Life

52 Capítulo 51


Notas iniciais
Oi gente. Bom, acho que estou a quase uma semana sem postar e peço desculpas. Vcs sabem que eu não demoro a atualizar, mas é que estou pintando o apartamento e nem cama eu tinha, imagina internet e tempo pra escrever! rs Bom, espero que me desculpem e, como acabei de ter minha cama de volta... acho que posso voltar a escrever normalmente! o/ rsrs
Life entrando na reta final! Obrigada a todos pela paciência e pelo carinho.... mts POV's diferentes neste cap... Boa leitura!

Eu corria desesperadamente pela mata, pra longe de tudo. Precisava superar as limitações desse corpo e correr, simplesmente me afastar de Raphael. Em minha mão eu segurava a pequena Gladius. É claro que não estava em sua forma original, pois, se estivesse, eu não poderia manuseá-la... apenas Arcanjos o podem.

Mas eu tinha conseguido, enfim, pegar o único objeto que poderia acabar com tudo. Confesso que senti o peito pesado quando vi o desespero nos olhos dele... afinal, somos irmãos, não?

Sacudi a cabeça com veemência... essa coisa de habitar um corpo vazio devia estar começando a me afetar a mente. Raphael nos traiu, eu não devia estar sentindo culpa pelo o que fiz. Aquela imunda deveria estar morta agora e seria melhor assim. Ele estava perdido, devia estar desesperado e sem esperanças pela morte de sua amada. Pai, quem diria que um dia Raphael se apaixonaria por uma mortal. Um dos quatro Grandes Arcanjos de Deus, uma das criaturas mais antigas e poderosas do universo estava se rendendo a essa humana impura.

Era preciso, agora mais do que nunca, dizimar estava espécie nojenta da face da Terra... Eles infectam tudo a sua volta e agora estavam afetando até a nossa espécie. Isso tinha que ter um fim, o Criador determinou que fossem extintos... e era exatamente isso o que estava tratando de fazer.

Todas as noites eu apenas corria para o mais longe possível do lugar onde Raphael estava... já faziam quase seis dias e eu precisava chegar ao litoral com urgência. A limitação deste corpo me fazia correr apenas durante as horas noturnas, mas em compensação minha velocidade era incrível neste corpo vampírico. Já estava na sexta noite de fuga e sentia cada vez mais o peso da Gladius em minhas mãos. Aquele objeto sagrado era muito poderoso e acabava por ser um fardo pesado demais para um anjo comum como eu carregar, mesmo em sua forma camuflada.

Eles tentavam me impedir, mas confundiam a mente, me pregavam peças. Eles estavam me atrasando. Sempre que meu corpo fraco adormecia durante as horas do dia, eu ficava mais vulnerável a eles. Durante a noite, eu via os vultos me perseguindo, me nublando a visão, sussurrando em meu ouvido. Eles estavam me atrasando para que Raphael me alcançasse, eu sabia disso, mas nada iria me parar.

Eu estava cada vez mais perto... podia sentir o cheiro da maresia há alguns quilômetros de distância. O sol nasceria em poucos minutos e eu tinha que arranjar um lugar para abrigar estava casca vulnerável, ou a missão não seria cumprida. Como não havia nenhum lugar que serviria de abrigo, tratei de colocar a pequena espada dourada no chão e comecei a cavar a terra da floresta. Fiz um buraco fundo e grande o suficiente para eu caber, colocando o máximo de terra possível sobre uma enorme folha de bananeira que jazia no chão.

Podia sentir os olhos incomodados pela claridade, quando o céu deixava de ser negro e assumia um tom índigo. Deitei no buraco e encarei o pequeno objeto brilhante. Parecia um brinquedo de criança aquela minúscula espada dourada. Agarrei-a e coloquei no bolso da calça imunda que minha carapaça vestia. Cuidadosamente, puxei a folha de bananeira e derrubei o conteúdo de terra sobre mim, protegendo-me da luz do sol.

