Capítulo 13. Equable

Acordei no dia a seguir já tinham as bandas saído para ensaiar e estava apenas eu e a Anne na vivenda. Ainda era bastante cedo, por isso acordei-a para irmos fazer umas compras, e eu conhecer a cidade que agora me acolhia.

— Anne, acorda. – Balancei o seu corpo. – Acorda!

— Ah! – Gritou. — O-q-u-e-f-o-i?

— Quero ir as compras. – Sorri-lhe.

— Hum, está bem. – Levantou-se de um pulo. – Para compras estou sempre pronta. Além disso penso que temos bastante conversa para por em dia.

— Isso agora. – Ri-me.

— Ai conta!

Empurrou-me para cima da cama e começaram as cócegas sucessivas e tive de contar.

— Anne, o Thomas beijou-me. – Contei, apressadamente.

Vi a boca de Anne a abrir-se e a fechar-se, novamente.

— Um dia isso ia acontecer. – Desembuchou, como se fosse algo obvio demais. – E tu tinhas essa noção. Mas eu pensava que gostavas dele, porque não estás feliz?

— Eu também pensava isso. – Abanei a cabeça. – Mas acho que ele é apenas o melhor amigo do mundo, mas não mais que isso.

— Oh Juliet. Mas há alguém mais?

Perdi toda a coragem de lhe contar o resto. Não lhe podia contar de Zacky, afinal ele era o melhor amigo do meu pai, era dezasseis anos mais velho que eu. Nem conseguia explicar-me como tinham acontecido as coisas nos últimos dias. Era tudo demasiado irreal.

— Não. – Anne sabia que eu lhe mentia. Eu não sabia mentir. – E tu? Como estás agora, sem o David?

Anne hesitou. Revirei os olhos, atirando-lhe com uma almofada.

— Conta-me!

— Sabes, estou a achar muita piada ao Matt. – Denunciou-se a si própria.

— Anne, sempre achaste. Via-se de longe a forma como olhas para ele.

— Nota-se assim tanto? – Anne voltou a corar.

— Sim, nota. – Revirei os olhos para a novidade. — Mas vocês, alguma coisa?

— Ele é muito querido para mim, mesmo muito. Tu nem imaginas. Só que não sei se foi só simpatia porque estava ali sozinha, ou algo mais. Oh que parvoíce, é claro que é simpatia. Tenho idade para ser sua filha.

— Não tens nada. – Defendi-me mesmo perante a sua ignorância.

— O Syn tem a idade dele.

— Lá por o meu pai não saber muito bem o que faz, não quer dizer nada. Sabes bem que os meus pais são novos demais para ter uma criança. Nem agora tem cabeça suficiente para criar outro.

Anne abriu um pequeno sorriso, porém ela não acreditava nem um pouco no seu amor por aquele que era um Homem.

— Bem, compras?

— Ouvi falar em compras?

Olhamos, em simultâneo, para a porta. Jo espreitava para dentro do quarto, com um sorriso nos lábios.

— Ouviste Mãe, entra. – Pedi.

— Os rapazes vão ensinar, e eu preciso de comprar um vestido para a cerimónia.

Arranjamo-nos sobre os conselhos da minha mãe. Anne estava encantada, e eu matava saudades de uma das pessoas que mais adorava neste mundo.

Jo tinha um óptimo gosto, tinha de o admitir. E era a minha principal influência. Ela tanto se apresentava para uma cerimónia, como estava com roupa de praia, mas sempre incrivelmente bonita.

Vesti umas calças pretas justas, e um blusão azul por cima de um top. Jo prendeu-me o cabelo com um elástico, e emprestou-me uns dos seus óculos de sol. Ao olhar-me ao espelho, sentia-me uma nova pessoa.

Caminhamos pelas ruas daquela cidade, como se vivêssemos ali durante toda a nossa vida.

Jo levou-nos a uma loja espantosa. Era numa rua bastante estreita e escondida, e parecia bastante pequena para ser uma loja onde as estrelas de rock compravam roupa, e estranha para o habitual da minha mãe, mas logo percebi que a minha primeira impressão era errada. Entrava-se num mundo quase subterrâneo, enorme, e com luz forte das lâmpadas e das janelas no cimo da parede, junto ao tecto. Era em tons de vermelho, mas rapidamente um mundo de cores nos aparecia à volta. Guitarras penduradas, microfones suspensos no tecto, e inúmeras fotos de famosos. Um autêntico alfaiate do rock n’ roll. As empregas eram bastante normais, e bastante atenciosas para com todos os que ali estavam, até os que não eram famosos.

