Life
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Boa leitura!!
O choque com a água fria me fez despertar forçosamente. Até então eu tinha tido vislumbres do que estava acontecendo, entrando e saindo de estados de semiconsciência. Eu ouvia a voz dela, mas não conseguia responder. Eu sentia o nariz arder, mas meu corpo já não tinha mais forças para reagir... não até se recuperar um pouco.
Quando ela me arrastou pelo rio eu senti a água como um anestésico para as dores, senti meus movimentos voltando aos poucos. O zunido em meu ouvido e as feridas pelo corpo que a explosão causaram, estava diminuindo a medida que meu corpo se recuperava nesse ritmo acelerado. Mas ainda estava fraco demais.
Senti Manuella nadar comigo e chegamos a uma pedra. Os malditos estavam por todos os lados, alvoroçados, desesperados por não conseguirem nos alcançar. E havia muito sangue. Mesmo com a luz da lua em seu brilho tênue eu via a mancha escura que saia na água, principalmente do corpo dela.
Manuella me deixou na pedra até que eu consegui me segurar sozinho. Ela estava ao meu lado, se segurava como podia, mas estava mal, muito ferida.
- Manuella, fica acordada! Manuella! – eu gritava pra ela, sem resposta.
Foi então que ela se soltou da pedra, fechando os olhos. Seu corpo estava exausto, muito mais que o meu, que já se recuperava. Vi Manuella afundar lentamente e seu corpo ser arrastado para baixo. Tirando forças de onde não tinha, agarrei-a pelo braço e a puxei pra mim.
Minhas narinas ardiam como nunca e eu estava sentindo meus músculos enrijecerem. Eu estava enxergando tudo vermelho novamente. Eram tantos vampiros que minha adrenalina estava a mil. Eu precisava mata-los, eu tinha de fazê-lo, mas não podia. Se eu me deixasse levar pelo delírio, Manuella morreria ali mesmo. Agarrando seu braço com força, eu a puxei pra mim, agarrando com firmeza. Ela estava desacordada.
A correnteza estava forte e a água muito fria. Eu prendi a respiração nasal, tentava controlar meus instintos, respirando pela boca enquanto chamava por ela, que não respondia.
- MERDA! MERDA! ACORDA MANUELLA! EU NÃO CONSIGO ME CONTROLAR, VOU ACABAR TE SOLTANDO!
Meus gritos desesperados não a acordaram.
“Por favor, Senhor, eu preciso me controlar, não posso entrar em frenesi agora!’ eu pensava em agonia.
Reunindo forças, dei a volta na pedra com o corpo dela abraçado ao meu e fiquei contra a correnteza, ainda grudado na pedra. Encontrei uma fenda profunda e cravei minha mão direita ali, enquanto que com o braço esquerdo abraçava o corpo da mulher que tinha salvado minha vida.
“Eu não posso me descontrolar, eu não vou me descontrolar!” – dizia a mim mesmo, tentando resistir à tentação de atacar os malditos.
Com um impulso, eu coloquei o corpo de Manuella com as costas na pedra, e fiquei de frente pra ela, agarrando a nós dois de forma segura. A correnteza batia em minhas costas e com o tronco eu pressionava o corpo dela para que não afundasse na água... metade de nossos corpos estavam submersos.
Segurei firme na pedra, pressionando o corpo dela inteiro. Eu não a deixaria morrer, não depois do que ela fez por mim. Respirei fundo algumas vezes, de olhos fechados.
‘Controle, Alex, controle’ pensei comigo durante muito tempo.
Explorei um pouco a pedra com os pés e encontrei uma fenda na parte de baixo, onde apoiei o pé esquerdo. Com cuidado coloquei-a meio sentada na minha perna com o corpo tombado contra o meu. Sua cabeça em meu ombro esquerdo. As costas dela estavam na pedra fria e eu tentava protege-la a todo custo da força da água corrente com meu próprio corpo. Com os cotovelos na rocha, mantinha Manuella dentro do círculo de meus braços.
Por alguns minutos eu me mantive concentrado em não atacar os malditos, mas era muito difícil. A cada minuto, meu corpo se recuperava das feridas, ficando mais forte, e isso me fazia quere ataca-los a todo custo, mas não podia deixa-la.
- Eu não vou te deixar. – falei pra ela e pra mim mesmo, enquanto a mantinha segura apertada junto a mim.
