Life
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Esse cap eu gostaria de dedicar à leitora EVEN, que me presenteou com um voto de confiança e uma recomendação!
♪ Para miiiiiiiinha alegriaaaa!!!! ♪
Obrigada Even!
Boa leitura a tds!
O sol brilhava no céu azul e sem nuvens. A viajem estava transcorrendo sem problemas.
A estrada estava limpa, apenas com eventuais carros abandonados. É engraçado relembrar de como era antigamente: a confusão no trânsito, o turbilhão de gente nas ruas... agora tudo era silêncio e natureza. As estradas eram vazias, ninguém se arriscava a atravessar de uma aldeia a outra, eram raras essas incursões e, geralmente, não terminavam bem.
Era muito perigoso passar a noite assim no mato, pois eles podiam aparecer e aí... aí você estaria fodido.
Eu fechei os olhos por um momento, apenas sentindo o ronco do motor da minha Ninja e o vento fresco do outono. O jipe ía atrás, na retaguarda, e nossas quatro motos na frente, explorando o terreno, vendo se era seguro para os outros passarem. Ultimamente, os malditos estavam com a mania de por armadilhas no caminho para atrasar os desavisados. Se o jipe caísse em uma delas, estaríamos em maus lençóis.
Já passava das 13h quando Alex lá na frente fez um sinal para diminuirmos até que todos paramos próximos.
- Vamos parar para comer e descansar. Já estamos a mais de duas horas sem fazer nenhuma parada.
O grupo concordou e eu, pessoalmente gostei. A cada duas horas era bom parar para dar uma folga pra coluna e para o corpo e já fazia tempo desde a última parada. O grupo deles consistia de oito integrantes: Alex, o salvador de merda; Olavo, o palhaço que eu torci a mão, Marcos o cachorrinho de Alex, e os caras do jipe: Filipe, Santana, Carvalho, Juninho e Dorneles. Eu conheci os nomes aos poucos, onde, a cada parada para descanso eles trocavam insultos e piadinhas sem graça. Mas nenhum deles veio falar comigo e eu acho que o tal de Olavo me mataria na primeira oportunidade que tivesse de estar sozinho comigo. Eu sentia seu olhar de fúria pelo o que fiz, mas ainda ouvi quando Alex e Marcos o chamaram em um canto na primeira parada que fizemos e pediram para que ele relevasse.
Mas é claro que eu estava atenta, não confiava em nenhum deles.
Tirei algumas barras de cereal caseiras da bolsa e sentei à sombra. O grupo estava disperso e aproveitava o tempo para descansar.
O homem que parecia mais velho de todos se aproximou de mim e sentou ao meu lado. Ele comia um sanduiche. Tinha seus quarenta e poucos anos, mas eu só sabia disso pelas pequenas rugas no canto dos olhos. Seu físico era invejável e eu aposto que ele tinha mais fôlego do que qualquer um dos garotos dali.
- Manuella, não? – ele puxou assunto, sem me olhar – Sou Dorneles.
- Eu sei. – respondi simplesmente. Eu já sabia quem era quem.
- Então, posso saber qual sua missão?
- Minha missão?
- Sim, deve ter um bom motivo para estar aqui ao invés de estar segura em Santa Clara... lá parece um bom lugar pra se viver.
- Sim, lá é ótimo, dentro do possível. – respondi dando outra bocada na barra de flocos de arroz e banana.
- Então, por que está aqui no meio da estrada com esse bando de marmanjo sem educação?
Aí ele me olhou e eu senti seu tom mais sério. Ele me parecia um tipo de sargento do exército valentão e meio invocado, mas não parecia má pessoa.
- Bom, Dorneles, eu estou atrás de uma pessoa, uma pessoa que é importante pra mim.
- Então ele é um cara de sorte. – Disse Marcos, que se aproximava com Alex.
- Não, não é um homem. – respondi terminando minha refeição.