Da outra ponta da sala um homem, de cabelos pelos ombros loiros, veio ao nosso encontro com um enorme sorriso.

— Jo! – Exclamou, com um abraço à minha mãe. — Prémios, certo?

— Sim, muita gente há procura de vestidos?

— Muita… E estas são tuas amigas? Espera. Jo, esta é a tua filha? – A minha mãe riu-se, com o ar de espanto daquele homem. – Oh My f**king god, ela cresceu tanto. É linda! E a amiga não lhe fica atrás.

A Anne deixou escapar um pequeno sorriso de agradecimento. Deve ter sido a sua única expressão em tamanho pequeno, pois mostrava um ar enorme de admiração com tudo aquilo.

— Então são três vestidos? – Perguntou o Homem.

— Sim.

As palavras da minha mãe fizeram-me estremecer. Olhei para ela, tentado perceber onde é que ela queria chegar com aquilo.

— Juliet, tu vens aos prémios, certo?

— Não! Mãe, não me podes fazer isto. Tu sabes isso!

Eu não me podia submeter aquilo. No momento que aparecesse junto aos meus pais numa entrega de prémios, todas as revistas o saberiam. Todos os adolescentes viriam a saber.

Tinha decidido com os meus pais não aparecer em nenhum evento publico, de forma a não ser reconhecida. Era um acordo nosso, e eu não queria quebra-lo.

Mas aparecer naquela gala, onde tanto as televisões, como jornais e revistas estariam ali presentes, sem contar com o mundo da internet. Eu sabia o quanto isto era importante para os meus pais, mas meu pequeno mundo poderia acabar e não sabia se estava preparada.

O meu estômago começou a dar voltas cada vez maiores e, por momentos, pensei que fosse perder os sentidos.

Vi a minha mãe a largar o que estava a fazer e a Anne logo apoiou todo o meu corpo nela. Sentia-me cada vez mais fraca, mas mesmo assim sentei-me num banco de ferro branco, olhando para a minha mãe com as lágrimas a escorrer-me dos meus olhos.

— Juliet! – Gritou, abraçando-se ao meu tronco. – Querida o que se passa?

A sua respiração era alterada, e as pessoas em nosso torno, afastaram-se.

— Mãe. Se eu for a aqueles prémios, todos vão saber. – Gemi, entre as garras das lágrimas. – Vocês não me podem fazer isto. Vocês prometeram, eu não quero!

Sentia-me uma criança, com aquele comportamento. Mas tinha perdido todas as forças.

— Querida, quem vai saber o quê?

— A verdade. Que vocês são meus pais.

— E tens vergonha disso? – A voz de Jo fazia transparecer a sua confusão.

Suspirei longamente, procurando conter as lágrimas.

— Não é isso, mãe.

— Juliet, eu e o teu pai pensamos que tu já te sentias preparada. Afinal já passaram sete anos. Não te podemos proteger mais.

— E não falaram comigo? – Perguntei, sentido a raiva a subir-me. – É a minha vida!

— Juliet Haner, olha para mim. – Levantei o queixo, enfrentado, os seus olhos fortemente castanhos e sérios. – Tu és quem és. Os teus amigos vão ser os teus amigos. Quanto tempo mais, tu querias ter a Esmeralda a passar por tua tia? E não és obrigada a entrar no mundo da música por isto.

Tinha tocado no meu ponto fraco. Sentia-me obrigada a seguir música, por ser filha deles. E queria isso, mas não agora.

— É uma decisão minha! Vocês não podem tomá-la por mim.

— Juliet, ninguém o está a fazer.

— Estão. Eu não disse que queria fazer isto agora!

Levantei-me, e corri para fora da loja. Ouvi a minha mãe a dizer a Anne que me deixasse, e continuei a correr para fora dali.

Não sabia para onde ir. Estava numa cidade que não conhecia, e estava sozinha. Corri pelas ruas onde caminhara anteriormente, ao encontro da praça principal. Sentei-me num dos bancos, ignorando as pessoas que ali passavam.

As lágrimas caiam cada vez com mais fúria, e o meu corpo tremia.

Eu não podia mudar aquele segredo. Afinal, eu era apenas a Juliet, não a Juliet, filha do Synsyter Gates e da Johanna Craig. Não necessitava de rótulos, nem de títulos que me sobrevalorizassem.

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Notas finais

Reviews? :o