Life and Death of Ariana Dumbledore
1 "Poderia ter sido qualquer um de nós..."
Notas iniciais
Eu nunca fui uma criança bonita, não herdara os belos cabelos acaju de meu pai. A cabeleira que cobria minha cabeça na juventude era de cor indefinida, algo entre o loiro, castanho e ruivo acobreado. Também não era um garoto talentoso. Veja bem, quando se é irmão de Albus Dumbledore é ainda mais fácil ser notado, afinal enquanto meu irmão aprendia a ler aos três anos de idade, eu mal dava os meus primeiros passos.
Mas minha vida mudou, ainda pequeno, quando minha mãe em casa mesmo, pelas mãos de uma parteira, a trouxera ao mundo. Ariana. Minha luz, minha estrela matutina.
Ariana tinha os cabelos claros e os olhos escuros. Era um bebê sorridente, porém de saúde frágil. Abaixo do tamanho e peso que supostamente deveria ter, era como se fosse minha boneca. Eu ajudava minha mãe com os cuidados básicos, como trocar e lavar as fraldas de pano e banhar a garotinha com água morna do poço. Albus só lembrava de Ariana quando ela estava limpa ou quando o choro dela tirava sua concentração das leituras que fazia.
Minha mãe, dona de casa exemplar e mãe amorosa, sempre gostou de plantas e por isso, nossa casa era cercada por sebes verdes e aromáticas ao invés de muros construídos. Meu pai era um homem da terra. Não trabalhava em instituições ou escritórios, mas sim nas plantações, de onde tirava o sustento de nossa família. Também criávamos cabras e bodes num pequeno curral no fundo de nossa casa, para o consumo de leite e, ocasionalmente, de carne. Ali, Ariana e eu passamos a maior parte do tempo juntos, desde que ela aprendeu a andar sem ajuda. Com sua pequena mão, ela ajudava a alimentar os animais e até arriscava uma carícia no bode mais manso ou nos cabritos ainda dependentes das cabras. Inicialmente, minha mãe protestava, dizendo que o lugar era sujo e que ela podia ficar doente, porém meu pai e meu irmão observaram que o contato dela com os animais, a deixava mais resistente e também, mais feliz. Mesmo quando um dos animais morria ou adoecia, eu não me deixava abalar, e apenas explicava à Ariana o que estava acontecendo.
Havia dois anos de diferença entre mim e Ariana. Mas quando se é criança, essa é uma diferença que fica nítida por causa do desenvolvimento, por isso a diferença parecia muito maior. Ela era minha companheira, minha melhor amiga. Por vezes tínhamos problemas como escassez de água e comida, mas tudo estava bem, pois eu tinha Ariana.
Aos quatro anos, Ariana se mostrou interessada por cozinha e por essa razão, minha mãe e eu a ensinamos a ajudar na nossa pequena produção de queijo fresco de cabra. Ela dizia que quando crescesse, junto comigo abriríamos um restaurante e serviríamos o melhor ensopado carne de bode acompanhado de pickles de cenoura e queijo de cabra de toda a Inglaterra. Sim, ela sonhava. Em suas brincadeiras, arrumava e enfeitava parte do curral e levava cada um da família para “conhecer” e “comer” em seu famoso restaurante. Todos nós, até Albus, entravam em sua brincadeira, arrancando gargalhadas da pequena cozinheira, satisfeita por servir seus clientes imaginários. Eu tinha um futuro planejado com ela. Eu tinha Ariana.
