Life
45 Capítulo 44
Notas iniciais
Obrigada pelo carinho, gente!!!!
Boa leitura!
Eu dirigia trêmula, ao lado de Marcos e Júnior, com Alex bem nas minhas costas. Seu corpo estava tenso e eu via o reflexo do facão que portava sempre que olhava no retrovisor. O brilho branco de sua íris me fazia olhar constantemente pra trás.
Seguimos pela estrada a toda velocidade, e ainda era meio da madrugada. Se Alex estava em transi era porque ele sabia ou sentia que teríamos problemas. Vi quando Marcos reduziu e emparelhou com o caminhão. Eu desacelerei para fazer o mesmo e ouvir o que Marcos estava dizendo, mas senti o aperto de Alex em minha cintura com a mão livre.
– Ele só está dizendo para seguirem sempre à frente e dobrarem à direita na bifurcação
Ouvi sua voz ligeiramente mais grave em meu ouvido e acenei. Minha nossa, ele conseguia ouvir o que diziam... era mesmo incrível como seus sentidos ficavam apurados durante o transi. Ele ainda conseguia me intrigar e me fazer tremer apenas com sua presença, mesmo naquela situação.
Voltei a acelerar e estava um pouco a frente dos demais. A noite estava quente e o cheiro dos vampiros ainda estava no ar, embora um pouco mais ameno. Eu ainda sentia sua mão em minha cintura e logo ouvi a voz de Alex novamente em meu ouvido:
– Você... está bem?
– S-sim, estou bem. – respondi, olhando-o pelo retrovisor e me perdendo temporariamente em seus olhos brancos.
Seguimos adiante e após a bifurcação encontramos a estrada esburacada e difícil de seguir. Nós não podíamos parar na floresta, pois havia gente ferida e o cheiro de sangue os atrairia. Nossa melhor opção era continuar nos movendo e Marcos disse que, saindo da rota original poderíamos tentar alcançar uma pequena cidade que havia ali perto. Se déssemos sorte, poderíamos chegar lá e usar as dependências fortificadas do banco central para tentar sobreviver durante a noite.
O cheiro de podre ficou mais forte e o caminhão acelerou, agora com mais vantagem que as rápidas motos, mas que eram frágeis diante do mal estado da estrada.
– Droga! – falei enquanto tentava equilibrar a moto para seguir em frente. O cheiro das criaturas ficou ainda pior.
– LÁ! – ouvi Marcos gritar um pouco depois, e avistei ao longe o mato alto começar a baixar.
Uma cidadezinha podia ser vista e ali certamente poderíamos tentar achar um lugar seguro. Não deu tempo. Vi vultos saírem da floresta escura e virem até nós. Os soldados no caminhão à frente abriram fogo e ouvi gritos vindos de lá. Atrás de mim, Junior atirava nas criaturas enquanto Marcos tentava seguir adiante. Atrás de mim, Alex ficou inquieto.
Parei a moto de repente, sabia que ele queria ir lá e lutar, mas que estava se segurando para manter-se perto de mim.
– VAI! – gritei, e logo um vampiro se aproximou pelo lado.
Só vi o sangue do vampiro jorrar quando Alex o cortou profundamente ao saltar da moto, depois disso tentei seguir adiante. Eu esperava que ficasse bem.
Adentramos a cidade e os tiros do caminhão eram meu escudo. Atrás de nós, alguns vampiros tentavam nos alcançar, mas eram incomodados com a luz em cima deles e parados pela chuva de projéteis.
Ouvi o caminhão frear forte e repentinamente, cantando pneus e antes que pudesse ver algo mais, senti o baque em meu corpo.
Voei alguns metros e rolei no chão, atracada ao corpo que me agarrava, sentindo a dor do impacto. Tudo foi rápido demais e quando dei por mim, Alex estava de pé na minha frente, matando dois vampiros que pularam em minha direção. Ele havia me salvado de um ataque.
Ouvi mais gritos vindos do caminhão e olhei para seus olhos brancos em agradecimento antes de levantar. Preparei a pistola, atirando para todos os lados enquanto corria para ajudar meus companheiros. Eles pulavam do caminhão e corriam na direção de um grande prédio abandonado com o letreiro caído. Era o banco central.
Atirei contra os malditos que não paravam de chegar e o grupo desordenado entrou no prédio escuro.
– GRANADA! ABAIXEM!
A voz de um soldado foi ouvida momentos antes de uma explosão nos fazer ir ao chão. O cheiro de carne queimada era insuportável e senti gotas de sangue gelado respingarem em mim.
– VAMOS! VAMOS! PRA BAIXO, VAMOS PARA O COFRE! – um dos soldados tentava guiar o grupo.