- Santo Deus, nem imagino você na cama com outra gata... meu pobre e cansado corpo não aguenta com essa emoção. – Marcos falou fechando os olhos.
Revirei os olhos. Eles são muito, muito previsíveis.
- Estou atrás de uma pesquisadora, uma cientista famosa que nem sei se está viva... mas que preciso encontrar. Segundo minhas pesquisas ela está, ou já esteve em São José, pra onde estamos indo.
- Suas pesquisas? Você é cientista por acaso? – a voz interessada de Alex surgiu na conversa. Era uma bela voz.
- Sim, por quê?
- Nada... eu só acho que não combina com seu perfil, só isso. – ele deu de ombros enquanto sentava na terra seca.
- Meu perfil? – questionei intrigada.
- É. Você é muito gata pra ser pesquisadora, não combina.
Finalmente ele me respondeu olhando em meus olhos e eu confirmei minhas suspeitas, aquele tom era único e realmente eu nunca tinha visto olhos tão belos. Pena que o que tinha dentro da cabeça não acompanhava tal beleza.
- E você pensa que cientista tem que ser como, de cabelo preso, com óculos e espinhas na cara?
- Mas não é assim? – ele devolveu, sorrindo abertamente.
- Nem sempre, Alex – Marcos interveio – Lembra aquela gata da Denise que encontramos no ano passado. Ela era bem esperta e tinha uma corpo que ...
- Marcos, por favor. – Alex cortou.
- Só estou dizendo, a Denise era gata e inteligente... eu acho que me apaixonei por ela, sério mesmo.
- Marcos, você se apaixona por qualquer coisa que tem um buraco pra você enfiar esse pau, então vê se me erra. – Alex cortou o outro e virou-se pra mim – Desculpe.
- Não por isso... – respondi prendendo o riso... a cara de Marcos de culpado tinha sido definitiva.
- Bom, o papo tá bom, mas acho melhor seguirmos viajem. Temos que achar um lugar seguro para pernoitar. – Dorneles falou levantando em seguida.
Nós o imitamos, mas senti que Alex ficou pra trás, perto de mim.
- Então... como é mesmo o nome da pessoa que você quer encontrar? – ele perguntou enquanto limpava as lentes de seus óculos escuros.
- E isso faz diferença? – perguntei de volta parando de caminhar e olhando pra ele.
- Bom, é que eu acho que nós estamos atrás da mesma pessoa.
Franzi o cenho.
- Como?
- Você procura por Lauriê? – ele disse em um tom de que acaba de finalizar uma partida de buraco.
Minha boca abriu e fechou duas vezes.
- O que vocês querem com Lauriê? – perguntei intrigada
- O mesmo que você... respostas. – ele finalizou, caminhando em direção a sua mil cilindradas.
...
Nós não tivemos outra parada até que os relógios de todos apitaram. 16:30h, isso nos deixava com menos de duas horas de luz solar e, consequentemente, de sossego.
Como planejado por eles, nós havíamos chegado em um ponto da estrada em que surgia uma pequena comunidade. Havia um posto de combustível abandonado, algum comércio e casas simples. Para viajantes como nós, era como um oásis no deserto.
Com as motos e o jipe reabastecidos o grupo se dividiu para explorar as lojas abandonadas. Era sempre importante verificar um lugar antes de sair entrando porque ali podia ser um covil de malditos, prontos para um lanchinho da madrugada. Com cautela e em duplas, os soldados revistaram as lojas das redondezas e nada foi encontrado, para nossa sorte.
- Boas notícias, pessoal, o minimercado possui um frigorífico! – Dorneles gritou aos outros assim que o grupo estava novamente reunido.
- E eu posso saber por que isso é tão bom? – perguntei caminhando com os outros. O relógio em meu pulso anunciava 17h.
- Frigoríficos são bons lugares para pernoite. Eles têm proteção extra nas paredes e uma entrada única, o que facilita nossa segurança em caso de um embate direto com vampiros... mas eu pensei que a senhorita fodona já soubesse disso. – Marcos falou passando por mim e com um sorriso cínico no rosto. Os demais riram.