As sombras das árvores da floresta exuberante me ajudariam a suportar o dia e quando a noite caísse, eu alcançaria o oceano e poderia, enfim, me livrar da Gladius para que se perdesse no mar, para que Raphael jamais a encontrasse novamente.

...

Eu estava numa loja de roupas. Precisava comprar um vestido bonito para esta noite, pois iria sair com eles. Sorri imaginando como Alex estria lindo vestido com terno e gravata e também por imaginar a indecisão de Raphael sobre ir ou não de armadura. Eles estariam lá. De repente eu senti uma agonia no peito... aquele dia seria, ao mesmo tempo, o mais feliz e o mais triste da minha vida, pois deveria escolher um deles. Céus, como eu poderia fazer isso? Como eu poderia viver sem Alex ou sem Raphael.

De repente, o vestido preto e longo em minhas mãos pesou e o cetim pareceu áspero sob meu toque. Eu não queria dizer não a nenhum dos dois. Talvez... talvez o melhor a fazer fosse me afastar de ambos.

Sacudi a cabeça, tentando me livrar destes pensamentos. Mas que bobagem eu pensar que poderia viver sozinha sem nenhum deles depois de tudo o que passamos... embora eu não lembrasse exatamente o que era. Tudo estava confuso.

Caminhei até o provador e tranquei a porta. Desabotoei o primeiro botão da minha camisa e tive a sensação de dejavú... novamente. Virei rapidamente pro espelho e fiquei esperando alguma coisa acontecer. Eu sabia que aquele maldito espelho me mostraria algo de importante que podia ser muito bom ou muito ruim, eu não sabia ainda.

Abri o trinco do provador, deixei a porta encostada para qualquer emergência e esperei, encarando o espelho... mas nada aconteceu. De repente, tudo ficou escuro de novo.

...

Já fazia três dias que Manuella estava em uma espécie de coma induzido. Depois da cirurgia, nós a movemos para um lugar mais adequado, onde havia equipamentos antigos, mas que serviram bem. O corpo dela estava se recuperando muito bem por fora, segundo os médicos, um verdadeiro milagre. O problema era que ela não esboçava nada. Nenhuma reação, nenhum tipo de reflexo aos estímulos... nada. Era como uma casca vazia.

Eu ficava ao seu lado o tempo inteiro... ou melhor, metade do tempo, porque a outra metade o anjo fazia questão de ficar. Nós acabamos por adiar a viajem para a base não apenas por causa de Manuella, mas também porque havíamos perdido muitos amigos e os que restaram estavam feridos. Na pequena capela do lugar uma missa foi celebrada em homenagem aos corajosos soldados e pesquisadores que faleceram naquela noite fatídica.

Eu retornei da missa e fui direto ao quarto em que mantinham Manuella acomodada. Ajeitei seu cabelo com cuidado e fiquei um tempo alisando sua sobrancelha, num carinho que eu sabia que ela gostava. Novamente senti o frio na barriga. Como eu poderia viver sem ela? Essa possibilidade não passava pela minha cabeça, era como... como pensar que o sol jamais nasceria novamente.

Abaixei e beijei seus lábios de forma suave, quando a voz levemente mais grave de Raphael saiu pela minha boca:

- Você disse que lutaria por mim. – ele sussurrou pra ela.

Senti o sangue ferver por um segundo. Levantei e fui para a parte de trás de quarto adaptado. Havia alguns equipamentos ali que eram de reserva caso os que monitoravam Manuella falhassem. Atrás dos equipamentos, havia uma porta que dava num pequeno banheiro onde os médicos faziam a higiene das mãos antes tratar dela. Abri a porta com violência e fui na direção da pia. Segurei firme com ambas as mãos a louça branca, apertando-a com toda a força que tinha, e encarei o pequeno espelho a minha frente.

Fiquei muito tempo daquele jeito, encarando os meus olhos pelo vidro espelhado, e não reconhecia a mim mesmo, sentia-me confuso e com ódio. Abaixei a cabeça, deixando meu cabelo curto cair na testa levemente suada. Eu estava tão perdido... perdido como nunca estive na vida. Foi quando voltei a olhar para o espelho que vi meus olhos diferentes... estavam brancos.

