Contrariando o pedido de Victoria, Courtney se vestira para recebê-la em casa. Usava uma roupa simples, uma camiseta folgada e um short curto. Poderia não ser tão provocativo quanto estar de lingerie, mas fora suficientemente sensual e Victoria olhou com desejo para a sua companheira. Courtney a recebeu com um beijo ligeiro nos lábios e depois as duas sentaram-se juntas à mesa, que estava repleta de comida. Havia bolos, pães, frutas e dois sucos diferentes.

— Amanhã terei um ensaio com a Suzane Smoke, ela é tão complicada de se trabalhar! — reclamou Courtney, revirando os olhos, colocando uma uva na boca logo em seguida.

Não era a primeira vez que Victoria ouvia Courtney reclamar acerca de Suzane. A conhecia por ser uma modelo com relativa fama. Era muito bonita e elegante, mas também egocêntrica e autoritária. Courtney sempre ficava estressada quando tinha que trabalhar com ela, mas acabava que isso acontecia com alguma frequência. Tendo se especializado em fotografar modelos, tanto homens quanto mulheres, Courtney acabava pegando muitos trabalhos nesse sentido.

— Você deveria recusar esses trabalhos — disse Victoria, sem rodeios — não precisa dela.

— Na verdade, preciso sim. Como você acha que sustento essa casa? E esse meu visual lindo que você tanto aprecia? — gracejou, fazendo um movimento charmoso com o pescoço, balançando seus longos cabelos negros.

Victoria sorriu com aprovação, não pelo trabalho com Suzane, mas pela aparência elegante e atraente de Courtney. Sua companheira sempre fora muito vaidosa, desde que a conhecera na Blackwell, e tinha também um gosto refinado para roupas e adereços.

— Não precisa dela — reforçou, seu tom parecia casual, mas suas palavras tomaram um timbre mais sério e firme — deveria esperar para pegar trabalhos com outros modelos. Toda vez que está com ela fica estressada e... bem... não é bom, não faz bem para você.

Disse as últimas palavras hesitante, dando um sorriso evasivo. Courtney não estava mais gracejando, sua expressão tornara-se preocupada, até um tanto ofendida. Quando voltou a falar, havia uma frieza e uma ponta de indignação em sua voz.

— Posso dar conta disso Vic, estresse faz parte da minha rotina, como da sua também. Não é comigo que está preocupada, você não gosta dela, ou melhor, não gosta quando eu e ela estamos juntas.

Suas palavras foram certeiras, acertando uma ferida que Victoria tentava esconder até de si mesma. A loira fechou a expressão, cruzando os braços e encarando Courtney, seu olhar era de desafio, não ouviria aquilo calada.

— Nunca escondi isso, ela fica te provocando, acha que não vejo os olhares? Os flertes? — perguntou elevando a voz. Estava sendo injusta, infantil até, sabia, mas a insegurança a fazia reagir de forma hostil.

— E isso te preocupa?! Devia confiar mais em mim, sabe que não quero nada com ela, é de você quem gosto Vic. O que não sei é se esse sentimento é reciproco, você me trata ora como amiga, ora como ficante, mas nunca assume a sério a nossa relação. Afinal, somos namoradas ou não?

A última pergunta fora cortante, deixando Victoria desarmada. Aquilo a desestabilizou. Geralmente, responderia a altura, com hostilidade e força, mas conteve seus impulsos. Chegara a abrir a boca, a resposta ousada estava na ponta da língua, mas não a disse. A verdade era que não queria brigar com Courtney, gostava dela, muito.

Controlar seu gênio e sua personalidade dominante e autoritária era algo que Victoria se esforçava todos os dias. Não queria ser uma escrota. Não se importava de agir assim com a maioria das pessoas, mas Courtney era uma exceção, não desejava que as duas ficassem mal. Eu a amo, merda, eu a amo, como posso lidar com isso!?

Esse pensamento a apavorava. Amar alguém, necessitar do carinho e da companhia de outros. Sentia-se tão vulnerável, tão frágil, mas ao mesmo tempo aquilo lhe fazia tão bem. Victoria ainda não conseguira responder e Courtney continuava a fitá-la, de forma firme. Sem jeito, engoliu qualquer coisa hostil que pudesse dizer, soltando o ar lentamente. Ser honesta sobre seus sentimentos era uma das coisas mais difíceis do mundo.

— Desculpe Courtney eu... sabe como fico enciumada imaginando vocês duas juntas. Sei que é bobagem minha, mas quando penso em vocês duas... ah, merda! — calou-se, olhando para baixo, encarando seu prato com algumas frutas. Ficou distraindo-se com a comida por demorados segundos, cutucando nela com o garfo. Precisou tomar coragem para prosseguir — sei que sou possessiva as vezes, me perdoe. Sabe que a amo... e que... que isso me desestabiliza e me faz agir como uma idiota.