Aos cinco anos, sua magia despertou. Mesmo ainda miúda e suscetível a doenças, Ariana aprendeu a brincar com os feitiços produzidos e a perceber o quanto ser mágico podia ser divertido. Ela sonhava com Hogwarts. Bem como Albus. Talvez fosse a única coisa que de fato, os dois tinham em comum. Mesmo com a perspectiva de ir à escola para aprender a controlar sua magia, ela não desistiu do sonho de abrir seu restaurante, pois agora queria encher sua cozinha com a magia que via minha mãe usar em casa. Eu a encorajava, é claro. Com a ajuda de Albus, a ensinamos a ler e escrever. Ela aprendeu surpreendentemente rápido, muito mais do que eu, em sua idade, já que meu pai e irmão me consideravam desprovido de inteligência e desatento, o que fez com que eu tivesse que que me virar para aprender, uma vez que minha mãe sabia apenas o básico de leitura e escrita e não frequentou nenhum tipo de escola na vida: nem regular, nem mágica. O que ela sabia, ela dizia, lhe fora ensinado pela sua própria mãe.
O ano passou e com os 11 anos de Albus, sua carta de Hogwarts foi entregue e todas as atenções da casa foram voltadas para ele. Ariana e eu voltamos a ficar em segundo plano. Isso era apenas o começo desse ano que se tornaria um pesadelo. Com Albus a caminho de Hogwarts, eu passei a trabalhar com o meu pai e ele e minha mãe passaram a tomar conta da casa e de Ariana. Eu senti que não deveria deixar minha irmã aos cuidados de Albus, afinal ele nunca foi de cuidar dela. E finalmente num desses dias, meu pressentimento se realizou: enquanto minha irmã brincava sozinha, fazendo pequenas mágicas fora de casa, três garotos trouxas passaram pela sebe que supostamente protegia nosso quintal da frente e a cercaram. Quando ela não conseguiu fazer os truques que realizara há pouco, os garotos não pensaram duas vezes antes de atacar Ariana violentamente. Assim que ouviram os gritos, Albus e minha irmã, minha mãe corram a tempo de colocar os garotos para correr, porém era tarde demais. Ariana estava ferida e, depois desse episódio, ela nunca mais seria a mesma.
Quando meu pai e eu chegamos em casa, minha mãe contou o que aconteceu e disse que Ariana havia passado o dia chamando por mim e parecendo que ia explodir a qualquer momento, como se a magia que havia nela tivesse se revoltado, de alguma forma. Eu deixei minha mãe e Albus conversando com meu pai na sala e corri para o quarto que ela passara passará a ocupar, quando passou a ter segurança de dormir sozinha. Minha irmã estava mais pálida do que de costume. Sua pele se tornara branca e fria como mármore. Eu falei com ela, chamei pelo seu nome, mas ela mal abriu os olhos e apenas balia débil como um cabrito recém nascido que ainda não sabe que possui cordas vocais. Eu sentei ao seu lado e segurei sua mão. Apesar do meu esforço, não pude conter as lágrimas. Em meio a meu pranto, senti a mão delicada de Ariana segurar a minha e me chamar: “Abe, é você?”. Minhas lágrimas de tristeza converteram-se em lágrimas de felicidade, afinal ela estava viva. Afinal eu ainda tinha Ariana.