- Então, é isso o que ela vê. – falei encarando a figura dele pelo espelho.

- Seu ódio não vai ajuda-la em nada. – ele respondeu.

Era estranho. Eu via minha boca se mover e sentia a voz sair da garganta, mas não era minha voz e tampouco eu respondendo, era simplesmente Raphael.

- Ah é? E o que vai ajudar, seu amor incondicional? – perguntei com eu sarcasmo habitual.

- Confie nela, Manuella vai voltar pra nós. – ele disse com aqueles olhos brancos nauseantes.

Eu ri alto.

- Nós? – perguntei ainda rindo, sem humor.

- Você duvida? – ele perguntou.

Eu encarei em silêncio. Sentia meu ódio por ele crescer cada vez mais. Era como se houvesse um buraco em meu estômago, um ciúme e uma raiva que eram incontroláveis.

- Eu não vou desistir dela, nunca. Não me importa se você é Anjo, Arcanjo, Deus ou o Diabo, eu não vou me afastar dela, jamais. – falei com firmeza, encarando meu reflexo tão diferente e único no pequeno espelho.

- Eu sei disso, Alex, mas não precisamos ser inimigos.

- Não? Então me diz que você não a ama, que não seria capaz de qualquer coisa por ela... inclusive acabar comigo para tê-la só pra si. – falei descontrolado.

Quem aquele miserável estava achando que era? Ele podia esconder seus sentimentos de qualquer um, até mesmo de Manuella, mas não de mim. Eu sabia o que ele sentia.

- Infelizmente, a decisão não cabe a mim. –Raphael respondeu, com um brilho triste nos olhos brancos.

Ficamos um tempo assim, nos olhando pelo espelho. Eu não odiava Raphael, de fato... odiá-lo era o mesmo que odiar a mim mesmo, eu acho. Éramos tão iguais e tão diferentes, que às vezes chegava a ser difícil separar o que era meu e o que era dele. Mas quando se tratava de Manuella, tudo mudava. Eu a queria pra mim, não queria ter que dividi-la com ninguém, muito menos com um... um Arcanjo. E bem no fundo eu sabia que ele a deseja pra ele também, de um jeito único, independente, desvinculado a mim.

Raphael tinha medo que, quando chegasse a hora, Manuella escolhesse a mim... e eu tinha o mesmo medo que ele. Foi a voz grave dele que me tirou do devaneio.

- Nós precisamos reaver a Gladius.

- Como? – perguntei.

- A espada sagrada, a Gladius que foi tirada de nós... temos que pegá-la de volta.

- E pra que precisamos dela? Esse negócio não serviu para que nós dois despertássemos? Pra que mais a queremos? – questionei curioso.

- A Gladius é a única coisa que me permitirá convocar os exércitos celestiais para a batalha final.

Encarei o espelho, sem entender porra nenhuma até que ele acrescentou:

- Os Céus estão divididos. Existem Anjos que desejam acabar com a raça humana, assim como Caliel, que levou a espada pra longe de mim. Esses anjos são poderosos porque são muitos. Eles acham que o homem é um caso perdido, que não há nada que valha a pena ser salvo e estão cegos pelo desejo do Criador em exterminar vocês. Eles não perceberam que o Próprio Pai ainda lhes deu uma última chance, que sou eu. Caliel e os outros irão se desfazer da Gladius para que, assim, o caos continue e sua espécie desapareça. Mas, se eu recuperá-la... posso reunir as forças que ainda os protegem, posso juntar os anjos que ainda têm fé, dentre eles, os meus gêmeos Arcanjos. Juntos, deveremos batalhar para expurgar do Paraíso todo o ser que é contra a obra do Pai Celestial, pois somente quem acredita e tem fé nos homens pode guia-los com amor e sabedoria.

- E agora, depois de todo esse tempo, é que você fala isso? Aquele vampiro deve estar bem longe, já deve ter se livrado daquilo faz tempo. – falei sacudindo a cabeça.