Na correria, consegui ver Lisa agarrada ao pai e outra pessoa e eles seguiam na frente com Dornelles e os outros. Olhei pra trás, na tentativa de procurar Alex, mas senti alguém em puxando.
– VAMOS!
Era Júnior que me puxava e os demais já desciam as escadas em direção ao subsolo.
– NÃO POSSO! NÃO POSSO DEIXAR ALEX SOZINHO! – gritei e tentei me desvencilhar das mãos que me levavam pro ado oposto onde queria ir.
Consegui olhar para a entrada do banco e vi a luta dele se desenrolar. Precisava ajuda-lo.
Júnior veio em meu encalço e eu comecei a atirar nos malditos que saíam de cima de Alex e voltavam-se pra nós. Júnior também atirou e logo vi Marcos nos ajudar. Eu esperava que os demais tivessem conseguido achar abrigo, pois a coisa estava feia pra nós.
Marcos me empurrou pro lado e caímos no chão. Um vampiro passou bem rente a minha cabeça. Atirei no desgraçado até acabar minhas balas.
– VAMOS! VAMOS! –ouvi Júnior dizer.
Corremos, aproveitando que os vampiros estavam muito debilitados, mas ouvíamos lá fora, mas estavam chegando. Vimos um grupo de malditos bloquear as escadas e corremos para o outro lado, para uma saída de emergência.
– Alex! – gritei antes de passar pela porta.
O lado de fora estava um caos. A luz do holofote ainda ligado do caminhão estava iluminando a pilha de corpos que ainda se debatiam, mesmo dilacerados. Corremos os três para longe do banco e por entre as ruínas da cidade.
– Preciso de munição! – falei sem fôlego quando dobramos uma esquina e nos apoiamos no muro.
Marcos me passou um cartuxo que tirou de um dos bolsos e eu voltei a encher minha arma.
– Isso é loucura! Nós vamos morrer aqui! Precisamos voltar pro banco, eles devem ter conseguido entrar no cofre, lá é seguro. – Júnior falava, também recobrando o fôlego.
– É? E você queria que deixássemos Alex sozinho do lado de fora? – Marcos perguntou, apoiando uma das mãos sobre o joelho.
Júnior encarou o soldado e não falou nada. Nessa hora ouvimos grunhidos e urros mais próximos, nós precisávamos achar um lugar.
– O banco está cheio de vampiros... temos que achar outro lugar! – eu falei enquanto olhava de esguelha pela esquina e via Alex vindo correndo com sua velocidade sobre-humana.
– Temos que sair. – ele disse em sua voz grave assim que nos alcançou e seus olhos me avaliavam.
– Eles... eles conseguiram entrar no cofre? – perguntei a ele.
– Sim. – Alex respondeu, encarando Júnior fixamente.
– temos que ir antes que eu volte pra lá. – ele falou robótico, como se estivesse fazendo um grande esforço para estar ali.
– Vamos! – Marcos falou.
Eles correram e eu segurei a mão livre de Alex, que me olhou um pouco... surpreso.
– Eu te amo. – falei pra ele antes de soltar sua mão e começar a correr atrás de Júnior e Marcos.
Corremos por entre os prédios, lojas e construções abandonadas e eu torcia internamente para que Alex continuasse conosco.
– ALI! – Marcos gritou e vimos a porta escancarada de um prédio relativamente alto.
– Podemos subir até o terraço e nos trancar. Esses lugares possuem portas anti-incêndio nas escadas, são resistentes... eles só poderiam nos alcançar escalando por fora e assim fica mais fácil de vê-los e atirar neles. – Marcos falou.
Foi inteligente a estratégia de Marcos e, sinceramente, mesmo que não fosse, teria que servir, pois era a única que tínhamos. Olhei para Alex, que ainda parecia muito tenso com os grunhidos e o cheiro que empesteava a cidade. Sem esperar mais, seguimos para dentro do prédio escuro e abandonado. As luzes das lanternas acopladas às potentes armas dos soldados iluminavam as escadas enquanto subíamos.
Tanto no térreo quanto no terraço, havia portas duplas contra incêndio, resistentes ao fogo e às garras dos malditos, pelo menos por tempo suficiente até o nascer do sol. Chegamos ao telhado do prédio e eu julguei que estivéssemos seguros ali. O prédio tinha seis andares, mais o terraço, o que nos permitiria ter uma vista incrível da cidade, se pudéssemos ver muita coisa.
A luz da lua nos deixava ver o suficiente e, há alguns quarteirões de distância, o caminhão e o holofote iluminavam o bando de vampiros que rodeava o banco. Alguns outros se espalhavam, provavelmente sentindo o cheiro de sangue que trazíamos nas roupas.
– OK, cada um de nós pode vigiar um lado do prédio e Alex podia ficar com esse, já que é o mais exposto. – Marcos falou empolgado.