Colei ainda mais meu corpo ao dela, pressionando-a na pedra, e fechei os olhos. Senti cada parte dela grudada em mim e não consegui parar de pensar na perfeição de seu corpo. Mas não era de uma forma impura, não depois do que ele tinha feito pra me salvar. Eu jamais me aproveitaria de sua fragilidade. Mas era praticamente irresistível tê-la assim tão perto, tão colada em mim. Pude sentir e observar cada detalhe de seu rosto, seus ombros e o busto lindo. Pude sentir o cheiro que vinha de seu cabelo, mesmo molhado. Era tão estranho poder sentir aquele cheiro... mas de alguma forma, foi ele que manteve minha sanidade.. Eu não iria ceder ao instinto, eu protegeria Manuella com minha vida até que o sol brilhasse no céu....
...
Três horas. Esse foi o tempo que fiquei agarrado à pedra com Manuella em meus braços. Eu não entrei em frenesi e ela acordava de vez em quando, mas sem ficar completamente consciente. Eu só esperava que ela não tivesse entrado em choque pela perda de sangue ou pelo frio.
Vi o céu assumir um tom diferente e as criaturas, finalmente foram sumindo, uma a uma. Ao olhar para a margem de onde vim, avistei de relance o último vampiro antes de ir embora. Eu já o tinha visto antes. Ele era alto e vestia um blusão social já gasto e manchado pelo tempo. Era ele, o mesmo vampiro que fugiu de mim na outra noite...
Ele me olhou profundamente, sem emitir nenhum som ou grunhido e, lentamente se retirou. O sol nasceria em breve e seu instinto de sobrevivência falava mais alto. Naqueles poucos instantes em que nos encaramos eu percebi seu ódio, sua raiva, e eram direcionados a mim. Em algum lugar na minha mente cansada eu sabia que aquele ataque tinha sido liderado por ele... de alguma forma ele tinha nos seguido e orquestrado tudo aquilo... mas eu não podia ficar pensando nisso agora, meu objetivo era outro e estava entre meus braços.
Meus músculos já estavam com cãibras de tanto tempo estarem fazendo força, de estarem na mesma posição. Eu precisava leva-la em segurança ara a margem, precisava tentar tirar Manuella dali. Lentamente, tentei afrouxar meu abraço, mas o corpo dela quase escorregou. Eu não podia arriscar. Preferi esperar até o sol nascer de vez e torcer para que os outros aparecerem, se estivessem vivos.
O relógio de pulso apitou mais uma hora percorrida. Eram sete em ponto e o céu azul já exibia os raios dourados, eu tinha que agir. Bem no instante que tomei a decisão, ouvi uma voz distante chamar meu nome.
- ALEX!
- AQUI! ESTOU NO RIO! – gritei de volta. Logo vi as silhuetas de Dornelles, Carvalho e Marcos, na ribanceira que margeava o rio.
Eles correram, gritando aos outros que tinham me encontrado.
- DEPRESSA! PRECISO QUE PEGUEM MANUELLA. ELA ESTÁ DESACORDADA, TEMOS QUE MEDICÁ-LA! — falei já em desespero.
Marcos não perdeu tempo e entrou no rio, sendo seguido de perto por Carvalho.
- Me ajudem! – falei quando eles já estavam grudados na pedra.
Com cuidado, passei o corpo dela para eles, que a levaram até a margem. Dornelles me ajudou a voltar. Meu corpo doía e eu tinha cãibras nos braço, mas isso não importava, eu tinha que ver se ela estava bem.
O corpo de Manuella estava deitado na margem, o cabelo espalhado a sua volta, As roupas estavam rasgadas e ela tinha muitas feridas nos braços, além de um inchaço feio abaixo do olho direito. Sua boca estava arroxeada e a pele não tinha a cor linda de sempre.
- Ela está fria, está muito mal, precisamos aquecê-la! – gritei a eles. Dornelles já a examinava e tomava o pulso.
- Está viva, mas muito fraca. Ela tem que ser aquecida agora! – ele falou enquanto tirava a blusa para por sobre o corpo da jovem.
Eu levantei correndo e a coloquei em meus braços, com a blusa grande de meu amigo sobre seu corpo perfeito.
- Vamos, temos que tira-la daqui!
Os outros me ajudaram e leva-la de volta para a mata e corremos até o jipe destroçado. A moto dela estava caída no chão e parecia sem conserto.
- Eu vou voltar pro abrigo, ela precisa acordar! – falei enquanto subia no carro com seu corpo mole em meus braços.
- Tá louco, Alex? Nós não podemos voltar, temos que continuar em frente! – Olavo interferiu.
- Não iremos sobreviver a mais uma noite aqui! – Santana completou.
- Que se fodam vocês! – explodi – Eu não vou deixa-la assim! Ela salvou minha vida ontem, o mínimo que posso fazer é tentar retribuir! Vocês façam como quiserem, mas eu vou ficar aqui o tempo que for necessário até que ela acorde.