O olhar de Courtney suavizou-se, sua postura relaxou. Ela aproximou-se de Victoria, colocando sua cadeira bem perto da dela. Acariciou-lhe os ombros lentamente, depositando alguns beijos delicados e estimulantes ali, fazendo que Victoria se derretesse toda. Não conseguia acreditar no poder que os gestos e toques de Courtney tinham sobre si. Mas isso era bom, de muitas maneiras.

— Tudo bem Vic, sabe que eu te amo... é que, isso tudo entre a gente. Queria que fosse mais claro, quero algo sério, mas você sempre se esquiva e isso me angustia. Nos falamos quase todos os dias, tomamos café juntas, dividimos tudo. O que temos é muito mais do que um lance entre ficantes, agimos como namoradas, mas você se recusa a querer algo sério... isso me machuca, muito.

Victoria baixou desviou o olhar, não queria machucá-la, ou brigar com ela. Courtney fora uma de suas melhores amigas quando entrara na Blackwell, o namoro veio bem depois, quando as duas já haviam deixado a faculdade e estavam lutando para consolidar seus nomes como fotografas profissionais. Gostava de verdade dela e era exatamente por gostar que tinha medo de ir além, de estragar tudo. Apesar da pose de durona e confiante, Victoria sabia o quanto insegura era por dentro, tentava trabalhar isso, mas era uma luta constante, e ela nem sempre vencia. Algumas poucas pessoas conheciam esse seu lado mais vulnerável dela, Courtney era uma delas, Taylor também.

— Desculpe Courtney, poderia ser mais paciente comigo? Não quero estragar as coisas entre a gente, mas não me sinto segura para algo sério, ainda. Mas eu gosto de você e quero que sejamos namoradas, só... só acho que preciso aprender a lidar com toda essa confusão de sentimentos que está dentro de mim.

Ficou com medo de como Courtney iria reagir, mas sua companheira lhe deu um sorriso e vê-lo foi um alívio. Ela tocou nas mãos de Victoria com gentileza, acariciando-as com uma doçura que fez a loira corar.

— Claro, eu te entendo e quero muito que de tudo certo entre a gente Vic. Está tudo bem entre a gente, só quero que pense com carinho sobre nós, tudo bem? — então, sem esperar por uma resposta, riu, daquele jeito charmoso que Victoria tanto adorava. Rapidamente, mudou de assunto — a propósito, li o artigo sobre seu ensaio, ficou muito bom, a crítica gostou bastante do seu trabalho!

A lembrança do artigo voltou a mente de Victoria. Não tinha a mesma opinião de Courtney acerca do que a crítica achara, percebera isso claramente quando lera o artigo.

— Ela escreveu que faltou inovação e que eu deveria ter sido mais ousada! — bufou. Críticos eram tão snobes, sempre opinando sobre o trabalho dos outros quando eles próprios não sabiam produzir nada nem de perto tão bom.

— Foi uma frase revoltante mesmo — Courtney deu um risinho, fazendo um gesto com a mão, como se estivesse a espantar um inseto inconveniente — mas não se apegue a isso Vic, ela realmente gostou de seu trabalho. Esses críticos sempre encontram algo para criticar, mas no geral a opinião dela foi muito positiva. Já li outras críticas dela, acredite, sei quando ela não gosta de algo, a maldita sabe ser destrutiva quando quer!

Victoria não teve como evitar um sorriso em seu rosto. Era essa uma das tantas razões que amava Courtney, ela sempre conseguia melhorar seu humor. Sabia que tinha um grande complexo de inferioridade, mas Courtney via as coisas sem esse viés pessimista, levantando seu humor, estimulando-a e apoiando-a, sempre.

— Acho que tem razão. A propósito, temos que aproveitar para passar um tempo juntas, amanhã nossas agendas estarão lotadas, e, se tratando de mim, será a semana toda. O que pensa em fazer? Podemos ir até a nossa cafeteria de sempre, o que me diz?

O sorriso que Courtney deu deixou bem claro que estava totalmente de acordo com a ideia. Entretanto, esse mesmo sorriso mudou discretamente, um brilho de malícia surgindo em seus olhos. Ela ajeitou-se na cadeira, em um movimento simples, mas mesmo assim bastante provocativo.

— Acho uma ótima ideia. Porém, antes disso, estou pensando em tomar um longo banho, me acompanha? É tão sem solitária ficar sozinha debaixo daquele chuveiro...

A promessa de luxuria estava clara e Victoria queria aquilo tanto quanto ela. Respondeu que sim, já ansiosa pelo que viria a seguir. As duas levantaram-se, e, juntas, dirigiram até o banheiro de Courtney, onde teriam um momento mais íntimo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.