Life
34 Capítulo 33
Notas iniciais
Gostaria de agradecer demais aos reviews de vcs e dizer que Life conseguiu sua sexta recomendação!!!!!! Katty, minha filha, assim vc me mata!! rs
Mto obrigada gente, de verdade!
Katty, dedico este cap a vc!
Boa leitura!!!!
O tempo estava bom e a moto levantava poeira da estrada por onde passava. A quase duzentos quilômetros por hora, eu tentava ganhar o tempo que perdi e alcançar Olavo. Eu não pararia, não descansaria até encontra-lo. O único lugar que ele podia ter ido, era o abrigo mais próximo, usado por nós.
Eu sabia o plano dele. Olavo não fugiria assim do nada. Ele queria apenas se recuperar pra voltar mais tarde... bom, eu não estava a fim de deixar isso acontecer.
A tarde caía e meu relógio apitava 17:30h. O lugar do abrigo estava a menos de um quilômetro de distância. Se Olavo estivesse lá, eu não poderia me aproximar demais com a moto, não queria que o bastardo se preparasse ou fugisse de mim.
Deixei a moto um pouco pra dentro do mato, pois seguiria o resto do caminha a pé. Segurei meu facão apertado na mão. Trataria Olavo como o maldito que era, nada de armas de fogo e morte rápida. Enquanto caminhava, pensava no que Manuella havia dito. Pra ela, se eu o matasse, seria como ele... pra mim, se eu não fizesse é que eu seria como ele.
Avistei o rastro da moto de Olavo no mato, indo na direção oposta a do abrigo, na tentativa vã de distrair possíveis noturnos. Caminhei com cautela, enquanto o sol deixava o céu escuro ao terminar de se esconder no horizonte.
Avancei sorrateiro, fazendo o mínimo possível de barulho no mato. Quando cheguei ao local exato, agachei e retirei a camuflagem de cima da entrada do abrigo subterrâneo. Puxei a corda grossa levemente, apenas para confirmar que estava trancado por dentro. Sorri. Enfiei a ponta do facão na fresta da porta do alçapão e forcei o suficiente para estremecer a entrada do abrigo. Ouvi o engatilhar de uma arma lá embaixo.
Meu sorriso aumentou no rosto e o coração começou a bombear a adrenalina por todo meu corpo. O início da noite já deixava a visão do ambiente bastante prejudicada e tudo contribuía para o cenário perfeito para morte de um bastardo.
Com o facão e a força extra de minha estranha fisiologia, forcei a entrada de madeira com mais vigor e ouvi quando esta rachou e soltou um pedaço, que foi parar no meio da mata fechada. Um tiro foi disparado.
Com o pé, bati com força na parte danificada, que cedeu. A muitos metros de distância, no fundo do esconderijo, havia uma luz fraca de lanterna e um par de olhos assustados, que se arregalaram ainda mais quando me viram.
- Você?! – ele falou.
A simples visão daquele rosto e o cheiro que emanava do seu corpo imundo foram suficientes para fazer minha visão avermelhar. Sentia, pela primeira vez com prazer, o rubro tomar conta de mim. Ele se misturava aos gritos de Manuella que ecoavam em minha mente e também à visão dela sendo subjugada e humilhada por ele.
Os olhos de Olavo se tornaram duas bolas imensas na semiescuridão do abrigo e ele atirou diversas vezes em minha direção. Desviar foi fácil, precisei apenas afastar o tronco um pouco e fazer com que não tivesse mais ângulo para me acertar. Enquanto isso ouvia minha voz grave e sádica sair da garganta, junto a uma risada irreconhecível e agradável.
- Isso mesmo, faça bastante barulho! Chame a plateia para o espetáculo.
- SEU MALUCO! ABERRAÇÃO! EU VOU MATAR VOCÊ! – ele gritava em desespero lá debaixo, enquanto descarregava o cartucho na tentativa de se livrar de mim.
Meu prazer foi redobrado. Eu sentia o cheiro do medo de Olavo e a adrenalina em seu sangue.
- Você vai ficar aí, entocado como o cão que é, ou vem aqui me enfrentar? – perguntei divertido, do lado de fora, enquanto ouvia a respiração acelerada dele vinda lá debaixo.
No instante seguinte, ouvi seu grito e o corpo grande de Olavo veio com tudo pra cima de mim. Como um animal encurralado cuja única chance de sobrevivência era o ataque, ele veio saltando e atirando em minha direção. Como seu ataque foi medíocre e totalmente movido pelo desespero, foi muito fácil de sair. Senti um dos tiros passar de raspão em minha carne e o sangue vermelho se espalhou pelo mato.
- Isso mesmo, espalhe bastante sangue por todos os lados. Em breve aqui vai estar repleto de malditos atrás da gente... você vai conseguir atirar em todos eles, Olavo? – ouvia minha voz grave debochar de seu desespero crescente.