Meu pai subiu acompanhado de Albus para vê-la e a abraçou como nunca o vi fazer. Ele era um homem sério e não era dado a demonstrações de afeto. Mas ele o fez e, mesmo na limitada sapiência dos meus oito anos, pude ver que aquele era um gesto de despedida. Eu os deixei a sós e antes de sair, pude ouvi-la perguntando: “Papai, onde está o Al? Ele não vem me ver?”. Ela realmente esquecera que Albus ficou ao lado dela, junto com minha mãe antes que eu chegasse? Percebi novamente que iria chorar, mas não podia fazê-lo. Limpei minhas lágrimas com determinação e fui para perto de minha mãe, para cuidar dela. Quando me aproximei ela repetia: “Me perdoe, por favor. Não foi culpa minha”. Eu sabia que não podia ser culpa dela. Minha mãe sempre cuidou muito bem de nós três. Ela me abraçou e desabou em lágrimas. Eu a consolei da melhor maneira que pude, mas minha mãe era forte. A mulher mais forte que já conheci na vida. Depois que não tinha mais o que chorar se ergueu, limpou o rosto e foi para a cozinha preparar o jantar. Quando meu pai saiu do quarto de Ariana, havia um brilho diferente e assustador em seus olhos. Na época eu não soube dizer o que era, mas hoje sem hesitar, posso dizer que seus olhos refletiam ódio. Depois desse dia, por algumas semanas, meu pai e eu íamos trabalhar, porém me mandava embora na pausa para o almoço. Finalmente naquele dia, trabalhamos o horário todo. Chegamos em casa e o cheiro de ensopado de bode encheu nossas narinas antes mesmo de atravessarmos a soleira. Todos jantamos juntos naquele dia. Depois da refeição, nos reunimos em frente à lareira e meu pai comunicou à família que ia viajar. Minha mãe não parecia surpresa, mas Ariana, Albus e eu ficamos chocados. Antes da hora de dormir, meu pai me chamou para uma conversa. As palavras dele ainda ecoam em minha mente, como se tivessem sido ditas ontem: “Escute bem, Abe. Eu tenho procurado monstros que machucaram sua irmã. Finalmente os encontrei e vou acabar com cada um deles. Preciso que você seja o homem da casa. Que cuide da sua mãe e, principalmente de Ariana. Eu vou mostrar àqueles trouxas o que acontece quando se mexe com um Dumbledore. Albus é muito inteligente para cuidar da família, mas você tem a firmeza necessária. Tem que ser você, entendeu?”. Eu só pude assentir. Ele beijou minha cabeça, despediu-se de minha mãe na cozinha e aquela foi a última vez que o vimos. Algum tempo soubemos que meu pai tinha pego cada um dos trouxas que machucaram Ariana e os tinha feito pagar pelo que fizeram. Como as leis não poderiam ser ignoradas, meu pai foi capturado por aurores e levado para Azkaban, onde viria a viver o resto de sua vida, sem notícias nossas ou de minha mãe, e nós sem notícias dele. Meu pai não disse uma palavra de defesa em seu julgamento por medo de que levassem Ariana embora e a tratassem como louca. Eu não o culpo do que fez. Se eu fosse mais velho, provavelmente teria feito o mesmo, ou ainda pior.
Depois da prisão de meu pai, minha mãe decidiu que precisávamos nos mudar para mantermos Ariana em segurança. Sem nenhum tipo de remorso, deixou para trás a casa em que fez sua vida e começamos de novo. Chegamos em Godric’s Hollow e minha mãe explicou a mim e Albus o porquê as pessoas não poderiam chegar perto de Ariana, pois havia risco de que se descobrissem sua condição, poderiam trancá-la no hospital onde não nos deixariam vê-la nunca mais. Por isso, recebemos instruções de que se nos perguntassem a respeito de nossa irmã, diríamos que ela era doentinha e muito frágil, por isso não podia sair de casa. Nesse mesmo ano, Albus embarcou para Hogwarts e eu fiquei em casa, ajudando minha mãe com minha irmã, conforme a missão que meu pai me deixara. Nos fundos da nova casa, voltamos a criação de bodes e cabras e no espaço de boa terra que havia ali, plantamos nossa própria horta, de onde passamos a nos alimentar. Eu estava assustado com a nova moradia e a condição em que minha família se encontrava, mas tudo estava bem afinal eu tinha Ariana.
