Life
1 Prólogo
Notas iniciais
Boa leitura!
Do ponto mais alto e silencioso do Quinto Céu, o Arcanjo olhava a imensidão aos seus pés. Seu peito queimava ante seu destino recém-revelado. Não entendia o porquê, dentre todos, ser ele o escolhido. No mais íntimo do seu ser ele não acreditava mais nos homens e não via nada neles que valesse a pena salvar. Mas ele estava ali, pairando no ar, observando a tudo, prevendo o que viria a seguir, apenas aguardando o momento. Viu a decisão do velho Xamã e respeitou seu sacrifício. Aquele era um homem raro, um dos poucos que eram puros de coração. Em respeito a ele e somente a ele, foi que prosseguiu com a missão.
Em algum lugar na floresta próximo à Uxmal, Península de Yucatán, México.
- Em meus sonhos, os Deuses anunciaram o fim do mundo. Eles me mostraram o futuro. Nele, o homem destruirá a si mesmo, liberando o maior mal existente sobre a Terra. Eu sei que a minha missão nesta vida está prestes a ser cumprida.
O xamã da aldeia dizia em sua língua nativa e todos a sua volta o encaram abismados. O grande Xamã era o enviado dos Deuses, grande senhor de toda a verdade, o guia político e espiritual de todos. Suas palavras jamais eram questionadas.
Um silêncio profundo recaiu na floresta e nem mesmo os sons habituais dos animais podiam ser ouvidos. Era como se até mesmo eles tivessem temido a profecia da desgraça humana.
A lua era a única fonte de luz e iluminava o centro de um enorme círculo formado pelos aldeões na clareira sagrada. Ali, era o local onde os rituais eram realizados, era o lugar de maior poder em toda a floresta e também, um local de grandes anunciações como aquela.
O Xamã, até então parado ao centro do círculo humano, iniciou sua caminhada a passos lentos. Seu corpo enrugado se movia com dificuldade, carregando o peso de mais de um século de existência e devoção aos Deuses. Os longos cabelos cinza estavam soltos, dando um ar ainda mais antigo ao ancião.
Ele se aproximou de uma pedra sobre a qual estavam alguns objetos dispostos de forma linear. Havia uma cabaça com água, um chumaço e ervas e uma adaga. No seu interior, o velho Xamã estava honrado. Ele seria o homem que daria esperança à humanidade. Seu sacrifício seria, um dia, reconhecido.
Com o chumaço em mãos, o ancião caminhou até o mais velho da tribo depois dele. O homem tinha os olhos marejados, mas não se atreveria a chorar ali, diante de todos; os homens de verdade jamais o fariam. Mas seu coração doía, pois já imaginava o que seu guia iria fazer. Cabisbaixo, o homem acendeu o chumaço de ervas na mão do velho Xamã. O ancião caminhou lentamente por todo o círculo, repetindo sinais diversos com o chumaço de ervas que soltava uma fumaça branca e densa. Enquanto isso entoava canções muito antigas de purificação. Tudo precisava correr bem e, pra isso, todas as energias negativas tinham que ser varridas do ambiente.
Após o ritual de purificação, o velho Xamã pediu que os deuses guiassem os mais jovens, que os ajudassem a sobreviver nos tempos difíceis que estavam por vir.
Lentamente de volta à pedra inicial, ele depositou o chumaço de ervas que continuava a inundar o ambiente com um cheiro forte. Com cautela, pegou a cabaça com água e a adaga e se dirigiu mais uma vez ao centro do círculo. Com habilidade, o Xamã fez um corte em sua própria carne, no peito descoberto, na altura do coração. O desenho era de um pequeno círculo. O sangue vermelho vivo escorreu rapidamente, alcançando o abdômen magro e moreno. Encostando a cabaça com água no corpo, deixou algumas gotas do próprio sangue se misturarem à água e bebeu-a em seguida. Proferindo as palavras que ouviu em seus sonhos, o velho Xamã reuniu todas as forças de seu velho corpo e cravou a adaga no próprio peito.
Seu corpo caiu na terra, sobre as folhas secas da floresta. Ao seu redor, as vozes dos irmãos e irmãs da aldeia cantava em uníssono uma antiga canção de passagem. Eles queriam guiar sua alma para o lugar de descanso e paz eterno, mas não era essa a intenção do velho Xamã ao sacrifica-se. Naquele instante, enquanto sua vida se esvaia aos poucos, ele pediu para que sua missão fosse cumprida, e apenas isso.
Seu espírito viajou para longe, rompendo as barreiras do tempo e do espaço, do impossível e do imaginável. No momento em que seu corpo mortal de seu último suspiro, a alma do velho Xamã encontrou seu lugar. Sua missão estava cumprida.
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