Enquanto o soldado tremia e recarregava sua arma de forma desengonçada pelo nervosismo, eu parti pro ataque. Com um golpe simples e certeiro, desci a lâmina afiada de cima para baixo, cortando todo o corpo do soldado desde o ombro esquerdo até a coxa direita. O corte não foi profundo, mas doeu o suficiente para arrancar um grito de dor bastante audível e fez com que mais sangue se espalhasse pelo chão de folhas secas.
Olavo deixou a arma cair quando contraiu o corpo involuntariamente e eu chutei o metal pra longe. Com outro movimento rápido, chutei o rosto daquela criatura com tamanha força, que provavelmente quebrei mais um par de ossos da face. O corpo dele foi lançado a alguns metros e bateu com força em um tronco largo.
Caminhei lentamente até ele, que gemia e sagrava em agonia. Eu queria mata-lo, mas queria que sentisse a dor e a agonia da humilhação antes disso. Parei em frente ao corpo debilitado, que ainda assim tentava se por de pé.
- Você... você... – ele tentava falar, mas o sangue escorria pela boca em abundância.
- O quê? Como é? Não estou te entendendo. – falei colocando a mão no ouvido e agachando diante dele.
- Quer me dizer alguma coisa? – perguntei embriagado em sarcasmo e sentindo o prazer de seu medo.
- Por que... por que não me... não me mata de uma ... vez? Desgraçado...
As palavras saiam arrastadas e com dificuldade, o que me agradava ainda mais.
- Matar você? Quem disse que vou matar você? – perguntei com um sorriso ainda maior no rosto.
Eu vi o entendimento no clarão de seus olhos e o terror que vi ali fez tudo valer a pena. Era o mesmo olhar que Manuella tinha na noite anterior.
- Ela não quer que eu o mate, e vou respeitar a decisão dela. – falei chegando perto de seu ouvido.
Finalmente eu tinha decidido o que fazer. Manuella me pediu para não mata-lo... mas não havia pedido para que eu impedisse sua morte.
Nessa hora ouvi os passos rápidos das criaturas da noite. Minha audição estava muito mais aguçada, assim como a visão rubra que me mantinha alerta. O cheiro da morte começou a atingir minhas narinas e eu sabia que eles estavam vindo, alucinados, atrás de seu precioso líquido vermelho.
Olavo tentou se mover. Com o corpo fudido, tentou se arrastar na direção do abrigo. Com um único movimento, cortei o ar com a lâmina, que desceu ligeira e cortou três dedos da mão que estava estendida no chão, a procura de apoio. Olavo berrou e eu supunha já ser capaz de sentir o cheiro de podre tão forte quanto eu mesmo sentia.
Levantei como facão ainda pingando sangue e chutei-lhe a face, fazendo seu corpo enorme e fraco virar de barriga pra cima, expondo ainda mais a ferida aberta. Lentamente, pisei na mão que acabara de ferir, enquanto ele gritava coisas sem sentido devido a dor e a certeza da morte próxima. Agachei mais uma vez e falei em tom grave próximo ao seu ouvido:
- Os malditos não vão matar você... eles vão dilacerar sua carne com as presas e sugar o sangue de suas veias até que não reste mais nada. Você vai sentir cada instante de agonia, vai sentir cada mordida e cada golpe até que não sobre mais nada, até que sua vida esteja praticamente acabada nas garras deles. Eu vou estar bem aqui, assistindo a tudo, e quando você estiver quase morto, eu vou matar a cada um deles, só para que sua agonia se prolongue, só para que você implore para eu que te mate... e eu não vou matar.
Assim que terminei de falar, senti o ar atrás de mim se mover. Eram eles. Dei um salto perfeito e parei em um dos galhos mais altos da antiga árvore. Os malditos nem se deram conta ou se importaram com a minha presença, eles queriam o sangue de Olavo, fresco e vivo.
Ouvi seus gritos de terror e dor em lentos segundos de agonia. Quando percebi que sua vida já estava prestes a terminar, saltei do galho e exterminei um por um, em uma velocidade inumana e absurda. Mais deles chegavam a cada segundo e eu os exterminava, formando uma pilha de corpos sob meus pés.
Os minutos passaram, até que não ouvi mais sons na floresta. O corpo de Olavo jazia embaixo da pilha fétida de vampiros e eu não sabia se estava morto ou não, só sabia que estava satisfeito por ter cumprido minha promessa a Manuella.
...
Era meio da tarde quando saí finalmente da casa de Alex. O dia estava lindo e Naska parecia estar num ritmo lento, talvez pela festa da noite anterior. Já não havia mais luzes e bandeiras nas ruas e as pessoas já não estavam irradiando felicidade, haviam voltado ao estado normal de medo e aflição.