Depois que minha irmã sofreu o ataque, nunca mais voltou ter a vivacidade de antes. Ela não queria mais produzir mágicas e pegou medo da utilização mesmo dos feitiços mais simples, porém não conseguia se livrar do poder que habitava dentro dela. Foi justamente em Godric’s Hollow que a primeira crise aconteceu. Ariana tinha ficado nervosa porque minha mãe não permitiu que ela fosse me ajudar com os bodes. Ela ficou irritadiça e algo irrompeu de dentro dela. Um tipo de energia com uma força gigantesca que eu nunca havia visto em toda a minha vida. A tal força destruiu parte da casa, que custou muitos esforços para ser consertada, já que não parecia ter sido um tipo comum de dano. Foi por esses dias que Batilda Bagshot nos ofereceu ajuda pela primeira vez. Ela já tinha tentado uma aproximação, mas minha mãe nem permitiu que ela entrasse em casa por causa das condições de Ariana. Dessa vez, minha mãe foi mais gentil e a afastou da melhor forma que pôde, assim como fazia com todos os vizinhos curiosos que vinham querer saber sobre sua filha caçula. Somente após as tentativas falhas de reparo de minha mãe é que ela cedeu à velha Bathy e a deixou se aproximar de nossa família. Não houve arrependimentos quanto a essa decisão, pois ela realmente nos ajudava com Ariana e, sempre que possível, tinha uma história para contar. Só quando Albus voltou para as férias de Natal é que soubemos que ela era uma escritora famosa e que o livro dela era lido e estudado em Hogwarts. Naturalmente ela ficou encantada com a genialidade de meu irmão, mas ela sabia que ele sabia se virar e nunca deixou de dar atenção para Ariana.
Não houve melhora. Mesmo nossa nova casa sendo melhor, mais espaçosa e mais arejada Ariana permaneceu no mesmo estado de antes. Por vezes passava por bons períodos, conseguia se alimentar e até ajudar com os animais, porém já não tinha habilidades para ajudar na cozinha… Era como se minha irmã fosse uma criança pequena presa no corpo de uma menina de sete anos. No fim das contas, minha mãe e eu (e por vezes a velha Tia Bathy, como Ariana a chamava), aprendemos a lidar com ela. Seus ataques já não nos surpreendia e conseguiamos acalmá-la.
As coisas estavam indo bem e sob controle até que minha carta de Hogwarts chegou. Eu encontrei a primeira e, sem hesitar, alimentei o fogão de lenha com ela. Em seguida, vieram mais quatro, que tiveram o mesmo destino da primeira. Eu segui destruindo cartas de Hogwarts por quase uma quinzena. Infelizmente uma revoada de corujas invadiu minha casa e deixou uma pilha de cartas diretamente nas mãos de minha mãe, que imediatamente entendeu o que estava acontecendo. Ela me questionou e eu não tive porquê esconder minhas intenções. Eu não queria ir para Hogwarts. Não tinha pretensões nem inclinações acadêmicas como meu irmão. Eu queria ficar em casa, trabalhar e cuidar de Ariana. E dela própria, que estava ficando cada vez mais cansada. Porém minha mãe foi irredutível. A partir de setembro, eu passaria a frequentar a escola com meu irmão.
Eu não aproveitei Hogwarts. Estava na escola com a cabeça em casa. Escrevia a cada dois dias pedindo notícias, mas as cartas de minha mãe eram vagas e repetitivas. Eu comecei a ficar irritado e culpar a cada idiota que se pusesse em minha frente, que questionasse a prisão de meu pai ou me comparasse a meu irmão. Sim, eu me tornei um aluno violento, esses idiotas eram azarados por mim num piscar de olhos. Eu gritava, disparava ofensas e não tinha amigos. Albus vinha falar comigo hora ou outra, mas eu não queria saber dele. Queria saber de minha mãe e, principalmente, de Ariana. Sempre que possível, eu ia para a casa. Albus por vezes optava por passar as férias de Páscoa na escola, mas eu pegava o expresso, o Nightbus e voltava para Godric’s Hollow, para onde era o meu lugar.
Ariana estava crescendo e segundo minha mãe, apresentando melhoras ocasionais, seguidas de recaídas. E o que mais me doía é que eu não estava lá para ajudar. Eu sentia que estava perdendo tempo na escola e não queria mais frequentar as aulas. Prestei meus NOM’s no determinado tempo e obtive, surpreendentemente, quatro aprovações.
