquela era diferente, não só em se tratando de arquitetura, ela era inteira nova... Seu gramado era verde, sua fachada branca com detalhes azul escuro, tinha uma pequena varanda com o cercado nessa cor e um par de janelas grandes em cada andar.
Era o tipo de casa adorável e aconchegante de subúrbio.
Me aproximei pelo caminho de pedras que se abria no gramado e então bati na porta, notando o capacho ali na entrada com os dizeres "bem-vindos" gravado em cinza na superfície preta.
Era estranho ter um tapete de boas-vindas no apocalipse...
Esperei alguns minutos e como não obtive qualquer resposta bati novamente.
— Já vai! — A voz de Daryl fez meu coração disparar por algum motivo idiota e eu me senti estranha por estar ali na porta dele.
Pela primeira vez pensei melhor sobre aquilo e talvez fosse melhor ter esperado nos encontrarmos em um lugar neutro.
Não, ele tinha feito tudo aquilo, o mínimo que eu podia fazer era agradecer.
Vi a maçaneta se mover e todo meu corpo ficou tenso. Enquanto a porta se abria tentei dizer a mim mesma que era uma reação idiota e muito imatura.
Os olhos azuis de Daryl encontraram os meus e eu vi os sentimentos passarem por ele com clareza. Confusão, surpresa e incredulidade.
— Oi... — Tentei soar casual, mas a verdade é que prendi a respiração.
Daryl tinha os cabelos molhados como se tivesse acabado de sair do banho, era assim que ele cheirava pelo menos, sabonete e frescor.
— Natalie... — A surpresa em sua voz trouxe uma certa tensão aos olhos azuis. — Tudo bem? Tem alguma coisa errada?
— Não. — Me apressei em responder, afinal eu sabia que estar ali era atípico. — Está tudo bem, sério.
Daryl analisou meu rosto e foi como se algo ligasse em sua mente, ele pareceu assustado, tenso, constrangido, tudo ao mesmo tempo. Uma reação que eu realmente não entendi, principalmente quando ele deu um passo para fora e fechou a porta atrás de si.
— Eu só queria conversar com você... — Comecei, sentido o clima estranho pairar entre a gente.
Havia algo errado, quer dizer, tínhamos uma boa convivência, agíamos normal perto um do outro. Mas aquela postura de Daryl dizia o total completo disso, quase como se ele estivesse escondendo alguma coisa.
Pensei que talvez fosse melhor ter mantido aquele limite, mas eu já estava ali, seria estranho partir do nada.
— Eu usei a estrada norte para vir do Reino hoje. — Revelei e os olhos azuis de Daryl viraram puro entendimento.
— Oh... Você viu... — Ele pareceu ainda mais constrangido.
— É, eu vi... — Afirmei movendo a cabeça e notando que Daryl ainda mantinha a mão direita na maçaneta, quase como se estivesse segurando a porta para que ninguém entrasse.
— Não estava pronto ainda, eu... — Respondeu engolindo em seco, claramente não sabendo como agir, então seus olhos ficaram confusos. — Espera, como você sabe que fui eu?
— Reconheci a sua caligrafia na cruz. — Sorri de canto. — Tinha seu nome riscado na caçamba da sua caminhonete com aquela mesma letra.
Daryl abaixou a cabeça e sorriu de canto, pude sentir a nostalgia dele acertar direto no meu coração. Nossos olhares se prenderam um no outro e eu tentei focar no que realmente estava fazendo ali, para não ser arrastada para a tempestade daqueles olhos azuis.
— Eu não sei o que dizer, de verdade. É lindo. — Foi honesta, quis abraçar Daryl, mas não achei que seria apropriado, principalmente porque parte da postura tensa dele ainda estava lá e a mão dele permanecia na maçaneta. — Por que não me disse?
— Não estava pronto ainda... — Um relâmpago cortou o céu, anunciando a chuva vindoura e Daryl encolheu os ombros como se tudo aquilo não fosse nada demais.