Minha voz saiu alta e clara e muito rude. Os soldados nada disseram, embora nem todos tenham concordado comigo.
Júnior pilotava o jipe em alta velocidade. O veículo fazia muito barulho e a lataria estava muito danificada. Em outro momento eu perguntaria o que aconteceu. Vi apenas o corpo de Filipe deitado no banco do carona, chacoalhando com os buracos do chão.
- O que houve com Filipe? — perguntei enquanto ajeitava a blusa sobre Manuella. Os arranhões em seus braços eram profundos.
- Ele foi mordido. O filho da puta voou no pescoço dele lá embaixo, foi rápido demais. Ontem foi um caos, nem sei como estamos vivos! Marcos estava nos seguiu na moto e do jipe atiramos contra eles até acabar a munição, então demos a volta e achamos a ponte. Os malditos não atravessaram o rio, foi nossa sorte. – Dornelles me explicou enquanto apertava o pulso de Manuella.
Chegamos mais uma vez até o posto de gasolina, onde havia os resquícios de um verdadeiro massacre. Os corpos dos malditos não estavam mais lá, havia só um bando de cinzas espalhados no chão, mas o sangue estava em toda a parte.
Corri com o corpo dela para dentro, atropelando os corpos que ainda estavam no meio do caminho... infelizmente o sol não podia pulverizar os que estavam no subsolo...
Encontrei a sala principal, onde estavam nossas coisas e por sorte a luz tinha sido reestabelecida. Da minha mochila retirei um casaco térmico e um cobertor e a cobri, deitando seu corpo no sofá empoeirado.
- O que podemos fazer? Será que uma pequena fogueira ajuda? – Juninho perguntou aflito, sentando ao lado dela junto comigo.
Dornelles já sacava sua caixa de primeiros socorros e fazia a assepsia nos cortes dos braços.
- Não, acho que fumaça aqui dentro não vai ser bom. – respondi encarando o rosto pálido e bem feito da jovem.
- Ela perdeu muito sangue, mas acho que vai ficar bem... – Dornelles falava me encarando – Mas a viajem vai ser difícil pra ela, Manuella precisa de descanso pra se recuperar.
- Ótimo! Que maravilha! – Santana perdeu a cabeça – Eu sabia que ela ía atrasar a gente! O que temos que fazer, arrumar o lugar pra ela descansar enquanto a gente fica aqui encurralado?!
- Cala a boca! – Júnior gritou com o outro – Ela está conosco, não podemos deixa-la! Nós estamos levando Filipe, por que não Manuella?
- Por quê? Porque ela é um estorvo! – Olavo interveio, gritando a plenos pulmões – Ela nem deveria estar aqui, pra começar! Eu não sei de onde vocês tiraram essa ideia absurda de deixa-la vir! Filipe é homem, ele não precisa que a gente carregue ele pra cima e pra baixo, mas ela não! O que nós temos que fazer é deixa-la aí. Ela vai morrer de qualquer jeito!
- Cala essa boca! – Juninho levantou, encarando Olavo de frente – Ela salvou a sua vida, já esqueceu?
- Ela só fez o que tinha que fazer, não é uma heroína por isso! – Olavo continuou, empurrando Juninho com força – A gente tem mais é que deixar ela aí e seguir em frente! A gente podia até usar o corpo da vadia enquanto ainda tá vivo e tem alguma serventia, porque moribunda ou não, ela ainda é uma puta gostosa.
Dizendo isso, Ovalo deu um passo a frente e esticou o braço pra tocar os seios de Manuella. Não chegou nem perto.
Com uma fúria incontrolável eu saltei do sofá e pulei sobre ele, fazendo-o cair no chão. Minha mão enforcava a garganta com uma força anormal. Os olhos dele esbugalharam.
- VOCÊ NÃO SE ATREVA A TOCAR NELA, SEU MERDA! VOCÊ SÓ ESTÁ VIVO PORQUE ELA SALVOU A PORRA DA SUA VIDA E ONTEM FOI A ÚNICA QUE ARRISCOU TUDO POR MIM. EU ESTARIA MORTO AGORA SE NÃO FOSSE ESSA MULHER, QUE FEZ MUITO MAIS POR NÓS EM DUAS NOITES DO QUE VOCÊ FEZ EM ANOS! ENTÃO CALA A PORRA DA BOCA E NÃO SE APROXIMA DELA DE NOVO PORQUE SE NÃO, EU NÃO REPONDO POR MIM!