No início do meu sétimo ano, Ariana ainda estava com 14 anos e Albus, planejando rodar o mundo com o seu amigo bexiguento. Minha mãe aparentava o dobro da idade que tinha e eu me ofereci, como todo ano, para ficar e cuidar delas. E mais uma vez, ela disse para eu ir, que só mais alguns meses e eu poderia voltar a trabalhar e cuidar da casa como antes. Com o coração apertado, embarquei no trem e fui embora. Algo dentro de mim me dizia que eu deveria ficar, mas não era capaz de contradizer minha mãe, que sempre soube o que era melhor para nós.
Alguns meses depois, eu fui chamado pelo Diretor para receber a devastadora notícia da morte de minha mãe. Eu não raciocinei direito e apenas segui as ordens que me foram dadas. Peguei a chave de portal que me fora providenciada e parti para Godric's Hollow, onde Ariana estava sendo cuidada por Albus, que decidira adiar sua gloriosa viagem. Meu irmão olhou para mim com aquela condescendência que me dá nojo e por isso passei direto por ele e fui direto ver e saber de Ariana. Ela estava sentada em sua cama, escovando um único lado das madeixas douradas, num movimento repetitivo e indolente, enquanto seus olhos fixos miravam a parede vazia oposta. Sentei-me ao seu lado e perguntei se ela estava bem e ela disse que tudo estava bem, mas ela ficou nervosa e tudo brilhou e a mamãe não se mexeu mais. Meu coração era partido por cada palavra que ela dizia. Minha irmã não parecia entender o que estava acontecendo e isso me deixava ainda mais desesperado. Mais tarde conversei com Albus e ele me confirmou a história: de fato, Ariana matara minha mãe. É claro que ela não tinha ideia do que tinha acontecido, mas minha mãe já não era forte como antes e não aguentou a violenta crise. Para não atrair atenções, principalmente negativas sobre Ariana, meu irmão espalhou pela aldeia que minha mãe perecera de um feitiço que ricocheteou e se voltou contra ela. As pessoas compraram a ideia. Albus sabia como convencer as pessoas do que queria, sempre soube.
O funeral de minha mãe foi triste e vazio, poucas pessoas a conheciam, afinal, manter a segurança de Ariana sempre fora sua prioridade, muito mais que ter amigos. Minha mãe foi velada discretamente em casa e sepultada no cemitério local de Godric’s Hollow. Depois do serviços, disse a Albus que queria ficar com Ariana, que não me importava em não terminar Hogwarts e que a escola não fazia a menor diferença para mim. Mas como sempre, meu irmão não me ouviu. Disse que minha educação era a minha única obrigação. Eu tentei argumentar, discutir, brigar mas não adiantou. Tão logo eu estava embarcando para os meu último mês e meio desperdiçados em Hogwarts. Eu estava triste e me sentindo culpado pela morte de minha mãe mais eu ainda esta bem, afinal eu tinha Ariana.
Quando finalmente voltei para Casa, Albus tinha um amigo. Pelo que entendi, ele era parente da velha Bathy, vindo de outro país e tão insuportável quando quanto meu irmão. Os dois passavam o dia tagarelando e tendo ideias gloriosas sobre tirar os bruxos da clandestinidade, enquanto eu voltei a tarefa de cuidar da casa, de Ariana, da horta e dos animais. Enquanto Albus se correspondia com os grandões da época e ficava por aí com seu novo parceiro. Era comum ver os moradores de Godric’s Hollow tentarem ver o que acontecia dentro de nossa casa, mas nenhum deles retornava depois de receber um belo monte de bosta de bode na cabeça.