— Ela amaria, amaria cada parte, eu não sei como agradecer. — Falei, me lembrando de cada detalhe e sentindo meus olhos marejarem de novo.
— Você não tem que agradecer nada... — Ele devolveu em um tom calmo e cuidadoso.
— Ah, eu tenho sim, é... — Suspirei, não soube como terminar, não soube como explicar o quanto aquilo tinha sido importante pra mim. — Por que não me chamou pra ajudar? Não tinha que fazer isso sozinho.
— Você não precisava dessa dor. — Daryl respondeu e eu entendi que ela sabia exatamente o quanto aquilo importava. — E eu não fiz sozinho, eu tive ajuda, muita ajuda. Rick, Aaron, Eugene, Jesus, Carol, Michonne, Tara, Rosita, Maggie mandou umas coisas, enfim, todo mundo ajudou um pouco...
A surpresa ficou evidente no meu rosto e eu só pude sorrir enquanto transbordava de gratidão. Eu fiquei sem palavras por um segundo inteiro. Ainda queria abraçar Daryl, mas de novo parecia inapropriado, o clima continuava um tanto estranho.
— Então... Você e Petter guardaram segredo de mim todo esse tempo? — Perguntei quando o silêncio me pareceu constrangedor.
— Petter não sabe de nada sobre isso. — Daryl se apressou em dizer. — Você disse pra ele que a enterrou em um campo de girassóis, e que um dia o levava lá, eu não queria que tivesse que quebrar uma promessa.
Meus olhos pararam no rosto de Daryl por longos segundos e eu realmente não soube o que dizer... Não costumava pensar no que tinha dito para Petter aquele dia, eu só tinha certeza que era uma promessa que eu não poderia cumprir, por isso não gostava de relembrar.
Daryl ter feito tudo aquilo ganhou um significado ainda mais importante...
Sorri e nossos olhos se encontraram, deixando um silêncio um tanto constrangedor se espalhar ali.
— Eu ainda estou desviando o rumo do riacho, mas vai ficar pronto em breve. — Ele comentou, como se precisasse dizer alguma coisa para mudar o clima estranho.
Entendi a valeta perto dos girassóis e entendi também o fato de Daryl ter dito que as coisas ainda não estavam acabadas.
Ele tinha se lembrado de cada detalhe do que eu dissera para Petter, até mesmo do riacho.
— Ah meu Deus, Daryl você não tinha que fazer nada disso... — Exclamei, sentindo as lágrimas voltarem para os meus olhos.
Eu provavelmente não pensei muito bem antes de agir, eu apenas avancei dois passos para frente e quando me dei conta meus braços já estavam ao redor do pescoço de Daryl enquanto eu o abraçava.
Ele levou alguns segundos para corresponder, mas então me envolveu também, apertando meu corpo contra o dele de uma forma que pareceu simplesmente... certa.
— Eu tinha sim. Ela é família, fazemos essas coisas pela família. — Daryl murmurou e eu o apertei um pouco mais, escondendo um rosto na curva do pescoço dele, aspirando seu cheiro como quem é viciado em uma droga.
Foi um daqueles momentos em que sabemos que temos que fazer uma certa coisa, nesse caso eu sabia que um breve abraço de agradecimento era o bastante e que eu tinha que me afastar, mas não fiz isso...
Eu apenas fiquei ali nos braços de Daryl, me dando conta que tinha sentido falta daquele abraço todos os dias do último ano. Como se eu não houvesse nada que eu precisasse mais.
Como se fosse a última coisa que eu precisava para que eu fosse verdadeiramente feliz.
Foi quando me dei conta que eu não estaria ali se não fosse aquela conversa com Carol e de repente tive a impressão que ela tinha feito tudo de caso pensado... Será?
Soube que aquele abraço estava durando mais que o aceitável e dei um passo para trás, antes que aquilo mexesse ainda mais com a minha cabeça.
Era sempre assim quando eu ficava muito perto de Daryl, principalmente com o passar do tempo.