Eu ia em direção à academia, quando encontrei Roger com umas caixas na mão indo na direção oposta.
- Oi! – falei encarando as olheiras profundas do rapaz.
- Oi Manu! – ele respondeu animado.
- Quer ajuda?
- Por favor!
Roger me passou metade dai caixas que carregava e rumamos tranquilos em direção ao laboratório.
- Isso aqui é aquele material pra triagem que meu pai pediu. – ele dizia enquanto fazia cara feia... eu sabia que detestava carregar peso.
- Bom, e sua irmã? – perguntei dobrando a esquina e entrando no prédio.
- Ela tá deitada, com uma baita ressaca... é sempre assim, todo o ano. Ela não sabe beber, nunca soube.
O sorriso dele foi divertido, mas logo Roger emendou o assunto.
- E a senhorita, hein?... passou a noite em algum lugar especial?
- Hã... não, eu só fui dormir mais cedo. – falei tão logo alcançamos o segundo andar.
Roger pareceu desconfiado, mas não insistiu no assunto. Sua ânsia em contar sua noite foi maior que a curiosidade. Deixamos as caixas sobre a mesa do pai dele e no segundo seguinte ele estava me contando a odisseia da noite anterior.
Roger tinha se divertido, isso sim, e me fazia rir com suas caras e bocas ao contar do soldado que ele ‘pegou’. No meio da sua narrativa eu me dei conta de como estava bem, mesmo tendo passado por aquilo com Olavo e os outros... eu devia estar louca, mas eu não sentia mais aquela dor no peito que me tirava o ar. Por alguma razão sem sentido, eu não estava mais com medo.
Depois de ouvir a longa narrativa de Roger, eu me despedi dizendo que precisava ver Dornelles.
Fui até a academia, quando o sol já começava a baixar no horizonte. Entrei no lugar que estava agitado. Os soldados faziam grupinhos enquanto treinavam, mas eu senti um clima diferente no ar. Eles pareciam assustados. Enxerguei a figura de Marcos mais ao fundo.
- Oi. O que aconteceu? – perguntei preocupada, estavam todos muito apreensivos.
Dornelles e Júnior também estavam ali, mas foi Marcos quem falou sem jeito.
- Bom... encontramos dois soldados mortos hoje pela manhã. O corpo de Sidarta estava desfigurado em um dos galpões de suprimentos e Petrus estava perto das plantações... não perece ter sido ataque de malditos, então as pessoas estão... assustadas.
Gelei. Minha nossa, Alex os tinha matado quando chegou pra me salvar.
Senti uma fraqueza momentânea, que tratei de afastar. Eu me mantive bem, fingindo como sempre, muito bem.
- E quem vocês acham que fez isso? – perguntei, fitando o confuso Júnior.
- Não sabemos, mas ontem a noite Alex deu ordens expressas pra que eles não deixassem Naska, nem eles nem Olavo.
Encarei Júnior e controlei a voz antes de perguntar.
- E Olavo?
- Bom... ele conseguiu fugir pelo muro sul hoje de manhã... Alex...
- Foi atrás dele. – conclui.
Senti o peito pesado e uma confusão de coisas ao mesmo tempo. A noite se aproximava e eu sabia, no fundo de minha alma, que Alex iria até o inferno atrás de Olavo, mesmo que isso representasse perigo pra ele. Que merda! Precisei manter a calma... eu não queria que ninguém soubesse de nada disso.
Dornelles falou incisivo, tentando cortar o clima tenso.
- Bom, Alex é um rapaz ajuizado, ele deve ter tido os motivos dele pra nos mandar ficar de olho naqueles caras e, se Olavo fugiu, é porque tinha culpa no cartório. Acho que acima de saber o que aconteceu, devemos nos preocupar em reforçar as defesas do muro pra noite que se aproxima, porque se Alex está lá fora, ele vai voltar em breve... e pode não voltar sozinho.
Dornelles era um homem centrado e suas palavras tiveram um impacto imediato em todos a nossa volta. Eu me segurava o máximo que podia, mas estava aflita por dentro.
- Bom, então o que estamos esperando? – falei firme, indo na direção das estantes de armamentos.
A noite passou lenta e a madrugada trouxe um vento mais frio do sudeste. Do topo da guarita, eu estava a postos juntos com mais três soldados. Ao longo dos muros, nos postos de observação, os demais aguardavam qualquer sinal de Alex. Acima das mortes dos soldados estava a vida de Alex. Ele representava a esperança, a salvação, e as pessoas de Naska temiam perder o único fio de esperança que ainda tinham.