Foi quando aquele fatídico dia chegou… Albus e seu amigo estrangeiro decidiram rodar toda a Grã-Bretanha para pregar sua reforma revolucionária. Eu não me importaria se eles o fizessem em silêncio e só sumissem por aí. O problema é que Albus e seu comparsa decidiram estavam certos que levariam Ariana com eles e que não era mais tempo de escondê-la. É claro que eu não aceitei essa decisão. Tentei conversar com meu irmão de forma racional e civilizada, mas ele não me deu ouvidos. Frustrado e irritado decidi cortar o problema pela raiz e fui confrontar o outro rapaz. Disse a ele que era impossível que eles tirassem Ariana daqui, quanto mais a levar e expor como um animal de circo, já que nem os próprios bruxos a entendiam. Disse a ele que eu não permitiria que fizessem tal atrocidade à minha irmã. Obviamente que o sobrinho da velha Bathy não concordava comigo. Ele lançou ofensas sobre mim e disse que eu só servia para limitar as capacidades do meu irmão. Como já disse, eu me tornei violento e não pensei duas vezes em sacar a varinha. Albus acabara de chegar com Ariana e tentou acalmar as coisas com conversa, porém nem eu e nem o forasteiro estávamos interessados em ouvi-lo. Começamos a disparar feitiços um sobre o outro, mas ele era melhor que eu e, num descuido, fui atingido em cheio pela Maldição Cruciatus. A dor foi terrível entretanto, mal sabia eu que eu estava prestes a sentir uma dor ainda maior… Albus entrou no duelo quando fui amaldiçoado e nós três batalhamos furiosamente enquanto Ariana assistia a tudo, aterrorizada com os clarões e estampidos produzidos pelos feitiços. E então aconteceu: ela tentou ajudar, tentou fazer com que tudo aquilo parasse de uma vez. Eu jamais saberei se foi aquela energia contida dentro dela ou se foi um dos nossos feitiços que a acertou, só sei que minha irmã caiu morta diante dos nossos olhos… Imediatamente larguei minha varinha e corri para ela, sem me importar se podia ser acertado pelas costas. Quando abaixei para me verificar sua real condição, seu corpo jazia frio e inerte. Só o que pude fazer foi fechar seus olhos e chorar. Eu não tinha noção de mais nada que acontecia ao meu redor tudo que eu tinha diante de mim era dor. Senti meu irmão pousar a mão em meu ombro, mas o repeli, afinal, ele trouxera Ariana até onde aquele seu amigo e eu estávamos. Ele me entregou minha varinha e aparatamos de volta para a casa, onde Ariana foi preparada para que o seu corpo fosse velado. Eu me senti num estado hipnótico infinito. Era como se eu estivesse anestesiado. Albus cuidou dos preparativos do funeral enquanto eu sofria sozinho, incapaz de me fazer útil pela primeira vez na vida.
O funeral de minha irmã foi tão pequeno e vazio quanto o de minha mãe. Eu estava em pé ao lado de seu caixão branco enquanto olhava para ela com o desejo infantil de que ela levantasse dali, pegasse minha mão e me pedisse para alimentar os bodes comigo. É claro que isso não aconteceu, mas outro evento marcou o funeral de minha irmã: Albus começou a fazer um discurso, contando sobre Ariana como se ele a conhecesse bem o suficiente para citar qualquer coisa do que ela gostava ou não. Senti meu sangue ferver com tamanha hipocrisia, afinal ele jamais se importara em cuidar dela como eu me importava. Deixe-me guiar pelo pesar e pela dor, interrompi seu discurso e disse que a morte dela era culpa dele. Sem pensar duas vezes, acertei um murro direto em seu nariz. Não me arrependo. Minha irmã foi enterrada ao lado de minha mãe e uma frase foi adicionada à lápide a pedido de Albus: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Uma frase enigmática e intelectual como ele próprio e não algo simples e bonito como eram as duas.
Daquele dia em diante, Albus e eu nos afastamos. Ele se tornou professor em Hogwarts e eu, lembrando dos tempos de infância de Ariana, abri um bar. Eu tinha noção de que estava além das minhas capacidades abrir e administrar um restaurante, mas esse foi o mais próximo do seu sonho que eu consegui realizar.
Ainda hoje, mesmo eu sabendo que segui em frente e que meu pub é respeitado e moderadamente frequentado, ainda que por contrabandistas e pessoas estranhas, eu sabia que nada jamais ficaria bem, afinal eu não tinha mais Ariana.
Notas finais
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