No começo eu sabia exatamente o motivo do nosso distanciamento, mas quanto mais eu me libertava do peso do passado, mais difícil ficava me manter firme na minha decisão.
Era como se a dor se esvaísse dia a dia e com ela a minha força de vontade para ficar longe de Daryl Dixon. Eu tinha que me lembrar constantemente da lista de motivos pelos quais me manter longe dele era o melhor para nós dois, e a cada vez a lista tinha um motivo a menos.
— Obrigada... — Falei, tentando dissipar aquele clima que nossa proximidade trazia. — Eu só precisava vir aqui e dizer isso.
— Você não tem que me agradecer por nada, sério. — Daryl garantiu e eu sorri de canto pra ele.
Em algum lugar na minha mente tentei encontrar a tal lista de motivos para me manter longe dele, mas não havia mais lista, era como um papel em branco, ou melhor, um papel cheio de itens, mas todos riscados, porque nenhum deles fazia mais muito sentido...
— Eu devia... — Procurei algo para dizer e notei que ao meu menor movimento Daryl colocou a mão na maçaneta da porta novamente.
Ou ele não me queria ali, ou ele estava escondendo alguma coisa...
Talvez eu é quem estivesse precipitando as coisas. Outro relâmpago cortou o céu e pareceu iluminar minha mente.
Eu parecia estar certa sobre não haver mais motivos para ficar longe do Daryl, mas seria presunção achar que ele simplesmente estaria ali esperando... Quer dizer, ele tinha prometido que esperaria, mas não era algo que eu de fato podia exigir, fazia um ano, ele tinha direito de ter uma vida.
— Vou ficar um pouco com o Petter e já vou, acho que vai chover. — Dei alguns passos para trás e Daryl pareceu prestes a dizer alguma coisa mas desistiu.
Eu o observei por três segundos inteiros e senti que ele realmente estava escondendo alguma coisa dentro da casa.
— Tem alguém aí com você? — A pergunta saiu da minha boca, antes mesmo que eu pudesse pensar sobre isso.
Merda, Natalie, o que você está fazendo?
— Como é? — Daryl pareceu totalmente surpreso com a minha pergunta.
Mas é claro que estava, afinal era uma muita ousadia da minha parte perguntar aquilo daquela forma tão indiscreta.
Me senti ridícula.
— Quer dizer... — Engoli em seco e tentei dar um tom casual para minhas palavras. — Tudo bem se tiver, é saudável seguir em frente, e...
As sobrancelhas de Daryl se franziram e ele pareceu ainda mais confuso. Percebi que tentar consertar só estava piorando tudo.
Caramba Natalie, cala a boca.
— Desculpa, foi uma pergunta estúpida. — Admiti, erguendo as mãos e rindo de canto. — Eu tenho que ir. Obrigada de novo, Daryl.
O fato é que eu não tinha nada a ver com aquilo, Daryl era adulto e tinha o direito de tomar as próprias decisões, na verdade era bom que ele seguisse em frente.
Acenei uma última vez, e dei meia volta, encarando a trilha de pedras no gramado enquanto me dava conta que Petter também não queria que eu fosse até ali ver Daryl.
Ou seja, ele sabia de tudo.
Tentei não me ofender com isso, não era maduro aquele tipo de reação mesquinha. Daryl tinha o direito de ter uma vida, uma namorada e também tinha direito de não querer contar isso para mim naquele momento.
A decisão de se afastar tinha sido minha, parecia confortável que Daryl me esperasse, mas eu devia saber que ele não poderia sentar e ficar ali vendo a vida passar por um ano. Era irracional até...
Respirei fundo e tentei convencer a mim mesma que estava tudo bem, eu não tinha direto de me magoar com aquilo.
Aquele sentimento amargo no céu da minha boca era apenas a ironia do momento, afinal quando eu finalmente percebi que não havia mais lista de motivos para ficar longe de Daryl Dixon, eu também descobri que ele tinha seus próprios motivos para se manter longe de mim.
Tudo bem, disse a mim mesma quando dei o primeiro passo.
As coisas são como são...
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