Sua empolgação durou apenas o tempo dele olhar pro amigo e lembrar que não era o Alex de sempre. Os olhos brancos os fitavam fixamente e vi que Marcos ficou com um pouco de medo.
– Alex? Você concorda? – perguntei com a voz controlada, me aproximando dele.
Ele ainda encarou Marcos por um longo tempo em silêncio antes de assentir com a cabeça.
Nos separamos e ficamos vigiando as paredes do prédio que era nosso refúgio. Olhei meu relógio, eram 03:48h da manhã, ainda faltavam algumas horas pro nascer do sol. Ficamos muito tempo em silêncio, sem ter nenhum tipo de problema grave. Alex estava com um pé no parapeito, o facão na mão, observando tudo lá embaixo. Eu sabia que estava se segurando muito para não saltar dali e exterminar os monstros, mas sabia também que grande parte de seu controle era por minha causa, porque ele não queria se afastar de mim. Isso me deixava feliz e me fazia sentir segura e amada, coisa com as quais eu ainda não estava acostumada. De vez em quando eu via seus olhares, cintilantes na noite escura, em minha direção.
Alguns vampiros chegaram a tentar escalar o prédio, mas eram facilmente alvejados por nós. Muitos deles brigavam entre si e eu sabia que estávamos com muita sorte, pois o número de malditos não era muito grande quanto poderia ser.
Eu sentia o corpo cansado, finalmente começando a esfriar depois de toda aquela tensão. Fiquei pensando em Lisa e Dornelles e nos outros que estavam feridos e trancados no cofre do banco. Esperava que estivessem bem. Queria que, no desespero, tivéssemos todos vindo pra cá, mas não tivemos tempo pra pensar.
O relógio apitou 05:30h e a maioria das criaturas estava voltando para o interior da mata, voltando para um lugar seguro para passar o dia. Minha vontade era segui-los, achar onde se escondiam e tacar uma bomba pra explodir um monte daquelas malditas criaturas, mas não podíamos nos arriscar.
O céu começava clarear, aos poucos, e eu finalmente me deixei sentar no parapeito, sentindo o alívio do dia chegar. Marcos se juntou a mim e sentou no chão, deixando a arma cair ao seu lado. Ele tinha o olho inchado, e arranhões no braço. Júnior também não estava muito melhor, estava mancando levemente e me fitou de longe, com um olhar cansado. Eu estava com dor no corpo, ainda sentindo os efeitos de ter sido jogada da moto e de toda a correria. Alex era o único inteiro. Apesar de ter uma ferida horrível no braço quando chegamos até aqui, seu membro já estava quase que totalmente recuperado.
Eu o encarei e minha mente tentava entender como eram possíveis suas habilidades quando o sol começou a nascer, na direção em que ele estava. A imagem que vi foi magnífica: seu corpo ereto encarando o horizonte e os raios dourados iluminando a face com expressão dura. Quando ele se virou vi os olhos bancos brilharem como nunca à luz do sol.
Alex caminhou em minha direção e vi os olhos brancos perderem seu brilho incomum e assumirem o colorido que eu tanto amava. Mas antes que sua figura me prendesse, outra coisa chamou minha atenção. Ao longe, lá embaixo, após o banco, após as casas e lojas, fora da cidade, havia um reflexo no chão. Desviei de Alex, vidrada na imagem que via lá embaixo.
Era além da cidade, um pouco pra dentro do mato, mas não muito. Havia uma espécie de clareira e o brilho estranho que me chamava.
– Manuella? – a voz normal de Alex soou em meu ouvido.
Segui adiante e perguntei:
–O que é aquilo?
– Eu não sei... parece o sol refletindo em alguma coisa na mato.
Senti o peito esquentar, e vi em minha mente a imagem daquela criatura em meus sonhos... eu precisava ir até aquele lugar de qualquer maneira...
Saímos do prédio e fomos até o banco. No chão, havia muito pó cinza espalhado; restos dos corpos dos malditos que foram fritos pelo sol. Quando chegamos ao cofre, encontramos os outros desolados. Cristina, uma das pesquisadoras de nosso grupo, não resistiu aos ferimentos, e dois dos soldados tinham ficado pelo caminho.
– Como conseguiram sair do cofre? – perguntei a Dornelles assim que estávamos todos do lado de fora, verificando o que tinha sido perdido e o que tínhamos.
– Com o sistema de segurança desligado, a porta não trancava. Nossa sorte foi que ela abre pra fora. Quando entramos, fechamos a porta e todos ficaram puxando pelas alças de metal, mas quando os malditos chegaram, estavam tão vidrados em entrar que aranhavam e tentavam empurrá-la... graças a Deus nenhum deles tentou puxar... eles não tem essa capacidade de raciocínio.