- Obrigada pela explicação brilhante, gênio da estratégia. – respondi sorrindo. Alex riu ao meu lado.
- Bom, vamos agitar, não temos muito tempo. – Alex falou e o grupo se moveu. Nós camuflamos as motos e o jipe a uma certa distância na mata. Era bom eles ficarem pelo menos meia hora parados antes do anoitecer para que as criaturas não percebessem o motor quente. As motos ficaram tombadas atrás de um galpão velho, cheias de feno e panos velhos por cima, enquanto o jipe foi deixado com as portas abertas, abandonado no meio da rua. Ninguém jamais suspeitaria disso, muito menos os malditos.
Vinte minutos depois todos estavam reunidos no frigorífico e quando o soldado Carvalho abriu a porta, todos taparam o nariz e soltaram exclamações.
- Minha nossa, que fedor!
- Santa Mãe do Céu, o que tem aí dentro? – algum deles perguntou.
- Carne podre, o que você queria? Isso é um frigorífico, não uma loja de incensos. – Olavo em seu jeito mal humorado e seco respondeu ao outro soldado que, como eu, tinha uma mão tapando o nariz e boca.
A gente não pode se trancar aí, é nojento. – o soldado novo de pele rosada falou.
- Juninho, minha criança, se quiser pode ficar aqui fora. – Marcos respondeu sarcástico.
- Vamos parar com isso e arrumar de uma vez essa bagunça. Temos pouco tempo pra comer antes que anoiteça. – Dornelles finalizou em tom sério.
Os dez minutos seguintes foram trabalhosos e muito nojentos. A carne do frigorífico desativado tinha apodrecido e muito já tinha se desfeito com o tempo, mas o pouco que ainda sobrava, era suficiente para embrulhar o estômago. Em comum acordo, dois soldados foram lá fora e cavaram um buraco fundo o suficiente para enterrar a carne podre. Sobre ela, jogamos alguns litros de água sanitária velha que encontrei nos fundos da loja, isso amenizaria o cheiro e seria muito difícil para um possível vampiro sentir.
Os soldados enterraram a carne podre e eu tratei de jogar o resto da água sanitária no pequeno frigorífico, o que melhorou bastante o cheiro, embora não tenha resolvido totalmente.
- Brilhante. – o soldado chamado Juninho me elogiou.
- Obrigada. – respondi satisfeita em ter ajudado. O garoto ficou vermelho como tomate.
Ele era grande e tinha um porte físico incrível, mas perecia jovem, mais que os outros. Devia ser mais jovem que eu.
- Ai pronto, agora o moleque vai ficar de pau duro e querer se masturbar no frigorífico. Eu mereço isso. – Olavo falou passando por Juninho e dando uma boa olhada em sua bochecha vermelha, que conseguiu ficar inda pior depois desse comentário ridículo.
- Cala a boca. – o garoto falou, mas sua voz estava trêmula.
Os outros riram da situação e eu me senti enjoada.
- Parem com isso, respeitem a moça. – Dornelles falou entrando e indo para a parede oposta a minha. Todos já estavam dentro.
Olavo ainda sorria e me mandou um olhar nada agradável. Senti mais uma vez um frio no estômago e tratei de me concentrar. Eu não podia surtar ali, simplesmente não podia. Eu mandei todas as imagens se apagarem, todas as lembranças deviam ser deixadas de lado agora. Foi a voz de Alex que surgiu.
- Eu concordo com o Dornelles. Não estamos sozinhos agora e seria bom que vocês tentassem se controlar um pouco, respeitem a moça.
- Respeitem a moça? Mas que porra é essa? – Olavo se exaltou e deu um passo na direção de Alex – Você viu a merda que ela fez em meu braço? Acha que ela é uma santa? Tá aqui por que quer e entende os riscos. Então eu sugiro que ela trate de ficar bem quietinha e na dela antes que eu perca a paciência e queira me vingar.