- Não... ainda não, mas ele deve estar perto de fazê-lo. Eu...eu sabia que tínhamos que ir atrás dele, mas... eu não pude deixa-la.

Houve silêncio mais uma vez.

Respirei fundo e senti as emoções de Raphael, mais uma vez, se misturando às minhas.

- Alex, eu sei que você não pediu por nada disso, sei que está confuso e com raiva, mas isso é maior que você. É o futuro da humanidade e é mais importante do que o que eu ou você sentimos por Manuella. Nós somos mais fortes juntos. Eu preciso de você pra poder cumprir essa missão.

Eu fitei o reflexo branco no espelho, sentia a urgência de suas palavras e a verdade contida nelas.

- E depois, como ficamos? – perguntei uma última vez.

- Depois... é ela quem decide. – Raphael respondeu.

...

O escuro foi suavizando um pouco. Sentia a claridade através das pálpebras pesadas. Abri os olhos lentamente e a dor havia passado novamente. Estava num lugar bonito, amplo e com um ar leve e agradável. Eu já tinha estado ali antes. Levantei devagar e vi que estava deitada sobre uma espécie pano branco envolto por flores do campo.

Eu vestia nada além de um vestido branco e longo, que se moldava a mim perfeitamente. Eu estava bonita. Caminhei pelo lugar, admirando sua beleza e vi três figuras me encarando de longe. Eu não me assustei... eu já os conhecia.

- Você precisa avisar a Raphael onde a Gladius está. – o Arcanjo de olhos dourados falou assim que me aproximei.

Em minha mente, vi a imagem de uma espada linda... a mesma que eu encontrei na floresta e que libertou a consciência de Raphael e de Alex. De repente, uma enxurrada de imagens me invadiu e eu pude ver uma criatura... um vampiro, correndo loucamente pelo mato, noites a fio, sem comer, sem parar. Ele carregava a pequena espada sagrada e eu via pra onde estava indo.

- Nós podemos retardá-lo por um tempo, mas você precisa avisar a Raphael como encontrar a espada.

Encarei os olhos violetas que me focavam profundamente e acenei. Então, os três deram um passo a frente, ao mesmo tempo, e com sua aproximação, recebi um choque no peito tão forte que fui lançada pra trás, voando por entre o tempo e o espaço, mais uma vez...

...

Eu aprontei tudo. A moto, a mala, as armas e os facões. No dia seguinte, após a conversa com Alex, ele decidiu que teria de confiar em mim e percebeu que minhas palavras eram verdadeiras. Deixei o corpo adormecido e perfeito de Manuella descansando no quarto, pedindo ao Pai que ela se recuperasse logo e me preparei para a partida. Também deixei Marcos e Dornelles para trás, apesar da insistência quase perturbadora deles em seguir conosco. Eu lhes expliquei o motivo da viajem e sabia que eu e Alex não poderíamos falhar. Estando sozinhos, nós poderíamos ir mais rápido.

Foi quando encarava o mapa da região e procurava por rotas possíveis de serem feitas por Caliel, que senti a presença dela novamente. Meu coração acelerou na hora e virei para encará-la. Seu corpo translúcido estava radiante, leve e lindo como sempre e seu rosto parecia em paz. Aquilo me assustou por um segundo, mas logo meu medo deu lugar à alegria de revê-la.

- Vocês precisam encontrar a espada. – ela disse se aproximando de mim.

- Eu sei. – respondi esticando a mão para tocar seu rosto.

Minha mão passou no ar, atravessando seu rosto, como se não houvesse nada a minha frente. Ela sorriu.

- Ele está indo para o litoral, direção leste. Precisam impedi-lo. Ele vai chegar em três dias.

- Vamos conseguir a Gladius de volta. – eu disse com convicção, tentando disfarçar o nó na garganta.

- Devia ter ido antes. – ela falou.

- Precisava ver se ficaria bem. – respondi encarando seus olhos brilhantes.

Antes que ela pudesse me dizer mais alguma coisa, seu espectro branco desapareceu no ar. Era a hora, eu precisava partir.

Notas finais
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