Por volta das quatro da manhã vi um feixe de luz cruzando a estrada ao longe e o ronco do motor da motocicleta se fez ouvir. A tensão de todos aumentou. Os holofotes vasculhavam a mata que rodeava Naska a espera das órbitas negras que pudessem estar na espreita. Vi a moto branca se aproximar e um brilho forte me fez fechar os olhos. Eram as luzes refletindo no facão de Alex, que estava a postos.
Vi os pontos brancos e brilhantes assim que se aproximou dos portões de Naska. Alex parou a moto com um cavalo de pau e virou de frente pra mata. Com um salto gracioso, o corpo atlético e preparado parou diante do veículo, que tombou no chão. Meus olhos seguiram para a floresta, onde finalmente enxerguei os incontáveis e temidos pontos brilhantes. Eram negros como a noite que nos envolvia, frios como a morte certa.
- VAMPIROS! – um dos soldados gritou da guarita oposta.
Todos nós engatilhamos as armas. Estiquei os braços e vi que eles tremiam, apoiando a Glock de forma incerta. Se aqueles malditos atacassem, Alex estaria ferrado sozinho lá embaixo.
Os segundos passaram em câmera lenta. Era como se o tempo estivesse suspenso no ar. Alex estava aguardando o ataque dos malditos, que há dias não davam sinais. O braço esquerdo com punho cerrado, o tronco inclinado pra frente e o facão na mão direita, perpendicular ao antebraço, somente esperando o momento da batalha.
Então, como da vez em que chegamos à Naska, eles se retiraram. Os olhos negros famintos foram sumindo no meio da escuridão, camuflando-se na noite, até que desapareceram, até que seu cheiro se tornou um leve e pouco incômodo odor.
- VAMOS! ABRAM OS PORTÕES!
Eu gritei de cima da guarita, olhando lá pra baixo, onde todos ainda pareciam perplexos demais.
Os homens se mexeram, e os portões se abriram apenas o suficiente para deixar Alex passar. A moto ficou exatamente onde estava.
Cori para baixo, sentindo o coração bombear o sangue com voracidade, fazendo o peito saltar. Alguns soldados rodeavam Alex, mas havia um halo a sua volta, uma distância de segurança que cada um impunha a si mesmo. Os olhos brancos preenchiam as órbitas de Alex e o corpo estava manchado de sangue. Eu parei de longe, apenas observando junto aos demais, mas ele me encontrou. Olhando-me fixamente, Alex foi recobrando a cor normal de seus olhos.
Sua voz saiu ligeiramente grave quando começou.
- Desculpem, mas precisei fazer justiça.
Dizendo isso, ele caminhou sozinho para longe dos muros e nós apenas o acompanhamos com o olhar. Dentro de mim, havia uma tormenta de pensamentos e sentimentos. Eu não queria que nada disso tivesse acontecido, não queria que ele os tivesse matado. Esse era um problema meu, ele não tinha que se tornar um assassino por mim.
As pessoas a minha volta começaram a se mover e todos voltavam aos postos de vigília. Eu não conseguiria fazê-lo. Fui na direção que Alex seguiu, com o coração batendo forte. Eu sentia raiva e um misto de coisas que me agoniavam. Sentia um nó na garganta.
Alcancei a frente da casa dele e travei a Glock, que eu insistia em apertar nas mão. Entrei pela porta da frente, a única que existia, e ouvi o som do chuveiro ligado. A camisa branca estava jogada no chão em frente à cama e as manchas vermelhas a preenchiam quase que totalmente. Da porta do banheiro, vi Alex dentro do box. O chuveiro ligado, a cortina escancarada. Ele não estava se banhando, mas mantinha os braços sujos de sangue embaixo d’água e esfregava-os com veemência com uma esponja pequena.
Ele sabia que eu estava ali.
- Eu sei que me disse pra não fazer, mas eu não conseguiria conviver com isso.
Alex não me encarou, continuou esfregando os braços como se quisesse arrancar a pele, como se o sangue que manchava suas mãos fosse algo contaminado e ruim... e era.
Respirei fundo. Senti meu coração acelerar mais um pouco. Não era de raiva, finalmente eu entendi o que estava sentindo. Eu não tinha raiva de Alex por ele ter feito o que fez; jamais conseguiria vê-lo como um assassino. Ele só estava querendo me proteger, se livrar das pessoas que me fizeram tão mal... como eu poderia me decepcionar ou mesmo sentir raiva dele por isso?
Sem dizer nada, coloquei a arma sobre a pia e caminhei até o box. Coloquei gentilmente minhas mãos na dele, fazendo-o parar de esfregar os braços com o pedaço de esponja. Suavemente, peguei o objeto com uma mão e segurei um de seus braços com a outra. Seu braço estava arranhado e a pele sensível pela violência dos movimentos. Comecei a esfregar as manchas de sangue com carinho. Deixei a água me ajudar a lavar o líquido vermelho de sua pele, o sangue daquele que havia morrido por me ferir.
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