Olavo era forte, mas estava sufocando. Santana e Carvalho me tiraram de cima dele, que começou a tossir e puxar por ar.
- EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ VAI ARRISCAR A GENTE POR CAUSA DELA! VOCÊ É LOUCO! – Olavo ainda conseguia gritar, mesmo vermelho e sem ar.
- EU NÃO ESTOU OBRIGANDO NINGUÉM A FICAR, FAZ COMO VOCÊ QUISER. SE QUISER SEGUIR EM FRENTE, VAI, MAS SAIBA QUE ELES VOLTARÃO AO ANOITECER E A MANUELLA NÃO VAI ESTAR LÁ PRA LIVRAR A SUA BUNDA DELES DE NOVO... E NEM EU!
Eu estava descontrolado. Meu sangue ainda fervia pelas palavras daquele miserável. Como ele podia pensar em fazer aquilo, estupra-la e deixa-la ali pra morrer!
- VOCÊ É UM DOENTE, OLAVO, UM DOENTE DE MERDA! – falei ainda espumando de raiva e Júnior completou empurrando-o pra fora da sala.
Santana e Carvalho o seguiram, eram todos uns merdas. Filipe ainda estava mal e permaneceu encostado num canto da sala com marcos o amparando. Juninho voltou correndo para ajudar a mim e ao Dornelles.
- Ele é um idiota... – voz fraca de Manuella soou no cômodo em silêncio.
Mais que depressa, abaixei para perto.
- Você está melhor? – perguntei enquanto tirava o cabelo semiúmido de sua testa.
- Um pouco... me sinto fraca demais... – ela disse com dificuldade.
- Você perdeu muito sangue, precisa repousar. – Dornelles falou pra ela enquanto novamente tomava seu pulso.
Manuella abriu os olhos lentamente e me encarou. Eu não podia entender como ela ainda podia estar tão linda, mesmo naquele estado. Passei o dedo muito suavemente em seu rosto, no lugar onde fora acertada. Estava inchado.
- Ai! – ela exclamou e suavizei ainda mais meu toque.
- Precisamos de gelo aqui. – falei aos outros.
- Pena que não temos um freezer por perto... – a voz de Marcos soou ao fundo.
- Estou tão mal assim? – ela perguntou encarando Juninho, que ficou vermelho.
- Ainda falta muito pra isso... – ele falou.
Revirei os olhos, ele era um babaca, mas era bom garoto.
- Juninho, porque você tão tenta arrumar uma água gelada pra colocar nessa ferida dela, que tal? – perguntei disfarçando minha voz. Ele parecia um cachorrinho babão olhando pra ela.
- Certo.
Assim ele saiu correndo, sei lá pra onde.
- Não faz isso com ele... – Manuella falou enquanto voltava a me encarar.
- O quê?! – perguntei fazendo cara de inocente.
Ela sacudiu a cabeça.
- Então, o que vamos fazer? – Marcos falou do fundo da sala.
- Nós temos que ir, não podemos ficar aqui mais tempo. – ela disse, tentando se levantar. Dornelles já havia enfaixado seus braços e ela não perdia mais sangue, mas estava fraca.
- Ei, ei, ei... – Dornelles advertiu a moça, forçando-a a deitar novamente – Nem pense em levantar.
- Mas não podemos ficar, eles vão voltar! – ela disse já com a voz mais forte.
- Mas você não está em condições de viajar ainda. – eu falei encarando-a com firmeza.
- Não importa, eu consigo ir. Não podemos ficar.
Dornelles me olhou, aguardando minha decisão.
- Ok, vou com você no jipe, junto com Dornelles, Juninho, Marcos e o moribundo ali. Mas se você sentir qualquer coisa, tem que nos avisar, nada de bancar a durona novamente!
Ela fechou a cara e conseguiu ficar ainda mais graciosa com isso.
- Tá bom. – ela aceitou a contragosto.
- Vamos recolher tudo e abastecer os veículos. Em meia hora quero estar na estrada. – finalizei.
Os demais começaram a se mexer para providenciar as coisas e eu fiquei com ela na sala. Fui até o canto e coloquei minha mochila em um ombro e a dela no outro. Voltei para o sofá, onde a teimosa tentava se levantar. Sem questionar eu agachei e passei um braço por debaixo das pernas dela, pegando-a no colo.
- O que você tá fazendo? Me solta! – ela esperneou o máximo que pode dentro do cansaço de seu corpo.
- Não vou esperar você se arrastar até o jipe. Você vem comigo. – falei prontamente e sorri ao ver o quanto ser carregada a deixava irritada – E a propósito... tenho más notícias quanto sua moto... – completei.
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