Eu o encarei e rapidamente ele acrescentou:
–Bom... pelo menos não a maioria.
Depois disso, nós enterramos o corpo de Cristina e foi um momento difícil. Devido à fragilidade do grupo, decidimos ficar até a hora do almoço, pois todos precisavam dormir e descansar um pouco. Por volta das dez, Dornelles, Alex e outros soldados estavam reunidos retraçando a rota, enquanto os outros descansavam.
Eu estava bebendo água e aproveitei para lavar o rosto quando decidi que aproveitaria o tempo para checar aquele lugar estranho, já que a adrenalina e a tristeza estavam maiores do que o cansaço. Por mais que eu insistisse em ir sozinha, não consegui me desvencilhar de Alex, Marcos, Dornelles e Júnior, que insistiram ainda mais em ir comigo, mesmo sem entender minha necessidade bizarra em ir até lá.
Caminhamos por cerca de vinte minutos após sair da cidade e segui em direção ao sol, seguindo exatamente a leste. Vi as árvores se espaçarem, abrindo a pequena clareira na floresta. Assim que chegamos lá, não pude acreditar na visão que tive.
– Nossa! – Marcos falou ao meu lado.
Havia um planalto no mato, uma pequena elevação no terreno da floresta e uma pedra gigante, sobre a qual escorria um filete sereno de água cristalina. A água escorria da pedra e descia, preenchendo o pequeno planalto, formando um mini lago ali em cima. Não era profundo, pois havia apenas dois dedos de profundidade, mas era suficiente para formar um lindo espelho natural. Ele refletia o céu, e também refletia o sol. Do ângulo em que estávamos dava a impressão que o sol estava brincado de se esconder nas nuvens, tudo dentro do pequeno espaço espelhado e perfeito.
“No caminho para a cura, onde o sol se esconde no céu, está a libertação.”
Repeti as palavras que a criatura me disse, em meus sonhos, dentro daquele provador. Eles me encararam sem entender e eu segui em frente, aproximando-me do espelho d’água. Dei a volta por trás, escalando algumas pedras, ao lado da pedra principal e olhei meu reflexo na fina camada espelhada. Vi um pequeno brilho embaixo da água e estiquei a mão. Senti meus dedos alcançarem um delicado objeto de metal. Era morno.
– O que tem aí? O que você está vendo? — Alex perguntou.
Levantei o pequeno objeto, que cabia na palma da mão. Era como um pingente, um pingente de ouro com um formato diferente. Parecia uma pequena espada, mas havia algo rodeando a empunhadeira... pereciam asas...
Nessa hora senti um formigamento na mão e o pequeno metal esquentou rapidamente, me fazendo soltar o objeto no chão. Aí, o incrível aconteceu. Ao invés de cair no chão, o pequeno pingente ficou flutuando no ar, pairando sozinho bem diante de nossos olhos, contrariando todas as leis da física conhecidas.
– Meu Deus! – Dornelles exclamou.
– Que merda é essa?! – Marcos falou, boquiaberto. As palavras ficaram presas em minha garganta.
Alex rapidamente se pôs diante de mim e todos nós vimos como o objeto de repente começou e clarear. O dourado foi clareando cada vez mais, enquanto flutuava no ar, no meio de nós. Foi ficando amarelo claríssimo, branco e depois começou a brilhar. A luz que o objeto misterioso emitia era forte, muito forte e emanava um calor incrível.
Todos nós estávamos vidrados no que estava acontecendo e senti Alex ficar rígido em minha frente. De repente, ele deu um passo a frente e esticou o braço.
– Alex? – falei assustada com sua atitude. Não era seguro pegar naquele troço que brilhava e flutuava no ar, acima de qualquer compreensão.
Ele prosseguiu e quando tocou o objeto uma luz muito forte emanou dele e foi tão forte que me fez fechar os olhos. Dei alguns passos pra trás, sentindo um poder invisível me empurrar. Lentamente, tudo voltou ao normal. Meus olhos não percebiam mais a claridade exacerbada, nem o campo de força que me repelia.
Abri os olhos lentamente e vi os outros agachados ou cobrindo os olhos com os braços, assim como eu. Bem no meio de nós estava Alex e o objeto misterioso havia sumido.
Eu estava ofegante, meu coração batia forte no peito. Dei um passo a frente e vi que Dornelles e Marcos encaravam a face de Alex com espanto. Ele estava de costas pra mim e toquei seu ombro gentilmente, sentindo minha mão tremer.
Ele se virou lentamente e vi os olhos brancos brilhantes me encarando. Estava tão brilhante que parecia emitir luz própria era impressionantemente lindo e surreal.
– Alex? – perguntei com um fio de voz.
– Eu sou Raphael. – ele respondeu, com a voz levemente grave enquanto olhava fixamente em meus olhos.
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