- Olavo, você não vai se vingar de porra nenhuma. Pra começar você implicou com a Manuella, então aguente as consequências. Em segundo lugar nós temos todos o mesmo objetivo e vai ser mais fácil chegar lá com o grupo inteiro.
- Grupo inteiro? Ela é uma mulher! Mas que porra vocês estão pensando? Ela vai nos atrasar de um jeito ou de outro. O que você acha que ela vai fazer quando a gente encontrar um maldito, hein? Acha que ela vai lá lutar como você? Pois eu digo, ela vai gritar igual a mulherzinha que é e colocar a merda das nossas vidas em risco!
- Cala a boca, seu otário! – Juninho falou dando um passo na direção dele. A coisa estava saindo de controle.
- Todos vocês, acalmem-se! – Alex tomos a dianteira, falando em tom muito sério.
- Olavo, merda, para com isso. Ela está aqui e pronto, tá feito. Cada um de nós sabia no que estava se metendo quando aceitos participar disso e estamos todos juntos nessa. Nós estamos no meio da estrada, com malditos vampiros sedentos atrás de nossas artérias, porra! O que a gente menos precisa agora é disso. Eu já falei, Manuella faz parte da equipe agora até encontrarmos Lauriê, gostem vocês ou não. Então, vamos comer e nos trancar aqui antes que nenhum de nós viva até amanhã para seguir viajem.
Alex estava nervoso e falou com uma gana que me surpreendeu. Ele tinha no sangue a liderança, isso eu não tive dúvidas, pois todos, inclusive Olavo ouviram calados. Santana e Filipe também pareciam inclinados a concordar com ele. Carvalho se mostrava contrariado.
O tempo estava correndo e nós tínhamos chegado a um ponto que eu não queria. Eu não queria me meter com eles, mas também não queria que o grupo rachasse. Isso seria péssimo pra todos e nada seguro. Então, tomei a liberdade de falar, quebrando aquele silêncio incômodo que se formou.
- Eu não quero que vocês se preocupem comigo. Eu estou aqui porque estou decidida a enfrentar o que for para encontrar Lauriê. Não sei o motivo de vocês querer encontrar com ela, mas isso também não me importa. Nós temos um objetivo em comum e acho sensato trabalharmos juntos, por mais que alguns de você odeiem isso. Se é pra tranquilizar o grupo eu devo dizer que não sou uma mulherzinha. Em todas as províncias pelas quais passei, eu nunca me escondi. Toda a noite eu ía para os muros, vigiar as aldeias contra eles. Eu tenho uma boa pontaria e muita vontade de viver. Já estive em combates mais de uma vez, quando os vampiros tentaram atacar províncias onde eu estive. Certa vez eu matei um deles... então eu acho que podem ficar tranquilos que eu não ter um ataque histérico se encontrarmos com eles, o que eu vou fazer vai ser ajudar a salvar a bunda de vocês.
Eles ouviram pacientes e Marcos e Alex acenaram em concordância.
- Você matou um deles? Sozinha? – Juninho perguntou admirado.
- Sim... mas foi há muito tempo. Mas eu não hesitarei jamais em repetir o feito, então fiquem sossegados. – depois de um tempo, eu acrescentei – E... obrigada por me deixarem viajar com vocês.
Essa foi a cartada final. Homens sempre se comovem com coisas como essa. Eu não fiz de forma proposital, apenas senti que devia agradecer, afinal, eu passaria uns dias com eles e eles estavam me protegendo de certa forma... eu não precisava ser rude o tempo inteiro, precisaria interagir. Antes com eles do que contra eles.
- Então, estamos resolvidos? – Alex perguntou a todos.
Houve uma concordância geral no grupo, com exceção de Olavo, que foi para a parede dos fundos e sentou no chão sem responder.
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